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Zen

Zen consumista ou zen shūgyō? – 4ª parte

(continuação da 3ª parte)

Recentemente li um texto (em inglês) bastante interessante com o título “Cafeteria Buddhism” e percebi na hora o termo exato que vinha procurando desde que comecei esta série: Zen-por-quilo.

Quando eu estava crescendo nos EUA, havia um restaurante no estilo “cafeteria americana” em que, num balcão, viam-se pratos com uma porção desta ou daquela comida. A gente passava pelo balcão com uma bandeja e pegava os pratos que queria – já com a porção predeterminada. Hoje em dia, o sistema passou a ser “por quilo”, e agora escolhemos não somente a comida que vamos comer, mas, também escolhemos a quantidade de cada alimento. Posso encher o prato com as comidas de que eu mais gosto, pegar uma quantidade “simbólica” daquelas de que não gosto, mas “deveria” comer, e simplesmente evito aquelas de que eu não gosto e que não estão na lista de “deveria”…

Quando olhamos bem de perto, quanto da nossa prática também está sendo “por quilo”? Conheço alunos que insistentemente cheguem para a prática na hora do chá – o zazen já terminou. O zazen ainda está difícil para eles – doí confrontar-se consigo mesmo -, mas, acham gostoso tomar chá com o grupo… Outros se atrasam aos domingos e perdem a prática de cerimonial, mas não perdem o zazen. Ainda outros fazem a prática de cerimonial, mas precisam voltar para casa – e perdem o zazen e o chá… Tem uns que gostam da prática de domingo (cerimonial, zazen e chá), mas, não gostam de estudo. Consequentemente, nunca “têm tempo” para vir no dia de palestra ou curso.

Quando olhamos bem de perto, quanto da nossa prática também está sendo ‘por quilo’?

Agora, muitos grupos também mantêm uma prática de zen-por-quilo. Gostam de recitar o Sutra do Coração, mas, não querem saber dos outros sutras. Querem ler os textos poéticos do Mestre Dōgen, mas, não os textos de base. Nos Estados Unidos diria que, infelizmente, tem havido um certo número de grupos que não querem se preocupar muito com os preceitos – seus líderes foram acusados de abuso sexual e a comunidade tolera ou mesmo nega os fatos, até mesmo desqualificando as vítimas.

Zen-por-quilo: pego o que gosto e deixo o resto. A parte que me é inconveniente, a deixo de lado.

Zen-shûgyô: vamos praticar como um “gourmet” e apreciar todos os “pratos”?

Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Organização: Rodrigo Daien


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Um comentário

  • Joao Bissoto

    Esse processo não é exclusividade do budismo. É um acontecimento global. Simples e importante exemplo por sua grandeza numérica no nosso país é o esvaziamento das Igrejas sem redução do número dos que se dizem católicos. Bem, como estudioso de religiões comparadas e místico rosacruz não sigo a ritualística de nenhuma religião por completo, leio de tudo e já pratiquei profundamente algumas, o budismo dentro elas. Vejo, porém, assim como Jung escreveu, a necessidade de se seguir uma tradição, no meu caso a rosacruz. Ele argumenta com a psicologia, o inconsciente coletivo, eu argumento com o conceito de Egrégora. Portanto, concordo com seu texto, no sentido de que cada um deve seguir uma tradição, mas isso não deve me impedir de buscar complementos em outras. Assim como ainda estudo os textos budistas e taoístas, mesmo que minha prática não seja mais dessas religiões. Grato pelo seus textos!

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