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Sobre Budismo : Budismo, meditação, sabedoria e compaixão para o cotidiano

Paixão Livre versus Paixão Neurótica


By Jigme Wangchuck (Leonardo Ota)

Texto extraído de “O Mito da Liberdade e o Caminho da Meditação” Chögyam Trungpa Rinpoche

Há um enorme armazenamento de energia que não é centralizada e que, de modo algum, pertence ao ego. É essa a energia que é a dança descentralizada dos fenômenos, o Universo interpenetrando-se, fazendo amor consigo mesmo.Ele contém duas características: a qualidade da cordialidade e a tendência de fluir dentro de um padrão determinado, do mesmo modo como o fogo contém a centelha e o ar que conduz a centelha. E essa energia está sempre em movimento, sendo ou não percebida através do filtro confuso do ego. Ela não pode ser destruída ou interrompida de maneira alguma. É como o Sol eternamente incandescente. Ela consome tudo até não haver nenhum espaço para dúvida ou manipulação.

Todavia, quando esse calor é filtrado através do ego, ele torna-se estagnado, pois ignoramos o seu fundamento básico, nos recusamos a ver o espaço amplo onde tal energia ocorre. Por isso, essa energia não pode fluir livremente no espaço aberto compartilhado com o objeto de paixão. Em vez disso, ela é solidificada, restrita e dirigida pelo comando central do ego para o exterior, a fim de puxar o objeto de paixão para dentro de seu território. Essa energia aprisionada estende-se até o seu objeto e depois retorna a fim de ser reprogramada. Alongamos nossos tentáculos e tentamos fixar nosso relacionamento. Essa tentativa de agarrar a situação torna o processo de comunicação superficial. Apenas tocamos a superfície da outra pessoa e ficamos emperrados aí, jamais vivenciamos todo o seu ser. Estamos cegos devido ao nosso apego. O objeto de paixão, em vez de ser banhado pela cordialidade intensa da paixão livre, sente-se oprimido pelo calor sufocante da paixão neurótica.

A paixão livre é radiação sem um radiador, é uma cordialidade fluida e penetrante que avança sem esforço. Não é destrutiva porque é um estado equilibrado de ser e altamente inteligente. A autoconsciência inibe essa inteligente e equilibrado estado de ser. Se nos abrirmos, se abandonarmos essa ganância autoconsciente, veremos não só a superfície de um objeto, mas também todos os seus aspectos interiores. Não o apreciaremos apenas por suas qualidades sensacionais, mas o veremos em termos de qualidades totais, que são ouro puro. Não somos engolfados pela exterioridade, mas ver o exterior nos impura simultaneamente para o interior. Dessa forma, atingimos o âmago da situação, e, se ela é o encontro de duas pessoas, o relacionamento é muito estimulante, pois não vemos o outro simplesmente em termos de atração física ou de padrões habituais: nós vemos tanto seu exterior como seu interior.

Quando houver abertura fundamental num relacionamento afetivo, a fidelidade no sentido da verdadeira confiança ocorre espontaneamente; é uma situação natural. Porque a comunicação é muito real, muito bela e fluente, não poderemos nos relacionar de igual modo com outra pessoa. Portanto, em tal relacionamento somos atraídos mutuamente de forma automática. Mas, se surgir qualquer dúvida, se começarmos a nos sentir ameaçados por alguma possibilidade abstrata, embora nesse momento nossa comunicação esteja seguindo maravilhosamente, então já estaremos espalhando sementes de paranoia e encarando a comunicação simplesmente como um entretenimento do ego.





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