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Zen

Os dez passos em busca do Boi – parte IV

(continuação da parte III)

*O oitavo passo tem como símbolo o círculo vazio. Nem boi, nem homem. No estágio anterior, perdeu-se o boi. Restou o homem, e você pode ter pensado que tudo terminou. Porém, agora aparece outro estágio no qual tanto o boi, como o homem, são esquecidos. Aqui temos um verso zen: “De noite engalfinharam-se dois touros de barro, desaparecendo no mar enquanto lutavam, e esta manhã, nada se ouve deles”.

No momento em que o ego aparece, surgem as circunstâncias. Quando o ego se esfuma, se esfumam as circunstâncias. A subjetividade e a objetividade se acompanham mutuamente. Vamos contar a história de uma deidade guardiã que desejava ver Tozan Oshō, mas não conseguia. Ela colheu uma porção de cevada e arroz na cozinha e a espalhou no pátio. Tozan, ao ver os grãos disse: “Quem poderia ser tão negligente?”. Naquele momento a deidade pôde ver Tozan, pois ela só vê egos. Na mente de Tozan manifestou-se uma pressão interna, como uma nuvenzinha num céu de verão. Veio e dissipou-se, deslumbrante, na brilhante serenidade do meio-dia, e logo tudo voltou a acalmar-se novamente. Essa história tenta nos mostrar que Tozan, tendo se iluminado, não era movido pelos pensamentos, sendo, dessa maneira, invisível a deidades. Então a deidade resolve espalhar cevada no chão e desperta aquele pensamento na mente de Tozan: “Que monge seria tão descuidado, quem foi tão negligente?”. E com essa leve indignação ele tornou-se visível. “Tornou-se visível” é uma metáfora para a presença de um eu, mas, logo a seguir ele desapareceu de novo para deidades. Esse estágio corresponde ao dito do Mestre Rinzai: “Tanto homem, como circunstâncias, estão desaparecidos”.

Sekida diz que “podemos distinguir arbitrariamente um número de graus de consciência. Nível A: o mais elevado, em que os pensamentos e as ideias vão e vem. Nível B: um grau que compreende, mas que não forma ideias. Nível C: um grau que é só consciente. Nível D: um grau que simplesmente reflete os objetos internos e externos como faz um espelho”. Quando ele diz “o mais elevado”, ele se refere ao mais elevado nível de consciência existente, portanto, não quer dizer o melhor, mas sim, o pior, o grau em que a consciência está mais presente, aquele em que as ideias vão e vem. À medida que diminui a consciência, sobe o nível, logo, um nível mais baixo de consciência é mais elevado em realização. O segundo é um grau que compreende, mas não forma ideias; o terceiro grau é só consciência que simplesmente reflete os objetos internos e externos, como faz um espelho. Neste estado aparecerão, em algumas ocasiões, rastros de ação reflexiva da consciência que iluminarão momentaneamente o cenário da mente constante. Nível E: o grau mais profundo, em que não penetra nem a mais tênue ação reflexiva da consciência. Aqui se manifestam certos vestígios de nosso estado de ânimo, é uma espécie de memória do tempo de nossa vida e de nossos antepassados que quer subir à superfície da consciência para expressar-se. Mesmo que a entrada não lhe seja permitida, não deixa de afetar, mesmo que de maneira remota, mas importante, a corrente de atividades da consciência que está em mudança, afetada pelos pensamentos, “nen” (impulso que precede o pensamento), que aparecem a cada momento.

No samādhi absoluto a atividade cerebral fica reduzida ao mínimo, limpando-se a fundo à procura da antiga memória. Varre-se o modo habitual da consciência, desaparece o reflexor e o refletido, um mundo de profundas nuances. Esse estágio é chamado de samādhi sem pensamentos, que é idêntico ao samādhi absoluto. É o estado em que podemos dizer “nem bois, nem homens”. O que importa para nós é o que queremos guardar da memória. Trata-se de algo tremendamente perturbador para o samādhi, porque ele retorna, e todas as vezes que isso acontece, o samādhi está anulado. Nós praticamos zazen para treinar o samādhi, a concentração, o momento presente. Todas as instruções iniciais podem ser reduzidas a uma única: “Fique no momento presente”. Não quer dizer realmente não pensar, mas é uma forma muito sutil de pensamento, que é mera percepção das coisas em volta. É a sensação de “estou aqui nessa sala, ouço esse som, percebo”. Há percepção, mas não há julgamento, considerações, estimativas, planejamentos, intenções. Há só o treinar o samādhi. “Estou em samādhi, plenamente presente.” Aí surgem memórias e quando elas surgem, elas nos tiram do samādhi. Os pensamentos surgem sucessivamente um após outro; não existem dois pensamentos simultâneos, não existe um pensamento sempre presente. O que acontece é que um pensamento expulsa o precedente, normalmente de forma encadeada, como um link num texto do computador. Você clica, acessa aquele substrato da memória, acessa aquele arquivo. É como na tela do computador, você não vê duas imagens ao mesmo tempo, sempre que surge uma imagem ela expulsa a anterior. Pode até haver um alerta avisando que você tem um arquivo, mas você precisa clicar nele para abrir; sempre um arquivo expulsa o outro. Na tela da nossa consciência, só surge uma coisa de cada vez, e normalmente elas chamam outras e nós ficamos fazendo essa sucessão de pensamentos.

Essa é a atividade mais baixa, é o nível de realização mais baixo, ou seja, realização zero. É uma mente que vive de encadeamentos de pensamentos ou presa à memória e às emoções, sempre invasivas. Significa controle zero do boi, pois ele vai para onde quer. (continua)

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

*Estudo sobre um texto muito famoso do zen e também os comentários feitos a respeito por Katsuki Sekida, em seu livro “Zen Training – Methods and Philosophy”, Weatherhill – Shambhala Publications, Inc.

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Organização: Rodrigo Daien


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