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Zen

Os dez passos em busca do Boi – Final

(continuação da parte IV)

O antigo modo habitual de consciência caiu e você voltou para a Terra Pura.

*No nono estágio, “Voltando à fonte”, basta que surja alguém da (8ª) condição “Nem boi, nem homem” para saber que ele voltou simplesmente à fonte. Num simples estalo a pessoa já se encontra no cálido e brilhante sol da primavera com as rosas que florescem, os pássaros cantando e a gente cochilando sobre a relva. Se alguém se fixar bem na cena, perceberá que é o mesmo mundo velho que viu ontem. As ladeiras cobertas de cerejeiras em flor, os vales invadidos pelas flores da primavera, mas cada flor tem seu próprio rosto e fala com você. As coisas que ele vê, os sons que ouve, são todos budas. O antigo modo habitual de consciência caiu e você voltou para a Terra Pura.

Antes de alcançar esse estágio ele teve de passar pelo “Nem boi, nem homem”. Primeiro penetrou o interior de si mesmo. Uma a uma, foram se descascando as camadas da cebola até ficar reduzida a nada. Isso é o samādhi absoluto. Mas agora você está no samādhi positivo, no qual a consciência está ativa. Nesse estágio de “Voltando à fonte” o que se experimenta é idêntico, em certo modo, ao experimentado no terceiro estágio, “Encontrando o boi”. Porém há toda a diferença do mundo no grau de profundidade.

Tem um ditado zen que diz: “Sempre indo e vindo como um ioiô, do princípio ao fim”. Os logros da pessoa se aprofundam retornando repetidamente ao princípio, ao estado de principiante, e logo traçando novamente o caminho já percorrido.

Deste modo, sua maturidade se torna incomensuravelmente firme. Hakuin Zenji nos diz que “com mais de sessenta anos teve o satori de novo”. Nos comentários de Sekida ele diz que no estado anterior foi realizada uma total e decisiva purificação da consciência e se dragaram os resíduos acumulados ao longo de incontáveis éons. 1

Mas no estado presente de “Voltando à fonte”, a consciência começa a funcionar de novo em um estado mental purificado. É como aplicar um pincel sobre uma folha de papel em branco: cada pincelada se destaca com pleno brilho. Se escutamos música, nos soa como incrivelmente linda. É um estado de samādhi positivo em que o kenshō tornou-se permanente. O que se diz do Tathāgata será certo para você, encontrará o rosto de Buddha para onde quer que dirija seu olhar. Até ontem necessitava de um grande esforço para desenvolver o estado de samādhi absoluto e um controle feroz de toda a atividade da consciência. Agora deixa que ela se abra alegremente em toda sua plenitude. Porque a consciência tornou-se límpida, o kenshō é permanente e a isso chamamos “satori”. Assim, satori é kenshō permanente, tudo o que olhamos é perfeito, tudo o que ouvimos é lindo, não existe mais nem bem nem mal, certo ou errado. Todas essas coisas são tão transitórias que o que parece mau é bom.

No décimo passo, “Na cidade com mãos auxiliadoras”, a figura nos mostra um homem em uma feira, se misturando ao mundo. A imagem mostra um homem gordo, barrigudo, despreocupado, a quem nada importa sua aparência pessoal. Está descalço, peito à mostra, sem se importar de que forma está vestido. Tudo isso simboliza sua nudez mental. Leva uma cesta que contém algo para as pessoas da cidade. Seu único pensamento é levar alegria aos demais. Mas o que ele leva no cesto? Talvez o vinho da vida. Finalmente, segundo Sekida, o mundo do antagonismo se dissolveu, o modo habitual de consciência caiu por completo. Já não leva você o antigo traje de cerimônias, vai descalço com o peito desnudo, tudo é bem-vindo. Pensamentos errantes? Tudo bem, essa é a grande meditação de Buddha e a forma de consciência mais ativa. Goza da perfeita liberdade do samādhi lúdico, positivo. Para nós todos aqui, o mais importante são os passos iniciais. A prática do samādhi, a experiência de kenshō, o futuro satori, para quem chegar lá. Samādhi é com esforço, kenshō acontece, não adianta querer que ele aconteça, ele irá acontecer sozinho.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.


1. “Éon” é uma palavra hindu para designar um tempo muito longo. Um “éon” é como se fosse um dia universal. Um conto antigo diz: “Imaginem a montanha mais alta. De cem em cem anos, um pássaro vem com uma peça de tecido da mais fina seda e a passa no topo do monte. Quando o monte estiver desgastado, um kalpa terá se passado”. Muitos kalpas formam um éon. Voltar

*Estudo sobre um texto muito famoso do zen e também os comentários feitos a respeito por Katsuki Sekida, em seu livro “Zen Training – Methods and Philosophy”, Weatherhill – Shambhala Publications, Inc. Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien


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