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Sobre Budismo : Budismo, meditação, sabedoria e compaixão para o cotidiano

Os 6 ensinamentos mais importantes do Buda


By Jigme Wangchuck (Leonardo Ota)

Na qualidade de pessoas modernas e racionais vivendo na era da ciência, gostamos de pensar que as nossas crenças são embasadas em coisas como experiência, bom julgamento e raciocínio, não em uma fé cega.

Fé cega é algo que pensamos se aplicar apenas a crianças ou a pessoas simples, ingênuas das coisas do mundo, mas se examinamos de forma honesta as nossas presunções comuns, descobrimos que muitas de nossas crenças vêm simplesmente de coisas que nos contaram e que, então, tomamos como certas.

Fé cega significa aceitar sem compreender. Essa fé cega se mostra evidente no conhecimento comum por meio do qual vivemos o dia a dia.

Presumimos que as coisas são como parecem, porque todos dizem que é assim. Desde o momento em que aprendemos a falar, descobrimos que tudo tem um nome e que ele diz o que a coisa é. Não questionamos isso. Também não vemos o poder que esses rótulos têm para moldar o nosso pensamento ou limitar a nossa compreensão. Quando chamamos uma mesa de “mesa”, muitas coisas estão acontecendo.

Sabemos onde sentar para jantar ou onde usar o nosso computador. Ao mesmo tempo, presumimos — sem chegar a duvidar ou entrar em detalhes — que algo chamado “mesa” realmente existe. Dessa forma, nomear e rotular sempre funciona, em vários níveis. Isso nos ajuda a viver uns com os outros no mundo (com certeza, uma vantagem), mas também faz de nosso mundo algo mais pesado e sólido.

Nossa fé cega em nossa realidade mundana não é diferente de uma fé cega religiosa: alguém nos diz que o céu e o inferno existem, e logo colocamos nossas esperanças em um deles e o medo no outro. Mas o que realmente significam “céu” e “inferno”? Onde estarão? Que tipo de atos nos levam a cruzar a linha que os separa? Morrendo com 18 ou com 80 anos, seremos sempre, respectivamente, jovens ou velhos no céu?

O conselho que o Buda nos dá é desafiar a fé cega no exato momento em que ela se manifesta. Ele também aconselha que, para descobrir o que realmente está acontecendo em qualquer nível da realidade, temos de focar a nossa experiência com uma sabedoria discriminativa. É sempre bom lembrar que, em um dado momento, todos acreditavam que a Terra era plana e que o Sol girava a seu redor.

Ironicamente, a ciência moderna se tornou, de certa forma, a nossa religião coletiva. Tendemos a acreditar no que a ciência nos diz sobre a realidade física, sem pensar duas vezes. Por outro lado, quando nos falam sobre a verdadeira natureza da mente, não acreditamos nela com facilidade. Por que é fácil para nós acreditar em buracos negros, algo que não podemos vivenciar diretamente, mas duvidamos do estado desperto de nossa mente?

Se por um lado podemos não ter a oportunidade de verificar pessoalmente a pesquisa dos cientistas, por outro, podemos de fato avaliar os ensinamentos do Buda sobre a mente, em primeira mão. Em algum momento, depois de um período de questionamento, análise e meditação, pode- mos dizer com certeza se esses ensinamentos são ou não verdadeiros, de acordo com nossa experiência.

Um dos ensinamentos mais importantes concedidos pelo Buda é uma afirmação simples e de bom senso, que carrega profundas implicações tanto para a nossa vida em sociedade quanto para a nossa vida espiritual. Os habitantes de um vilarejo questionaram Buda sobre como saber no que acreditar, já que muitos professores e eruditos promulgavam vários sistemas de crença e doutrinas conflitantes entre si.

Assim, Buda aconselhou:

  1. Não acredite em nada apenas porque ouviu.
  2. Não acredite em nada apenas porque foi dito e repetido por muitos.
  3. Não acredite em nada apenas porque está escrito nos livros religiosos.
  4. Não acredite em nada apenas embasado na autoridade de professores e anciões.
  5. Não acredite em tradições apenas porque elas se mantiveram por muitas
    gerações.
  6. Mas, se após a observação e a análise, restar algo que coadune com a razão
    e que leve ao benefício próprio e de outros, então acate e viva de acordo com isso.

O que Buda quer dizer é que precisamos verificar quaisquer apresentações da verdade que se pretendam genuínas.

Devemos questionar o raciocínio e a lógica ali contidos, com o nosso intelecto. Devemos analisar do início ao fim, por dentro e por fora. Se descobrirmos que é bastante razoável, útil e que ajuda não só a nós como aos outros, então podemos aceitá-lo.

O Buda diz: “… então acate e viva de acordo com isso.” Esse ensinamento é importante, porque é possível — de fato, é bem comum — ouvir e até aceitar um ensinamento profundo sobre a compaixão e a vacuidade ou ler uma prova científica sobre o aquecimento global, mas é muito raro viver de acordo com as suas implicações.

De início, ficamos muito entusiasmados, mas depois não damos prosseguimento a esses ensinamentos. Isso ocorre porque não os examinamos de forma a realmente entender o que significam. Enquanto a nossa compreensão é vaga, temos dúvidas. Então, se há alguma sabedoria ali, nunca chega a nos tocar de forma relevante.

O que Buda quis dizer é que a solução para as nossas dúvidas não é adotar a fé cega dos crentes — nem a dos crentes budistas, que talvez seja ainda pior. Pelo contrário, há uma certeza inabalável que só surge de uma confiança completa em nossa compreensão, obtida a duras penas, sobre a natureza das coisas. Confiamos nessa compreensão, porque chegamos a ela investigando por nós mesmos. Dessa perspectiva, podemos dizer que a fé genuína é simplesmente a confiança em nós mesmos, em nossa inteligência e compreensão, confiança que se estende ao caminho que estamos trilhando. Mas precisamos encontrar o nosso próprio caminho: não há caminho “tamanho único”.

Descobrimos o nosso caminho particular através do exame e do questionamento, e com o nosso genuíno coração questionador. Podemos confiar na sabedoria do Buda como exemplo, mas para abarcar a sabedoria dentro de nós mesmos, precisamos confiar em nossa mente de buda rebelde.

Texto do livro Buda Rebelde por Dzogchen Ponlop.

 

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