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  • Zen

    Um bom futuro

    A percepção do mundo à nossa volta se dá conforme o ambiente se apresenta e a nossa mente condicionada capta o que ela própria interpreta como realidade.

    E ainda valorizamos um certo grau de previsibilidade, esquecendo que tudo é impermanente. Tudo muda o tempo todo.

    Esperar que algo aconteça acaba sendo ilusão, retrato do nosso apego. Como então se privar deste tipo de pensamento que urge em nos enraizar, nos agarrar ao ego de novo e de novo?

    Em seu livro “Criar a Verdadeira Paz – Como acabar com a violência em si próprio e no mundo”, o poeta e monge zen Thich Nhat Hanh retrata essa condição humana de desejo de controle diante o amanhã.

    “O futuro é composto de uma única substância e essa [substância] é o momento presente. Ao cuidar do presente, você está fazendo tudo o que pode para assegurar um bom futuro”, diz o mestre vietnamita.

    No final, a fórmula primordial é não haver fórmula. Tudo é o agora o tempo todo.


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  • Zen

    O que somos e para onde vamos?

    Enxergar nossa verdadeira natureza é enxergar a argila que está por trás de nós. Essa não tem identidade e pode manifestar tudo e em tudo se transformar.

    Em minha família, todos que ficaram mais velhos tiveram doença de Alzheimer. Isso nos leva a uma questão interessante: “O que é que nós somos?”. E o que seremos depois? Alguém me perguntou em uma entrevista: “E depois da morte, acaba tudo?”. E minha resposta foi que, dada a maneira como nosso universo funciona, é impossível que alguma coisa acabe.

    A primeira lei da termodinâmica é a lei da conservação de energia, ou seja, a energia é constante e só pode ser transformada. A energia pode ser condensada, por exemplo, condensada e transformada em matéria. Matéria, portanto, é energia condensada. Nós somos energia condensada, mas em permanente transformação.

    Em outra palestra usei o exemplo do riacho. Sempre que olhamos para o riacho ele parece ser o mesmo, mas todos sabemos que não é o mesmo. A cada segundo uma nova água se apresenta e passado suficiente tempo, os riachos cavam buracos e mudam de curso. Assim é com todo o universo, em constante transformação.

    A vida está sempre mudando, sempre se transformando. Poucos minutos atrás estava chovendo, depois abriu o sol, depois chuva e sol e agora somente sol. Todo o tempo é assim, nada é estável, tudo é impermanente e está em constante mudança. Existem duas situações que o Budismo não aceita: uma é o “niilismo”, condição em que nada existe. A outra é o “eternalismo”, ou seja, as coisas continuam para sempre e imutáveis. O mundo não é assim.

    É absurdo para o Budismo o termo “alma eterna”, um “eu” que continua para sempre, por toda a eternidade. A vida eterna é um desejo antigo do ser humano, já existiram inclusive expedições em busca da fonte da juventude. A ideia é adquirir uma substância que forneça a juventude e, com isso, a vida eterna, sem doenças e mortes. Muitas religiões criaram o conceito de um “eu” eterno, uma alma que nunca morre, que acumula experiências e se lembra de tudo. Eu não consigo imaginar um castigo mais terrível, continuar preso a esse “eu” com essas exatas memórias, sem poder apagar e me livrar de coisas erradas do passado. Penso que não seria uma boa ideia.

    Para o Budismo, todas as coisas são impermanentes e cíclicas. Da mesma forma, para o Budismo uma coisa não pode desaparecer, só existe continuidade. A partir desse raciocínio, só podemos pensar que nós somos continuidade de algo ou alguém, porque não há consequências sem causas.

    Esse copo, por exemplo, que aqui está, não veio sozinho, alguém o trouxe da cozinha. Para chegar até a cozinha foi preciso alguém levá-lo até lá, foi preciso alguém comprá-lo e outro alguém fabricá-lo. Podemos ir recuando e sempre encontraremos uma causa para um acontecimento. Mesmo que eu chegue até ao Big Bang da física moderna, ainda poderei fazer o seguinte questionamento: “Mas e antes do Big Bang?”. O tempo não existia, poderia ser a resposta. Pode ser que outro universo de alguma forma tenha condensado energia e dado origem ao Big Bang, não sei. Mas a essência do que estamos falando é que, se é lógico que somos continuidade, senão não estaríamos aqui, também é lógico que existirá uma continuidade de nós mesmos. Mas o Budismo declara que este “eu” que acredito ser minha identidade é temporário, pois ele depende de determinados agregados que são temporários, por exemplo, a memória. Só com memória posso saber quem eu sou, somente com memória pode-se sustentar um “eu” continuado.

    Pois bem, se a memória não sobrevive a uma doença como Alzheimer, como sobreviveria ao evento da morte? Sabemos, portanto, que nosso “eu” é temporário, mas que nossa continuidade é certa, assim como a continuidade do riacho. Mesmo que mude a água, o riacho continua. Seria muito tolo perguntarmos para uma nuvem: “Você irá morrer?”. A resposta da nuvem com certeza seria: “Não, eu me transformo em chuva”. Mas, e a chuva, ela morreria quando chegasse à terra? Não, ela se transforma em riacho. O riacho se transforma em rio e o rio em mar e, eventualmente, a água novamente evapora. Novamente teremos uma nuvem. É a mesma nuvem? Não. Mas é a mesma nuvem, a mesma água.

    Existe outro símile usado por Hakuin, grande mestre Zen da Escola Rinzai, que diz: “Com argila nós fazemos telhas, incensários, Budas e castiçais. Sou capaz de dizer que essas peças são minhas, mas não digo que essa é minha argila, no entanto, a argila está por trás de tudo”. Ela, a argila, só foi transformada em objetos, mas ainda é argila. Nós que atribuímos identidades ao incensário, ao castiçal e à telha, lhes dando nomes, funções e funcionamento.

    Enxergar nossa verdadeira natureza é enxergar a argila que está por trás de nós. Essa não tem identidade e pode manifestar tudo e em tudo se transformar.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

    Nota do organizador: Com este artigo encerramos nossa participação na seção Zen do site Sobre Budismo. Agradecemos ao Leo pelo convite para cuidar da seção ao longo deste ano, agradecemos imensamente à Isshin-sensei e ao Genshō-sensei, por aceitarem nosso convite para divulgarem aqui seus ensinamentos e reflexões, e a todos aqueles que acompanharam as publicações semanalmente e as replicaram em suas páginas na WEB! Nossos melhores desejos a todos! Gasshō.


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  • Zen

    Surfar as ondas da vida

    Como sofremos de medo de nos entregar, de nos deixar ser levados pela grande corrente da vida!

    Recentemente, em São Paulo para um retiro, a minha anfitriã me levou para o litoral para a minha segunda aula de surfe. Imagine, eu com os meus “vinte-e-tantos-bem-passados” anos de idade e falta de coordenação quase total, numa aula de surfe! Que divertido! Que lição de Zen!

    Quase sem onda, mesmo assim, na primeira aula, consegui ficar em pé na prancha justamente o tempo suficiente para uma foto (meio segundo? um segundo?). A fotógrafa (a minha amiga) foi bem habilidosa… E como me diverti!

    É uma maravilha sentir a força da água, a corrente levando a gente. É uma grande aprendizagem perceber a resistência no corpo, o medo de entregar-se – de deixar ser levada. No começo, agarrava a prancha com força total… Mas que maravilha a sensação de liberdade, ao relaxar o corpo e começar a tornar-me una com a prancha e a água! E como é forte a descoberta de que, soltando o corpo, entregando-se à prancha (e à água), a gente passa a ter maior estabilidade. Com maior estabilidade (o corpo solto e entregue), descobri que tinha mais espaço até para manobrar a prancha, exercendo o meu “livre arbítrio”, dentro da minha limitadíssima capacidade!

    Descobri que não precisava ter medo de cair na água, que a água me acolhia até com certa suavidade quando tombava da prancha, ou seja, toda vez que tentava ficar em pé nela… Também ficou clara a necessidade de manter a plena atenção, pois era necessário cuidar para não cair de cabeça e arriscar batê-la no fundo do oceano, que, nestas alturas, estava bastante próximo… Também era importante proteger a cabeça na hora de voltar à superfície depois de cair na água, evitando o risco de batê-la na prancha.

    E não é a mesma coisa com a vida? Quanta resistência fazemos! Como sofremos de medo de nos entregar, de nos deixar ser levados pela grande corrente da vida! Que batalha que é para aprender a nos soltar – soltar o espírito, soltar a mente, abrir mão da tentativa de controlar tudo -, abrir mão da rigidez, das opiniões, da falsa segurança daquela “zona de conforto”, do conforto do conhecido e da familiaridade.

    Mas foi somente ao relaxar o corpo que pude perceber que estava segura na mão da água. E é somente ao relaxar o “espírito”, como em zazen, quando abrimos mão dos pensamentos, que podemos perceber que estamos seguros na mão do sagrado – que somos parte integrante dessa mão – e nunca fomos separados dela. E é justamente na hora em que conseguimos nos entregar ao sagrado, deixando que a grande correnteza da vida se manifeste, que ganhamos o espaço para exercitar o nosso livre arbítrio, manobrando as nossas “pranchas”, aproveitando o máximo que podemos da onda que nos leva até a “praia”.

    Enquanto resistimos, tentando ir contra a correnteza, as ondas vão nos esmagar, mas, ao nos soltarmos, podemos nos divertir bastante durante a nossa jornada, surfando as ondas da vida. Podemos descobrir que errar não precisa ser o fim do mundo, pois não somente estamos sendo carregados pelas mãos do Universo, mas somos uma parte integrante do próprio Universo, inseparáveis.

    Refleti muito também sobre a diferença entre ter “metas” e “objetivos” e ter uma “direção” na minha prática. O Mestre Dōgen nos ensina a praticar o nosso zazen sem buscar nada, portanto, sem ter “metas” ou “objetivos” na nossa prática. Estar apegado a uma meta pode levar a muito sofrimento – frustração, sentimento de fracasso, pressão. O ego condicionado cobra da gente, não nos deixa em paz. Então, procuro seguir os ensinamentos de abrir mão das metas e objetivos. Mas será que isto significa ficarmos simplesmente à deriva, soltos no espaço e no tempo? Acho que não. Estudando os ensinamentos do mestre moderno, Uchiyama Rōshi, no seu livro “From the Zen Kitchen to Enlightenment” chego à outra compreensão. Acredito que temos de ter “direção” no zazen, na prática Zen-Budista e na vida, mas não “objetivos” e “metas” fixas.

    A minha direção ao sentar zazen é de sentar-me em shikantaza (“somente sentar”) da forma mais correta possível, procurando manter a plena atenção no Aqui e Agora, tentando não me permitir cair nos estados de devaneio, torpor, distração, etc., o mais que eu possa evitar. Sentar-se verdadeiramente em shikantaza exige esforço! Não fico fazendo autocobranças do tipo “O meu zazen foi melhor ontem”, “Não consegui me focar nem um pouco hoje”, etc., tentando cumprir um “objetivo” de fazer “bom zazen”…

    A direção na minha prática é de me esforçar para me aprofundar cada vez mais no “Sangaku” (trisiksa [sânscrito], ou ti-sikkha [pāli]), os Três Estudos da prática budista: estudar o Darma, praticar o viver de acordo com os preceitos budistas da melhor forma possível, e manter a melhor regularidade que posso no meu zazen, para alcançar a Extinção do Sofrimento, o Despertar, a Iluminação, como o Buda ensinou. Mas como sei que isto leva kalpas e kalpas de prática (aeons e aeons), não fico me cobrando, perguntando quanto é que falta para alcançar a meta.

    E a minha direção na minha vida é de viver o mais plenamente possível no Aqui e Agora e de viver de acordo com os Votos do Bodhisattva. No dia a dia, posso ter uma direção pequena, como a de lavar as minhas roupas amanhã, mas, não ficarei aborrecida se a chuva me forçar a mudar de direção… Parte do meu viver plenamente é aproveitar oportunidades inusitadas como essa de brincar de surfe. Subi na prancha consciente de ter uma direção de “aprender a surfar”, mas sem estar apegada a um objetivo de ter que conseguir efetivamente ficar em pé e surfar já nestas primeiras aulas. Assim, me diverti maravilhosamente. Agradeço profundamente à minha amiga – uma pessoa que surfa de verdade…

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog de Isshin-sensei, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien


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  • Zen

    “Não acreditem em mim. Testem!”

    Nós somos isso, a própria vida se manifestando e porque não enxergamos, estamos perdidos.

    O grande mestre da Escola Sōtō Zen que trouxe o Zen da China para o Japão, chamava-se Eihei Dōgen. Ele tornou-se monge aos doze anos de idade porque seu pai e sua mãe faleceram e o tio que podia cuidar dele era um monge da escola Tendai, uma Escola Vajrayana. As Escolas Vajrayana se caracterizam pelo uso de recitações, visualizações e mantras. Eihei Dōgen, depois de muito treinamento, foi até a China porque se sentia insatisfeito com o que tinha aprendido até aquele momento na Escola Tendai e depois na Escola Rinzai, que era uma forma de Zen que tinha chegado ao Japão uns cinquenta anos antes do Sōtō Zen. Assim, Dōgen começou a procurar um mestre na China.

    Era por volta do ano 1223, e ir do Japão à China naquela época era uma aventura muito perigosa. Normalmente, de cada quatro viajantes, um morria. O companheiro de Dōgen, Miōzen, faleceu na China. Quando Dōgen retornou, trouxe seus ossos. Mas o que importa é que Dōgen depois de procurar mestres em vários lugares e sentir-se insatisfeito, encontrou Tendo Niojo, um herdeiro da tradição Caodong, que era Abade de um mosteiro. Dōgen treinou com ele durante cinco anos. Após esse período, um dia, praticando meditação, Tendo Niojo repreendeu um monge que estava ao lado de Dōgen, porque aquele havia adormecido. E, tomando seu chinelo, bateu no monge dizendo: “Como pode você desperdiçar esse momento e dormir na prática do zazen?”. Neste momento, Dōgen foi tomado por um despertar profundo e subitamente ele entendeu sua natureza, a natureza última, a natureza do Universo, da vida.

    Assim, mais tarde ele foi procurar Tendo Niojo em seu quarto, acendeu um incenso e disse: “Mestre, corpo e mente foram abandonados; deixei cair meu corpo e minha mente, eu os abandonei”. E nesse momento, Tendo Niojo entendeu que Dōgen havia se iluminado, o aprovou e mais tarde lhe deu o certificado de transmissão do Dharma. Dessa forma Dōgen voltou ao Japão e começou a ensinar aquele Dharma que havia aprendido com Tendo Niojo.

    Mas o que é esse despertar? Nós somos profundamente enganados por nós mesmos. Nós acreditamos na nossa identidade, no nosso corpo e nossa mente como separados de todo o resto. Nós não conseguimos perceber que a vida é só uma e que somos manifestações da vida. Nós não percebemos que nós e todos os seres pertencemos à mesma vida, que nós e a humanidade somos um. Por não perceber isso, nós estamos sujeitos a nascimento e morte. Por que nascemos e morremos? Porque acreditamos no nosso “eu”. E esse “eu” nasce e morre. Mas a vida não nasce e morre. Nossa visão é muito pequena e, porque estamos mergulhados nessa minúscula percepção individual, temos medo da morte, temos medo do sofrimento, não conseguimos viver plenamente porque não sabemos morrer para nós mesmos. Esse ensinamento, esse Dharma, não é exclusivo do Budismo, ele está escondido em vários outros lugares.

    Posso citar aqui várias passagens dos evangelhos cristãos com o mesmo ensinamento. Paulo diz “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. São João da Cruz diz “Eu morro porque não morro”, o que significa, “Eu estou morto porque não morro para mim mesmo; como não sei morrer para mim mesmo, eu morro”. Então, eu morro porque não morro. Se nós ao menos conseguíssemos morrer para nós mesmos, poderíamos subitamente enxergar nossa própria eternidade e grandeza. Aqueles que conseguem libertar-se do seu eu, do seu ego, tornam-se completamente diferentes, porque os sofrimentos não podem mais alcançá-los da mesma forma, porque as angústias não têm mais o significado que tinham, porque as perdas são só ondas na superfície do mar.

    O mar é belo, as ondas surgem e desaparecem. Nós, quando olhamos o mar, o vemos belo, perfeito, lindo e jamais nos preocupamos com o fato de que as ondas morrem na beira da praia. Quando olhamos a humanidade, sofremos as suas misérias, mortes e perdas, porque olhamos sob a perspectiva de um “eu” individual. Mas quando olhamos o mar, não choramos pelas ondas. Quando olhamos as florestas, não choramos pelas folhas que caem das árvores. Nós conseguimos ver que é uma floresta. Conseguimos ver que ela continuamente nasce e morre, e ela é a própria vida se manifestando. Nós somos isso, a própria vida se manifestando e porque não enxergamos, estamos perdidos. Por isso sentamos em zazen, para nos esquecer de nós mesmos, porque aquele que consegue esquecer-se de si mesmo, pode ser iluminado por todas as coisas.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (final)

    (continuação da 6ª parte)
    A nossa prática do Zen apresenta várias armadilhas que podem, eventualmente, ser também sinais de progresso. Quer dizer, estas armadilhas surgem quando a prática está se aprofundando. Representam riscos de se cair em confusão ou até de realmente acabar perdendo o Caminho.

    Vamos olhar algumas destas armadilhas/sinais de progresso:

    Convicção de que “já se entendeu” a prática do Zen, de que não há mais nada para se aprender ou aprofundar
    Infelizmente, é um “convite” para abandonar a prática, sem seguir os próximos passos.

    “Sentimento de não aguentar mais um, alguns, ou todos os colegas de Sanga”
    “São todos ________ (preencher a lacuna: ‘loucos’, ‘preguiçosos’, ‘burros’, ‘puxa-sacos’, etc.).” Novamente, surge o risco de abandono da prática, ou, alternativamente, perde-se o foco da prática, olhando mais para os “defeitos” dos outros que cuidando da própria prática.

    “Sentimento de não aguentar mais o professor”
    “Ele é ________ (preencher a lacuna: ‘controlador’, ‘autoritário’, ‘chato’, ‘exigente demais’, ‘genioso’, ‘louco’, ‘preguiçoso’, ‘burro’, ‘puxa-saco’, etc.).” Ou: “Ele ________ (preencher a lacuna: ‘não me ouve’; ‘não gosta de mim’; ‘gosta mais de outros praticantes’; ‘não me entende’, etc.).” Isto pode acabar numa atitude de “descrença” que trava a prática – e pode até travar a energia do grupo. Não somente surge o risco de simplesmente abandonar a prática, mas também há o risco de, mesmo mantendo a prática, perder-se tempo (dias, meses ou até anos) num relacionamento complicado com o professor, devido às projeções. Focando a atenção nas críticas ao professor, foge-se de olhar para dentro para ver as próprias dificuldades.

    “Pesadelos, medos, ansiedades, à medida que o conteúdo do inconsciente que estava reprimido começa a vir à tona”
    Esta pode representar uma fase dolorosa, quando pode surgir uma vontade de evitar a prática…

    “Crença em que o(s) colega(s) de prática pensa(m) ‘mal’ de você”
    “Eles pensam que sou ______ (preencher a lacuna).”

    “As várias experiências de ‘makyō’: visões (cores, luzes, seres como Buda ou Cristo), sensações diversas no corpo (formigamento, ‘energia’ circulando, calor, etc.), vozes, dormência, etc.”

    Apesar de serem chamadas de “ilusões”, tais experiências geralmente têm sua realidade (a sensação de formigamento, por exemplo, é real…). Devem ser tratadas com naturalidade como qualquer outro pensamento ou sensação que surge durante o zazen: não se envolvendo ou as reprimindo, mas simplesmente as deixando passar… O neurologista James H. Austin, no seu livro clássico “Zen and the Brain” (de 872 páginas, sem tradução para o português), dedica várias páginas à discussão sobre “makyō”. Vale a leitura.

    “Emergência Espiritual”
    Um aparente, mas não verdadeiro “surto psicótico”, provocado pela abertura espiritual ainda não integrada e que NÃO deve ser tratado com remédios antipsicóticos. Requer, sim, o acompanhamento e orientação de pessoas qualificadas, que compreendem este fenômeno (alguns professores do Darma, psicólogos ou psiquiatras com formação em escolas como a Transpessoal ou Junguiana, etc.). O autor Stanislav Grof trata deste assunto em profundidade nos seus livros “Spiritual Emergency” e “The Stormy Search for Self” (traduções para o português esgotadas).

    Para encerrar esta série de artigos, podemos resumir tudo numa regra básica: treine com um mestre qualificado e devidamente autorizado, que fez um treinamento cuidadoso antes de se colocar como Professor de Darma. Investigue as várias escolas, investigue os professores e escolha aquele com quem você sinta mais afinidade e que você acredite ser mais qualificado para lhe guiar no Caminho de Buda, que lhe ajude a escapar das armadilhas e leve-o até a Libertação do Sofrimento, conforme os ensinamentos do Buda.

    Com uma boa orientação, não precisamos ter medo destas armadilhas, mas devemos respeitar o fato de que elas existem. Boa prática!

    Livros recomendados: Austin, James H. – Zen and the Brain; Grof, Stanislav e Grof, Christina – Spiritual Emergency; Grof, Stanislav e Grof, Christina – The Stormy Search for Self

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