fbpx
  • Terra Pura

    Impulso do karma

    Os homens são capazes de cometer quaisquer ações
    desde que impulsionados pelo Karma adequado

    Sob as circunstâncias adequadas, tudo é possível. Aprisione um homem e uma mulher em um local isolado. Ninguém será capaz de dizer o que o homem fará com ela, mesmo que seja ele um homem santo. Quase no fim da Segunda Guerra Mundial na Nova Guiné, os soldados japoneses chegaram a se alimentar de carne humana. E quanto a nós? Nós chegamos a participar com entusiasmo na Segunda Guerra Mundial. Quando o Mestre Shinran pronunciou a frase acima, ele, provavelmente com o coração trêmulo, quis dizer que a existência é tão imprevisível que não há nada que possa prever o que somos capazes de fazer.

    Nós estamos sempre condicionados a determinadas situações, momento após momento. Em outras palavras, nós estamos presentes neste mundo. Vivemos neste mundo envolvidos em relacionamentos mútuos com tudo ao nosso redor. Todas as coisas neste mundo estão continuamente se transformando e estamos envolvidos em relacionamentos mútuos com todas as coisas. No Budismo, tais relações recíprocas e dinâmicas com o mundo são chamadas do ponto de vista dos seres humanos, de afinidades.

    O Karma não consiste apenas em qualquer ação; consiste em uma relação que envolve uma ilimitada dimensão espacial e temporal. Por exemplo, até mesmo um simples ato de vestir um casaco requer a existência de uma ovelha cuja espécie existe na face da Terra desde um tempo imemorial. O fato de a ovelha ter existido na Austrália a milhares de quilômetros deste lugar; o fato deste casaco ter sido feito de sua lã; o fato da ovelha ter se alimentado das plantas o que por sua vez originou a lã; o fato das gramíneas terem crescido recebendo energia do raio do sol. Todos estes eventos  inter-relacionados mutuamente foram necessários para meu simples ato de vestir um casaco!

    Os cristãos falam do pecado original de nossos ancestrais. Dizem que o pecado foi repassado para nós, no tempo presente. Tal visão da vida tem algo em comum com o conceito budista de Karma, um termo que significa o mundo agindo sobre mim. O Karma se refere às ações do mundo. Ambos os atos, bons ou ruins são todos ações do mundo.

    Assim, a expressão: abaixo impulsionado pelo karma adequado significa que o mundo age sobre nós. A ação ocorre durante todas as vinte e quatro horas ou durante cada momento de nossas vidas. Nós, tal como somos, estamos agindo. Estamos participando ativamente do drama da história mundial. Não somente líderes individuais como Eisenhower dos Estados Unidos ou Adenauer da Alemanha, mas as pessoas anônimas, comuns nas ruas também são atores coadjuvantes e participantes ativos do drama da humanidade. O drama da história mundial consiste no conjunto do drama de cada indivíduo e não somente no corpo de uma nação de cem milhões de japoneses no fim da Segunda Guerra Mundial.

    Assim, cada decisão tomada através de nossa vontade é uma decisão tomada pela vontade do mundo. Nós achamos que tomamos decisões sem qualquer ajuda externa. Porém, na verdade estamos sempre pressionados a tomar decisões. Nossas decisões são nada mais do que a vontade do mundo que age sobre nós. Nesse sentido, não temos qualquer responsabilidade pelas nossas ações. Não é este Eu individual que decide praticar as ações. É o mundo que decide. Nós não temos que assumir nenhuma responsabilidade.

    É desnecessário ou insignificante o fato de estarmos orgulhosos de nossas boas ações. Igualmente, é desnecessário ou insignificante arrepender-se das más ações praticadas. Ambas as atitudes são ridículas. Uma atitude séria é aquela que provém da ignorância que constitui a base da existência humana e de onde se originam todas as ações do homem. Devido a essa natureza da existência, não temos que sentir responsabilidade por qualquer das ações que praticamos.

    Isso é o que chamo de Não-Eu. Esse termo se refere ao fato de que nós e o mundo somos uma unidade. O mundo é nós e nós somos o mundo. Portanto, somos seres absolutamente livres. Não-Eu significa liberdade absoluta. Essa é a liberdade que experimentamos no Budismo. A liberdade dualística que conceituamos pelo fato de pensar que “estamos” no mundo, através do controle e disciplina de nossas ações, não merece o nome de liberdade. No mundo da verdadeira liberdade não existe nenhum conflito entre o mundo e o homem. O homem e o mundo são unos.

    A frase do Tannishô é uma confissão de Shinran. Eu sou absolutamente livre. É uma confissão de que ele não é capaz em absoluto de controlar ou disciplinar a si mesmo. É a confissão de que ele é um ser humano totalmente desorganizado, irresponsável, sem qualquer sistema consistente de pensamento, iludido, imprevisível, sem saber que ações é capaz de realizar. Nesse sentido, é uma confissão de sua não-liberdade.

    A frase é o grito de Shinran de liberdade absoluta. O próprio mundo está agindo sobre ele; não há conflito entre Shinran e o mundo porque seu Eu Total foi abandonado. É o grito de que ele já não é mais o mesmo e que o mundo é ele, o seu eu é o Não-Eu. É o seu grito de que a vida, em sua perfeita harmonia, ordem e disciplina, está se manifestando no interior de seu ser.

    Submissão absoluta é liberdade absoluta. Em suma, a expressão: Os homens são capazes de cometer quaisquer ações é uma declaração de Shinran de que ele fará qualquer coisa sem nenhum receio. Eu farei qualquer coisa; sou um ser absolutamente livre. Não existe nada obstruindo o meu caminho. Nada interfere na liberdade nem existe qualquer obstrução. Shinran se posiciona aqui como um homem nu, inteiramente como ele é, totalmente ignorante do que é bem e mal.

    Shinran, que primeiramente receou pelo potencial que poderia levá-lo a praticar qualquer ação abusiva, é agora arrebatado pela sabedoria de que ele, tal como ele é, é um novo homem que renasceu num mundo de fantástica liberdade.

    Shuichi Maida (extraído do livro “Quem é o Mau? – O mau e sua salvação na ótica budista” – Ed. Nambei Honganji)

  • Terra Pura

    Estamos todos interligados: um testemunho

    Uma linda manhã de primavera em Kyoto, dia 5 de maio de 2013.  Céu azul, sem uma nuvem sequer, sol brilhando e um friozinho acolhedor.  Levantamos cedo, eu, Rev. Jean e um amigo, Sandro para mais um tour nessa maravilhosa cidade, antes de entrarmos para os preparativos de nossa ordenação no dia seguinte.  Decidimos ir ao Ryoan-ji ver o famoso “jardim de pedras” que forma um dragão e ao Kinkaku-ji, o maravilhoso templo dourado.  Saímos cedo pois sabíamos que com aquele tempo lindo o afluxo de gente a esses dois locais turísticos ía ser grande.  Tomamos nosso café e pegamos o ônibus para o noroeste da cidade.

    Chegamos ao Ryoan-ji, o templo do dragão e fomos seguindo as pessoas pelo parque até entrar no pavilhão principal e depois ir conhecendo os aposentos do templo.  Nesse instante ouvimos o português brasileiro ser falado perto de nós.  Dois casais bem jovens, nos seus vinte e poucos, conversavam animadamente, ora andando na nossa frente, ora um pouco mais afastado.  Eram duas descendentes de japoneses e dois “gaijins”, com o perdão da expressão.

    Estavam sempre perto, mas não falamos com eles. Fomos ao Kinkaku-ji e mais uma vez os encontramos várias vezes, mesmo em um parque tão grande.

    Na hora de ir embora, uma multidão se formava no ponto de ônibus quase em frente a entrada do parque e nós três, resolvemos dar uma de brasileiros: “vamos descer a ladeira e pegar o ônibus no ponto de baixo, um antes e evitamos a confusão”. Pensamento muito egoista, confesso.  Contudo, quando descíamos a rua, avistamos uma galeria de ukyo-e (pinturas japonesas) bem moderna. Paramos e entramos para apreciar as pinturas e comprar algumas para o meu pai como lembrança da viagem. Demoramos pelo menos uns 40 minutos na loja e saímos em busca de nosso ponto de ônibus. Nesse tempo, pelos menos uns 3 já haviam passado.

    Chegamos ao ponto e ainda esperamos uns bons 15 minutos pelo transporte, que aparece praticamente vazio, o que nos permitiu nos acomodar nos assentos.  Subimos a rua e chegamos ao ponto do Kinkaku-ji que parecia ter duplicado em quantidade de pessoas, mesmo tendo vários ônibus passados já.

    Como tudo no Japão: zero confusão para entrar no ônibus, todos subiram com muita calma, mas o coletivo ficou bem cheio. Eu e Sandro cedemos nossos lugares para duas senhoras japonesas (que só faltaram levar-nos para almoçar de tanta gratidão!) e Rev. Jean ficou no assento segurando as sacolas com nossas últimas comprinhas.  Trocamos algumas palavras em português e então ouvimos uma voz feminina: “Que bom encontrar brasileiros aqui!”.  E parados no corredor ao nosso lado, os dois casais que nos “seguiram” e foram “seguidos” por nós a manhã toda.

    O percurso de 20 minutos até nosso albergue foi de muito papo e troca de informação sobre Nara, Uji, Kyoto, Tokyo. Dicas para cá, dicas para lá e nos conectamos ali mesmo nos nossos facebooks.  No retorno ao Brasil, trocamos algumas fotos e ficamos “conectados” desde então, mas sem muita interação, além de um “curtir” aqui e acolá.

    Além de meu trabalho religioso e também tenho um trabalho secular: trabalho em uma empresa de consultoria de tecnologia bem conhecida do mercado e muito grande, liderando o departamento de vendas.  Há um mês mais ou menos, meus colegas de execução de projetos estavam em busca de um razoável número de profissionais, analistas (pessoas em início de carreira) e consultores.  Como vivemos um período antagônico no mercado de trabalho em nosso país, estava complicado em achar mão-de-obra adequada, quando recorri ao Facebook, postando uma vaga de analista para meus amigos e pedindo indicações.

    Quase que imediatamente, o Juliano um dos quatro de Kyoto me chama no messenger dizendo que estava interessado na vaga e que embora tecnologia não fosse a área dele, gostaria de competir por ela, na esperança de trocar de atuação profissional.  Encaminhei o ótimo curriculum dele para meus pares para análise.

    No final de várias entrevistas, o Juliano foi aprovado, tendo seu potencial reconhecido e finalmente…. contratado!  ORa, todos sabem como é esse processo de procura de emprego tanto para o lado empregador como do empregado. Contatos, envios de muitos Curricula e uma grande batalha para que haja confiança mútua.  Mas o mais chave de tudo é NETWORKING, ou seja, se fazer conhecer e ser conhecido pelas pessoas certas nos locais certos e, claro, na hora certa.

    Resolvi contar isso aqui para vocês como uma maneira  de demonstrar na prática o que á “originação dependente” que tanto falamos no budismo.  Mais do que o karma, mas sim, as condições que são geradas por nós e pelos que nos cercam para que a realidade exista.  Alguns podem falar que o relatado acima foi o “destino”, ou que um deus “nos colocou frente a frente” ou ainda que “os astros conspiraram” para que essa conexão se estabelecesse (embora eu não consiga ver o planeta Marte e a estrela Sirius conversando sobre o tema!).   Mas não é nada disso.  Simplesmente, por mais incrível que possa parecer, nós todos fomos criando uma teia de acontecimentos sucessivos que culminou com essa conexão, fazendo com que um encontro fortuito, de 7 brasileiros dentro de um ônibus, numa manhã ensolarada de primavera, em Kyoto, pudesse alterar a carreira profissional de um deles, praticamente um ano depois… o mais incrível é que ele vai começar a trabalhar na empresa exatamente no dia que fará 1 ano que nos conhecemos: 5 de maio!

    Mas o que teria acontecido se eu tivesse resolvido tomar uma xícara de café a mais naquele dia? Ou se tivéssemos invertido a ordem dos templo (o que chegamos a discutir no café da manhã: Ryoanji ou Kinkakuji primeiro)? Se tivéssemos esperado o primeiro ônibus em frente ao templo (o Juliano e seus amigos demoraram mais que nós lá dentro)? Se meu pai não gostasse de ukyo-e e eu não tivesse entrado na galeria por causa dele?  Se eu não tivesse adicionado o Juliano no meu Facebook ou se ele ignorasse minhas postagens?  Como seria o presente hoje?

    Com esse relato, quero deixar a mensagem de que não podemos de maneira alguma desprezar o nosso presente, deixar de prestar atenção nos mínimos detalhes de nossa vida e de seus acontecimentos. Não podemos deixar de se importar com os outros e principalmente entender que nós fazemos nosso presente, nós o construímos momento a momento, segundo a segundo…

    Namu Amida Butsu

    Rev. Mauricio Hondaku

  • Terra Pura

    Os Três Pilares

    Muitos são os que nos procuram pensando que o budismo seja uma tendinha de milagres para fazê-los melhorar de condições financeiras, curar suas doenças físicas, etc. Aqueles que procuram uma religião unicamente com esses objetivos deveriam se dirigir a outros lugares, porque o budismo não é nada disso.

  • Terra Pura

    Presunção

    No Budismo existe uma importante palavra: “higeman” 卑下慢 (1).  “Hige” 卑下 significa desprezo, depreciação. E “man” 慢 compõe a palavra “jiman “自慢 (orgulho), significando presunção. O Budismo considera que deprimir-se com uma auto avaliação depreciativa, nada mais é do que vaidade.

  • Terra Pura

    O Dharma da Cebola

    “O problema do budismo é o sujeito que pensa, ou seja, o eu. O budismo acha que as diferentes pessoas vivem em mundos diversos. Cada um de nós vive no mundo que vê e compreende. As coisas são vistas pelas diferentes pessoas de maneiras diferentes, adquirindo significados diversos. Assim, certas coisas são vistas por algumas pessoas e passam desapercebidas por outras. Isso decorre das experiências anteriores da pessoa, bem como da situação dela no momento em questão. Tais são os princípios conhecidos como Originação Dependente e Não-Eu. O homem é produto de variadas causas. Se formos retirando as causas, uma a uma, não sobra nada. O homem é como uma cebola composta por cascas superpostas”.

  • Terra Pura

    As Melodias da Terra Pura

    Consta que na Terra Pura se ouvem diversas melodias que são tocadas de maneira harmônica ecoando num maravilhoso som e naqueles que o ouvem, nasce espontaneamente um sentimento de respeito e de admiração ao Buda, ao Dharma e à Comunidade (Sutra de Amida Proferido pelo Buda Shakyamuni). A descrição no sentido de que diversas melodias são tocadas de maneira harmônica está mostrando um mundo em que é possível a convivência harmônica de seres humanos se inter-relacionando numa mistura onde se correspondem mutuamente, mesmo mantendo cada qual a sua própria personalidade.

    O Buda Amida compadecendo-se de nós seres humanos que lutam entre si em tantas ocasiões, utiliza diversas formas para que possamos ouvir os ensinamentos da Doutrina Budista.

     

    Rev. Shu Izuhara

  • Terra Pura

    O Olho do Ego

    O budismo não pressupõe o ser humano para equacionar o problema de como ele deve viver. O problema proposto pelo budismo é a própria existência do ser humano. O problema do budismo é o sujeito que pensa, ou seja, o eu. O budismo acha que as diferentes pessoas vivem em mundos diversos. Cada um de nós vive no mundo que vê e compreende. As coisas são vistas pelas diferentes pessoas de maneiras diferentes, adquirindo significados diversos. Assim, certas coisas são vistas por algumas pessoas e passam desapercebidas por outras. Isso decorre das experiências anteriores da pessoa, bem como da situação dela no momento em questão. Tais são os princípios conhecidos como Originação Dependente e Não-Eu. O homem é produto de variadas causas. Se formos retirando as causas, uma a uma, não sobra nada. O homem é como uma cebola composta por cascas superpostas.

  • Terra Pura

    Os 7 Equivocos do Desenvolvimento Espiritual

    Nossos juízos de valor, fundamentados na consciência egóica, são extremamente subjetivos. Vivemos evitando aqueles valores que nossa subjetividade vê como negativos e buscando aqueles vistos como positivos. É uma insaciabilidade que não hesita em usar até mesmo a religião. Podemos dizer que a situação confusa em que se encontra a religião hoje, expressa isso de forma eloqüente.