As quatro Nobre Verdades: a extinção do sofrimento

Nesta oportunidade, gostaria de compartilhar com vocês o terceiro elemento das Quatro Nobres Verdades, que é a “Extinção do Sofrimento”. Como é que vamos fazer os seus sofrimentos serem extintos? Antes de encontrar a resposta, vamos rever aquilo que aprendemos até agora. Em primeiro lugar, aprendemos o que são as Quatro Nobres Verdades. Elas são (1) a verdade do sofrimento, (2) a causa de sofrimento, (3) a extinção do sofrimento e (4) o caminho que conduz ao Nirvana. Então, nós aprendemos sobre a “verdade do sofrimento”. Qual é a “verdade do sofrimento”? Sim, existem quatro sofrimentos, que são “nascimento, envelhecimento, doença e morte”. Então, nós aprendemos a “causa do sofrimento”, que chamamos de “três venenos”. Eles são “ganância, ódio (ou ira) e ignorância”. Então, hoje vamos aprender sobre a “extinção do sofrimento”. Para extinguir o seu sofrimento, você deve compreender três fatores, que no budismo, são chamados de “Três Selos do Dharma”, que são (1) impermanência, (2) vazio e (3) nirvana.

Primeiro, vamos pensar sobre a “impermanência”.

Você conhece o desenho do “Ursinho Pooh”? Ele descreve o mundo imaginário de um menino chamado Christopher Robin. Em um dos episódios, todos os animais estão tentando construir suas próprias casas e o Bizonho, que é um burro, tenta construir sua casa com lenha. No entanto, um forte vento veio e a casa caiu. Então o Bizonho disse: “Nada dura para sempre.” Sim. Nada dura para sempre. Essa é a impermanência.

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Práticas pacíficas – parte 3

A terceira prática pacífica é sobre nossa mente, nossos pensamentos, ao que nos apegamos em nossos pensamentos, o que nós construímos, como nós nos justificamos a nós mesmos. A primeira e segunda prática eram físicas, onde o foco era o corpo e a fala. A terceira e quarta práticas são sobre um trabalho interno que todos nós devemos fazer. Há sempre algo em uma que coincide com a outra, como tenho certeza que você já percebeu ao ler esta série.

Penso que a questão básica nesta prática pacifica da mente seja qual é a origem da ação. Nesta prática há uma citação que nós não deveríamos nutrir pensamentos negativos contra os outros e mais pra frente que nós não deveríamos expressar nenhum pensamento negativo que tenhamos para julgar os outros ao dizer coisas amargas ou desencorajadoras. Isto é também uma preocupação contra pensamentos arrogantes de que nossas crenças são de alguma forma perfeitas ou superiores às outras, quando na verdade nós ainda estamos buscando e nos esforçando no caminho. E eu acredito que seja uma preocupação contra causar desarmonia ou em um grupo ou entre grupos.

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As Quatro Nobre Verdades: As causas do sofrimento

Nesta oportunidade, gostaria de me concentrar na causa do sofrimento, que é o segundo elemento das Quatro Nobres Verdades. O Buda diz que, na realidade as causas do sofrimento são a ganância, o ódio (ou raiva) e a ignorância. No budismo, chamamos-lhes de três venenos ou três contaminações. Os três venenos podem ser as causas de doenças também. Em japonês, doença é escrita como “Byouki”. “Ki” quer dizer espírito e “Byou” significa doença. Se o seu espírito não está em bom estado, você fica doente. Se você puder se livrar da cobiça, da raiva e da ignorância em seu espírito você poderá ser saudável e feliz.

Em primeiro lugar vamos pensar sobre a ganância. Existem muitos tipos de ganância nas nossas mentes tais como a ganância pelo dinheiro e a ganância pela fama. No entanto, ganhar muito dinheiro ou conseguir fama não é mau. Mas, não é uma prioridade. Você deve saber que se trabalhar muito, com toda a certeza irá conseguir dinheiro e fama.

A ganância é como uma chama de fogo. Na realidade é fácil extingui-la de seu quotidiano. O ponto mais importante é você estar consciente de quando está se tornando ganancioso.
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Práticas pacíficas – parte 2

O Bodhisattva deve querer
fazer todos os seres vivos fiquem em paz,
e então expor o Dharma a eles.
Ele deveria fazer um acento em um lugar puro,
aplicar óleo em sua pele, 
lavar a sujeira e a poeira de si mesmo,
vestir um novo e irregular manto,
limpar a si mesmo dentro e fora,
sentar tranquilamente no acento do Dharma,
e então expor o Dharma em resposta à perguntas.
– Sutra do Lótus, capítulo XIV.

A segunda das práticas pacíficas dada a nós pelo Buda no Sutra de Lótus chama-se Ku Anrakugyo, que quer dizer prática da fala, ou de boca. Estas são, como nós podemos ver por meio das instruções dadas no Sutra do Lótus, práticas sobre falar de uma maneira que alimente e nutra a paz não apenas em nós mesmos mas em todas as pessoas que nos ouvem.

Ao olhar para a lista, ela praticamente resume muito do que eu acho que já está explicado no caminho Fala Correta dos 8 Nobres Caminhos, exceto que estas práticas pacíficas que falarei são orientadas especificamente à forma como falamos sobre outros praticantes budistas, professores e sutras. Então esta prática pacífica é realmente sobre como nos relacionamos aos Budistas.

As primeiras poucas linhas da seção em versos do sutra dizem que de todas as formas e meios nós deveremos desejar que todos os seres vivos fiquem em paz, e com este desejo em mente nos motivando, nós então devemos expor o Dharma a eles.

Frequentemente as pessoas perguntam sobre o uso severo que Nichiren fez das palavras quando falava sobre outros budistas de seu tempo, e podem até mesmo usa-lo como um exemplo para justificar seus próprios comportamentos agressivos. No entanto, enquanto a pergunta ou justificativas são feitas, pouco se considera em quais circunstâncias Nichiren fez tais coisas.

Penso que existe ao menos alguma evidência para argumentar sobre quando Nichiren lidava diretamente com pessoas de outras escolas e religiões, antes de sairmos por aí quebrando a prática da fala utilizando como justificativa um caso como este. Ao que parece, a maioria da linguagem severa utilizada por Nichiren estava direcionada aos governantes da época e à força militar que favorecia ou apoiava determinada escola ou religião em detrimento de outras; ou contra líderes religiosos coniventes com estes governantes a fim de reforçar as suas próprias posições na sociedade da época.

Isso não quer dizer que quando em debate ou discussão com outras pessoas de diferentes escolas ele não oferecia uma crítica franca e dura, mas quando leio seus escritos ele não parece menosprezar nem ser impaciente, tão pouco há falta de compaixão. De toda forma, ele tentou derrubar os argumentos possíveis que foram jogados contra ele e indicar as falhas daqueles argumentos.

Também, talvez pelo motivo de eu ter um grande respeito pelo senso de lógico de Nichiren e sua habilidade na escrita e no debate, penso que ele mostrou grande compaixão enquanto cuidadosamente tentou guiar as pessoas a um entendimento diferente do Budismo; pessoas que eram ambas praticantes e professores. Muitas pessoas tomaram fé no Sutra do Lotus por causa de sua grande compaixão, pessoas comuns, nobres, outros religiosos e líderes, governantes, etc. Se Nichiren não vivesse uma vida com esta perspectiva, observando outros de certas classes, ocupações ou crenças, então eu não acho que encontraríamos tantos exemplos de diferentes tipos de pessoas tomando fé no Sutra do Lótus.

Testemunhei pessoas tentando imitar as palavras de Nichiren ao se referir a outros de outras religiões, ou falando até mesmo para pessoas que praticam outras escolas de Nichiren, ou ainda outras escolas budistas. E ainda assim, como ouvinte, eu sempre estive profundamente desconfiado e em dúvida se o coração de Nichiren esteve realmente presente ali ou se na verdade não era apenas repetições de palavras. Há uma diferença. É fácil utilizar as palavras de Nichiren como argumento, e adotar seu estilo de linguagem para soar severo, rigoroso, duro. Mas usar tais termos e linguagem, sem propósito e sem um coração cheio de compaixão acaba se revelando como malvado e pouco espirituoso, ou seja, qualquer coisa menos pacífico.

Penso que o que precisamos desenvolver primeiro é o coração e do coração permitir que a linguagem surja. Quando nós desenvolvemos um coração pacífico, um coração que deixa de lado os nossos próprios preconceitos e arrogância, precisamos ser corretos e manter uma firme convicção de que qualquer pessoa com quem falamos pode vir a ser um Buda e então nós podemos finalmente falar com a pessoa da maneira como o Buda falaria.

Não é necessário utilizar uma linguagem severa quando nossa vida não está em perigo como Nichiren estava quando ele utilizou suas mais duras palavras. É fácil começar com palavras duras, mas isto revela o nosso ego trabalhando, a necessidade de se por em evidência para justificar nossas ações. Isso mostra uma habilidade deficiente em abordar tranquilamente as pessoas e seguir estas práticas pacíficas.

Tenho pensado muito ultimamente sobre as várias linhagens e escolas budistas no geral e especificamente sobre as escolas da linhagem de Nichiren. Tenho visto pessoas se lamentarem o quão triste é existir tantos grupos diferentes sobre Nichiren e porque não podemos todos praticar juntos, e especialmente o aspecto sectarista entre alguns destes seguimentos. Não me atenderei a detalhes aqui, porque exigiria uma grande dedicação sobre o assunto. Vou apenas ceder um pouco destes pensamentos e sentimentos pois geralmente não me sinto a vontade de por muita energia em torno deste tema, mas o fato é que penso que há um grande valor e necessidade em existir diferentes escolas, e isto basta. É suficiente dizer, então, que por hora acredito que as práticas pacíficas descritas no capítulo XIV são ótimas orientações para serem adotadas antes de se falar qualquer coisa e que os budistas deveriam parar para refletir.

Uma vez que uma base sólida é obtida no cerne da vida de uma pessoa, é que se realmente vive e se manifesta estas quatro práticas pacíficas das quais a prática da fala é uma delas. Então, a partir deste momento é que todas as coisas irão realmente ser baseadas no único desejo de fazer com que todas as pessoas se tornem tranquilas e lhes trazerem benefícios. Eu mantenho isto firmemente como minha principal direção e guia.

A verdade do Sutra do Lótus depende de você mesmo e eu acredito fortemente nisto. É suficiente que eu tente meu melhor para viver de acordo com os ensinamentos do Buda e ser o melhor exemplo que eu posso ser. Se eu faço isto bem o bastante, então eu acredito que eu sigo ambos Buda e Nichiren. Eu também acredito que o lugar para começar a guiar os outros aos ensinamentos do Buda e do Sutra do Lótus está em minhas ações e onde elas estão enraizadas em meu coração.

Eu sei que se eu usar palavras duras e severas é porque eu não abracei completamente os ensinamentos do Buda. Eu sou fraco, e palavras raivosas abrem o portão para sentimentos agressivos que já estão lá. É melhor evitar o caminho que cause dano e prejuízo até que eu tenha aprimorado minha própria vida. Então eu não tenho energia para retóricas severas contra outras crenças e práticas Budistas. Este é o caminho que eu escolhi para viver minha vida. E assim encorajo que todos comecem a viver, com alegria e paz.

*tradução livre do texto “peaceful practices #2” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

As Quatro Nobre Verdades: A Verdade do Sofrimento

Gostaria de compartilhar com vocês neste momento uma leitura sobre as Quatro Nobres Verdades. Por favor, abram o livro verde, “Hasu no Oshie (The Teachings of The Lotus)” e vão para a página 35. Eu vou ler a parte do líder e vocês lerão a outra parte juntos, por favor:

Líder: ‘As Quatro Nobres Verdades’ é o mais completo resumo de todo o Dharma. Portanto, se nós as compreendermos, nós vamos ser bons budistas. Lembremo-nos de que só existem dois caminhos na vida. Um deles, o caminho da felicidade, e o outro, o caminho do sofrimento. As Quatro Nobres Verdades salientam claramente este fato.

Líder: A verdade do sofrimento.

Todos: O homem não pode escapar de seu destino de morte e sofrimento a menos que encontre um novo modo de vida. Vamos despertar para este fato.

Líder: A verdade sobre a origem do sofrimento. 

Todos: As causas do sofrimento são os três venenos: a ganância, o ódio e a ignorância. Vamos nos purificar destas ilusões.

Líder: A verdade da extinção do sofrimento.

Todos: É verdade que nós podemos alcançar a perfeita felicidade e a libertação do sofrimento, nos purificar dos desejos e ganharmos uma nova vida. Vamos viver nesta esperança.

Líder: A verdade do caminho que leva à extinção do sofrimento.

Todos: O caminho que leva à prática de cessação dos desejos é o Nobre Caminho Óctuplo, a saber: Entendimento Correto, Pensamento Correto, Fala Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correto, Esforço Correto, Meditação Correta e Concentração Correta. Se seguirmos este caminho, nós vamos atingir a iluminação. Por isso, vamos praticar esse ensinamento na nossa vida diária.

Obrigado por compartilhar.

Hoje gostaria de me concentrar na Verdade do Sofrimento (Dukkha). Por que você sofre? Você sofre por problemas financeiros? Você sofre com relações humanas? Você sofre na educação dos seus filhos? Você sofre de diversos tipos de problemas na sua vida quotidiana, não sofre? No entanto, na realidade, Buda diz que nós, incluindo você e eu, sofremos de quatro sofrimentos fundamentais que são “nascimento, envelhecimento, doença e morte”. O Buda diz que nunca poderemos fugir dos quatro sofrimentos a menos que encontremos uma nova forma de vida, como se afirma no livro “Hasu no Oshie”.

Então, vamos juntos encontrar uma nova maneira de viver.

Vamos começar primeiro com o “nascimento”. Porque nós nascemos estamos agora vivos e sofremos de muitos problemas. Evidentemente, não temos somente sofrimento mas também felicidade na nossa vida diária. Quando somos felizes não há qualquer problema. Não precisamos de nenhuma ajuda e não precisamos confiar em nada. No entanto, nossas vidas são preenchidas com problemas também. Toda vez que enfrentamos os problemas sempre tentamos escapar deles. Mas, o Buda já nos ensinou que vamos sofrer com os quatro sofrimentos sem qualquer exceção enquanto nós estivermos vivos. Então, por que não aceitarmos os problemas, assim como aceitamos a felicidade?

Em segundo lugar vamos pensar sobre “envelhecimento”. Ser jovem é, obviamente, maravilhoso. Mas é algum pecado ficarmos mais velhos? Todo mundo certamente envelhece dia após dia, sem exceção. Portanto, porque não pensamos que “ser jovem é maravilhoso, mas envelhecer também é bom”? Se nós pudermos aceitar o envelhecimento dessa maneira, não nos sentiremos melhor ao invés de pensar negativamente sobre o envelhecimento?

Em terceiro lugar, vamos pensar sobre a “doença”. Ser saudável é, naturalmente, bom. Mas, é um pecado estar doente? Buda nos ensina que ninguém pode escapar da doença. Portanto, porque que nós não apreciamos quando estamos em bom estado de saúde e não aceitamos a doença também?

Por último, vamos pensar sobre a “morte”. Este é o último assunto para nós. Ninguém quer morrer. No entanto, desde que nós somos seres humanos vamos morrer um dia, sem exceção. A morte é temerosa e assustadora para qualquer pessoa, é claro. Mas, se pensarmos com calma sobre a morte, nós saberemos que todos vão morrer um dia. Isso é inevitável. Entendemos isso na nossa cabeça mas não pensamos, ou não queremos pensar, que vamos realmente morrer. Seja como for, vamos tentar aceitar esta verdade. Não importa se você gosta ou não. Então, você não sente gratidão por estar vivo neste momento? Pensar a sério na morte deveria fazer com que a pessoa se sinta grata por estar viva. Como nós estamos felizes! Como nossas vidas são preciosas! Então, se você puder viver com gratidão o resto de sua vida a morte torna-se mais aceitável. Quando chega o momento da morte, você poderá dizer “Eu vivi a minha vida com gratidão, de modo que não existe nenhum arrependimento”. Se você pode morrer assim você não acha que ficaria muito feliz?

Encontrar um novo modo de vida, afirma as Quatro Nobres Verdades, significa aceitar o sofrimento como uma parte de nossas vidas. Para fazer isto, você deve estar preparado para enfrentar os quatro sofrimentos. Não pensamos em fugir, mas aceitá-los.

No começo de explanação sobre o Dharma, eu disse que poderíamos aplicar as Quatro Nobres Verdades para qualquer tipo de problemas para nos ajudar a encará-los.

Recentemente, foi muito triste a notícia do terrível incidente ocorrido em 6 de abril de 2007 no Virginia Tech. Um pistoleiro disparou e matou trinta e duas pessoas e depois se matou. Gostaria de manifestar a minhas mais profundas orações para os pais, familiares e amigos. Este não é um incidente que aconteceu em algum lugar distante. Isso poderia acontecer em qualquer lugar e com qualquer um. Tenho três filhos e no futuro próximo eles poderão estar em um campus de universidade em algum lugar. Se isso acontecer a mim, o que devo fazer? Como é que o Buda Dharma explica isso? O que podemos aprender com o incidente? Vamos recorrer às Quatro Nobres Verdades para nos ajudar com esta tragédia.

Qual foi o sofrimento? Foi no interior do pistoleiro. Ele estava sofrendo. Quando tinha oito anos de idade foi para os Estados Unidos com seus pais e irmã. Em primeiro lugar ele se sentiu discriminado na escola porque não podia falar Inglês. Desde então, ele foi uma vítima.

Então, qual foi a causa do sofrimento? Foi ódio dentro dele. Esse é um dos três venenos dos seres humanos de acordo com o Buda Dharma. O ódio dentro dele foi crescendo e crescendo, porque seus pais não tinham conhecimento do seu sofrimento e ele não teve um amigo para conversar. Nem ele e nem a sua família podiam soprar as chamas do ódio de dentro dele. Portanto esta falha aconteceu, pois eles deveriam ter soprado as chamas do ódio do interior desse homem.

Então, e sobre as trinta e duas vítimas? Como podem os pais e as famílias aceitar e entender isso? Agora, eles são os que sofrem pela perda de seus amados. O veneno do ódio foi produzido dentro deles neste momento. O Buda disse, em um antigo sutra chamado Udãnavarga que:

“O ódio nunca chega ao fim, se você reembolsar o ódio com o ódio. Portanto, a pessoa que conhece o Buda Dharma abandona o ódio.”

Compaixão é muito importante para os budistas. Nós nunca devemos desprezar ninguém, porque todos nós estamos relacionados uns aos outros. Se alguém está a sofrer devemos ser compassivos e ajudar essa pessoa. Isso porque todos estão relacionados uns aos outros.

O que nós aprendemos desta vez é que são quatro os sofrimentos, de nascimento, envelhecimento, doença e morte. Estes sofrimentos consistem na “Verdade do Sofrimento”. Da próxima vez, vamos aprender a segunda parte das Quatro Nobres Verdades, a “Causa do Sofrimento”.

*transcrição de uma palestra do Rev.Shingyo Imai da Nichiren Shu Havaí (Junho de 2007)

Práticas pacíficas – parte 1

Gostaria de fazer uma pequena série sobre as Práticas Pacíficas que nos são apresentadas no capítulo 14 do Sutra de Lótus. São quatro práticas: (1) práticas corretas (shin anrakugyo), práticas da fala (ku anrakugyo), práticas mentais (i anrakugyo), e práticas de juramento (seigon anrakugyo). Anrakugyo quer dizer práticas pacíficas. Pretendo então estimular vocês a estudar ao longo das próximas semanas estas práticas que o Buda deu àqueles que querem interpretar o sutra neste era.

A primeira prática pacífica que iremos estudar hoje é a prática correta ou práticas para o corpo. Esta prática pacífica primeiramente foca nas propriedades físicas, ainda que haja alguma conexão com a mente. Começando a lista de coisas que são consideradas práticas corretas, elas instruem o praticante a ser paciente, gentil e modesto, não ser imprudente, estourado, acanhado, ou apegado à qualquer coisa. Pode parecer superficial, como se existisse uma contradição, pois por um lado deveríamos ser modestos e não acanhados, mas os dois tem interpretações que se sobrepõe em alguns aspectos.

Acredito que por modesto deveríamos entender humilde, bondoso e não alguns dos mais negativos sinônimos. Juntando isto com ser paciente e gentil, formamos uma imagem de alguém que não faz o outro ficar desconfortável por comportamentos que chamam atenção de forma indevida ou comparações com nós mesmos. Ser paciente também é ser generoso com os outro pois nós não devemos expressar arrogância vendo falhas e defeitos nos outros e ignorando estas mesmas coisas em nós mesmos. Todos têm um dia ruim, ou até mesmo uma série de dias ruins, vocês sabem que isso acontece, e quando acontece você torce pros outros serem gentis com você, e assim igualmente você deveria ser com os outros. Ser humilde se ajusta exatamente com ser paciente.

Na maioria das vezes quando as pessoas são impacientes, estão na verdade insinuando que são melhor ou que seriam melhor que a outra pessoa. Pense sobre isso. Quando somos impacientes com alguém que está dirigindo devagar à nossa frente, nós estamos na verdade dizendo ou pensando “Eu nunca dirigiria tão devagar assim”. Mas nós dificilmente damos ao lento motorista o dom da paciência pensando algo como: “Eu espero que ele encontre o que está procurando”, ou “Será que ele não está perdido”, ou ainda uma situação como, “Ele pode estar com medo de algo, então como eu posso dirigir sem que ele não se sinta ainda pior?” Quão estranho estes pensamentos podem ser para você? Quão difícil é pensar nas necessidade de um estranho antes de pensar nas suas? Para alguns isto pode não parecer como uma prática muito tranquila, especialmente se uma pessoa está acostumada a ter seu próprio caminho. Mas certamente vale a pena considerar quão importante nós pensamos que nossas necessidades são, comparadas com as necessidade dos outros.

Outra prática pacífica que é uma das minhas preferidas é não ser apegado ao nosso desapego. Esta é uma fraqueza particular para os hipócritas, aquelas pessoas que pensam que são superiores aos outros porque eles acreditam ou fazem algo que outros não conseguem fazer, e então isto se torna uma arma utilizada contra outras pessoas. Budistas podem fazer isto tão facilmente quanto aqueles de outras religiões e crenças. Sempre que cogitarmos pensamentos de superioridade por causa de nossas ações ou crenças então estamos apegados ao nosso “desapego”. Poderia ser estar apegado ao fato de não se comer carne, ou fazer meditação, ou ajudar no templo, ou até mesmo ao número de anos de prática, existem várias coisas às quais podemos estar apegados. Nestas circunstâncias a prática Budista se torna uma arma utilizada contra outras pessoas, ao invés de uma ferramenta para o desenvolvimento e crescimento pessoal.

Então nós trazemos uma longa lista de pessoas e lugares que deveríamos evitar. Acho que algumas coisas na lista são o que era culturalmente apropriado estar no momento em que se escreveu. Geralmente, entretanto, nós deveríamos evitar nos colocar em situações que facilitam a agirmos de maneira inadequada como praticantes Budistas.O problema de estar em lugares que não condizem com nossos ideais Budistas, talvez sejam dois. Um deles é certamente a tentação de agir de maneira contraproducente aos nossos ideais Budistas. O outro é a reputação que podemos pegar por causa da associação com o lugar, mesmo se não estivermos fazendo nada de errado. Que mensagem nossa presença poderia causar?

Finalmente para esta prática pacífica, voltamos para as coisas que definem nossas atitudes da mesma forma como na primeira parte. Nós deveríamos ver todas as coisas como impermanentes e simplesmente como elas são, e todas as coisas existem devido a causas, condições e relações. “Apenas pessoas deturpadas dizem ‘As coisas são permanentes e agradáveis’”.

Então numa última análise, a primeira prática pacífica é sobre cultivar um modo de ser no mundo que mostra igual preocupação com os outros assim como com nós mesmos, uma maneira de ser aquele que procura viver externamente de uma forma que espelhe nossas crenças pessoais, e de uma maneira que não valorize as coisas insubstanciais.

Nós podemos considerar estas como maneiras de estar em paz não apenas com nossa própria vida mas estar em paz com todos que existem a nossa volta. Quando nós pudermos desenvolver este senso de paz dentro e fora de nós, e quando nossa vida estiver em completa harmonia com nossas crenças, então nós não apenas estaremos gerando paz na sociedade mas também cultivando paz em nossas vidas. Quanto mais paz nós nutrirmos em ambos dentro e fora, mais pacíficos nós e os outros nos tornaremos.

*tradução livre do texto “peaceful practices #1” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

Copiando o Sutra, a prática de Shakyo

O Sutra do Lótus, o Sutra principal para budistas Nichiren, é bastante claro em suas instruções sobre como praticá-lo, ele nos diz especificamente em vários lugares ao longo do texto que devemos manter, ler, recitar, copiar, e ensinar o Sutra do Lótus. Alguns de vocês estão conscientes de que, como parte da nossa celebração de terceiro ano estamos coletando cópias escritas à mão do capítulo 21 do Sutra do Lótus. Outros de vocês, aqueles que começaram a frequentar nos últimos meses podem não estar cientes disso e por isso eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para falar um pouco sobre essa prática. Eu também gostaria de aproveitar esta oportunidade para falar um pouco sobre uma mulher budista famosa, a Imperatriz do Japão, Komyo. Antes de começar, gostaria de agradecer a Sallie Tisdale por seu livro que estou usando como referência nesta parte desta conversa sobre o Dharma. Sallie Tisdale é a autora de um livro intitulado, “Mulheres do Caminho; Descobrindo 2500 Anos de Sabedoria Budista.” Vários anos atrás, quando eu estava vivendo e treinamento em Portland, OR, tive a oportunidade de assistir a uma palestra que ela deu sobre o livro no Dharma Rain Zen Center, que era localizado a apenas alguns quarteirões do Templo de Portland da Nichiren Shu.

Eu gostaria de compartilhar com você a dedicatória no início do livro. “Dedicado a todas as mulheres mais velhas, vendedoras de refresco, meninas, vendedoras de bolo de arroz, leigas, princesas, monjas errantes, cortesãs e deusas que infinitamente pregam o Dharma em inúmeras histórias e nunca são nomeadas.” Uma das muitas coisas pelas quais o Sutra do Lótus é notável é pela inclusão das mulheres no Sangha e sua igualdade com todos os outros na capacidade de atingir a iluminação. Há duas referências às mulheres alcançar a iluminação mencionadas no Sutra do Lótus. Sendo uma deles a famosa história da Filha do Rei Dragão que tornou-se iluminada sem esforços e outra é a previsão da futura Iluminação da mãe do Buda e de todas as monjas que ela representava. Estes foram pronunciamentos verdadeiramente revolucionários para aquele momento, quando se acreditava que as mulheres nunca poderiam alcançar a iluminação por elas possuírem as cinco impossibilidades. As mulheres têm sido quase universalmente relegadas ao status de segunda classe, ou seja, impuras.

E, no entanto ao longo da história não só no budismo, mas em todas as religiões e culturas, encontramos inúmeros exemplos de ações exemplares e heroicas de mulheres, tanto como praticantes religiosos e como líderes culturais. Nichiren em uma famosa carta escreveu a uma mulher que tinha dúvidas sobre a prática do Sutra do Lótus, enquanto ela estava tendo seu ciclo menstrual. Ele aconselhou a ela que sob nenhuma circunstância deveria sentir que, devido à função biológica natural do corpo de uma mulher, ela deveria se separar do maravilhoso Dharma do Sutra do Lótus, e que a sociedade pode ter imposto algumas restrições a uma mulher em seu período menstrual, mas que o Buda não fez. Claro que tenho parafraseado e condensado muito aqui, mas o ponto de Nichiren estava enfatizando é que as mulheres não têm maior ou menor propensão para a iluminação do que os homens só porque são mulheres e, certamente, nem por causa da biologia de seus corpos. No livro de Sallie Tisdale ela tem um capítulo dedicado a uma mulher muito famosa na história do Sutra do Lótus, no Japão, a Imperatriz Komyo (701-760). A vida de Komyo aconteceu em um momento de transição na história japonesa e na história do budismo no Japão. Pouco antes de seu nascimento, o país chamado Yamato se tornou Nihon, ou Japão, ou seja, a “fonte do sol”.

Durante esse tempo, o budismo tornou-se muito poderoso e influente no governo japonês, o avô de Komyo tinha sido um Nakatomi, a família que tradicionalmente realizava ritos xintoístas, enquanto os Fujiwaras eram os responsáveis pela administração do governo. O avô de Komyo recebeu o nome Fujiwara como um presente do imperador. Depois disso, o negócio da família tornou-se parte do governo, em vez da religião. Então, eles se tornaram budistas, porque o budismo foi parte da vida da corte. Em 710 Nara se tornou a primeira capital permanente do Japão, apesar de ter sido chamado Heijokyo, a Cidadela de Paz. Conforme o tempo passava, o budismo exerceu maior e maior controle e influência, ofuscando mesmo o Xintoísmo e de fato entrou no controle de muitos santuários xintoístas. Em 720 a mãe de Komyo se tornou uma monja budista em luto pela morte de seu marido. Sem entrar em todos os detalhes, deixe-me brevemente dizer que Komyo se tornou a imperatriz, não apenas porque ela era casada com o imperador, porque isso não foi um resultado automático do casamento.

Quando Komyo se tornou a imperatriz ela teve algum poder real, e como a Sra. Tisdale relata em seu livro, ela começou a usá-lo. Komyo olhou à sua volta e viu o sofrimento do povo, a morte precoce das crianças, ela também havia perdido seu primeiro filho. Ela tinha um templo construído em honra daquela criança, o nome do templo era Kinshoji. Em seguida, ela estabeleceu o Hiden-in e Seyaku-in, instituições de caridade que deram remédios e alimentos para os pobres. Ela insistiu que o imperador Shomu, seu marido, construísse casas de passagem para que os trabalhadores em seu caminho para casa pudessem comer e descansar. De acordo com a história, um dia Komyo visitou sua mãe em uma ermida. Lá, ela viu uma cópia do Sutra do Lótus que sua mãe mesmo tinha feito. Sua mãe proclamou que ela tinha copiado ela mesma e que era uma prática maravilhosa. Komyo começou a copiar ela mesmo o Sutra do Lótus.

Ela encomendou um balcão de sutra em madeira tingidos de caqui, com acessórios de bambu preto e dourado e estrutura de bronze, gravada com nuvens. Ela convidou sua governante para se juntar a ela, e então suas outras empregadas domésticas, e elas começaram a passar longas tardes sobre resmas de papel, praticando cada elaborado caractere chinês muitas vezes antes de transcrevê-los para o pergaminho. O Sutra do Lótus foi o trabalho de uma vida, uma prática maravilhosa, e ainda não o suficiente para explodir a devoção de Komyo. Ignorando muitos dos detalhes de Sallie Tisdale, logo Komyo fez seu marido, o imperador, praticar também e em seguida, ele emitiu decretos com o objetivo de encontrar copistas profissionais para também fazer o trabalho de copiar o Sutra do Lótus. A imperatriz Komyo é famosa na história japonesa, pelo seu apoio e devoção ao Sutra do Lótus. Pode-se dizer que seus esforços tenham sido muito úteis na propagação do Sutra do Lótus no início da história do budismo no Japão. Este é apenas um exemplo de fé e influência das mulheres na história do budismo e na propagação do Sutra do Lótus. É também um bom exemplo de um indivíduo realizar a prática meditativa de copiar o sutra como o Buda nos instrui.

Eu sei que, para muitos o ato de copiar o Sutra do Lótus ou capítulos do Sutra é um pouco menos do que emocionante. Sei que alguns acham que a necessidade de escrever a mão cópias do Sutra é uma prática ultrapassada, com o advento de métodos modernos de reprodução. Inicialmente copiar o sutra tinha o propósito de propagação, especialmente antes do desenvolvimento de técnicas de impressão. Durante o tempo da Imperatriz Komyo era possível imprimir Sutras, os chineses já tinham inventado técnicas de impressão, embora os livros impressos fossem raros e caros. Mas a prática religiosa de copiar o sutra também é mais do que um meio de reprodução. É uma prática meditativa difícil e exigente que, por um lado cultiva disciplina, bem como a oportunidade de maior compreensão e apreciação de palavras de ouro do Buda. Nichiren declarou em diversas ocasiões que cada um dos caracteres do Sutra do Lótus era de fato um Buda dourado. Ele deu muita importância para que cada caractere, nenhum deles deveria ser considerado levianamente.

O Sutra do Lótus é composto de 69.384 caracteres, de todos os caracteres que compõem o Sutra do Lótus, há menos de metade desse número de caracteres únicos, com alguns caracteres com duplo sentido ou o que significam muitas coisas diferentes. Assim você pode ver o poder e a beleza da escrita concisa que compõe o Sutra do Lótus. É verdade que muito se perde para nós quando se lê a tradução em Inglês, porque a nossa língua exige muitas outras palavras para conectar palavras do que o chinês. Mesmo as versões de língua japonesa são mais longas e não tão concisas ou compactas. Mesmo que grande parte se perca na tradução em Inglês nunca devemos considerar qualquer palavra insignificante no Sutra do Lótus.

Então, copie-o para celebrar a beleza, a natureza concisa do ensino, e a oportunidade de abraçá-lo com toda a nossa vida enquanto concentradamente escreve com tinta no papel, assim como o Buda instrui. Lá fora, na frente do nosso templo, erigimos um Stupa dedicado ao Sutra do Lótus no qual está escrito o Odaimoku, ou o título sagrado do Sutra do Lótus, a essência de todo o ensinamento contido no Sutra. Também há uma passagem do capítulo 21, que proclama que qualquer lugar onde uma cópia deste sutra é mantida um Stupa deve ser erguido, porque é o lugar da iluminação de todos os seres.

(…)

Gostaria de encerrar esta conversa sobre o Dharma com palavras atribuídas à Imperatriz Komyo, do livro de Sallie Tisdale: “”Não podemos copiar rápido o bastante. Não há tempo suficiente em nossas vidas, em uma centena de vidas. Todos devem fazer isso para que todos possam ler os sutras.”” O imperador, em seguida, emitiu um decreto ordenando as províncias para erguer estátuas de Buda e copiar um capítulo do Sutra do Lótus. Poucos meses depois, a imperatriz disse ao imperador: “Não é o suficiente.””

*tradução do texto “Copying the Sutra – Shakyo” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

Gassho para a vida

“Gasshô” expressa respeito ao próximo e com este sentimento devemos reverenciar os outros. De acordo com o Sutra de Lótus é a prática da frase: ‘Tenho por vocês profunda reverência’. O “Gasshô” tem o poder de fazer com que a outra pessoa retribua mutuamente. Que tal? Vamos tornar um hábito a prática do Gasshô?

No ocidente cumprimentamos com o aperto de mãos. Se estendemos a mão, mesmo o japonês que não tem este costume, acaba por estender também. O Gasshô também é assim. Induz a manifestação desse sentimento. Mas não importa se não retornarem o Gasshô. Isso porque essa é uma prática para si mesmo. Ao fazermos Gasshô constantemente, um dia pode ser que façam Gasshô para nós também. Fazer Gasshô para quem gostamos é uma coisa natural. Vamos fazer Gasshô também a quem não gostamos ou evitamos. Esse é o verdadeiro sentimento do Gasshô. Isso torna como uma primeira prática para o seu coração, não acham? Vamos começar a prática na hora das refeições: Antes de comer, agradecer pela comida servida: ITADAKIMASU (recebemos vida) e após a refeição: GOTISOSAMA (Agradecemos pela vida recebida). Vamos ser gratos a vida. Com a força do Gasshô vamos mudar a nós mesmo. Vamos mudar a sociedade. Vamos realizar a paz e a tranquilidade a partir da prática do Gasshô.

No Sutra do Lótus, no capítulo 20, o Bodhisattva ‘Nunca Desprezando’ (Sadāparibhūta em sânscrito, Jofukyo Bosatsu em japonês), consta o seguinte: “Tenho por vocês profunda reverência, nunca vos tratarei com desprezo ou arrogância. Por quê? Porque estão todos a praticar a via do bodhisattva e seguramente alcançarão a Iluminação.”

Nichiren Shonin falou que a expressão é diferente, mas essa frase se lê em outras palavras: MYOHORENGEKYO. Essa frase também é conhecida como “O Sutra do Lótus dos 24 caracteres (kanjis)” – Ware fukaku nandati wo uyamau, aete kyouman sezu. Yue wa ikan, nandati mina bosatsu no dou wo gyou jite, masani sabutsu suru koto wo ubeshi.

Na carta de Nichiren Shonin consta o seguinte: O Sutra de Lótus é o verdadeiro coração do Buda. O coração do Buda transborda de compaixão, por isso mesmo para aqueles que não conhecem a profundidade das instruções do Buda, os seus benefícios são incalculáveis. Da mesma forma que uma planta torta como o absinto se for cultivada dentro de um cânhamo que é reto, se tornará reta também, e se colocarmos uma cobra num tubo ela também ficará reta. Assim, nosso coração, nosso comportamento, nossas palavras se tornarão corretos. Aqueles que acreditam neste Sutra são as pessoas que se encaixam nesta intenção do Buda.

No budismo existem muitas teorias difíceis. Porém se apenas estudarmos essas teorias, é como comermos um bolinho de arroz desenhado num papel. Nada vai mudar.

O objetivo de cada pessoa é diferente eu suponho. Mas fazendo como objetivo comum a todos nós da Nichiren Shu, vamos fazer do “Tan gyo rai hai” do Sutra do Lótus, a nossa prática. Vamos espalhar essa prática às pessoas ao nosso redor.

*texto escrito pelo rev. Yodo Okuda Shonin da Nichiren Shu Brasil.

Compaixão e o cuidado de si mesmo

Nós falamos o tempo todo sobre compaixão pelos outros; Este é um dos mais constantes temas de orientação Budista. Nós também falamos sobre compaixão por nós mesmos, e entre os dois, acredito que auto compaixão seja talvez o mais desafiador para as pessoas. É interessante que costumamos tratar nossos amigos melhor que tratamos a nós mesmos, e acreditamos até que seja de alguma maneira correto ou até mesmo admirável. A auto-compaixão é deturpada quando igualada a ser tolerante consigo mesmo, ser preguiçoso ou vários outros conceitos negativos os quais não relacionamos à compaixão que sentimos pelos outros.

Algumas destas associações negativas que fazemos com auto-compaixão são: permissividade, egoísmo e auto-criticismo, tornando então difícil de emprega-la a si. Pense sobre isto por um momento e considere se estes mesmos valores são aplicados quando nós sentimos compaixão por um amigo.

Ser compassivo requer que tenhamos bondade amorosa com os outros, e isto também requer que sejamos autênticos. Como podemos ser inteiramente desta maneira para alguém, se nós não somos capazes de ser com nós mesmos? Quando somos compassivos com os outros percebemos o sofrimento deles e estamos presentes em suas dores. Ou seja, não quer dizer então que somos permissivos ao testemunhar e nos preocupar com o sofrimento que os outros experimentam.

Se ignorarmos nosso próprio sofrimento, estamos proibindo a nós mesmos a habilidade de entender verdadeiramente o sofrimento na vida dos outros. Ser compassivo não requer uma crítica interna como motivação, então quando somos verdadeiramente compassivos com os outros não precisamos critica-los mas sim apoia-los em suas próprias soluções. O mesmo é verdadeiro para nós. Não precisamos de crítica interna, o que precisamos é a voz da compaixão que inspire confiança para seguir em frente e encontrar uma solução para o sofrimento.

Alguns formas de poder aprender a ter auto-compaixão seriam: reconhecer o sofrimento, tratar a si próprio como se fosse um amigo, lembrar-se de sua humanidade, praticar a atenção plena e meditação, além de praticar a bondade amorosa para si mesmo.

*tradução livre do texto “self-care; compassion” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

Benefícios dos Rituais

Na Nichiren Shu, assim como possivelmente em todas as religiões, existem certos rituais que são realizados como uma parte da prática. Para algumas pessoas, estes rituais podem parecer limitados. Algumas vezes nós pensamos com nós mesmos, porque fazemos a mesma coisa repetidamente; nada parece mudar; ou isto é chato e tedioso, porque não fazemos algo diferente?

No Budismo nós temos um objetivo em mente como razão para a nossa prática. Este objetivo é a iluminação. O Buda revelou o objetivo através de sua própria prática pessoal.

Primeiro ele se deu conta de uma razão para a prática, que é buscar um caminho para eliminar os sofrimentos da vida. Em seguida ele percebeu que a resposta não seria encontrada se continuasse a levar uma vida fácil e confortável no palácio com seu pai. Ele abandonou sua antiga vida como um príncipe e partiu para a prática asceta (austeridades) nas florestas. Após muitos anos suportando severas privações, ele sentou sob a árvore Bodhi e tornou-se o desperto, o iluminado, a quem chamamos Buda.

Se pensarmos em nossa prática Budista, a prática para atingir a iluminação, em termos de um guia e um viajante, podemos ver que como um viajante nós precisamos ter um destino ou um objetivo em mente. Hoje quando nós queremos viajar para algum lugar, muitas pessoas frequentemente recorrem aos seus GPSs, programam seu destino e então seguem as direções fornecidas. Não pensamos sobre isto, é algo comum, e consideramos sensato.

Nós fazemos a mesma coisa em nossa prática religiosa. Nós decidimos sobre um destino, se é o céu ou iluminação. Então encontramos um dispositivo GPS apropriado e seguimos as instruções fornecidas. Na prática religiosa nós substituímos nosso GPS com as instruções fornecidas por viajantes anteriores, como professores, que estabeleceram um mapa para usarmos como instruções de viagem.

Uma vez eu estava apegado a ideias erradas, e me tornei um professor dos aspirantes ao ensino de Brahman. Você expôs para mim o ensino do Nirvana, e removeu minhas ideias erradas porque você me entendeu.
(Sutra de Lótus, capítulo 3)

No Budismo Nichiren, nosso guia, nossos professores, são pessoas tal como Nichiren e outros antes dele, os quais ele teve como base para seus estudos. Em outras palavras, eles são professores que fizeram uma profunda viagem espiritual. Desde o tempo do Buda eles servem como nossos guias ao apontar um caminho para praticar uma fórmula ou ritual.

O ritual serve como uma estrutura inicial sobre a qual nós podemos construir nossa própria experiência espiritual. Nós usamos o ritual como um ponto de partida, que nos foi dada para que não tenhamos que iniciar do zero quando começamos nossa prática. Conforme passa o tempo, nós aprendemos mais e então podemos expandir o fundamento básico que nos foi dado por nossos professores.

É quase a mesma coisa em muitos esforços da vida. Nós poderíamos pensar nossa prática como estar em um mundo de ação, nos ajudando a entrar no mundo interior. Há segurança a medida que entramos no mundo interior pela ação, porque há um guia. Quando levantamos peso, nós temos um treinador, alguém que nos auxilia se estivermos fazendo algo errado ou com algum problema. Se é mergulho, paraquedismo, escalada em rocha, a lista poderia ser infinita, mas a fim de estar seguro, a fim de ganhar a experiência necessária, buscamos bons professores que irão orientar-nos a medida que aprendemos nosso caminho.

Rituais podem servir para abrir a janela da oportunidade, que é diferente de se aproveitar de uma janela de oportunidades já aberta – o truque é que eles abrem a janela mas eles não são a janela em si. Rituais devem e podem servir para ampliar as experiências e transcender – não limita-las.

Em nossas vidas nós contamos com a fé para muitas coisas. Nós temos fé que a ponte que atravessamos não entrará em colapso, temos fé nos edifícios que habitamos e trabalhamos. Nós temos fé em nossos carros. Fé é em certo grau uma maneira de renunciar o controle para aqueles que dominam a bela arte das coisas que desejamos compartilhar. O mesmo vale para religião. Nós temos fé nos professores e nos ensinamentos e nos damos conta que podemos não ter dominado tudo que há para se conhecer e saber, e nós confiamos nos professores para nos instruir.

Apesar de você saber todos os fatos de alguma coisa não significa que você tenha mudado significativamente sua essência da vida. Ter informação acumulada não equivale a ter feito um avanço significativo em mudanças realizadas. Rituais podem nos ajudar a transformar informação em realização. Rituais podem facilitar uma transcendência de um conhecimento sobre algo para na verdade manifestar o benefício daquele conhecimento.

Estas pessoas que se manifestam pelos meus poderes, ouvirão o Dharma de mim, recebam-no pela fé, sigam-no, e não se oponham a ele. (Sutra de Lótus, capítulo 10)

A medida que recitamos o sutra e o Odaimoku (Namu MyoHoRenGeKyo), nós, mesmo que brevemente, suspendemos nosso intelecto para criar espaço para o nosso interior surgir e se conectar com nosso conhecimento.

*tradução livre do texto “Benefits of Rituals” do Rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

Gassho.