A prática do Bodhisattva

Hotsu bodaishin (發菩提心):

É a aspiração de transformar nosso “eu” no “eu verdadeiro”, acordar para a mente “Bodai” (sânsc. Bodhi), que significa “iluminação” ou “sabedoria que conduz ao despertar”. Simplificando: Florescer a semente de Buda que temos em nosso interior

Mas essa semente de Buda está encoberta por desejos impuros, sendo essa a nossa condição normal em nossa vida diária. Então vivemos essa vida impura, porém em algum lugar do nosso coração podemos perceber nossa semente de Buda, e em razão disso devemos lapidar o nosso coração, e está força se chama “Shin” (fé).

Essa prática para florescer a semente de Buda se chama “Bosatsugyo” 菩薩行 (Prática de bodhisattva). “Bosatsugyo” é a ideia original de Budismo Mahayana.

“Hotsubodaishin” é a origem do caminho para Bodai, que significa: entusiasmo do iniciante para florescer a semente de Buda. Esse “Hotsubodaishin” é a causa e “Bodai” é o seu resultado.

Bosatsudo (菩薩道):

O ensino de Shakyamuni está aberto para todos. O Buda criou um caminho que qualquer pessoa pode avançar com a própria decisão. “Bosatsudo” é o “Caminho do Bodhisattva” do Budismo Mahayana. E essas pessoas que caminham nesse caminho puro são veneráveis.

As pessoas que caminham na via do Bodhisattva são comparáveis às Flores de Lótus Brancas do pântano.

Por exemplo, no Capítulo 15 do Sutra do Lótus têm uma frase que diz que o praticante da via do Bodhisattva não se contamina com as impurezas mundanas, e isso é como a Flor de Lótus que nasce no pântano e não se suja. As impurezas do mundo são comparáveis a água do pântano, e esses Bodhisattvas nascem neste mundo. Em outras palavras, Bodhisattvas não existem separadamente do mundo real, assim como o Lótus só nasce na água suja.

Quando nos deparamos com o sofrimento e preocupação, costumamos fugir, recusar e negar. Mas o Bodhisattva não fica alheio, ele encara a realidade de frente. Mais uma coisa importante: o Bodhisattva não se contamina com a sujeira existente no mundo real. E isso é comparável com a Flor de Lótus.

Flor de Lótus no Pântano:

Portanto, gostaria de explicar melhor sobre a prática do Bodhisattva em alusão a Flor de Lótus no pântano.

Logicamente, sabemos que a água do pântano é cheia de impurezas. Caso nos deparássemos com essa água suja ficaríamos enojados. E isso é uma reação natural de um ser humano. Porém qual seria a nossa reação se diante dessa água suja avistássemos algumas folhas verdes e caules com Flores de Lótus Brancas? Será que mesmo assim veríamos a água suja como algo imundo? Ficaríamos ainda mais enojados se houvesse as Flores de Lótus?

Talvez pela lógica, se compararmos a água suja com a Flor de Lótus, a água pareça ainda mais suja. Mas acredito que ninguém pense dessa forma.

Essa imagem em virtude da composição de cores e harmonia vai nos transmitir a beleza como em uma pintura.

O Lótus apesar de florescer na água suja não se contamina com a impureza dela, pelo contrário torna a impureza como parte da Flor de Lótus. Isso não anularia essa aversão que sentiríamos pela água suja?

A verdadeira prática do Bodhisattva comparada com o Lótus Branco no pântano é a ideia original do Budismo Mahayana.

O Dharma Maravilhoso do Lótus Branco

O que é prática do Bodhisattva? Pode se dizer que é praticar o Dharma.

O Dharma é como o Lótus Branco, portanto tanto o sofrimento e preocupação do mundo real, assim como o sofrimento e preocupação que temos no nosso coração são como a água suja do pântano. Não negar e se harmonizar a essa realidade é o ensinamento do verdadeiro Dharma.

E esse verdadeiro Dharma se chama “Myoho” 妙法 (Dharma Maravilhoso).

Como foi dito anteriormente o Lótus Branco no pântano é o mesmo que “Myoho”, ou seja, a prática do Bodhisattva.

Quando decidimos viver como a Flor de Lótus do Maravilhoso Dharma, abre-se um caminho novo. Essa decisão chama-se “Namu” 南無.

E esse “Myoho” é viver como o Lótus no pântano.

O “Myoho Renge Kyo” nos ensina que, o único objetivo do Buda foi mostrar o caminho que possibilita a todos os seres vivos atingir a Iluminação. O “Myoho Renge Kyo” é o ensinamento supremo assim como o Lótus Branco.

O “Myoho Renge Kyo” é um ensinamento para instruir os Bodhisattvas (ou seja, nós que estamos avançando no caminho), e também para proteger os que estão praticando esse caminho.

Simplificando, o caminho do Bodhisattva do Sutra de Lótus é o estudo e compreensão do Dharma (ensinamentos do Buda), e acreditar e colocar esses ensinamentos na vida diária.

Em outras palavras viver como o Sutra do Lótus, é a decisão chamada “Namu”, e juntando isso fica “NAMU MYOHORENGUEKYO”, e isso se chama “Odaimoku” 御題目.

O Odaimoku é o juramento de se viver como o Lótus Branco. Então recitar com boca, corpo e coração é um passo da prática do Bodhisattva do Sutra de Lótus.

*texto do rev. Yodo Okuda Shonin, da Nichiren Shu Brasil
**crédito da imagem: http://500px.com/photo/73747861/buddha-by-dhanushka-lakmal

O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: Kyo (parte 4)

Kyo é a tradução do termo sânscrito “Sutra”. O significado original da palavra em sânscrito é “fio”, “cordão” ou “trama”.

Foi originalmente usada no sentido de estabelecer uma relação entre palavras e os sermões de Buda, comentados em prosa. O termo “sutra” não é original nem exclusivo ao Budismo. As composições brâmanes pré-budistas são marcadas com a palavra “sutra”. Os escritos das doutrinas do Jainismo, um ensino popular na Índia durante o período de vida do Buda, assim como o cânone doutrinal de outras religiões indianas pós-budistas, é também chamado de “sutra”.

No entanto, no que se refere apenas ao senso budista, “sutra” se refere somente aos registros dos sermões e aos ensinamentos de Buda. Hoje, os sutras são transmitidos por escrito e traduzidos para muitas línguas.

Diz-se que Buda pregou um total de 84.000 sermões, mas não foi Shakyamuni quem escreveu esses ensinamentos. Sua transcrição, na verdade, foi feita por monges e discípulos tempo depois. Inicialmente, os sermões de Buda foram memorizados por aqueles que ouviram diretamente dele e, em seguida, transmitiram oralmente aos outros, que, por sua vez, memorizaram e transmitiram para outros, e assim sucessivamente durante muitos séculos. De fato, todos os sutras começam com a frase de abertura, “Assim eu ouvi.” Esta antiga tradição indiana de transmissão oral, em oposição à escrita, foi praticada durante o período de vida do Buda e mesmo depois, e ainda é observado entre mestres e discípulos hindus. Portanto “Sutra” ou “Kyo” também tem o significado de “palavra” do Buda.

Shakyamuni embora tenha deixado o corpo físico há quase 3.000 anos atrás, hoje ele ainda está vivo, através de suas palavras escritas no sutra. Portanto, se quisermos encontrar o Buda hoje, de acordo com nossa Escola, tudo que nós precisamos é abraçar o Sutra do Lótus e o seu coração e essência, que é o Odaimoku de Namu Myoho Renge Kyo. Nichiren Shonin explica este ponto em particular no “Kanjin Honzon Sho”: “As pessoas podem manifestar o estado de Buda de duas formas: encontrando o Buda e ouvindo o Sutra de Lótus, ou acreditando nos sutras mesmo que não seja capaz de ver (fisicamente) o Buda.”

No Kaikyoge (Versos de Abertura do Sutra) se lê: “Seremos capazes de atingirmos a iluminação ao ver, ouvir ou tocar neste sutra. Exposto está a verdade do Buda. Exposto está a essência de Buda. Cada palavra que compõe este sutra são manifestações do Buda. Como inúmeros méritos estão contidos neste sutra, todos os seres vivos são beneficiados por este sutra, sem qualquer impedimento e de maneira espontânea assim como o incenso é percebido por um objeto colocado próximo.”

Estamos, portanto fazendo o nosso melhor para sinceramente recitar o Sutra do Lótus e o Odaimoku cada manhã e noite, através da devoção não-egoísta. A cada pequeno esforço sincero, nossa vida se aproxima da vida de Buda e somos abençoados com todas as qualidades do Buda: a sua sabedoria, compaixão, paz profunda, bem como a felicidade, satisfação profunda e ilimitados méritos. Nichiren Shonin lutou toda a sua vida para ensinar que o Namu Myoho Renge Kyo é o presente que Buda deixou para todos nós.

Portanto, sinceramente abracemos este tesouro, e façamos de modo que o estado de Buda possa florescer em nossas vidas e nas vidas daqueles que nos rodeiam.

*tradução do texto do rev. Tarabini Shonin da Nichiren Shu Itália.
**crédito da imagem: http://500px.com/photo/48681972/budhha-peace-by-onu-

O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: Renge (parte 3)

Renge é a tradução do termo sânscrito “Pundarika”, escrito em caracteres chineses e significa “Flor de Lótus”. A palavra “Pundarika” significa literalmente “Lótus Branco”, símbolo do Bodhi, a pura e perfeita iluminação de Buda. Na arte budista flores de lótus são normalmente pintadas com oito pétalas. Estes oito pétalas são para indicar o Nobre Caminho Óctuplo, uma importante doutrina pregada pelo Buda (conheça o Nobre Caminho Óctuplo clicando aqui!).

O lótus é a única flor que floresce com as sementes já desenvolvidas. Normalmente, quando as flores florescem, as belas cores das pétalas e o seu perfume atraem abelhas e outros insetos. Nesse ponto, a flor é polinizada e, em seguida, seca e morre e, só mais tarde desenvolve uma fruta contendo sementes. Em contrapartida, no caso do lótus o processo é bastante diferente: na verdade, quando floresce já contém seus frutos: a vagem com sementes. Isto é extremamente raro no mundo das plantas.

No budismo, a flor de lótus, com as suas flores e frutos simultâneos, mostra visualmente a causa da própria planta (as sementes) e o resultado final (a flor). Na terminologia budista, esta relação simultânea é chamada “Inga Guji” e quer dizer “dotado ao mesmo tempo com causas e efeitos”. O princípio de causa e efeito é um dos mais importantes conceitos e fundamentos da filosofia budista.

O lótus cresce na água estagnada e lamacenta. Na realidade, quanto mais suja é a água mais bonita a flor se torna. Se nós estabelecermos uma analogia com nossas vidas, podemos demonstrar o fato de que através dos problemas e sofrimentos que vivemos todos os dias, podemos obter a pura e maravilhosa condição Iluminada, da mesma forma que o lótus surge imaculado a partir de águas sujas.

Todos os seres têm o potencial para a Iluminação. Assim, quando recitamos “Namu Myoho Renge Kyo” em frente do Mandala Gohonzon, a pura e bela flor da iluminação contida em nossas vidas pode florescer, amadurecer e prosperar.

Por outro lado, esta semente de Iluminação potencial (ou latente) deve ser alimentada, regada e tratada como quaisquer outros seres vivos. Isto pode ser feito através da alimentação do Sutra do Lótus, da recitação do sutra e do “Namu Myoho Renge Kyo” e nos dedicando ao Dharma. Sem uma prática e uma fé sincera, as sementes de iluminação ocultas em nossas vidas não podem receber alimentação e conseqüentemente não podem florescer, crescer e muito menos prosperar.

Nichiren Shonin escreveu no “Kanjin Honzon Sho”: “O Sutra Fugen diz: ‘Este sutra Mahayana (o Sutra do Lótus) é o tesouro, os olhos e as sementes da vida para todos os Budas do universo através do passado, presente e do futuro.’ Você deve se comprometer na prática budista e nunca permitir que as sementes da Iluminação morram’.”

*Tradução de um texto do rev. Tarabini Shonin, da Nichiren Shu Itália
**crédito da imagem: http://500px.com/photo/56135872/the-buddha-50%7C365-by-khang-huynh

Se preocupando menos com aparências externas

As pessoas comuns se importam apenas com as aparências externas. Se importam com os compromissos sociais por exemplo, visitas a um parente adoecido, casamentos, aniversários e outros, mas não participam de compromissos relativos a gratidão aos Três Tesouros e as cerimônias à seus antepassados.

Não queremos nos distanciar dos olhos do Buda, das divindades, antepassados e de todos que nos protegem, não é mesmo? Essa é uma história que consta no “Dai shogon ron”.

Certa vez, o Buda Shakyamuni foi para Sravasti. Em virtude disso muitas pessoas se reuniram nesse local. Havia um limpador de fossa chamado “Nidhai”, que fazia o mesmo percurso que o Buda do local de sua pregação. Mas o limpador com os trajes imundos se escondia do Buda por não se sentir digno com sua presença imunda: “Como eu poderia aparecer na frente do Buda assim?”

Então o Buda sabendo dos sentimentos de tristeza, utilizando-se de poderes sobrenaturais apareceu na frente de “Nidhai”. Nidhai disse ao Buda: “As pessoas se prepararam para receber o Buda, aspergindo perfume em todo local, para receber tão valiosos ensinamentos. Eu estou a carregar um cesto de excremento. Como posso ser digno de estar diante da vossa presença?” Dizendo isso ele fugiu mas o Buda apareceu novamente diante dele.

E o Buda disse: “Devido a um elo de bons carmas entre nós é que estou diante de você. Por isso te peço que não fujas de mim. Você tem sujidade pelo corpo mas no seu coração tem méritos maravilhosos, e exala um perfume maravilhoso. Eu não classifico as pessoas por serem nobres, pobres, por castas, classes sociais, apenas vejo os atos, carmas.”

Nidhai ouvindo isso, se emocionou e se tornou um monge. Algum tempo depois se tornou um arhat.
Porém os ricos e os brahmans que se reuniram em Sravasti ao saber que Nidhai havia se tornado monge disseram: “Uma pessoa imunda como ele, vir em minha casa com a sua tigela mendicante é nojento!”

E isso foi parar nos ouvidos do Rei Prasenajit. E o Rei disse: “Eu vou tomar providências para que ele seja excluído da Sangha.” E o Rei partiu para “Jetavana Anathapindadasya-arama” onde o Buda praticava. O Rei ao chegar diante do portão se deparou com um monge de pé diante de uma grande pedra. E a direita e a esquerda desse monge, divindades reverenciavam e aguardavam em Gassho.

Esse monge ao ser cumprimentado pelo Rei, imediatamente desapareceu dentro da pedra como se mergulhasse dentro da água. Anunciou ao Buda a chegada do Rei. E como se surgisse da água, guiou o Rei até o Shakyamuni Buda. E o Rei perguntou ao Buda: “Quem é esse monge maravilhoso que me guiou até aqui?”

E o Buda respondeu: “Aquele é o monge Nidhai. Das pedras da montanha achamos o ouro, e da lama floresce a flor de Lótus. Independente de onde nasce, veja apenas a sua prática e virtude”, aconselhou gentilmente. O Rei então, reverenciou o Buda e Nidhai e se afastou de volta.

E esse é o conteúdo dessa história, que nos alerta para não valorizarmos tanto a aparências externas e valorizarmos as virtudes e as práticas interiores.

Em Gassho!
Rev. Yodo Okuda Shonin
Nichiren Shu Brasil

*crédito da imagem: http://500px.com/photo/64233885/the-young-monk-3-by-alaa-alssadi

O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: MyoHo (parte 2)

“Myoho” é a tradução do termo sânscrito Saddharma. “Myoho” é muitas vezes traduzido como “Dharma Maravilhoso”, ou “Lei Maravilhosa” ou “Lei Mística” e como sugere a tradução propriamente dita, o seu significado é vasto e profundo.

“Sad” ou “Sat” em “Saddharma” corresponde à primeira sílaba “Myo” de “Myoho” e quer dizer “verdade”. “Saddharma”, portanto, significa “Dharma Verdadeiro” ou “Dharma Correto”. “Sad” também denota plenitude, ser totalmente dotado. “Myo” também significa “inigualável”, “místico”, “impossível de perceber (com os sentidos)”, “além da compreensão (dos seres humanos comuns)” e “maravilhoso”. Nichiren Shonin explicou que enquanto “Myoho Renge Kyo” é o coração e a essência do Sutra do Lótus, a palavra “Myo” em si é extremamente rica em significado.

Em 593 d.C. o grande mestre do Dharma, T’ien-t’ai, afirmou, no seu Fa-hua Ichi (jap. Hokke Gengi) que “Myo” tem um duplo significado.

O primeiro significado resulta de uma análise comparativa através da qual emerge a superioridade do Sutra do Lótus entre os ensinamentos de Buda.

O segundo significado de “Myo” diz respeito à “onisciência” do Sutra do Lótus, já que inclui simultaneamente cada uma das muitas doutrinas que Buda Shakyamuni pregou durante seus 40 anos de ensinamentos.

Nichiren Shonin explica nos escritos “Daimoku do Sutra de Lótus” (1266), “Kaimoku Sho” (1272) e “Kanjin Honzon Sho” (1273) que o caractere “Myo” é extremamente significativo. “Myo”, de fato, teria três significados:

1) abrir,
2) ser dotado e perfeito,
3) trazer de volta à vida, reviver, ressurgir, capacidade de transformar o veneno em remédio.

Em relação a estes três significados, Nichiren Shonin afirmou no “Daimoku do Sutra de Lótus”: “Se existe um armazém cheio de tesouros, mas não temos a chave, ele não pode ser aberto. Se ele não pode ser aberto, os tesouros em seu interior não podem ser vistos.” Diz ele no mesmo escrito: “Quanto ao Myo, o Sutra do Lótus diz que ‘este sutra abre as portas dos ensinamentos expedientes e revela o verdadeiro aspecto de toda a realidade’. O Grande Mestre do Dharma Chang-an comentou que ‘Myo revela as profundezas do armazém secreto.’ O Grande Mestre de Dharma Miao-lo explica que ‘revelar significa abrir’ .Logo, o caractere Myo significa abrir”. Em relação à segunda característica, ser totalmente dotado com todas as qualidades e todos os significados contidos no Sutra do Lótus, Nichiren Shonin diz em “Abertura dos Olhos”: “Myo significa Gusoku (ser perfeitamente dotado).” Ele explica ainda em “Daimoku do Sutra de Lótus” que “Myo é o princípio fundamental ou místico, contido em cada um dos 69.384 caracteres que compõem o Sutra do Lótus. O Sutra do Lótus, então, é composto de 69.384 princípios místicos”. Ele continua no mesmo escrito: “Myo significa perfeitamente dotado, o que, por sua vez, significa também perfeição. É como uma única gota de água do grande oceano que também contém a água de todos os diferentes rios que deságuam no mar.”

Referindo-se a terceira e última descrição de “Myo”, Nichiren Shonin escreve ainda no “Daimoku do Sutra do Lótus” que “Myo significa (fazer) reviver, trazer de volta à vida.” Ele diz no mesmo escrito: “As plantas e as árvores são sem flores e secas no outono e inverno. Porém, quando o sol de verão e primavera brilha sobre elas, florescem novos ramos e folhas que mais tarde darão flores e frutos. Antes da pregação do Sutra do Lótus seres dos nove mundos eram como árvores e plantas de outono e inverno. Mas, como o sol de verão e primavera, quando o Sutra do Lótus brilha sobre eles, pode então florescer a aspiração à iluminação e desejar o fruto da budicidade”.

Nichiren Shonin no mesmo escrito diz que: “Porque você pode curar o que se pensava ser incurável, é chamado de Myo ou místico”.

O que o caractere “Myo” “abre”? Como vimos a partir destas citações, “Myo” é uma chave para a grande esperança: a chave que abre o armazém de tesouros contidos no Sutra de Lótus, a iluminação perfeita e original do Buda do passado infinito. “Myo” desperta a natureza de Buda escondida nos recessos de nossas vidas. Abraçando a fé e a prática de “Myoho Renge Kyo” nós podemos revitalizar a nossa vida. Em outras palavras, partindo do estado de vida que nós nos encontramos, através de fé e prática, podemos transformar qualquer condição de vida negativa em iluminação. Desta forma, podemos desenvolver sabedoria e uma vida em que já não somos escravos do sofrimento. Em conclusão, Nichiren Shonin ensina-nos que é insondável ou “místico” a virtude de “Myo” em “Myoho Renge Kyo”, que nos ajuda a atingir o impossível e curar o incurável. Estes excertos dos escritos de Nichiren Shonin ilustram bem o sentido profundo da energia da única sílaba “Myo”, juntamente com uma forte razão pela qual a prática diária é tão importante.

*tradução de um texto do rev. Tarabini, da Nichiren Shu Itália.
**créditos da foto: http://500px.com/photo/47798268/the-buddha-and-the-buddhist-monk-by-qing-yue

Sobre os quatro sofrimentos – O Nascimento

“O mundo triplo não é pacífico,
É como uma casa em chamas.
É cheio de sofrimento.
É terrível.
Existe sempre os sofrimentos
Do nascimento, envelhecimento, adoecimento e morte.
Eles são como chamas
Cercando eternamente.”
Buda: Sutra do Lótus, capítulo III

Tradicionalmente existem quatro coisas dadas como sofrimentos da vida. Os quatro são nascimento, envelhecimento, adoecimento, e finalmente a morte. Hoje, e nos textos que seguirão nas semanas seguintes, escreverei sobre estes sofrimentos.

Recentemente, em uma lista de e-mail, uma questão surgiu sobre se o nascimento seria ou não uma coisa ruim, e se assim fosse, não temos que nascer para manter nossa prática de Bodhisattva e salvar todos os seres vivos? Uma distinção que eu queria fazer aqui diz respeito a idéia de que nascer seja bom ou ruim, mas na verdade separar isto entendendo como algo diretamente relacionado ao sofrimento.

Acho que se você perguntar a qualquer pessoa sobre nascimento, dirão que é algo bom, especialmente para os pais de um bebê recém nascido. Por outro lado, um nascimento pode ser um indesejável acontecimento, dependendo das circunstâncias. Estes valores de bom ou ruim são muito subjetivos, e potencialmente enganadores quando estamos falando sobre causas de sofrimento.

Sofrimento é em si meramente sofrimento, e também é um fato da vida. A primeira Nobre Verdade fala exatamente sobre este assunto. Acredito que o que o budismo nos ajuda a entender é que para cada ação que ocorrer existe um potencial de sofrimento. Quando nós entendemos isto nós podemos verdadeiramente começar a liberar a nós mesmos de mais efeitos do sofrimento, e quando isso acontece passamos a reagir menos àquele sofrimento de uma maneira que nos liberta dele.

Às vezes falarei sobre isto em termos de um contrato, um contrato onde há uma cláusula que diz: “algo pode dar errado e as coisas podem não dar certo ou durar para sempre”. Esta não é uma parte da realidade da vida em que nós estamos confortavelmente procurando ou até mesmo reconhecendo. Mas ainda assim esta parte ainda está lá. Ela está lá quando nós entramos no carro de manhã para ir trabalhar, ela está lá quando nós nos apaixonamos, ela está lá quando uma nova vida é trazida ao mundo. Nós escolhemos ignorar ela por várias razões, como uma maneira terrivelmente pessimista de viver, e então a realidade pode criar medo e conseqüentemente mais sofrimento.

Vamos hoje olhar para o nascimento. Eu suspeito que a maioria das pessoas quando pensam sobre nascimento neste contexto eles pensam sobre um bebe recém nascido, então vamos começar por aqui.  Eu conheço um sacerdote que fala sobre o terror ou trauma de um nascimento para o bebê. Aqui está o bebê que está deixando um clima perfeitamente controlado, um ambiente aquático confortável onde a comida é automaticamente suprida, um sistema de gerenciamento de desperdício incluído. A vida neste ambiente é apenas sobre perfeição para esta criança. Finalmente, no dia de nascimento, o bebê é jogado para fora deste ambiente perfeito para uma sala fria, cheia de luzes e pessoas, talvez muitas pessoas.

O bebê logo percebe que seu passeio na água confortável não existe mais e também percebe que se precisar de alimentação agora deverá fazer alguma coisa para que suas necessidades sejam satisfeitas. As coisas então começarão a ficar extremamente complexas para esta forma de vida desamparada. O trauma do nascimento coloca em movimento uma vida que até a morte é uma tentativa de manipular a vida de uma forma que permita a sobrevivência, alegria e felicidade são possíveis por produtos desta experiência, mas certamente sem prioridades. Sobreviver é a singela coisa mais importante da vida. E sim, diferentes formas de vida tên a habilidade de exibir compaixão e auto-sacrifício, mas estas vêm apenas mais tarde, sob seletas circunstancias.

Nascimento por si só é um evento que começa com um trauma, mas aquele trauma não reflete onde está ou não está o sofrimento. Na verdade, suspeito que o conceito ou experiência de sofrimento que se difere de dor, não desenvolve até um pouco mais tarde na vida. Eu não sou um grande conhecedor no desenvolvimento infantil, mas isto é o que suspeito que seja o caso, quanto a determinados sofrimentos.

Agora vamos considerar nascimento de outras formas. Todos os dias nós nascemos novamente para um novo dia de novas experiências. Sim, eles são novos, mesmo que eles sejam como outras experiências de outros dias. Todos os dias começam novamente, e cada momento começa também. De certa maneira, toda a nossa vida é definida por nascimento, incessante, incansável. Talvez por termos feito isto tantas vezes em nossas vidas, nós não nos damos a chance de pensar sobre, mas isso está lá e é o que acontece, ainda que não pensamos. Todo momento nós começamos novamente. Toda a segurança de ter sobrevivido até este momento se vai e a luta pela sobrevivência começa de novo, uma vez que nada é garantido na vida e nada dura para sempre, mesmo que aparente que não vá mudar, mudará.

Nós também damos vida a novas idéias e novos projetos em nossas vidas. Este nascimento de idéias pode ser excitante ou também pode ser assustador, vai depender de cada indivíduo. Freqüentemente, o nascimento de idéias seja uma causa para esperança e entusiasmo, contudo certamente nem sempre será. À medida que novas idéias estão nascendo dentro de nós, elas estão também seguras, porque elas não precisam se deparar com nenhuma expectativa de desempenho ou sucesso. Assim que elas nascem e são lançadas pelo mundo, então pode ser bastante desafiador mantê-las vivas.

Existe, como você pode ver, muitas maneiras de se considerar um nascimento. Ainda que um nascimento possa ser algo bom ou ruim, isto é um valor que atribuímos ao evento, e puramente individual e subjetivo. Mas nascimento é realmente uma causa do sofrimento, simplesmente porque justamente com aquele nascimento, qualquer nascimento, há aquela cláusula no contrato que declara: “Pode não durar, pode não ter sucesso, não permanecerá inalterada.” Também tenha em mente que sofrimento não é necessariamente uma coisa ruim ou uma coisa que precisa ser evitada.

Sofrimento, quando nós entendemos a natureza e a causa, pode se tornar um lugar fértil para crescer e estimular nossa vida à iluminação. É quando nós nos tornamos presos no sofrimento ou quando nós procedemos de forma inábil que o sofrimento é menos que o desejável. Se tornar vítima do sofrimento nos leva a sofrer ainda mais, assim como agir de uma maneira inapta. Novamente, sofrimento não é algo a ser evitado, uma vez que não dá pra ser evitado de qualquer forma.

Nascimento como um recurso potencial de sofrimento é um fato. Ele não é uma coisa ruim, nem boa, ele simplesmente é. Ele é neutro. O que nós fazemos com o efeito, que tem sido causado, é a chave para nos tornarmos verdadeiramente felizes e iluminados.

Na próxima semana escreverei sobre envelhecimento, e talvez não seja sobre o que você está pensando.

Em Gassho.
Namu Myoho Renge Kyo.

*tradução do texto “Four Sufferings – Birth” do rev. Ryusho Shonin, da Nichiren Shu.
**crédito para a foto: http://500px.com/photo/67395841/a-piece-of-heaven-by-alex-greenshpun

 

O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: Namu (parte 1)

Todos os dias na Nichiren Shu, nós recitamos o Sutra do Lótus e “Namu Myoho Renge Kyo”. “Myoho Renge Kyo” é o título completo do Sutra do Lótus e está contido no título de cada capítulo do Sutra.

Mas o que realmente significa cada palavra e ideograma? É possível receber méritos ou resolver problemas através da recitação do “Namu Myoho Renge Kyo”? É possível para os mortais comuns, como nós, tornarem-se iluminados como Buda? Como é que podemos alcançar a iluminação?

Examinaremos cuidadosamente o significado e as implicações profundas de cada palavra que constitui “Namu Myoho Renge Kyo”.

“Namu” vem do sânscrito “namas”, um termo de difícil tradução em uma única palavra quando traduzida para o chinês. Tal como acontece com muitas outras palavras em sânscrito encontradas nos sutras, os primeiros tradutores preferiram transliterar os sons da palavra original ao invés de traduzi-las. O antigo idioma chinês não incluía um alfabeto para a transcrição de cada letra em sânscrito, por isso foram atribuídos caracteres a fim de expressar o mais fiel quanto fosse possível o som da palavra original em sânscrito. “Namas” também foi escrito com outros caracteres chineses que reproduzem a mesma pronúncia, ou com outras variantes fonéticas, como “Nama” e “Namo”. A famosa expressão de saudação indiana “Namaste” também deriva a partir da raiz “namas”.

“Namu” ou “Namas” tem uma variedade de significados: significa literalmente devoção, em japonês “kimyo”. “Namas” tem também o significado de devotar/confiar as nossas vidas, expressar os nossos agradecimentos, respeitosa saudação, veneração, acreditar sinceramente e tomar refúgio. Durante o período de permanência no Monte Minobu, nos últimos anos de vida, Nichiren Shonin escreveu em “Hakumai Ippyo Gosho” (também conhecido como o “Ji-Ri Kuyo Gosho”): “A palavra Namu é um termo indiano que significa oferecer a própria vida. Na China e no Japão é expresso como kimyo e, basicamente, significa oferecer a nossa vida ao Buda.”

Nikkô Shonin, um dos seis principais discípulos, ao citar Nichiren Shonin no seu “Ongi Kuden” explica que “existem dois objetos de devoção: à pessoa, que é Shakyamuni, e ao Dharma, que é o Sutra do Lótus. Na expressão Kimyo, o caractere chinês Ki (fazer ou dar) indica o aspecto físico de nossas vidas, enquanto Myo (vida, escrito com um caractere diferente de Myo em Myoho) é seu aspecto espiritual”.

O termo “Namu”, por isso, assume o significado de uma plena e firme dedicação de nossa vida, tanto no seu aspecto físico quanto no espiritual. Em outras palavras, expressamos nossa confiança no Buda e em seus ensinamentos, em especial no Sutra do Lótus e, ao mesmo tempo nos consagramos (ao Buda e a o Dharma) de todas as maneiras possíveis.

Em seu sentido de devoção, confiar as nossas vidas ou tomar refúgio, “Namu” significa que nós nos abrigamos no Buda, quando somos abraçados por cada aspecto da infinita compaixão de Buda, de sua sabedoria e de sua vida Iluminada. Por outro lado, indica também que para alcançar este objetivo, temos de viver a nossa vida de acordo com o espírito e os ensinamentos de Buda.

Nichiren Shonin diz na carta “Presente de um fardo de arroz”: “Seja alguém rico ou não, a vida é sempre o mais precioso tesouro. Essa é a razão pela qual os santos e sábios dos tempos antigos ofereceram sua vida para o Buda e por isso eles foram capazes de obter a Iluminação”. E ainda mais: “Os mortais comuns podem obter a Iluminação se observarem uma coisa: fé determinada. Acima de tudo, fé é a vontade de compreender e viver o espírito, e não apenas as palavras dos sutras.” Na seção em prosa do capítulo “Juryo” (16º) do Sutra de Lótus nós encontramos a frase “Isshin Yoku ken butsu / Fuji shaku Shin’myo”, que significa literalmente “sinceramente pretendendo ver o Buda, não poupam a sua vida” . Estas frases finais mostram claramente que a nossa determinação, compreensão, refúgio e devoção devem conjuntamente surgir de forma não-egoísta através de sincera fé e prática.

*tradução de um texto do rev. Tarabini da Nichiren Shu Itália.

As paixões e o despertar

“Quando se entoa ‘Namu-myoho-renge-kyo’, mesmo fazendo amor, todas as paixões despertam e o sofrimento da vida e da morte é o nirvana” – Nichiren, em “As Paixões Despertam”.

“Perdoem-me, mas esse é o próprio núcleo da doutrina Mahayana. Nichiren acredita piamente que, como já somos budas e como o nirvana está presente aqui, neste mundo, até mesmo as nossas paixões expressam a natureza da pura realidade. Isso significa que, se tivermos firmemente em vista a nossa natureza de Buda, até os atos mais apaixonados permanecerão despertos. Nichiren despertava os dele repetindo o seu famoso mantra*, porém, há muitas outras maneiras de fazê-lo. (*nota do editor: O Odaimoku, Namu Myoho Renge Kyo, não é um mantra, este é um equívoco na interpretação do autor do texto original)

“Pessoalmente, acho esse ensinamento prazeroso, afirmativo, um grande alívio ! Até porque ainda não cheguei ao estágio de conseguir abrir mão das minhas paixões. Creio que a maioria das pessoas coincide comigo neste ponto. Mas eu quero muito me libertar do apego e da ilusão. Felizmente, Buda vem ao nosso encontro no meio do caminho. Nós adoramos fazer amor (ou comer batata frita ou qualquer outra coisa); tudo bem. Mas procure preservar a sua natureza de Buda ao desfrutar essas paixões. Pense nos outros, recite um mantra, irradie a generosidade do amor, não esqueça da respiração. Buda nos oferece várias maneiras de fazê-lo; também podemos inventar um jeito só nosso. Trabalhar para vir a ser Buda é uma prática espiritual dificílima”.

*Franz Metcalf. O que Buda faria? Ed. Pensamento, 2003, pág:69.
**crédito da imagem: http://500px.com/photo/67221631/buddha-at-sunrise-by-adrian-galli

As 6 Perfeições – Sabedoria

Temos aprendido sobre as seis práticas dos Bodhisattvas, que são: caridade, preceitos, tolerância, esforço, meditação e sabedoria. Nesta oportunidade, gostaria de compartilhar com vocês um pouco sobre a última das seis, a prática da sabedoria.

Deixe-me falar sobre algo que aconteceu recentemente. Estivemos visitando alguns asilos para idosos às terças-feiras. Durante a visita nós realizamos uma cerimônia budista pela felicidade das pessoas idosas que moram lá e também por seus antepassados. Após o cerimonial, costumamos falar um pouco sobre o Dharma. No entanto, era difícil para eles ouvir os nossos sermões. Sinceramente, nós não sabemos ainda se eles estavam acordados ou se estavam dormindo enquanto falávamos. Resolvemos então cantar algumas músicasAgora temos certeza de que eles estão acordados porque eles ainda cantam as músicas conosco, movendo seus corpos e batendo a palmas das mãos no ritmo de cada canção.

Um dia, quando nós visitamos o Island Home Care na Alexander Street perto da Rua Punahou, todos, não só os idosos, mas os trabalhadores e até mesmo o proprietário, se divertiam cantando tanto que eles me pediram para cantar mais. Eles queriam que eu cantasse algumas canções dos Beatles. Eu cantei a canção “Yesterday“. Então, eles me pediram para cantar mais uma canção. Eu estava tendo dificuldade em escolher uma canção, então, alguém disse, “Por favor, cante ‘Let it be! ’”. Pensei silenciosamente: Tudo bem, essa é uma canção que eu posso cantar… mas, espere, não existe um trecho na canção que diz ‘Mãe Maria venha a mim… ’? Pode um ministro budista cantar uma canção sobre a Mãe Maria? Mas, eu não desrespeito outras religiões. Eu respeito os cristãos também. Esse é o caminho que os budistas deveriam seguir, penseiDecidi cantar a canção após ver todos os rostos felizes esperando por eu começar a cantar. Então, eu comecei: “Quando eu me encontro em momentos de dificuldade/ Mãe Maria vem a mim/ Falando palavras de sabedoria/, Deixa estar…”. Que bela canção. Segundo a letra da música, as palavras de sabedoria são “deixe estar”. Parece uma maneira budista de ver as coisas como elas são. Além disso, depois que eu voltei para casa, eu pesquisei na internet e encontrei um artigo sobre as palavras “Mãe Maria na letra dessa música, dizendo que quando o compositor e escritor, Paul McCartney foi entrevistado, ele próprio afirmou que a “Mãe Maria” nesta canção foi sua própria mãe e não a Maria mãe de Jesus.

Agora, gostaria de falar sobre a diferença entre conhecimento e sabedoria.

Conhecer as coisas é chamado de conhecimento.

Conhecer as coisas e torná-las úteis e com sentido para sua vida é chamado de sabedoria. Portanto, aprender e praticar deveriam ser incluídos no significado de sabedoria. Temos aprendido muito sobre sabedoria budista desde que começamos a estudar sobre esse assunto, como por exemplo, o ensinamento das Quatro Nobres Verdades, o Nobre Caminho Óctuplo, os Quatro Sofrimentos, os Três Venenos, os Três Selos, o Caminho do Meio e etc. É muito bom ouvir e aprender sobre o Dharma de Buda, mas é um pouco difícil guardar todoesses conceitos logo que ouvimos sobre eles, não é? Mas, não se preocupe. Temos o Namu-Myoho-Renge-Kyo.

Você sabe por que o nosso fundador Nichiren Shonin recomendou fortemente para nós essa recitação? Porque, no 21º capítulo do Sutra do Lótus, o Buda Eterno Shakyamuni diz que “Todas as doutrinas possuídas por ele, todos os seus poderes sobrenaturais, o depósito de todos os seus aspectos essenciais secretos, e todas as suas mais profundas questões são reveladas e claramente expostas neste sutra”. Isso significa que o Buda Shakyamuni proclamou que ele colocou toda a sua sabedoria no Sutra do Lótus.

Em seguida, ele diz:

“Qualquer um que defenda este sutra irá se deleitar em interminavelmente expor os princípios das várias doutrinas e os nomes e as palavras desse sutra, como um vento que se desloca no céu aberto em toda parte, sem entraves ou obstáculos”.

Portanto, você pode defender o nome do Lótus Sutra, que é Myoho-Renge-Kyo. Basta colocar “Namu“, que quer dizer “Eu me dedico à e então ficará “Namu-Myoho-Renge-Kyo“.

A energia da sabedoria possuída pelo Buda Shakyamuni está aí. É por isso que Namu-Myoho-Renge-Kyo tem grande importância. Então, quanto mais você aprender e praticar o Darma, mais a sua recitação do Namu-Myoho-Renge-Kyo torna-se eficazNamu-Myoho-Renge-Kyo é uma palavra de sabedoria.

Na Coréia, eles recitam, “Namo-myop-pah-yon-fah-gyon“. Alguns chineses recitam “Namo-Myo-hua-lin-hua-chin“. Meu amigo indiano recita “NamoSaddharmaPundarika-Sutra“. E, outras pessoas em outros cantos do mundo cantam Namu-Myoho-Renge-Kyo . Realmente não importa como ou em que língua você recita nem quanto tempo você recita o título do Sutra do Lótus. Mesmo um famoso poeta japonês, Kenji Miyazawa, que foi um dedicado um seguidor do Sutra do Lótus recitava “NamoSaddharmaPundarika-Sutra“. Milhões de pessoas em todo o mundo estão recitando o Odaimoku porque nele contém sabedoria.

Por favor, vamos estudar e aprender sobre o Dharma de Buda para reforçar poder de nossa recitação de Namu-Myoho-Renge-Kyo. O nome do Lótus Sutra engloba e contém toda a sabedoria do Buda Shakyamuni. Acredite em mim e recite Namu-Myoho-Renge-Kyo. Essa é uma maneira de praticar sabedoria.

*texto do Rev. Imai Shonin da Nichiren Shu Havaí
**crédito da imagem: http://500px.com/photo/34513574/buddha-by-josh-bulriss-

Entrando no Sutra do Lótus

Existe um termo utilizado para determinar um grupo de escolas que se chama Hokekyo Schools, ou Escolas do Sutra do Lótus. Este termo é usado para categorizar escolas que tem como ensinamento e base principais no Sutra do Lótus. Hoje em dia temos a antiguíssima chinesa T’ient’ai, a japonesa Tendai e a linhagem que descendeu do monge Nichiren Shonin. Nichiren Shonin era um monge Tendai, assim como vários outros contemporâneos de sua época, como Dogen e Shinran, que mais tarde fundaram outras escolas. Nichiren passou sua vida estudando todos os sutras e todos os ensinamentos do mestre chinês Chih’i (T’ient’ai) até que descobriu no Sutra do Lótus as respostas para questões que tinha em sua época, defendendo e ensinando o sutra por todo o resto de sua vida. A escolha do texto abaixo se deu para entendermos um pouco da importância deste sutra para a tradição Mahayana. O Sutra do Lótus influenciou todo o budismo do leste e sudeste asiático, julgado um texto importantíssimo por grandes mestres, o rei dos sutras. A tradução de hoje é de um texto da revista Tricycle.com, intitulado “Entering the Lotus” do Michael Wenger, autoridade em estudos budistas de um dos principais centros Zen americanos. Embora seja um relato Zen, temos aqui uma boa oportunidade de aprender sobre o Sutra e o quanto ele é utilizado também em outras escolas, ainda que em proporção diferente das três escolas de Hokekyo.

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Michael Wenger explica como estudar o sutra abriu seu senso de prática.

Embora eu não tenha descrito isto na época, olhando para trás, Eu diria que minha primeira década de prática no Zen tenha sido focada em auto-aperfeiçoamento, especialmente em disciplina. Acho que eu aprendi muito, mas a maioria do que aprendi centralizava em mim mesmo: minhas fortalezas, minhas fraquezas, este tipo de coisa. Durante esta época, eu passei três anos em treinamento monástico no Tassajara Zen Mountain Center, e quando eu retornei, me senti estranhamente desorientado. Eu passei muito tempo examinando e trabalhando em questões pessoais, mas eu não estava particularmente feliz e de fato me senti muito desvinculado de minha vida. Algo parecia estar faltando em minha prática. Eu comecei a me perguntar, bem, e agora?

Foi nesta época que eu iniciei um estudo intensivo do Sutra do Lótus.  Eu realmente não poderia explicar porque eu estava tão atraído pelo sutra, ao menos no começo. Não estava claro pra mim mesmo. Depois de um tempo, no entanto, eu percebi que o sutra era pra mim muito menos um texto, mas o verdadeiro cenário de minha vida. Estudar o sutra abriu meu senso de prática. A prática não era apenas sobre mim. O domínio da prática transmitida pelo Sutra do Lótus inclui todo mundo e todas as coisas. Este sentido de incluir todas as coisas era o que estava me faltando.

No leste da Ásia, o Sutra do Lótus tem sido considerado o rei dos sutras.

O contemporâneo mestre vietnamita Thich Naht Hanh ecoa esta perspectiva quando descreve o sutra como: ‘A mais bela flor no jardim dos sutras do budismo Mahayana.’

Na introdução de sua tradução para o Sutra do Lótus, W.E. Soothill escreve: “Desde o primeiro capítulo, descobrimos o sutra do Lótus como único no mundo da literatura religiosa. Um esplendor apocalíptico, ele apresenta um drama espiritual da mais alta ordem, com o universo como seu palco, a eternidade como seu período e Budas, deuses, homens, demônios como personagens.” Com sua enorme escala, seus maravilhosos eventos, sua exuberante linguagem, o sutra expressa a visão budista da compaixão com uma força peculiar. De fato, seu poder em inspirar pode até mesmo se tornar um problema, invocando não apenas fé, mas uma espécie de intoxicação. Então, devemos abordá-lo tanto com a mente aberta quanto com cuidado.

Para muitos estudantes ocidentais do Zen, e estudantes de outros caminhos meditativos, o estudo dos sutras, incluindo o Sutra do Lótus, pode parecer um pouco estranho. Nós nos lembramos da descrição do Bodhidharma do Zen como uma “transmissão especial fora das escrituras”. Estamos familiarizados com a famosa história de Hui Neng incendiando as escrituras. É-nos dito para não confiar em “palavras e letras”. Então, nós tendemos em suspeitar do estudo do sutra, pensamos nisto como uma distração intelectual do que é essencial na prática. Há alguma verdade nisso, mas é apenas metade da história.

A outra metade é que o estudo dos sutras tem sido sempre uma parte integral da prática budista. Este é certamente o caso do Zen, especialmente quando se trata do Sutra do Lótus.

Em seus próprios escritos, Eihei Dogen, o fundador da escola japonesa Soto Zen, citou o Sutra do Lótus mais do que qualquer outro texto. Em sua obra-prima, Shobogenzo (Um Tesouro da Visão do Verdadeiro Dharma), ele cita o Sutra do Lótus extensivamente, mesmo tirando daí os títulos de alguns capítulos.

O título de um capítulo chamado “Butsu yo Butsu” (“Buda e Buda”) refere-se à afirmação do Sutra do Lótus de que “apenas um Buda junto com outro Buda pode compreender a realidade de toda a existência.” No capítulo “Hokke tem hokke” (“O Lótus se torna o Lótus”), Dogen pergunta: “Você se torna o Sutra do Lótus, ou o Sutra do Lótus se torna você?” Em outras palavras, ele está nos dizendo para não sermos empurrados pelo sutra. Não tome o sutra para ser um objeto separado de você mesmo. Em vez disso, torne-se o sutra, e ao fazer isto, você demonstra seu significado diretamente.

O mestre Zen do século XVIII Hakuin Ekaku é considerado o pai do moderno Zen Rinzai, e seu koan “Qual é o som de uma mão?” é um dos mais famosos. Ele também organizou centenas de koans tradicionais em um sistema que é utilizado ainda hoje no treinamento Rinzai. A associação de Hakuin com o estudo de koan é profundo e bem conhecido, bem mais conhecido que seu profundo envolvimento com o Sutra do Lótus. Mas o sutra do Lótus foi crucial para Hakuin. Ele escreveu sobre suas lutas com o sutra, dizendo como sua dúvida e decepção com o sutra abriram caminho para a percepção de que ele era de fato um “registro perfeito” do Buda-dharma. Uma noite, diz ele, sentado estudando o Sutra do Lótus, o barulho de um grilo ocacionou uma experiência de kensho, ou iluminação súbita, em que ele penetrou profundamente no significado do sutra e todas suas dúvidas foram completamente resolvidas.

O Sutra do Lótus é vasto e difícil de entender, como a mente de um Buda. Nós não encontramos nele, como encontramos em muitos outros sutras, uma explicação sistemática de um tema. Como uma força da natureza, o Sutra do Lótus não pode ser domesticado para atender nossos planos.  Isto pode criar problemas quando se tenta ensiná-lo.

Shunryu Suzuki Roshi, o fundador do San Francisco Zen Center e do Tassajara, tentou muitas vezes dar uma série de palestras sobre o Sutra do Lótus. Ele nunca fez isto completamente. Ele começava falando sobre quem estava presente – os vários Budas, bodhisattvas, deuses, criaturas mitológicas, discípulos e assim por diante – e logo era a hora de terminar a palestra. Na aula seguinte, ele começava novamente, e a mesma coisa acontecia. Mas talvez isto era o suficiente.

Quando eu comecei a estudar o Sutra do Lótus, eu ficava procurando por sua mensagem explícita. Eu nunca a encontrei. Isso não quer dizer que o sutra não tem ensinamentos. Na verdade, ele está repleto de ensinamentos, sobre como os Budas usam vários meios hábeis para conduzir os seres à libertação, como todos os seres tem a capacidade de atingir a iluminação, sobre o poder da fé no Buda, sobre a natureza da mente iluminada que não tem começo, nem fim, e assim por diante. Mas tudo isso é apresentado não como o real ensinamento do Sutra do Lótus, mas como um tipo de preparação para ouvi-lo. Eu me perguntava por que o texto vai e vai criando o cenário para a pregação do sutra, mas nunca parece realmente chegar a ele. Eventualmente me dei conta de que o texto está atraindo você para uma experiência. Ele te coloca exatamente ali mesmo, praticando com inúmeros outros na presença dos Budas. Esta é a mensagem.

Quando eu palestro sobre o Sutra do Lótus, eu costumo começar com o koan “Manjushri entra no portão”, o primeiro caso da coleção do clássico A Flauta de Ferro. Na mitologia budista, o bodhisattva Manjushri é a personificação da sabedoria, e uma estátua dele fica em cima do altar principal nas salas de meditação Zen-budistas. No koan, o Buda chama Manjushri, que está do lado de fora da porta do templo, “Manjushri, Manjushri, porque você não entra?” Manjushri responde, “Eu não vejo qualquer coisa daqui de fora do portão. Porque eu deveria entrar?”

Eu gosto da resposta de Manjushri, mas parece um pouco dissimulada. Ele está dizendo que ele não consegue discriminar entre o que está dentro do portão e o que está de fora. Mas, ainda assim, ele opta por não entrar. Então, eu acho que ele não vê a diferença. Talvez ele devesse aceitar o convite do Buda para entrar no templo. Verdadeiramente entrar no portão – verdadeiramente conectar-se com os ensinamentos do Buda – é experimentar diretamente que não existe dentro e fora. Isto não é apenas uma idéia: você não pode entender isto pelo lado de fora. Ao entrar, no entanto, não ache que você está dentro e os outros ainda estão lá fora. Todo mundo entra com você.

Entrar no portão significa entrar em sua vida. Entrar no Sutra do Lótus significa entrar em sua vida. Isto é prática. Praticar significa permitir que o Sutra do Lótus entre em você. Praticar desta maneira é arriscar ter seu entendimento das coisas revirado, não uma, mas várias vezes. Para isto é necessário fé, fé o suficiente para arriscar a própria fé. Portanto, temos uma escolha. Podemos assistir a vida acomodados na margem, ou podemos arriscar nosso orgulho, nossas idéias, e tudo aquilo que nós usamos para separar nós mesmos dos outros e saltar profundamente dentro de nossas vidas. Dê este salto e você encontrará o Sutra do Lótus aonde quer que você vá.

*Sobre o autor: Michael Wenger é o Decano (autoridade) em estudos budistas no San Francisco Zen Center; e o editor de Wind Bell: Teachings from the San Francisco Zen Center, 1968-2001.

**tradução livre do texto Entering the Lotus, publicado no site Tricyle.com: http://www.tricycle.com/special-section/entering-lotus-0 (esta tradução não deve ser publicada fora deste site sem a autorização do autor e do site Tricycle, para não prejudicar quem traduziu, não prejudicar o blog e nem ferir direitos autorais)