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    Como investigar um Guru

    O uso indevido da devoção ao guru
    Texto escrito por S.S. Gyalwang Drukpa

    Atualmente, é muito freqüente, especialmente entre os praticantes do Vajrayana, que haja uma concepção errônea de devoção ao guru ou que, em nome dele, seja feito mau uso dele. Em sânscrito, o “Guru” tem um significado muito profundo, porque se refere a quem dissipa as trevas da ignorância, de modo que um guru carrega consigo todo o peso das qualidades de realização, compaixão e sabedoria. Infelizmente, na época degenerada em que nos encontramos hoje, como praticantes do Vajrayana, sempre temos que enfrentar a confusão sobre a devoção ao guru. Quando nos declaramos como praticantes do Vajrayana, eles nos dizem que iremos para o inferno Vajra se duvidarmos de nossa linhagem ou das atividades de nosso guru.

    No Vajrayana somos ensinados que “as atividades do Guru são as atividades do Buda”. Nisto existe um grande MAS, porque isso depende se o guru é iluminado ou não. Estamos no século 21 e, como estudantes, devemos ter a oportunidade de investigar. Buda Shakyamuni sempre diz que, como estudantes, devemos investigar completamente nosso guru. Somente depois de você ter investigado o seu guru com todo o cuidado é quando você confirma o início da prática no caminho do Vajrayana.

    Além disso, depois de dar muitos ensinamentos profundos, Buda Shakyamuni disse a seus discípulos: “Eu dei os ensinamentos, e agora você tem que verificar e investigar antes de se mudar realmente não tem que seguir qualquer coisa só porque é minha doutrina…” No nosso caso, portanto, temos que verificar e investigar os ensinamentos de nossos professores e depois decidir se queremos continuar ou não.

    Algumas pessoas pensam que não é importante se o guru é iluminado ou não; que enquanto ele ou ela ensina o Dharma, os estudantes podem alcançar a iluminação em uma vida. Duvido. Vamos dizer que você está tendo aulas de culinária e talvez o professor seja um chef famoso porque ele ou ela sabe como se promover comercialmente; No entanto, já experimentou a comida que ele cozinha? Este famoso professor dá-lhe receitas de comida deliciosa, mas ele ou ela cozinhou essa receita ou ele só tem conhecimento intelectual? Ele ou ela tem conhecimento experimental ou experiência na cozinha?

    O conhecimento proveniente da experiência é muito importante no relacionamento guru-discípulo. Por essa razão, no Vajrayana, o relacionamento puro de um guru qualificado e de um estudante qualificado é extremamente vital para alcançar a iluminação em uma única vida. Mas, novamente, quero lembrá-lo de que você deve primeiro investigar o guru, tomar o tempo necessário para descobrir quais qualidades ele possui e quais atividades ele desenvolve, para conhecer sua linhagem.

    Como estudantes, não devemos negar esse direito fundamental. Em última análise, praticamos para atingir a iluminação e beneficiar todos os seres. Não é que você deva se juntar aos vencedores como se fosse um fã cego perseguindo uma celebridade; nós não estamos aqui em um fã-clube; e, obviamente, você não quer ser pego em um culto em que você perde sua inteligência básica e bom senso. Você tem que ser o mais normal possível e ter uma mente mais aberta e ampla – mais espaçosa – depois de seguir um genuíno guru e linhagem. Não há linhagem se o guru não é genuíno e não há guru se a linhagem não é pura.

    Se o seu guru pedir para você salte do 20º andar e tiver muitas dúvidas sobre isso, você pode se curvar diante dele ou dela, dizendo sem raiva: “Não adianta pular, então eu não gostaria de fazê-lo”. No Gurupancashika ( “50 versos de devoção ao Guru”) no versículo 24 diz muito claramente: “Se você não tem o conhecimento ou capacidade de fazer o que o guru lhe diz, explique com palavras educadas porque você não pode obedecer “.

    Se o guru lhe pede para fazer algo que parece certo, mas você não pode fazer ou aceitar, você pode pedir a ele que lhe explique para esclarecer suas dúvidas. Por exemplo, eu, como seu guru, posso lhe dizer: “Não tire os sapatos no meu quarto”. Sinta-se com toda a liberdade para me perguntar: “Por que você quer que usemos sapatos no seu quarto?”, Porque isso é algo que você não gosta, e você gosta da idéia de tirar os sapatos, mas não eu. Você pode me perguntar o motivo, porque você não sabe, e eu devo ter uma boa razão para você não tirar os sapatos. “Boa razão” significa que a razão deve ser lógica para se sentir confortável usando sapatos no meu quarto; na razão, deve haver bom senso.

    É injusto e ilógico que eu, como seu guru, espere que você, como meu aluno, aceite tudo o que eu digo, sem que você tenha a oportunidade de investigar e pensar. Eu, como seu guru, devo ter uma boa razão lógica e de sentido comum para lhe dizer algo assim, e então, de agora em diante, você colocará seus sapatos no meu quarto porque você conhece e entende. E até esse momento, você tem o direito de perguntar, mas não com raiva, mas você tem que entender a lógica da instrução do guru.

    Em uma das vidas anteriores do Buda como um discípulo de um brâmane, ele tinha um guru que dizia a seus alunos para roubar coisas para ele. Sua lógica era que, desde que o universo foi criado por Brahma, era bom para eles, como brâmanes ou filhos de Brahma, levar as coisas que pertenciam a seu pai sem pedir por eles e que isso não deveria ser considerado um roubo. Mas o Buda não seguiu as instruções do seu guru, pois ele disse: “O roubo nunca é religioso”, e explicou de muitas maneiras porque o roubo não era bom e porque prejudicava os outros. O Buda se tornou um dos melhores discípulos de seu guru.

    Publicado no site Drukpa México em 15/11/2014

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    Amor essencial

    É certo que amemos uns aos outros. Mas isso não deve, de maneira alguma, ser algo imperativo ou uma obrigação.

    Muitos de nós passam a procurar essa centelha de energia invisível em relacionamentos, coisas vivas e não vivas, em experiências passadas e prospecções futuras.

    O olhar de cada um deve se voltar para onde se pode respirar o aqui e o agora e então responder: como podemos nos emancipar do ego? Amando de verdade.

    Entregar-se a esse chamamento da experiência humana é livrar-se das amarras. Assim, poderemos ser exemplos claros de amor e aspirantes da felicidade do outro.

    Um dos maiores mestres da linhagem Drukpa e Nyingma atualmente, Drubwang Tsoknyi Rinpoche, em seu livro “Coração Aberto, Mente Aberta” – lançado recentemente pela editora Lúcida Letra em território brasileiro – fala especificamente sobre esse amor essencial e seu poder desperto.

    “Em cada um de nós, há um princípio luminoso de brilho incomparável, uma natureza aberta, calorosa e destemida”.

    Para ele, aqui dentro, temos uma fonte inesgotável de amor, oferta e compreensão. Uma ferida no templo é, porventura, um buraco ou uma saída para essa luz, esse brilho, essa nova consciência surgir?

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    A empatia atravessa paredes

    A habilidade que nos faz humanos não é meramente a nossa capacidade de sentir. Ora, os animais sentem como nós: eles amam, desejam, sofrem com a perda, têm dor e morrem.

    São, portanto, seres que percebem e captam o mundo ao seu redor através dos sentidos; são seres sencientes.  Nós, humanos, somos do mesmo jeito e, por vezes, esquecemos que também nos creditamos nas fileiras biológicas do reino animal.

    O que nos difere dos demais é o nível elevado de consciência que podemos atingir, gerando sentimentos como a empatia.

    E esta é uma palavra que hoje “está na moda”. Está na boca do povo e, devido a este anestesiamento com o termo sendo usado de novo e de novo, seu significado vai perdendo igualmente sua força motriz.

    Ela, a empatia, caminha além das margens do “sentir pena” ou da solidariedade. É a extensão energética da nossa humanidade enquanto adjetivo. É quando vemos o outro como parte integrante e inseparável de nós, onde o ego não mais reside.

    “A empatia nos permite ultrapassar as diferenças e nos conectar como iguais. Isto acontece, então, atravessando diretamente as paredes que construímos ao nosso redor e nos permitindo tocar o núcleo da nossa igualdade: a capacidade de experimentar dor e alegria”.

    O mestre tibetano Ugyen Trinley Dorje, o 17º Karmapa, lançou esta ideia em seu livro “Interconectado: Abraçando a vida em nossa sociedade global” (em livre tradução para o português), pontuando que não há separação entre quem escreve e quem lê, quem nasce e quem morre, quem é pleno e quem sofre, quem acorda e quem dorme.

    Associada à compaixão, a empatia é uma das virtudes que se abre por si só. Não é possível ensiná-la em livros, ou aulas ou retiros. A empatia pode ser apenas vivenciada.

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    Um mestre brasileiro do Budismo dos Himalaias

    No sopé dos Himalaias, um jovem brasileiro se tornaria mestre. Na edição nº 20 do podcast Iluminação Diária, projetado pelo portal Sobre Budismo, o Lama Jigme Lhawang falou um pouco sobre seu envolvimento com o Dharma.

    Desde a primeira vez que meditou ao lado de seus pais, com apenas 5 anos de idade, até a necessidade de procurar por algo a mais na puberdade, ele já sabia que seu caminho seria rumo ao processo interior.

    Aos 15 anos, foi morar em um centro rural budista e iniciou então seus estudos com Chagdud Tulku Rinpoche, uma das maiores referências do Budismo tibetano no Brasil. Pouco depois da morte de seu mestre, foi à Índia mesmo sem saber falar inglês direito.

    Apesar da suposta barreira da linguagem, o gaúcho se adaptou bem e estudou tanto inglês quanto tibetano (ao menos, a língua coloquial), entrando em mosteiros a princípio como noviço e, na sequência, como monge iniciado.

    Em cinco anos, aprendeu a história do Budismo, o caminho do bodisatva, filosofia e lógica em tibetano e os temas principais do caminho budista, contando também com muito autoestudo, instruindo-se horas a fio em seu quarto diante dos livros e dedicando seu tempo e energia à meditação.

    Por dois meses, fez uma peregrinação pelos Himalaias com Sua Santidade Gyalwang Drukpa, junto com um grupo de alunos, e acabou ficando lá, sozinho, por mais seis meses em retiro dentro de uma caverna.

    Quando saiu, foi chamado por Sua Santidade para estudar com ele no Nepal, devido à sua abertura para o novo. Dessa forma, voltou a praticar a fundo a língua tibetana em um curso na Universidade de Katmandu, tornando-se assim tradutor/intérprete em outros cinco anos.

    E durante mais um retiro, agora atuando como tradutor de S. S. Gyalwang Drukpa e Sua Eminência Gyalwa Dokhampa, ambos os mestres o ordenaram como lama, a fim de Jigme Lhawang veicular aqueles ensinamentos da linhagem na América do Sul.

    Dito e feito: hoje ele é fundador e diretor da Comunidade Budista Drukpa Brasil, a residir em Recife, capital pernambucana.

    Confira na íntegra o papo que tivemos com o mestre brasileiro do Budismo dos Himalaias:

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    Bodhisattvas: Mandala dos guerreiros do despertar #1

    Se você gosta de Arte, mandalas, mantras e Budismo, então você vai gostar do conteúdo deste artista, Jigme Wangchuck.

    Porque gostamos do conteúdo? Ele mescla a tradição da caligrafia tibetana com mandalas e mantras e conta como cria seus trabalhos, como se sente, quais são suas inspirações.

    MANDALA TIBETANA DA SABEDORIA PARTE1

    Um trecho do último post que ele fez:

    “Você sabe o que é um Bodhisattva? É um ser que despertou a bodhichitta que é o desejo compassivo de alcançar a iluminação para o benefício de todos os seres e também o desejo conduzir todos os seres para este estado desperto. São os guerreiros do despertar.

    Porque estou lhe contando isso? Desde que comecei meu caminho no Dharma, que são os ensinamentos de Buda, fiz um voto de levar benefício para todos os seres. No início eu fiquei meio assustado, pois se não estava conseguindo me beneficiar, como iria levar isso para TODOS os seres.

    Então entrei no caminho budista e estou nele até hoje para desenvolver isso, o desejo de levar benefícios temporários e definitivos para todos os seres. Me sinto muito bem por ter escolhido isso. Isso não é nem uma pregação budista, até mesmo porque, se algum praticante budista tentar te converter, corra, esse não é o objetivo dos ensinamentos do Buda. O cerne do que o Buda ensinou é: “Levar benefício aos seres, evitar causar mal aos seres e dominar a própria mente”.”

    Leia mais no link a seguir: Bodhisattvas: Mandala dos guerreiros do despertar #1

     

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    A chave da prática é a consistência

    “Quando a prática for boa, tente não ficar muito excitado ou usar esse nível de concentração e inspiração como o padrão para toda prática futura. Tsele Natsok Rangdröl disse que praticantes do darma não devem ser como crianças que ficam tão excitadas em um parquinho de diversões cheio de brinquedos que ficam incapazes de escolher com qual vão brincar e terminam não fazendo nada.

    Quando sua prática não ir bem, não deixe isso sabotar ou desgastar sua determinação. O conselho que Jigme Lingpa dá é, ao repentinamente se deparar com circunstâncias ruins e obstáculos, considere tudo como as bênçãos compassivas do mestre, do darma e do resultado da prática. Nossas vidas serão estimuladas pela prática. Podemos até atrair obstáculos, como Buda Shakyamuni, que atraiu a ira de Mara nas horas antes de alcançar a iluminação. Dificuldades são, então, um sinal que sua prática está funcionando e deveriam te fazer feliz.

    A chave é consistência. O que acontece com frequência é que, no calor da inspiração, praticantes exageram na dose da prática, depois se sentem profundamente frustrados quando falham em vivenciar um bom sonho, não conseguem se concentrar adequadamente ou manter a calma. Tendo praticado até se fartar, eles param por uns meses, e quando eventualmente retornam, estão de volta à estaca zero.

    Nesse ritmo, o progresso é muito lento. Uma abordagem muito melhor é a da tartaruga. Cada passo parece uma eternidade, mas não importa quão desanimado se sinta, continue a seguir a agenda de sua prática de modo preciso e consistente.

    É assim que podemos usar nosso maior inimigo, o hábito, contra ele mesmo. O hábito gruda em nós como uma sanguessuga, ficando mais rígida e teimosa a cada momento, e mesmo que consigamos espantá-la, ainda ficamos com uma lembrança de sua existência que provoca coceira. Ao se habituar à prática do darma regular, no entanto, usamos nosso inimigo contra ele mesmo ao contrabalançar maus hábitos com o bom hábito da prática. E, como Shantideva, apontou, nada é difícil uma vez que você se acostume.” Texto escrito por Dzongsar Khyentse Rinpoche

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    A vida é como um piquenique em uma tarde de domingo

    Este texto é do grande mestre Chagdud Tulku Rinpoche que ensinou no Brasil e fundou o Chagdud Gonpa Brasil.

    “A vida é como um piquenique em uma tarde de domingo — ela não dura muito tempo. Só olhar o sol, sentir o perfume das flores ou respirar o ar puro já é uma alegria. Mas se tudo o que fazemos é ficar discutindo onde pôr a toalha, quem vai sentar em que canto, quem vai ficar com o peito ou a coxa do frango…, que desperdício! Mais cedo ou mais tarde o tempo fecha, a tarde cai e o piquenique acaba. E tudo o que fizemos foi ficar discutindo e implicando uns com os outros. Pense em tudo que se perdeu.

    Você pode estar se perguntando: se tudo é impermanente, se nada dura, como pode alguém viver feliz? É verdade que não podemos, de fato, agarrar ou nos segurar às coisas, mas podemos usar esse conhecimento para olhar a vida de modo diferente, como uma oportunidade muito breve e rara. Se trouxermos à nossa vida a maturidade de saber que tudo é impermanente, vamos ver que nossas experiências serão mais ricas, nossos relacionamentos mais sinceros, e teremos maior apreciação por tudo aquilo que já desfrutamos.

    Também seremos mais pacientes. Vamos compreender que, por pior que as coisas possam parecer no momento, as circunstâncias infelizes não podem durar. Teremos a sensação de que seremos capazes de suportá-las até que passem. E com maior paciência seremos mais delicados com as pessoas a nossa volta. Não é tão difícil manifestar um gesto amoroso quando nos damos conta de que talvez nunca mais estaremos com a nossa tia-avó. Por que não deixá-la feliz? Por que não dispor de tempo para ouvir todas aquelas histórias antigas?

    Chegar à compreensão da impermanência e ao desejo autêntico de fazer os outros felizes nesta breve oportunidade que temos juntos, constitui o começo da verdadeira prática espiritual. É esse tipo de sinceridade que efetivamente catalisa a transformação em nossa mente e em nosso ser.
    Não precisamos raspar a cabeça nem usar vestes especiais. Não precisamos sair de casa nem dormir em uma cama de pedras. A prática espiritual não requer condições austeras — apenas um bom coração e a maturidade de compreender a impermanência. Isso nos fará progredir.”

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    Seja o quer for que aconteça, estarei feliz!

    Trecho retirado do livro “As essência da compaixão – As 37 práticas do bodisatva”.

    Quem proferiu esses ensinamentos foi o grande mestre tibetano Gyalse Ngulchu Thogme (1295-1369) ao se encontrar com a saúde em declínio e com a idade avançada.

    “Se este corpo ilusório, ao qual me apego como sendo meu, está doente – que fique doente!
    Esta doença possibilita a exaustão
    Do mau carma que acumulei no passado,
    E os efeitos espirituais que posso realizar
    Ajudam-me a purificar os dois tipos de véus (o véu, ou obscurecimento, criado pelos kleshas (emoções perturbadoras) e o véu que cobre o conhecimento último)

    Se tenho boa saúde, estou feliz,
    Pois, quando o corpo e a mente estão bem,
    Posso incrementar a prática espiritual,
    E dar um significado verdadeiro à existência humana,
    Direcionando o corpo, a fala e a mente para a virtude.

    Se estou pobre, estou feliz,
    Pois não tenho riquezas para proteger,
    E sei que todas as rixas e animosidades
    Brotam das sementes da ganância e do apego.

    Se estou rico, estou feliz,
    Pois a riqueza me permite realizar mais ações positivas,
    E tanto a felicidade temporária quanto última
    São resultado de feitos meritórios

    Se eu morrer em breve, é excelente,
    Pois, auxiliado por algum bom potencial, tenho confiança de que
    Entrarei no caminho correto
    Antes que qualquer obstáculo possa interferir.

    Se eu viver bastante, estou feliz,
    Pois, sem me afastar da cálida chuva benéfica das instruções espirituais,
    Poderei, durante um longo período, amadurecer por completo
    A colheita das experiências internas.”

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    Como lidar com o estresse

    “Todo o sofrimento do mundo vem do fato de pensarmos em nós mesmos.
    Toda a felicidade do mundo vem do fato de pensarmos nos outros.” – Shantideva

    Por: S.S. Gyalwang Drukpa – Do livro: Iluminação Diária

    O estresse é um dos problemas mais graves de nossa vida. É muito comum e um tema importante a ser discutido. Como se trata de uma das maiores distrações, precisamos entender nossa relação com ele, descobrir sua causa, por que trabalhamos muito em troca de nada e cometemos tantos equívocos.

    Meus amigos, pelo que me contam, vivem estressados por causa da economia, dos negócios, da família e de toda sorte de coisas. Só por curiosidade, consultei o dicionário para saber qual era a definição de estresse pelos modernos eruditos e encontrei o seguinte: “Consequência da incapacidade de se adaptar às mudanças.” Acho que, até certo ponto, estão certos quanto a isso.
    O estresse resulta da inflexibilidade e da não aceitação. Em outras palavras, é provocado pelo forte apego a certos objetos, maneiras, resultados ou expectativas. Quando há muita esperança ou expectativa, há também o medo de que ela não se concretize, de que nada saia de acordo com o nosso plano ou nossa vontade. Daí vem o estresse.

    Hoje, quase todas as pessoas que me consultam afirmam que se cansam facilmente e não conseguem dormir bem. O fato é que nossa mente é como elefantes selvagens, num constante tropel de pensamentos, projetos, prazos e mais prazos. Assim, mesmo sem muitas atividades físicas, estamos sempre ruminando alguma coisa e nos pressionando sem necessidade. Sentimos isso até em sonhos. Na maioria das vezes, sufocamos nossas próprias possibilidades por não saber parar. Creio que, em certa medida, a inquietude é o oposto da confiança. Por isso, começamos a nos sentir mal e estressados quando constatamos que nossa vida está literalmente nos arrastando e nós não sabemos como fazê-la parar ou mesmo andar em passos mais lentos.

    Pensar nisso me deixa inquieto. Um de meus amigos estava quase chorando porque, a despeito de se sair muito bem nos negócios, sentia-se acuado pela necessidade de manter esse sucesso. Embora tenha adquirido uma grande fortuna, precisa trabalhar o dia inteiro para preservá-la. Acho que, quando começou o seu negócio, deve ter pensado: “Bem, se eu ganhar 1 milhão, ficarei muito feliz e plenamente satisfeito.” Agora, porém, que atingiu seu objetivo, arranjou outro pretexto para se estressar, estabelecendo um alvo ainda mais difícil. Assim, não há paz em sua mente e em nenhum momento ele consegue relaxar, livre de pressões. Por isso veio até mim com lágrimas nos olhos e ignorando o que fazer para se livrar de semelhante fardo.

    O mesmo acontece às pessoas em seus relacionamentos. Uma velha amiga me disse que, quando se casou, há alguns anos, supôs que suas preces tinham sido atendidas, mas agora está se separando porque o casal não se suporta. Sucede que esses meus dois amigos buscaram fora a solução para a sua felicidade, na riqueza ou num bom parceiro. Por isso insisto tanto na aceitação e na renúncia a todas essas expectativas, pois só assim é possível valorizar o momento presente. Se você continuar buscando fora a solução, jamais se livrará do estresse; mas se estiver com os pés no chão, lúcido e se aceitando da maneira que você é, dominará as artes de viver o presente e deixará o estresse à beira do caminho.

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    Mesma essência, distintas manifestações

    Mesma essência, distintas manifestações
    Tulku Orgyen Rinpoche

    Se nossa natureza búdica está além da delusão e da libertação não podemos dizer que em essência somos primordialmente iluminados?

    Possivelmente, poderíamos ter sucesso em convencer a si próprios através de tais truques filosóficos. No entanto, isso não é realmente verdadeiro uma vez que nós já nos extraviamos para dentro de um caminho. Se nunca tivéssemos caído em confusão poderíamos legitimamente alegar sermos primordialmente iluminados. Porém, infelizmente, é tarde demais para fazermos tal afirmação. Nossa preciosa jóia realizadora de desejos já caiu no lodo mal-cheiroso.

    A Iluminação Primordial significa que a base original e a fruição são idênticas e que não há um caminho de delusão a ser eliminado. Isso é definitivamente diferente da nossa situação na qual já extraviamos para dentro de um caminho e, portanto, precisamos eliminar a delusão para chegar a fruição. Tomemos o exemplo de uma miríade de jóias: algumas estão cobertas de lodo, algumas estão limpas. Todas elas são jóias, mas cada uma é distintivamente individual. A mente dos seres senscientes percebe as coisas de forma individual. Portanto, temos que dizer que são separadas.

    Este é um bom exemplo – percebermos todos os seres e Buddhas como incontáveis jóias, algumas cobertas de sujeira, outras limpas. Elas não são idênticas apesar de terem as mesmas qualidades. Se as mentes de todos os seres senscientes fossem uma única mente, então, quando um indivíduo atingisse a iluminação, todos os outros deveriam ser libertados no mesmo instante. No entanto, se você atingir a iluminação, isso não significa que eu serei iluminado. Entenda da seguinte forma: Ainda que os seres tenham qualidades semelhantes, não somos um. Nós temos a mesma essência, que é vazia e ciente, porém nossa forma de manifestação é separada e distinta da de outro ser sensciente. Se eu reconhecer a natureza de Buddha e atingir a iluminação não significa que outra pessoa também a reconhecerá e atingirá a iluminação. Peço desculpas por isso! Se os seres compartilhassem a mesma essência e manifestação, quando alguém atingisse a iluminação todos os outros também atingiriam.

    Somos como ouro puro espalhados em diferentes lugares: igual qualidade porém em peças separadas. Da mesma forma, a água: as propriedades da água são idênticas. No entanto, há água em diversas localizações no mundo. Ou pense no espaço dentro de diferentes casas – o mesmo espaço porém com variadas configurações. A qualidade ciente e vazia da mente é idêntica mas a ‘forma’ em torno dela é distintivamente individual. Algumas jóias foram sortudas, outras caíram no lodo.

    Do livro “Repeating the Words of Buddha” de Tulku Orgyen Rinpoche
    Traduzido do tibetano para o inglês por Erik Pema Kungzang
    Tradução para o português pelo Lama Jigme Lhawang