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A prática espiritual não é um atalho para o seu sonho de consumo.

Texto extraído do livro “Budismo Com Atitude”, de B. Alan Wallace

“Precisamos trabalhar e precisamos dormir, mas o ponto crítico aqui é que o lazer não deve ser somente uma pausa de revitalização após um dia duro de trabalho. Utilizar o tempo de lazer, dentro de uma ética viciada em trabalho, requer uma mudança em nossas prioridades. Isto significa ter um trabalho que apoie gradualmente a prática espiritual, e assegurar que a prática espiritual não se torne apenas uma ferramenta para melhorar o desempenho no trabalho.

A prática espiritual não é um atalho para o sonho de consumo. Nem um ornamento para uma vida confortável. O Dharma se dirige às causas fundamentais do sofrimento e requer que examinemos de perto os preconceitos que mantêm nossa visão de mundo e perpetuam nossos problemas. Embora o sucesso pareça ser a fonte dos bons momentos na vida, a felicidade aí incluída, ele não é o objetivo da prática espiritual. Nossas idéias sobre o sucesso são baseadas em preconceitos e também fazem parte de um ciclo que se perpetua, impedindo-nos de atingir a felicidade e o sucesso genuínos que buscamos.

A tradição budista encara os preconceitos sobre o sucesso com oito diagnósticos diferenciais chamados de “as oito preocupações mundanas”, oito orientações para a busca da felicidade baseadas em suposições não investigadas. A fixação nestas preocupações subverte nossos melhores esforços, conduzindo-nos a um falso sucesso ou uma real frustração. As oito preocupações mundanas consistem de quatro pares de prioridades: 1) buscar aquisições materiais e evitar sua perda; 2) buscar prazer dirigido pelo estímulo e evitar o desconforto; 3) buscar elogio e evitar a culpa, e 4) manter boa reputação e evitar má reputação. Estas oito preocupações mundanas em geral resumem nossa motivação pela busca da felicidade, e este é exatamente o problema. Essas preocupações, que não são erradas em si, sustentam nossa motivação, e é a motivação, mais que qualquer outro fator, que determina o resultado de nossa prática espiritual.

Não há nada de errado com um carro, uma casa, e a pobreza não é necessariamente uma virtude. Nada de errado em aproveitar um por de sol, um bom livro, uma conversa agradável ou uma bela música. Não é errado ser elogiado, nem ser amado e respeitado pelos outros. Não é errado ser rejeitado pelos outros se você estiver levando uma vida saudável e significativa. Muitos praticantes bem sucedidos no Dharma estão contentes e felizes vivendo em total pobreza. A verdadeira fonte da felicidade não está no domínio das oito preocupações mundanas. Elas não são fontes de felicidade, nem impedem a felicidade. O problema é que quando as encaramos como um meio para a felicidade, a vida torna-se um jogo de dados. Não há garantias. Se você aspira riqueza material, pode não consegui-la, e se conseguir, não há garantias de que seja feliz. Se você aspira ao prazer, quando o estímulo acaba, a satisfação também termina. Não existe felicidade duradoura em correr atrás do prazer. As pessoas respeitadas e famosas tendem a ter os mesmos problemas pessoais que as outras. A deficiência fatal das oito preocupações mundanas é que elas simulam o Dharma, desviam as maneiras de buscar a felicidade, e, ao confundir-nos, nossos esforços para atingir a felicidade genuína são continuamente solapados.”


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