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Theravada

A Prática da Observação Vigilante

Eia aqui um ensinamento do prof. Gil Fronsdal presente no livro: “Tocar o Coração do Assunto”. O livro é uma compilação de ensaios editados sobre a prática buddhista da observação vigilante.

“No Mahāparinibbāna Sutta, a escritura que registra os últimos ensinamentos do Buddha, o Buddha resume o que descobriu com o seu despertar e o que ensinou durante seus 45 anos como professor. Significativamente, não descreve uma série de doutrinas ou um sistema de crenças, mas sim lista as práticas e qualidades espirituais que crescem com uma vida espiritual. Ensinando práticas em vez de “verdades”, o Buddha nos ofereceu métodos para nos ajudar a descobrir nosso potencial para vidas de paz, compaixão e libertação. De certo modo, a prática buddhista prefere tratar da descoberta do que é mais verdadeiro para cada um de nós em nossos próprios corações e corpos, ao invés daquilo que as tradições, escrituras ou professores podem nos dizer serem verdades.

A meditação do insight ou Vipassanā é um dos ensinos centrais do Buddha. Permaneceu como uma prática viva por 2500 anos. No coração da meditação do insight está a prática da vigilância, o cultivo da consciência desobstruída, estável e sem julgamentos. Enquanto a prática da vigilância pode ser altamente eficaz em trazer calma e claridade às pressões do dia-a-dia, é igualmente um caminho espiritual que dissolve gradualmente as barreiras ao desenvolvimento pleno de nossa sabedoria, compaixão e liberdade.

A palavra Vipassanā significa literalmente “ver com clareza”. Cultivar nossa capacidade de ver claramente é a fundação para aprender como estar presente para as coisas como são, ao surgirem. É aprender a ver sem os filtros da parcialidade, do julgamento, da projeção ou das reações emocionais. Igualmente implica o desenvolver da confiança e força interna que permitem que estejamos presentes para as coisas como são em vez de como as desejamos que fossem. A prática da vigilância não envolve tentar mudar quem somos, mas sim uma prática de ver com clareza quem somos, de ver o que acontece ao acontecer, sem interferência. Nesse processo, mesmo sem tentar, podemos ser transformados.

A vigilância requer uma característica importante da consciência: a consciência por si só não julga, não resiste, nem se agarra a qualquer coisa. Concentrando-nos em simplesmente estarmos atentos, aprendemos a nos desembaraçar de nossas reações habituais e começar a ter um relacionamento mais amigável e compassivo com nossa experiência, com nós mesmos e com os outros.

Entretanto, estar consciente é confundido frequentemente com autocrítica, em que nós julgamos comparando o que está acontecendo com as nossas opiniões e autoimagem.

Por exemplo, se ficamos zangados durante um período de meditação, uma resposta autocrítica pode ser “Puxa! Eu estou irritado outra vez! Eu me odeio estar sempre tão irritado”. Com a prática da vigilância cultivamos uma consciência que reconhece a presença da raiva sem julgá-la – estaríamos conscientes de que “há raiva”.

Se virmos uma linda flor, com o estar consciente nós simplesmente apreciamos a flor. Uma resposta autocrítica pode ser “Que linda flor, e eu a quero para mim mesmo, assim os outros saberão que eu tenho bom gosto e me admirarão”.

A pedra fundamental da prática buddhista e do seu ensino é uma grande apreciação do presente. Ela inclui o reconhecimento de que as coisas mais maravilhosas que temos na vida acontecem somente se estamos no momento presente. Para surgir a amizade, a alegria, a generosidade, a compaixão e a apreciação da beleza, precisamos nos permitir o momento e a presença para estarmos conscientes.

Apreciar o momento presente envolve aprender que o momento presente é confiável se estivermos presentes para ele. Se pudermos estar inteiramente conscientes e não-reativos ao que está acontecendo no presente, aprenderemos a responder apropriadamente.

Ter a apreciação e a confiança não é sempre fácil. Parte da prática buddhista é descobrir o que nos impede de confiar e apreciar o momento presente. Qual é nossa real frustração, o que é nossa resistência, o que é nosso sofrimento, o que é nossa desconfiança? Quando esses estão atuando, o trabalho da vigilância é reconhecê-los claramente e então contê-los sem julgamento com nossa consciência.

Os ensinos buddhistas sugerem que quando encontramos o objeto que nos impede de apreciar o presente, que nos impede de confiar, a coisa exata que nos causa sofrimento, esta é uma porta à liberdade, ao despertar. Aprendemos a viver com abertura e confiança ao invés de com uma autoimagem e toda a autocrítica, aversão e orgulho que possam vir com ela. Na prática da vigilância, nenhuma humanidade é negada. Nós estamos descobrindo uma maneira de estar presente a tudo – nossa completa humanidade – assim tudo se torna uma porta à liberdade, à compaixão e a nós mesmos”.


tradução: Patricia Gurgel Segrillo
revisão: Ricardo Sasaki


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