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    #171 – Toda a nossa insatisfação e ansiedade vem disso

    #171 – Toda a nossa insatisfação e ansiedade vem disso

     
     
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    Toda ansiedade, toda insatisfação, todas as razões para esperar que nossas experiências possam ser diferentes, estão enraizadas no nosso medo da morte. O medo da morte está sempre no cenário de fundo. É como disse o mestre Zen Suzuki: “A vida é como entrar num barco prestes a zarpar e afundar”. Mas é muito difícil, não importa o quanto escutemos, acreditar na nossa própria morte. Muitas práticas espirituais tentam nos encorajar a levar nossa morte a sério, mas é impressionante como é difícil permitir que isso aconteça. A única coisa na vida que nós realmente podemos contar, é incrivelmente distante para todos nós. Nós não chegamos ao ponto de dizer: de jeito nenhum, eu não vou morrer! Porque é claro que nós sabemos que vamos. Mas definitivamente é mais tarde, essa é a maior esperança.

    Somos criados em uma cultura que teme a morte e a esconde de nós. No entanto, nós a experimentamos o tempo todo! Nós a experimentamos na forma de decepção, na forma de coisas que não funcionam. Nós a experimentamos na forma de coisas constantemente em um processo de mudança. Quando o dia acaba, quando o segundo acaba, quando respiramos, essa é a morte na vida diária. A morte na vida diária também pode ser definida como a experiência de todas as coisas que não queremos: nosso casamento não está funcionando, nosso trabalho não está satisfatório.

    Ter uma relação com a morte na vida diária significa que começamos a ser capazes de esperar, a relaxar na insegurança, no pânico, na vergonha, nas coisas que não estão funcionando. Conforme os anos passam, nós não chamamos as babás tão rapidamente. A morte e a não-esperança dão a motivação adequada. Motivação adequada para viver uma vida contemplativa e compassiva. Mas a maior parte do tempo, evitar a morte é nossa maior motivação. Tendemos a evitar qualquer sensação de problema. Nós sempre tentamos negar que seja uma ocorrência natural que as coisas mudam. Que a areia está escorrendo entre nossos dedos! O tempo está passando. Isso é tão natural quanto a mudança das estações, e o dia se transformando em noite. Mas ficarmos velhos, ficarmos doentes, perdermos o que amamos, nós não vemos esses eventos como ocorrências naturais. Queremos evitar essa sensação de morte, não importa como.

    Ensinamentos de Pema Chodron

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    #170 – Assuma sua auto-responsabilidade

    #170 – Assuma sua auto-responsabilidade

     
     
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    A diferença entre teísmo e não-teísmo, não é sobre acreditar ou não acreditar em deus. É uma questão que se aplica a todo mundo, incluindo budistas e não-budistas. Teísmo é uma convicção, profundamente enraizada, de que existe uma mão pra segurarmos. Se nós fizermos as coisas certas, alguém vai nos apreciar e cuidar. Isso significa pensar que sempre vai haver uma babá disponível quando precisarmos. Todos nós somos inclinados a abdicar de nossas responsabilidades e dedicar nossa autoridade a algo fora de nós mesmos.

    Não-teísmo é relaxar dentro da ambigüidade e incerteza do momento presente, sem tentar alcançar nada que possa nos proteger. Às vezes pensamos que Dharma é algo fora de nós. Algo para se acreditar, algo para se medir. No entanto, Dharma não é uma crença, não é um dogma. É uma total apreciação da impermanência e da mudança. Os ensinamentos se desintegram quando tentamos agarrá-los. Temos que experimentá-los sem esperança. Muitas pessoas corajosas e compassivas os experimentaram e os ensinaram. A mensagem é: “Sem medo”. Dharma nunca significou uma crença que nós seguimos cegamente. O Dharma não nos dá nada, mesmo, para segurarmos.

    Não-teísmo é finalmente perceber que não há uma babá com que você possa contar. Você acaba de conseguir uma boa e logo ela (ou ele) se foi. Não-teísmo é perceber que não apenas babás vêm e vão, mas toda a vida é assim. Essa é a verdade, e a verdade é inconveniente. Para aqueles que querem algo pra segurar, a vida é ainda mais inconveniente. Desse ponto de vista, teísmo é um vício. Somos todos viciados em esperança. Esperança de que a dúvida e o mistério irão desaparecer. Esse vício tem um efeito doloroso na sociedade. Uma sociedade baseada em montes de pessoas viciadas em conseguir terra firme para pisar não é um lugar muito compassivo.

    Ensinamentos de Pema Chodron

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    #169 – Métodos de Emergência para lidar com o Medo

    #169 – Métodos de Emergência para lidar com o Medo

     
     
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    No budismo tibetano, a figura Búdica feminina Tara representa o aspecto de um Buda que nos protege do medo. Na verdade, Tara representa os ventos-energia do corpo e da respiração. Quando purificada, ela representa também a capacidade de agir e alcançar os nossos objetivos. Este simbolismo sugere diversos métodos de emergência de se trabalhar com a respiração e com as energias sutis para se controlar o medo.

    Os métodos de emergência derivam de práticas preparatórias (preliminares) que fazemos antes de meditar, de estudar ou de escutar os ensinamentos. Por si próprias, estas práticas ajudam-nos a acalmar em emergências, quando estamos com um medo extremo ou começamos a entrar em pânico. Servem também como os primeiros passos que tomamos antes de aplicarmos métodos mais profundos.

    1. Contar os ciclos de respiração com os olhos fechados, tomando como 1 ciclo a inspiração e a expiração, e focalizando na sensação da respiração ao entrar e sair pelas narinas.
    2. Contar os ciclos de respiração com os olhos meio-abertos, olhando para baixo para o chão, tomando como o ciclo a expiração, uma pausa e a inspiração, com o mesmo foco descrito acima e, um pouco depois, adicionar a consciência da sensação das nossas nádegas a tocar na cadeira ou no chão.
    3. Reafirmar a motivação ou o objetivo que queremos alcançar (tornarmo-nos mais calmos) e o porquê.
    4. Imaginar que a mente e a energia estão focadas como uma só.
    5. Sem contar a respiração, focalizar no expandir e contrair da parte de baixo do abdômen consoante a respiração e sentir que todas as energias do corpo estão a fluir harmoniosamente.

    Ensinamentos deo Prof. Alex Berzin

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    #168 – Minha prática vai mal, o que fazer?

    #168 – Minha prática vai mal, o que fazer?

     
     
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    Quando a prática for boa, tente não ficar muito excitado ou usar esse nível de concentração e inspiração como o padrão para toda prática futura. Tsele Natsok Rangdröl (1608 – ?) disse que praticantes do darma não devem ser como crianças que ficam tão ansiosas em um parquinho de diversões cheio de brinquedos que ficam incapazes de escolher com qual vão brincar e terminam não fazendo nada.

    Quando sua prática não vai bem, não deixe isso sabotar ou desgastar sua determinação. O conselho que Jigme Lingpa (1730-1798) dá é, ao repentinamente se deparar com circunstâncias ruins e obstáculos, considere tudo como as bênçãos compassivas do mestre, do Darma e do resultado da prática. Nossas vidas serão estimuladas pela prática. Podemos até atrair obstáculos, como Buda Shakyamuni, que atraiu a ira de Mara nas horas antes de alcançar a iluminação. Dificuldades são, então, um sinal que sua prática está funcionando e deveriam te fazer feliz.

    A chave é consistência. O que acontece com frequência é que, no calor da inspiração, praticantes exageram na dose da prática, depois se sentem profundamente frustrados quando falham em vivenciar um bom sonho, não conseguem se concentrar adequadamente ou manter a calma. Tendo praticado até se fartar, eles param por uns meses, e quando eventualmente retornam, estão de volta à estaca zero.

    Nesse ritmo, o progresso é muito lento. Uma abordagem muito melhor é a da tartaruga. Cada passo parece uma eternidade, mas não importa quão desanimado se sinta, continue a seguir a agenda de sua prática de modo preciso e consistente.

    É assim que podemos usar nosso maior inimigo, o hábito, contra ele mesmo. O hábito gruda em nós como uma sanguessuga, ficando mais rígida e teimosa a cada momento, e mesmo que consigamos espantá-la, ainda ficamos com uma lembrança de sua existência que provoca coceira. Ao se habituar à prática do darma regular, no entanto, usamos nosso inimigo contra ele mesmo ao contrabalançar maus hábitos com o bom hábito da prática. E, como Shantideva, apontou, nada é difícil uma vez que você se acostume.

    Ensinamentos de Dsongzar Khyentse Rinpoche

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    #167 – 10 Conselhos poderosos para melhorar sua prática na vida cotidiana

    #167 – 10 Conselhos poderosos para melhorar sua prática na vida cotidiana

     
     
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    Veja os 10 conselhos de uma grande mestra do Budismo, Dipa Ma.

    Lembre-se de tentar colocar pelo menos 1 em prática.

    1. Escolha uma prática de meditação e se mantenha com ela. Se você quer progresso na meditação fique com uma técnica.
    2. Medite todos os dias. Pratique agora. Não pense que poderá fazer mais depois.
    3. Qualquer situação é trabalhável. Cada um de nós tem enorme poder. Isso pode ser utilizado para ajudar a nós mesmos e os outros.
    4. Pratique a paciência. Paciência é uma das mais importantes virtudes para o desenvolvimento da vigilância e da concentração.
    5. Liberte sua mente. Sua mente é todas as estórias.
    6. Refresque o fogo das emoções. A raiva é um fogo.
    7. Divirta-se no caminho. Sou muito feliz. Se você vier meditar você também será feliz.
    8. Simplifique. Viva de forma simples. Uma vida muito simples é boa para tudo. Muito luxo é um obstáculo para a prática.
    9. Cultive o espírito da bênção. Se você abençoar aqueles à sua volta isso o inspirará a ser zeloso a cada instante.
    10. Esta é uma jornada circular. A meditação integra a pessoa inteiramente.

    Ensinamentos de Dipa Ma, uma grande mestra do Budismo.

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    #166 – 4 estágios para lidar com a raiva passo a passo

    #166 – 4 estágios para lidar com a raiva passo a passo

     
     
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    De acordo com a psicologia budista, a raiva é um dos seis kleshas raiz, as emoções conflitantes que causam o nosso sofrimento. Seus companheiros são ganância, ignorância, paixão, inveja e orgulho.

    A raiva pode ser quente ou congelante. A raiva pode ser virada para fora para outras pessoas, para uma situação particular com a qual você está preso ou com a vida em geral. Pode ser virada para dentro, sob a forma de auto-ódio, ressentimento ou rejeição das partes de você que o envergonham ou fazem você se sentir vulnerável. A raiva pode fazer você matar; pode levá-lo a cometer suicídio.

    A raiva é alimentada pelo impulso de rejeitar, afastar, destruir. Está associado ao reino do inferno, um estado de dor intensa e claustrofobia. Essa qualidade da claustrofobia ou de ser espremido em um canto também se reflete nas origens da raiva da palavra inglesa, cuja raiz significa “estreito” ou “limitado”.

    A raiva pode ser extremamente enérgica. Você se sente ameaçado e claustrofóbico e esse sentimento doloroso se intensifica até que você ataca como um rato encurralado. Ou pode se manifestar como um sutil corte de ressentimento que você carrega junto com você sempre, como um chip em seu ombro.

    Como os outros kleshas, a raiva é parte da nossa maquiagem. Todos nós temos isso, mas lidamos com isso de forma muito diferente, tanto individual como culturalmente.

    Porque a experiência da raiva é tão potente, geralmente tentamos nos livrar dela de alguma forma. Uma maneira de tentar livrar-se disso é infla-la ou reprimi-la, porque estamos envergonhados de reconhecer ou aceitar que pudéssemos nos sentir desse jeito. Outra maneira de tentar nos livrar da nossa raiva é agir impulsivamente através de palavras ou ações violentas, mas isso só alimenta mais raiva.

    Como a raiva é uma parte natural de nós, não podemos realmente nos livrar dela, não importa o quanto tentemos. No entanto, podemos alterar a forma como nos relacionamos com ela. Quando o fazemos, começamos a vislumbrar uma qualidade escondida nesta força destrutiva que é sã e valiosa.

    No budismo existem muitas estratégias e práticas para lidar com a raiva. A abordagem geral é começar com a meditação. No contexto da prática de sessão formal, podemos começar a entender a energia da raiva, bem como os outros kleshas, e fazer um novo relacionamento com ela. Nessa base, podemos começar a aplicar esta visão no ambiente mais desafiador da vida cotidiana.

    Como a atenção plena mina a agressão

    A prática formal de mindfulness é o fundamento para explorar a poderosa energia da raiva. É difícil lidar com a raiva uma vez que ela explodiu, e é por isso que a prática de meditação é uma ferramenta tão útil. Ao abrandar e ao refinar nossos poderes de observação, podemos captar o surgimento da raiva em um estágio anterior, antes de ter uma chance de nos ultrapassar completamente.

    A prática de ficar quieto, respirar naturalmente e olhar atentamente a experiência de momento a momento é, por si só, um antídoto contra a agressão. Isso é verdade porque a raiva e outras explosões emocionais prosperam ao serem invisíveis. Eles prosperam na capacidade de espreitar abaixo da superfície de nossa consciência e aparecer sempre que quiserem. Portanto, estender o limite de sua consciência tira o habitat natural que sustenta os kleshas.

    Através da meditação, aprendemos a sintonizar o que estamos sentindo e a observar essa experiência sem paixão e com simpatia. Quanto mais pudermos fazer isso na prática formal de atenção plena, menos estaremos sob o controle de ferro da raiva. Por sua vez, mais possibilidades teremos de transformar nossa relação com raiva no meio da vida diária também.

    Onde surge a raiva? Está na mente. Assim, ao domesticar a mente, podemos estabelecer uma base sólida para entender como a raiva surge em nós e como nós habitualmente respondemos a ela. Podemos ver como a raiva se espalha e se instala em nosso corpo, e como desencadeia dramas formulados sobre culpa e dor. Podemos expor nossas construções conceituais sobre raiva, nossas justificativas, defensividade e encobrimentos. Nessa base, podemos seguir usando a prática seguinte.

    A árvore venenosa: Uma prática para lidar com a raiva em 4 passos

    Uma analogia tradicional para uma abordagem progressiva e passo a passo para lidar com a raiva e os outros kleshas é a árvore venenosa.

    Como você lida com uma árvore venenosa? A primeira coisa que você pode fazer é podar, para evitar que ele seja muito grande ou se espalhe. Mas isso simplesmente mantém o controle. A árvore ainda está lá.

    No entanto, uma vez que a árvore é de um tamanho mais gerenciável, pode ser possível desenterrar e livrar-se dela completamente, o que parece ser uma abordagem um pouco melhor.

    Mas assim como você está prestes a fazer isso, você pode se lembrar que um médico disse uma vez que as folhas e a casca desta árvore possuem qualidades medicinais. Você percebe que não faz sentido simplesmente se livrar dessa árvore. Seria melhor usá-la.

    Finalmente, de acordo com esta história, um pavão vem, percebe a árvore, e sem mais condições, felizmente a engole. O pavão instantaneamente converte esse veneno em comida.

    1. Podando a árvore: se abster de se entregar à raiva

    O primeiro passo é abster-se do discurso e das ações baseadas na raiva. Quando surge a raiva, geralmente ela já tomou conta de nós no momento em que percebemos isso. A intensidade da emoção e a reação a ela estão tão ligadas quase que simultaneamente. Estamos desesperados por fazer algo com essa raiva, seja para alimentá-la ou para suprimi-la.

    Nesta etapa, abster-se de fazer qualquer coisa, não importa o quão forte seja o desejo de fazê-lo. A prática é ficar com a experiência da raiva. Começamos no limite, com o segundo nível de pensamento, onde somos tentados a adicionar combustível à chama ou a tentar esmaga-la e livrar-se dela. A prática é não se envolver em nenhuma dessas duas estratégias. É estar com a nossa raiva sem interpretá-la ou criar estratégias.

    Nossas reações tendem a ser tão fortes e imediatas que inicialmente não podemos realmente chegar à raiva em si. Mas, à medida que nossa reatividade se torna menos pesada, uma brecha pequena e quase minúscula se abre entre nossa raiva e nossa reação. Nessa lacuna é possível para nós estar com a raiva e, ao mesmo tempo, abster-se de ser envolvido nela. Podemos nos relacionar com a nossa raiva de forma mais pura e simples, sem pensamentos secundários.

    2. Desenraizando a árvore: ver através da solidez aparente da raiva

    Uma vez que possamos estar com mais abertura e menos julgamento, o segundo passo é analisá-la com mais precisão.

    Quando surge raiva, a examinamos. Fazemos perguntas. Para o que damos o rótulo “raiva”? É uma percepção dos sentidos, um pensamento ou um sentimento? Quão real é isso? Quão invencível? Está parada? Está em movimento? Quando tentamos enquadrá-la, ela escapa? De onde isso vem? Onde isso vive? Para onde isso vai? Quais são as suas qualidades? Sua textura? Sua cor? Sua forma? O que dá raiva e poder sobre nós?

    Nesta etapa, examinamos a raiva como um fenômeno simples. De onde vem a raiva? Qual é o objetivo? É nossa culpa ou é culpa de alguém ou outra coisa?

    Olhe o mais diretamente possível. Quais são as raízes da raiva? O que é que a alimenta? Vá nível por nível, cada vez mais e mais profundamente. Você pode encontrar sua causa raiz?

    3. Destilando a medicina: descobrindo a sabedoria no meio da dor

    No terceiro passo, contemplamos o que é sobre a raiva que é prejudicial e o que pode ser benéfico. Como a raiva pode ser uma forma de remédio? Se nos livrássemos da nossa raiva, o que perderíamos?

    Aqui, a prática é discernir a diferença entre a raiva prejudicial e a raiva que nos beneficia de alguma forma. Claramente, a expressão insensata da raiva através de palavras ou ações nos leva a prejudicar os outros e a sofrer. No entanto, reprimir nossa raiva também causa danos. A raiva na verdade não desaparece, mas aparece de forma desonesta, vestindo um disfarce. Então, existe outra opção?

    De acordo com o budismo tibetano, há um outro lado da raiva: há sabedoria nela. Normalmente, estamos muito envolvidos em nossas lutas pessoais para nos conectarmos com essa sabedoria, mas a raiva realmente tem uma integridade e uma nitidez. É uma mensageira de que algo está errado, que algo precisa ser abordado. A energia despertada da raiva é dita ser cristalina, como um espelho perfeito. Ele diz como é sem dissimulação. A raiva limpa o ar. É imediato e é abrupto, mas agarra a nossa atenção e faz questão. A raiva interrompe nossa complacência e nos mobiliza para agir.

    Quando nos encontramos com a injustiça que está sendo feita ao outro, quando vemos a violência infligida a seres inocentes, quando vemos as maneiras pelas quais os humanos justificam quase qualquer ato de violência, é doloroso e nos irrita. Portanto, a raiva poderia ser o catalisador que nos faz agir com coragem e compaixão para enfrentar a violência, a injustiça e a ignorância arraigada. E quanto mais claramente vemos essas tendências no mundo que nos rodeia, mais reconhecemos dentro de nós traços dessas mesmas tendências para a violência e para a dissimulação. Portanto, a raiva tem o poder de tirar as telas dos nossos olhos, cortar a nossa ignorância e evitar as duras realidades.

    A força destrutiva da raiva é real e aparente. Ao enfrentar a força destrutiva, praticamos a contenção no primeiro passo e começamos a ver a aparente solidez da raiva no segundo. Agora estamos trabalhando com o potencial de sabedoria da raiva.

    Na verdade, pode não ser a própria raiva, mas a nossa tendência para manter a nossa raiva, o roteiro que a acompanha e a auto-absorção que são tão prejudiciais. Quando a raiva nos desperta para um problema real que deve ser abordado, podemos responder revoltando a raiva e nos sentindo bem com relação a nós mesmos por fazer isso. Ou podemos realmente ouvir qualquer mensagem que a raiva nos traga, enquanto ao mesmo tempo abrimos mão do mensageiro. Então podemos lidar com o que nos foi exposto pelo espelho claro da raiva.

    4. O Pavão: Engajando a Raiva Sem Medo ou Hesitação

    O passo final não é realmente uma prática posterior, mas mais o resultado ou a fruição do domínio das outras três etapas. Continuamos a praticar a abstenção de exibições impulsivas de raiva, vendo através da aparente solidez da raiva e abrindo as mensagens que a ira traz sem nos apegar ao mensageiro. Quando podemos fazer tudo isso com facilidade, podemos finalmente começar a usar a raiva como uma ferramenta ou meio hábil. Se a raiva é chamada e pode ser útil, não temos medo de aplicá-la. E quando a ira destrutiva surge, não somos seduzidos, nem nos escapamos. Nós a devoramos com precisão. Não resta nem um rastro.

    Ensinamentos de S.S. o Dalai Lama

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    #165 – Interdependência, o ensinamento central do Buda

    #165 – Interdependência, o ensinamento central do Buda

     
     
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    Reflita sobre o padrão básico de nossa existência. Para fazer mais do que apenas sobreviver, precisamos de abrigo, comida, companhia, amigos, respeito dos outros, recursos e tudo mais — essas coisas não surgem apenas de nós mesmos, são todas dependentes dos outros.

    Suponha que uma pessoa fosse viver sozinha em um lugar remoto e desabitado. Não importa quão forte, saudável ou educada seja, não haveria possibilidade de ela levar uma existência feliz e satisfatória. […] Poderia tal pessoa ter amigos? Adquirir fama? Poderia se tornar um herói se quisesse? Acho que as respostas para todas essas perguntas é um definitivo não, porque todos esses fatores só surgem em relação a outros companheiros humanos.

    Quando você é jovem, saudável e forte, às vezes tem a sensação de ser totalmente independente, de não precisar de ninguém. Mas isso é uma ilusão. Mesmo na flor da idade, simplesmente por ser humano, você precisa de amigos, não? Isso é especialmente verdade quando fica velho e precisa contar mais e mais com a ajuda dos outros. Essa é a natureza de nossas vidas como seres humanos.

    Em pelo menos um sentido, podemos dizer que as outras pessoas são realmente a principal fonte de todas as nossas experiências de alegria, felicidade e prosperidade, e não apenas em relação a nossas interações diárias. É possível ver que as experiências desejáveis que cultivamos dependem da cooperação e interação com os outros; é um fato óbvio.

    De modo similar, do ponto de vista de um praticante budista, muitos dos níveis elevados de realização que você atinge e do progresso que faz na jornada espiritual depende da cooperação e interação com os outros. Além disso, no estágio da completa iluminação, as atividades compassivas de um buda só podem se manifestar espontaneamente em relação a outros seres, já que são eles que recebem e se beneficiam dessas atividades iluminadas.

    Mesmo de uma perspectiva totalmente egoísta – querendo apenas nossa própria felicidade, conforto e satisfação na vida, sem consideração pelo bem dos outros – eu ainda argumentaria que a realização de nossas aspirações dependem dos outros. Mesmo a execução de ações nocivas dependem da existência dos outros. Por exemplo, para trapacear, você precisa de alguém como objeto do seu ato.

    Todos os eventos e incidentes na vida estão tão intimamente conectados com a vida dos outros que uma pessoa sozinha por si só não podem sequer começar a agir. Muitas atividades humanas ordinárias, positivas e negativas, não podem ser concebidas sem a existência de outras pessoas. Por causa dos outros, temos a oportunidade de ganhar dinheiro, se esse é nosso desejo na vida. Igualmente, na dependência da existência dos outros é possível para a mídia criar fama e descrédito por alguém. Sozinhos não podemos criar qualquer fama ou descrédito, não importa o quão alto gritemos. O mais perto que você vai chegar é criar um eco da sua própria voz.

    Assim, a interdependência é uma lei fundamental da natureza.

    Ensinamentos de S.S. o Dalai Lama

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    #164 – Vivendo Buda, Vivendo Cristo

    #164 – Vivendo Buda, Vivendo Cristo

     
     
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    Está escrito nos Salmos: “Aquietai-vos e sabei que sou Deus”. “Aquietar-se” significa ficar tranquilo e concentrado. O termo budista é samatha (parando, acalmando-se, concentrando-se). “Saber” significa adquirir sabedoria, insight ou entendimento. O termo budista é vipasyana (insight, ou examinando em profundidade).

    “Examinar em profundidade” significa observar algo ou alguém com tanta concentração que a distinção entre observador e observado desaparece. O resultado é o insight da verdadeira natureza do objeto. Quando examinamos o coração de uma flor, vemos nele as nuvens, a luz do sol, os minerais, o tempo, a terra e todas as outras coisas que existem no universo. Sem as nuvens não poderia haver chuva, e não existiria nenhuma flor. Sem o tempo a flor não poderia desabrochar.

    Com efeito, a flor é totalmente formada por elementos que lhe são extrínsecos; ela não possui uma existência independente e individual. Ela “interexiste” com todas as outras coisas no universo. Interexistência é um novo termo, mas estou certo de que em breve ele estará nos dicionários por se tratar de uma palavra extremamente importante. Quando percebemos a natureza da interexistência, as barreiras entre nós e os outros se dissolvem, e a paz, o amor e o entendimento tornam-se possíveis. Onde quer que exista o entendimento, nasce a compaixão.

    Assim como a flor é formada por elementos que lhe são extrínsecos, o budismo é composto apenas por elementos não-budistas, inclusive cristãos, e o cristianismo é formado por elementos não-cristãos, inclusive budistas. Temos diferentes raízes, tradições e maneiras de perceber as coisas, mas compartilhamos as qualidades comuns do amor, do entendimento e da aceitação.

    Para que nosso diálogo seja aberto, precisamos abrir nossos corações, pôr de lado nossos preconceitos, ouvir profundamente e representar verdadeiramente o que sabemos e compreendemos. Para fazer isso, precisamos de certa quantidade de fé. No budismo, ter fé significa ter confiança na nossa habilidade e na habilidade dos outros de despertar para a mais profunda capacidade de amor e entendimento. No cristianismo, ter fé significa confiar em Deus, Aquele que representa amor, compreensão, dignidade e verdade.

    Quando estamos em quietude, olhando profundamente e entrando em contato com a fonte da nossa verdadeira sabedoria, entramos em contato com o Buda vivo e o Cristo vivo que existe dentro de nós e em cada pessoa que encontramos.

    Ensinamentos de Thich Nhat Hanh

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    #163 – Como transformar seus demônios interiores em amigos?

    #163 – Como transformar seus demônios interiores em amigos?

     
     
    00:00 / 12:30min
     
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    Illustrations by Carole Hénaff.

    Alimentar nossos demônios, em vez de combatê-los, contradiz a abordagem convencional de lutar contra tudo o que nos afeta. Mas acaba sendo um caminho notavelmente eficaz para a integração interna.

    Demônios ( maras em sânscrito) não são carniçais sedentos de sangue nos esperando em cantos escuros. Demônios estão dentro de nós. São energias que experimentamos todos os dias, como medo, doença, depressão, ansiedade, trauma, dificuldades de relacionamento e dependência.

    Tudo o que drena nossa energia e nos impede de ficar completamente em paz é um demônio. A abordagem de dar forma a essas forças internas e alimentá-las, em vez de lutar contra elas, foi originalmente articulada por uma professora budista tibetana do século XI chamada Machig Labdrön (1055-1145). A prática espiritual que ela desenvolveu foi chamada Chöd , e gerou resultados tão surpreendentes que se tornou muito popular, se espalhando amplamente por todo o Tibete e além.

    No mundo de hoje, sofremos com níveis recordes de luta interna e externa. Nós nos encontramos cada vez mais polarizados, interna e externamente. Precisamos de um novo paradigma, uma nova abordagem para o conflito. A estratégia de Machig de alimentar, em vez de combater nossos inimigos internos e externos, oferece um caminho revolucionário para resolver conflitos e leva à integração psicológica e à paz interior.

    O método que desenvolvi, chamado Alimente seus demônios (Feeding Your Demons ™), baseia-se nos princípios de Chöd adaptados ao mundo ocidental. Aqui está uma versão abreviada da prática, em cinco etapas.

    Vamos para a prática?

    Etapa 1: encontre o demônio em seu corpo

    Depois de gerar uma motivação sincera para praticar em benefício de si e de todos os seres, decida com qual demônio você deseja trabalhar. Escolha algo que pareça estar drenando sua energia agora. Se for um problema de relacionamento, trabalhe com o sentimento que está surgindo em você nesse relacionamento como demônio, e não na outra pessoa. (Observe o que você sente em você)

    Pensando no demônio com o qual você escolheu trabalhar, talvez se lembrando de um incidente em particular quando ele surgiu com força, examine seu corpo e se pergunte: Onde o demônio está mais forte no meu corpo? Qual é a sua forma? Qual é a sua cor? Qual é a sua textura? Qual é a sua temperatura?

    Agora intensifique essa sensação. 

    Etapa 2: Personificar o Demônio

    Permita que essa sensação, com sua cor, textura e temperatura, saia do seu corpo e se personifique à sua frente como um ser com membros, rosto, olhos e assim por diante.

    Observe o seguinte sobre o demônio: tamanho, cor, superfície de seu corpo, densidade, gênero, se ele tiver um, seu caráter, seu estado emocional, o olhar em seus olhos, algo sobre o demônio que você não viu antes.

    Agora faça ao demônio as seguintes perguntas: O que você quer? O que você realmente precisa? Como você se sentirá quando conseguir o que realmente precisa?

    Etapa 3: Torne-se o Demônio

    Troque de lugar, mantendo os olhos fechados o máximo possível. Tome um momento para se estabelecer no corpo do demônio. Sinta como é ser o demônio. Observe como o seu eu normal se parece do ponto de vista do demônio. Responda a estas perguntas, falando como o demônio: O que eu quero é…. O que eu realmente preciso é… Quando conseguir o que realmente preciso, sentirei … (Tome nota particularmente desta resposta.)

    Etapa 4: Alimente o demônio e encontre o aliado

    Reserve um momento para voltar ao seu próprio corpo. Veja o demônio à sua frente. Em seguida, dissolva seu próprio corpo em néctar. O néctar tem a qualidade do sentimento que o demônio teria quando obtém o que realmente precisa (isto é, a resposta para a terceira pergunta). Observe a cor do néctar.

    Imagine que esse néctar está se movendo em direção ao demônio e alimentando-o. Observe como o demônio o absorve. Você tem um suprimento infinito de néctar. Alimente o demônio com total satisfação e observe como ele se transforma no processo. Isso pode levar um tempo.

    Observe se existe um ser presente depois que o demônio estiver completamente satisfeito. Se houver um ser presente, pergunte: “Você é o aliado?” Se for, você trabalhará com esse ser. Se não estiver, ou se não houver presença após alimentar o demônio para completar a satisfação, convide o aliado a aparecer.

    Quando você vê o aliado, observe todos os detalhes do  aliado: tamanho, cor, superfície do corpo, densidade, sexo (se houver), seu caráter, seu estado emocional, a aparência dos olhos, algo sobre o aliado você não viu antes.

    Quando você realmente se sentir conectado com a energia do aliado, faça estas perguntas: Como você vai me ajudar? Como você vai me proteger? Que promessa você faz para mim? Como posso acessar você?

    Troque de lugar e torne-se o aliado. Reserve um momento para se estabelecer no corpo do aliado e observe como é estar no corpo do aliado. Como é o seu eu normal do ponto de vista do aliado? Quando estiver pronto, responda a estas perguntas, falando como aliado: eu o ajudarei … eu irei protegê-lo … prometo que irei … Você pode me acessar por …

    Reserve um momento para voltar ao seu próprio corpo e ver o aliado à sua frente. Olhe nos olhos dele e sinta a energia dele derramando em seu corpo.

    Agora imagine que o aliado se dissolve na luz. Observe a cor dessa luz. Sinta-o se dissolvendo em você e integre essa luminosidade em todas as células do seu corpo. Tome nota da sensação da energia integrada do aliado em seu corpo. Agora você, com a energia integrada do aliado, também se dissolve.

    Etapa 5: Descanse em consciência

    Descanse em qualquer estado presente após a dissolução. Faça uma pausa até os pensamentos discursivos recomeçarem e depois volte gradualmente ao seu corpo. Ao abrir os olhos, mantenha a sensação da energia do aliado em seu corpo.

    Ensinamentos da Lama Tsultrim Allione

  • Podcast Iluminação Diária

    #162 – Você também pode se tornar um Buda

    #162 – Você também pode se tornar um Buda

     
     
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    Se o objetivo da vida é a felicidade duradoura, tanto para nós quanto para os outros, a coisa mais significativa e lógica a se fazer é trabalhar por esse objetivo de forma realista. Embora objetos materiais possam nos trazer certa felicidade, a verdadeira fonte de felicidade é a nossa própria mente. Quando todas as nossas capacidades são plenamente desenvolvidas e nossas deficiências são superadas, nos tornamos um buda, uma fonte de felicidade não só para nós mesmos, mas para todos os outros. Todos nós podemos alcançar isso. Todos podemos nos tornar budas, porque todos temos dentro de nós os fatores completos que nos permitirão alcançar esse objetivo. Todos nós temos natureza búdica.

    O budismo afirma enfaticamente que todos nós podemos nos tornar budas, mas o que significa se tornar um buda? Um buda é uma pessoa que eliminou todas as suas falhas, corrigiu todos os seus defeitos e realizou todos os seus potenciais. Todos eles começaram como nós: seres comuns que passam por dificuldades na vida. Assim como nós, seus problemas repetiam-se descontroladamente por causa de sua confusão em relação à realidade, de suas projeções irreais e de sua crença obstinada nelas e, consequentemente, de suas emoções perturbadoras e comportamentos compulsivos. Mas eles perceberam que suas projeções não correspondiam à realidade e, motivados por uma forte determinação de se libertar do sofrimento que sua inconsciência ingênua lhes causava, eventualmente pararam de automaticamente acreditar nas fantasias que suas mentes projetavam. Por esse motivo eles pararam de sentir emoções perturbadoras e de agir compulsivamente.

    Durante todo esse processo, eles se esforçaram por fortalecer suas emoções positivas, como amor e compaixão por todas as pessoas igualmente, e ajudaram os outros o máximo possível. Eles desenvolveram um amor terno por todas as pessoas, assim como o que uma mãe carinhosa sente por seu único filho. Impulsionados pela energia desse amor e compaixão intensos e dirigidos a todos, e pela decisão excepcional de ajudar a todos, sua compreensão da realidade tornou-se cada vez mais forte. Eventualmente ficaram tão poderosos que suas mentes pararam de projetar as aparências enganosas de que tudo e todos existem por si mesmos, separados de todo o resto. Sem qualquer obstáculo, viram claramente como tudo que existe está interligado e é interdependente.

    Com essa realização, eles se iluminaram, se tornaram budas. Seus corpos, suas habilidades de comunicação e suas mentes ficaram livres de todas as limitações. Por saberem o efeito em cada pessoa de qualquer coisa que ensinassem, tornaram-se capazes de ajudar todos os seres, tanto quanto fosse realisticamente possível. Mas nem mesmo um buda é onipotente. Um buda pode exercer uma influência positiva apenas naqueles que estão abertos e receptivos à sua orientação e que a seguem corretamente.

    E o Buda disse que todos podem alcançar o que ele alcançou. Todos podem se tornar um buda. Isso é possível porque todos nós temos a matéria prima básica que possibilita isso. Essa matéria prima é conhecida como “natureza búdica”.

    A neurociência trata da neuroplasticidade – a habilidade do cérebro de se modificar e desenvolver novos circuitos neurais durante a nossa vida. Quando a parte do cérebro que controla uma função, como usar a mão direita, fica paralisada, o treinamento com fisioterapia pode fazer com que o cérebro desenvolva novos circuitos neurais, permitindo que utilizemos a mão esquerda. Estudos recentes mostraram que a meditação em compaixão, por exemplo, também pode criar novos circuitos neurais resultando em mais felicidade e paz de espírito. Já que a mente pode causar mudanças fisiológicas como esta, da mesma forma que podemos falar de neuroplasticidade do cérebro, também podemos falar de plasticidade da mente. O fato de que nossas mentes, e portanto os traços de nossas personalidades, não são estáticos e fixos, e que podem ser estimulados para desenvolver novos circuitos positivos, é o fator mais fundamental que permite a todos nós nos tornarmos budas iluminados.

    No nível fisiológico, sempre que fazemos, dizemos ou pensamos algo construtivo, construímos e fortalecemos um circuito neural positivo que torna mais fácil e, portanto, mais provável que repitamos a ação. No nível mental, o budismo diz que dessa forma nós desenvolvemos força e potencial positivos. Quanto mais reforçamos a rede de força positiva, especialmente ao fazer algo benéfico pelos outros, mais forte ela se torna. A força positiva, quando dirigida à habilidade de ajudar todos os seres completamente, como um buda, é o que nos permite alcançar o objetivo de sermos universalmente úteis.

    De forma similar, quanto mais nos concentramos na ausência de qualquer coisa real que corresponda às nossas falsas projeções da realidade, mais enfraquecemos os circuitos neurais e mentais, primeiramente de acreditar nessas projeções mentais e depois de projetá-las como um todo. Eventualmente, nossas mentes se livram desses circuitos neurais e mentais ilusórios e também dos circuitos de emoções perturbadoras e padrões de comportamento compulsivos que dependem deles. Em vez disso, desenvolvemos fortes circuitos neurais e mentais de percepção profunda da realidade. Quando esses circuitos são potencializados pela força de almejar pela mente onisciente de um buda, que sabe como ajudar todo e qualquer ser limitado da melhor forma possível, essa rede de consciência profunda nos permite alcançar a mente de um buda.

    Todos nós temos um corpo, capacidade de nos comunicar com os outros – principalmente pela fala – e também uma mente, que são a matéria prima para alcançarmos o corpo, a fala e a mente de um buda. Esses três também são fatores de natureza búdica. De forma semelhante, todos nós temos algum nível de boas qualidades – nossos instintos de autopreservação, preservação da espécie, nossos instintos maternais e paternais e assim por diante – assim como a capacidade de agir e influenciar os outros. Esses também são fatores de natureza búdica, eles são nossa matéria prima para cultivar as boas qualidades, tais como amor e cuidado ilimitados e as atividades iluminadas de um buda.

    Quando examinamos como nossas mentes funcionam, podemos descobrir mais fatores de natureza búdica. Todos somos capazes de receber informações, agrupar coisas que têm alguma característica em comum, distinguir a individualidade das coisas, reagir ao que percebemos e saber o que as coisas são. Essas formas de funcionamento da nossa atividade mental são atualmente limitadas, mas elas também são matéria prima para alcançarmos a mente de um buda, na qual elas funcionarão em seu potencial máximo.

    Conclusão

    Já que todos nós temos a matéria prima para nos tornarmos um buda, é simplesmente uma questão de motivação e de trabalho duro constante até que nos tornemos iluminados. O progresso nunca é linear: alguns dias serão melhores e outros piores. O caminho para alcançar o estado de um buda é longo e não é fácil. Mas quanto mais nos lembrarmos de nossos fatores de natureza búdica, mais evitaremos o desânimo. Nós simplesmente precisamos nos lembrar de que não há nada inerentemente errado conosco. Nós podemos superar todos os obstáculos com uma boa motivação, forte o suficiente, e seguindo métodos realistas que combinam habilmente compaixão e sabedoria.

    Ensinamento do Prof. Alex Berzin