• Terra Pura

    As Flores do Equinócio

    Conhecida também como red spider lily, red magic lily, hurricane lily, floresce na época do Equinócio de outono no hemisfério norte. No Japão, onde é muito admirada é conhecida como Higanbana  彼岸花 (flor da “outra Margem”, ou do Equinócio). Muito usada em funerais e por isso também é conhecida como a flor do Gokuraku Jôdo 極楽浄土  (Sukhāvatī,  Terra Pura), ou como Manjushage 曼珠沙華. É uma flor sazonal que nasce livremente perto dos cemitérios (na verdade ela cresce em qualquer lugar desde que haja condições, dizer que só cresce perto de cemitérios é um mito, apenas ninguém se atreve a colher flores que “pertencem ao mortos”) e nesta época do Ohigan os japoneses costumam visitar os cemitérios para homenagear os entes já falecidos. 

    Nas traduções chinesas e japonesas do Sutra do Lótus é conhecida como uma flor sinistra que floresce no Inferno (Jigoku 地獄 em japonês, Niraya em páli e Naraka em sânscrito) e que é um guia para os mortos pelo Rio Sanzu 三途の川. Suas flores só surgem quando as folhas desaparecem e estas só ressurgem quando as flores já tiverem murchado. Por isso surgiu o nome Manjushage, nome de dois seres celestiais: Mañju 曼珠 , o Guardião da flor e Shage 沙華 o Guardião das folhas. Ambos apaixonaram-se e se rebelaram do destino de cuidar das folhas e da flor separadamente e ficaram juntos. Sentindo-se desafiada pela obstinação do casal, a Deusa Amaterasu impôs um terrível castigo: As flores de  Mañju nunca mais deveriam ver as folhas de Shage novamente. Quando Mañju e Shage morreram e reencontraram-se no Inferno, ambos prometeram que se reencontrariam quando renascessem novamente. Mas ambos não conseguiram cumprir a promessa. E em homenagem ao casal os nomes foram unidos para formar o nome da flor Manjushage.

    Reva. Sayuri Tyo-jun

  • Zen

    Grande Determinação

    Não tenha medo. A noite passa.

    Sem a Grande Determinação não vamos conseguir atravessar a noite escura. Se falhar a nossa determinação, vamos acabar “voltando para trás”, em lugar de completar esta etapa da jornada. Não vamos chegar até o raiar do novo dia, aquele pedaço de Iluminação que seria resultado de nosso questionamento, fé e determinação.

    Se a nossa determinação for fraca, vamos falhar. Se a nossa determinação depende de outras pessoas para nos apoiar, vamos falhar. Pois a noite escura da alma é exatamente isto: é um momento em que nos sentimos totalmente sós – a nossa dúvida nos consumindo, a autoconfiança cambaleada, a nossa fé no limite –, só vemos escuridão e é somente a nossa determinação que nos segura no caminho. Afinal, o momento mais escuro da noite é o momento logo antes do nascer do Sol. E é a mesma coisa na jornada espiritual.

    Se iniciamos a jornada com uma pequena dúvida, a noite escura vai ser “pequena” e o raiar do sol também. Mas se o nosso primeiro passo foi baseado numa GRANDE Dúvida, a noite escura vai ser igualmente GRANDE. A crise – mistura de perigo com oportunidade – vai ser GRANDE. Para atravessar esta noite escura, vamos ter que descobrir, dentro de nós, fé da mesma grandeza e, por fim, GRANDE Determinação – talvez aquela determinação que diz: “Mesmo que perca tudo, não arredo o pé daqui”; “Mesmo que eu tenha que morrer tentando, não desisto”; “Mesmo que estejam todos me chamando de louco, não saio deste caminho”; “Mesmo que todos os meus amigos me abandonem, não abro mão”. Talvez a vida vá nos exigir uma entrega total, a “morte simbólica”, morte do ego, morte para tudo que pensávamos que importava. Mas na realidade, a vida está nos convidando a passar pela morte dos condicionamentos – nos convidando à Libertação.

    No meio da noite escura da alma, passamos por uma fase de ficar só enxergando as perdas, as “mortes”. Talvez percamos contato com a nossa fé. Talvez nos entreguemos ao medo. Talvez não resistamos às pressões e voltemos correndo, tentando voltar à nossa “zona de conforto” anterior, voltar à “harmonia conhecida”, voltar às amizades e relacionamentos antigos que não queremos arriscar perder, buscando apoio externo na falta de nosso próprio apoio interno. Quantas e quantas pessoas fraquejam neste ponto, justo quando estão quase lá, quase vencendo esta fase da jornada. Que tristeza! É como se vendessem a alma, caíssem em “tentação”.

    É por isto que todas as tradições espirituais falam da dificuldade da jornada. Todas as tradições espirituais têm a sua forma de descrever o processo de passar pela “noite escura da alma”. Algumas tradições xamânicas ou indígenas usam “jornadas interiores”, indo ao encontro da morte e renascimento simbólicos, desmembramento e “remembramento” simbólicos, para facilitar esta passagem. A tradição budista nos fala da determinação de Buda quando ele sentou em baixo da figueira, decidido a não se levantar dali até que encontrasse a resposta, a Iluminação. Fala, em linguagem simbólica, dos ninhos que pássaros construíram em seu cabelo, das teias que as aranhas teceram, das plantinhas que cresceram entre os dedos dos seus pés, tudo para nos ajudar a imaginar uma determinação tão firme, inquebrantável, que permitisse que ficasse lá, sentado em meditação o tempo suficiente e com a “imobilidade” – firmeza de propósito – suficiente para atingir a Iluminação.

    Lembro-me de momentos de dúvida (dúvidas que pareciam bastante grandes para mim, na época), em que toda a minha fé foi posta à prova e em que parecia que a minha determinação não ia aguentar, e lembro-me dos raiares do sol que vieram ao final daquelas noites escuras da alma. Não posso dizer que eu tenha atingindo qualquer GRANDE Iluminação, mas com certeza, sinto que posso dizer que cheguei a algumas pequenas iluminações, de acordo com a minha capacidade de ter uma dúvida, de cultivar a fé e de achar dentro de mim mesma a determinação de prosseguir até a hora do Sol nascer.

    Como será que isto vai acontecer? Como será o momento da virada, de uma pequena iluminação? Vai ser o seu momento, único, totalmente diferente dos meus momentos – e nem para mim um momento será igual ao outro. Só posso compartilhar que, para mim, a virada vinha muitas vezes quando eu finalmente parava de lutar contra os acontecimentos e me entregava totalmente. Sabia que a gente tem todo o direito de espernear e reclamar tudo que quiser neste universo? Só que o Darma simplesmente vai continuar procurando nos ensinar. Então não precisa se sentir culpado por passar por uma fase de “briga com o Universo” antes de chegar a uma entrega! Outras vezes, a virada veio quando finalmente percebi a “comédia dos absurdos” numa situação e caí nas gargalhadas, de corpo e alma. De qualquer forma, a virada vinha quando algo dentro de mim mudou. A mudança nunca vinha de fora, só de dentro. Este que é o detalhe importante: a mudança tem que vir de dentro.

    A noite passa. O novo dia nasce. A Luz retorna. Portanto, se você estiver atravessando uma noite escura da alma, não abra mão de sua fé, não vacile na sua determinação. Não tente voltar ao “conforto” ou “harmonia” ou “segurança” anterior. Se, no seu coração você sabe que está ouvindo a voz de sua Natureza Buda, prossiga firme. Mergulhe, deixe que a Grande Dúvida lhe “consuma” até os ossos, até a medula, até restar somente o grande Vazio. Estique a sua fé, mantenha a sua determinação – e atinja mais um pedaço da Iluminação. O importante é sempre manter-se firme na busca de Sabedoria e Compaixão.

    Se você está com mais Sabedoria e Compaixão, mais Paz e Tranquilidade no “dia seguinte”, saberá que atravessou a noite. Mas, se está com alguma raiva, algum mal-estar, alguma inquietação, saberá que ainda não terminou a travessia ou, pior, saberá que desistiu no meio do caminho e voltou para trás. Mesmo assim, não perca esperanças, não se critique, não se julgue. Você fez o seu melhor. Aprenda com o processo. Veja onde “falhou”, onde “errou” e comece de novo. A vida sempre nos oferece novas oportunidades. Temos todo o tempo do Universo para nos iluminar – kalpas e kalpas estão à nossa disposição!

    Então, não tenha medo. A noite passa.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    O Vazio

    O ‘eu’ que existe dentro de nós é o que cada um acredita…

    É frequente que pessoas cometam um erro básico quando, ouvindo falar do ensinamento budista sobre o vazio (vacuidade), pensem, por exemplo, que o fato da ciência ter mostrado que a maior parte do que vimos como matéria é vazia, que esse vazio físico é uma comprovação de que as declarações de Buda a respeito da vacuidade das coisas estão certas. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. Vacuidade no Budismo é o vazio de um “eu”. As coisas são vazias de um “eu”, um “eu” inerente, alguma coisa própria e exclusiva de um fenômeno.

    O que Buda tentou dizer com “vazio” é que todas as coisas são vazias de um “eu”, porque todas as coisas são interconectadas e interdependentes. Parecem algo porque nós atribuímos a esse algo um conceito. Quando vemos um copo cheio de água, o que é o copo em si? É um cilindro fechado na base, constituído predominantemente, no caso desse copo de vidro, de silício, que é um átomo muito comum na crosta da terra. Mas o copo, essa entidade copo, ela existe realmente como entidade separada ou é uma projeção de nossa mente? Na realidade se nós partirmos o copo em pedaços e tivermos os cacos em nossas mãos, tudo que constitui o copo ainda está aqui, não é? Está inteiro aqui, mas nós podemos dizer que é um copo? Não, pois não serve mais para colocar água. Mas se tudo que o constitui ainda está aqui, onde está o copo? Afinal de contas o que é isso que chamamos de copo? Isso que chamamos de “entidade copo” é uma organização dos cacos de silício numa forma adequada para guardar água, então a entidade copo está na nossa mente. Talvez o copo seja simples demais.

    Esta casa, o que é? Pedaços de madeira, carbono, reboco, vidro nas janelas, não temos dúvida alguma de que é uma casa. Chegamos e imediatamente nos admiramos com sua beleza. Mas a casa só é a casa, organizada de determinada forma, seus agregados juntados a partir de uma ideia que é “a casa”. A coluna tem que estar em pé apoiando a trave, pois, se não estiver nessa posição, a casa cai e não será mais uma casa, será como no caso do copo, cacos de casa. Onde está o “eu casa”, o que nós chamamos casa, o “eu” que está nas nossas mentes e que nos permite chamar de casa? Não está em lugar algum; o copo e a casa não são nada mais que matérias organizadas de determinada forma a qual atribuímos uma identidade.

    Agora olhem para si mesmos. Nós somos constituídos de agregados – carbono, ferro, cálcio, água, que é oxigênio e hidrogênio, tudo organizado de determinada forma. Comparados conosco, a casa é simples, o copo, simplório. Cada um dos corpos de vocês é altamente complexo, tem até um programa em cada célula dizendo a elas como agir. Esse programa e esta organização fazem de nós um conjunto de agregados que funciona. Como esse conjunto de agregados funciona e consegue pensar, ele diz a si mesmo: “Eu sou”. A casa não consegue dizer a si mesma “Eu sou”, pois ela é simples; nós é que dizemos “a casa”. Mas nós somos suficientemente complexos para olharmos para nossa organização de agregados, para nossa soma funcional e como estamos pensando, dizermos: “Eu sou”.

    A ciência já comprovou que alguns animais conseguem se reconhecer no espelho e até apagam sinais pintados em seu rosto, pois reconhecem a si mesmos. À medida que observamos animais mais primitivos, eles não são capazes de se reconhecer. Um cão late para si mesmo no espelho, mas um chimpanzé faz caretas, pois é capaz de se identificar; um golfinho também. Nós não temos dúvidas de que a figura no espelho somos nós mesmos.

    Voltando ao vazio, esses agregados – copo e casa – são vazios de um “eu”, isso é fácil de entender, eles não possuem nenhum “eu”, são só uma soma de agregados. Mas nós também somos uma soma de agregados vazios de um “eu” inerente, não temos um “eu” que seja exclusivo nosso, também somos um fenômeno construído e que pode ser desfeito em cacos. Imediatamente esse eu, com que nós nos identificamos, desaparece. Quando desfazemos em cacos a casa e temos só material de demolição, não existe mais casa. Mas quando desfazemos o homem, com a morte, por exemplo, não existe mais um “eu” ali. Toda essa análise foi feita para dizer que o “eu” que tanto queremos que seja permanente e para ele criamos a ideia de uma alma eterna, que, por exemplo, pode reencarnar e carregar aquele “eu” consigo, não é mais que mera ilusão imaginada e nós também somos vazios de um “eu”.

    O “eu” que existe dentro de nós é o que cada um acredita – tem a mesma consistência do o “eu” da casa ou do copo. É só um conjunto de agregados funcionando. Todo o universo é vazio de um “eu” inerente. Todos os fenômenos funcionam interconectados e interdependentes.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (4)

    (continuação da 3ª parte)
    Retornando ao livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (literalmente “O Poder e a Dor: Transformando Dificuldade Espiritual em Alegria”, ainda sem versão em português), em que o autor Andrew Holecek explica que os Três Nyams principais são: 1. Bem-aventurança, 2. Clareza Mental e 3. Sem-pensamento, vamos refletir sobre o motivo pelo qual estes estados são considerados nyams – sinais de progresso que podem se tornar armadilhas da prática.

    De tempo em tempo, chega um visitante para conversar comigo, contando uma história de uma experiência mística que teve, uma experiência de “bem-aventurança”, ou de “silêncio” ou de “união com todo o Universo”. Geralmente, conta a sua história com uma atitude de orgulho, aparentemente se achando “especial” por ter tido esta experiência.

    Mas, quando eu pergunto sobre a vida prática desta pessoa, fico sabendo que não vai bem. Talvez esteja desempregado (“Fui mandado embora do último emprego – o chefe era muito ruim…”), sozinho (“A minha namorada brigou comigo e rompemos…”), abandonou os estudos (“O curso era muito chato…”), etc. Talvez até tudo isto junto: problemas no trabalho, nos relacionamentos, na vida pessoal!

    Quando pergunto qual impacto aquela experiência teve sobre a sua vida, não sabe me dar uma resposta coerente.

    Quer dizer, na realidade, aquela experiência mística não serviu para nada em termos de autotransformação. Simplesmente foi uma experiência – um “barato” e mais nada. A pessoa caiu na armadilha de se achar “especial”. E, decepcionado comigo ao ver que eu não fiquei impressionada com a experiência que relata, nunca mais volta – não entra na prática…

    Pior ainda é aquele praticante que, ao ter um vislumbre, uma pequena experiência de um destes três estados, passa a acreditar que “se iluminou”. Cheguei a conhecer um praticante leigo que não aceitava ensinamentos porque “encontrou o seu mestre interior aos 16 anos de idade”. Era uma pessoa que eu considerava bastante difícil – até neurótico -, impossível de ensinar, pois parecia que ele achava que já havia alcançado a Iluminação. Parecia que achava que, apesar de ser um praticante leigo com poucos anos de experiência e de nunca ter feito um treinamento monástico, já entendia o Zen melhor que eu e que não precisava ser ensinado. Tive a impressão que achava até que podia me ensinar em lugar de eu lhe ensinar.

    Por isso, até mesmo os estados de Bem-aventurança, Clareza Mental e Sem-pensamento podem representar armadilhas e afastar muitas pessoas do verdadeiro caminho.

    Recomendo o livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (em inglês), que pode ser importado, versão impressa ou digital.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    A Essência do Sutra de Amida

    Há quase três mil anos, no norte da Índia, Buda Shakyamuni, fundador do budismo, residia em um belo bosque juntamente com seus discípulos. Dentre esses, haviam grandes discípulos já iluminados, pessoas simples do povo e até mesmo seres celestiais que vinham para ouvir os ensinamentos do Grande Mestre.

    Em certa ocasião, o Buda diz, voltando-se para um de seus discípulos, mas com a intenção de ensinar a todos os presentes, que se nos voltarmos para a direção oeste, passando por milhares de milhões de universos, encontraríamos uma Terra Búdica chamada “Bem-Aventurança”, ou “Terra Pura da Suprema Alegria”.  E ali habita um Buda chamado Amida, o Buda da Vida e Luz de Sabedoria Infinita que está constantemente proclamando os ensinamentos que levam os seres à libertação da ignorância e dos sofrimentos ligados ao nascimento, velhice, doença e morte.

    Disse o Buda que tal Terra Pura é chamada de Suprema Alegria, pois ali não existe o sofrimento e todos os seres alcançam a Iluminação.

    Lá há árvores enfeitadas com vários tipos de joias, assim como o chão que é feito de ouro; há também lagos adornado com sete tipos de pedras preciosas, cheios de água das Oito Virtudes (pureza, frescor, suavidade, doçura, hidratação, revigoramento, apaziguamento da sede e nutrição). Nesses lagos existem flores de lótus tão grandes quanto rodas de carruagens e cada uma emite uma luz brilhante conforme sua cor.

    Todos os dias, em seis ocasiões, cai uma leve chuva de pétalas de raras flores.

    Pela manhã, os seres que habitam essa Terra Pura, colhem essas pétalas de flores e visitam as Terras de outros Budas, para ouvirem seus ensinamentos e louvá-los, jogando sobre eles tais pétalas.

    A seguir, voltam para a Terra Pura onde desfrutam uma refeição e saem para um passeio pelos belos jardins, repletos de árvores de joias e lagos de lótus.

    Nessa Terra Pura da Suprema Alegria há também muitos pássaros raros, de belas plumagens tais como gansos brancos, pavões, papagaios e até mesmo aves míticas que cantam sons melodiosos.

    Esses cantos maravilhosos nos falam sobre as “Cinco Raízes do Bem”:

    (1)   a confiança nas Três Jóias: Buda, Dharma e Sangha,

    (2)    as Quatro Nobres Verdades que são: a constatação do sofrimento, a constatação da origem do sofrimento, a constatação da eliminação do sofrimento e o Nobre Caminho que conduz à libertação do sofrimento;

    (3)   o esforço para a prática da bondade;

    (4)   plena consciência do Dharma Verdadeiro pregado pelo Buda;

    (5)   concentração e discernimento da natureza verdadeira da realidade.

    Também nos falam sobre os “Cinco Poderes” que são obtidos com a prática das Cinco Raízes do Bem, também conhecidos como “Cinco Portões da Atenção Plena”:

    (1) Veneração

    (2) Louvor

    (3) Aspiração

    (4) Contemplação

    (5) Transferência de Méritos

    Bem como sobre as Sete Práticas que conduzem à Iluminação, que são:

    (1) a distinção do Dharma verdadeiro em oposição às opiniões falsas;

    (2) o esforço na prática do Dharma verdadeiro;

    (3) o regozijo no Dharma verdadeiro;

    (4) a eliminação da indolência e obtenção da tranquilidade e do repouso;

    (5) a prática da plena consciência para manter o equilíbrio da concentração e do discernimento da natureza verdadeira da realidade;

    (6) a prática da concentração

    (7) o desapego mental dos objetos externos e consequentemente estabelecimento de uma mente serena.

    Além de também nos falarem sobre o Nobre Caminho Óctuplo composto por:

    (1)   visão correta,

    (2)   pensamento correto,

    (3)   palavra correta,

    (4)   ação correta,

    (5)   modo de vida correto,

    (6)   esforço correto,

    (7)   concentração correta

    (8)   meditação correta.

    Todos os seres da Terra Pura ao ouvirem esses cantos, se tornam conscientes do Buda, do Dharma e do Sangha. Nessa Terra Pura não existe nenhum tipo de sofrimento e todos os seres gozam de perfeita felicidade. Várias vezes durante o dia e a noite, sopra uma brisa suave fazendo tilintar as joias das árvores, produzindo um som maravilhoso como a música celestial e que faz lembrar o Buda, do Dharma e do Sangha.

    O Buda Amida, Senhor dessa Terra Pura, é conhecido como o Buda da Vida e Luz Infinitas. Luz Infinita, pois seu corpo resplandece emitindo uma luz que brilha ilimitadamente e sem impedimentos por todos os mundos das dez direções, iluminando até mesmo os nossos corações. E, Vida Infinita, por que a sua vida prolonga-se por um período imensurável de tempo com o propósito de poder salvar a todos os seres sofredores, e vivificar a nossa existência.

    Todos os seres renascidos nessa Terra Pura estão, pelo poder do Voto Original do Buda Amida, no estado de não retrogressão, ou seja, não mais caem nos estados ilusórios e de ignorância que levam ao sofrimento, e se tornarão Budas plenamente realizados em muito pouco tempo.

    Não é pelo acúmulo apenas de boas ações ou estoque de méritos que os seres nascem nessa Terra Búdica, pois a capacidade dos seres viventes para isso é muito limitada. Mas sim, pelo poder do Voto Original do Buda Amida. Desse modo, qualquer pessoa que ouvir, guardar em seu coração e recitar o Sagrado Nome do Buda Amida, o Namu Amida Butsu, lá poderá renascer como seres iluminados.

    Todos os Budas das 6 direções: (1) leste, (2) sul, (3) oeste, (4) norte, (5) zênite e (6) nadir, tão numerosos quanto os grãos de areia do Rio Ganges, louvam as virtudes do Buda Amida e juram proteger os praticantes do Nembutsu (os que recitam o Namu Amida Butsu). Por isso o Buda Shakyamuni exorta a todos a aspirarem ao renascimento nessa Terra Pura.

    Shakyamuni declara que assim como ele também louva a virtude de todos os Budas, esses Budas também o louvam por ter atingido a Iluminação e pregado a Doutrina neste mundo das cinco corrupções: calamidades, opiniões errôneas, paixões mundanas, degeneração dos seres humanos e abreviação do tempo de vida.

    Tendo assim proferido seu ensinamento, o Buda entrou em profunda meditação e seus discípulos o saudaram com alegria e se retiraram para espalhar pelo mundo a sua mensagem de paz, alegria e esperança.

    Interpretação de Rev. Shaku Haku-Shin

  • Zen

    Tudo começa na mente

    É comum as pessoas me escreverem quando começam a praticar dizendo estarem perdidas e sentindo um grande desconforto. Outro dia recebi um e-mail em que a pessoa dizia ter um vazio dentro de si que não sabia como preencher. O que acontece é que o Budismo é um método que começa com uma desconstrução completa daquilo que as pessoas costumam usar como bengala ou apoio. Quando começamos a ensinar o Dharma, as pessoas perdem seus referenciais tais como: “A quem pedirei algo?”; “Quem pode me ajudar? Buda?”; “Existem anjos ou seres celestiais que possam me ajudar?”. A mensagem do Zen é que não há ninguém lá fora para quem você possa pedir ajuda, nem a Buda, que foi um homem como nós.

    O Zen não é consolador e é chamado de “O Caminho Direto”, pulando todos os estágios de prática, levando diretamente a um confronto consigo mesmo e com a vacuidade do “eu”. A única coisa oferecida pelo Zen na qual o praticante possa se apoiar são suas próprias ações.

    São com as suas ações que um praticante zen-budista pavimenta o caminho que ele irá percorrer. A cada pedra colocada, o praticante pode avançar no caminho. Ele pavimenta o caminho com a construção de seu próprio carma, portanto, ele altera seu carma e com isso no Zen tiramos a responsabilidade ou o poder sobrenatural de qualquer outro ser lá fora. Nós temos os poderes sobrenaturais para a construção de nossas próprias vidas. Desta e das futuras. Como? Através de nossos pensamentos, atos e palavras, através da construção de nosso carma.

    Alguns praticantes, quando lhes tiramos as ilusões, sentem-se desapoiados: “Onde me apoio?”. Porém, mesmo no Zen existe um apoio e esse apoio chama-se Sangha. Apoiando-se na Sangha ele não está só e, além disso, ele tem ainda pais, irmãos e amigos. Quando ele diz que sente um vazio dentro de si difícil de preencher, lhe falta engolir o universo, pois ainda vê as coisas de forma separada e dual. “Eu estou separado, eu sinto um vazio!” O sentimento de solidão irá acabar quando ele conseguir pôr fim à dualidade, quando não mais enxergar o “outro” e “eu”. A solidão só existe com a separação. Vocês percebem que com frequência falo de meu Mestre, Saikawa Rōshi? Por quê? Porque ele me é precioso. A última vez que esteve em Florianópolis fomos caminhar na praia e cada concha, cada pequeno peixe ou água viva que ele encontrava na areia, devolvia ao mar. Acredito que este seja verdadeiramente o sentimento de estar junto com todos os seres. Esta é também uma marca constante no praticante, a referência ao Mestre, porque quando fala no Mestre está dizendo “minha família”. Essa ligação que temos com o Templo sede, com nosso Mestre e até mesmo com templos de fora do Brasil, nos coloca na sensação de unicidade, desta forma nunca estamos sós.

    Aqueles que se sentem desamparados quando iniciam a prática, ainda não perceberam o quão acompanhados estamos. Mas é necessário vir à Comunidade, sentir a prática coletiva e escutar seu professor. Isso é muito importante.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien