fbpx
  • Zen

    Grande Fé

    O segundo elemento essencial a uma boa prática é uma “Grande Fé”. Fé na prática, fé nos ensinamentos, fé no professor – um ser humano, com falhas humanas, que tem mais experiência no Caminho e algum tanto de “iluminação” manifestada. E, mais ainda, fé na sua possibilidade de poder manifestar a sua própria “iluminação”, de encontrar a “resposta” à sua Grande Dúvida.

    Inicialmente, pode ser que parte desta fé você encontre depositando fé nos outros. Você gostou e confia no seu Professor de Darma. Ou admira um praticante budista e confia nele. Mas os seres humanos são literalmente isto: seres humanos, sujeitos a falhas. Podem nos desiludir. Mais ainda: uma das funções dos Professores de Darma é “puxar o tapete” debaixo de nossos pés. Podem até nos provocar, fazendo com que manifestemos a nossa “sombra”, na esperança de que possamos “iluminar” este aspecto nosso que foi trazido à luz. Nestas horas, podemos até nos sentir “traídos” pelo Professor, enquanto não estamos compreendendo o que ele está tentando nos ensinar. Portanto, temos que ir além desta fé inicial, depositada em seres humanos externos a nós mesmos. De um lado, temos que amadurecer e aprofundar a nossa fé no Professor e outros seres humanos, temperando-a com fé nos ensinamentos e no próprio Darma – passo-por-passo.

    E os ensinamentos, que foram transmitidos já durante 2.600 anos – podemos depositar fé neles? Podemos, mas isto também tem suas limitações, pois a transmissão dos ensinamentos depende da comunicação e das palavras, sempre sujeitas às mais variadas interpretações. Transcrições de diálogos entre grandes mestres e os seus alunos não nos transmitem o contexto, o cenário, todos os detalhes que fizeram com que aquelas palavras fossem as mais apropriadas para aquele aluno naquele momento.

    No Zen, encontramos inúmeros exemplos de professores que, num momento dizem uma coisa e, em outro momento, dizem exatamente o contrário. Será que estão mentindo? Será que são loucos? Ou será que estão simplesmente falando exatamente aquilo que é mais apropriado àquele momento, àquele contexto, àquele aluno – para convidá-lo a tomar o próximo passo de aprendizagem? Como alunos do Zen, existem momentos que podemos nos desesperar com um professor que parece estar se contradizendo. Como é forte, nestes momentos, o sentimento de “Mas você não falou ‘x’ antes? Por que está falando ‘y’ agora? Qual é a verdade, ‘x’ ou ‘y’?”.

    Conheço uma mestra moderna que faz isto o tempo todo. Será que ela é louca? Não acho, não. Acho que ela está simplesmente me desafiando a mergulhar para dentro e encontrar a MINHA verdade – e desafiando outras pessoas com quem ela faz a mesma coisa a fazer o mesmo mergulho para dentro. Não é um processo fácil. Mas certamente me oferece a oportunidade de me aprofundar na fé verdadeira que preciso cultivar – a Grande Fé. Fé na minha própria Natureza Buda, fé no Universo, fé no Darma, fé na minha prática, fé em mim mesma. Fé para atravessar a noite escura da alma – ou as noites escuras da alma. É aí que entra o terceiro pré-requisito da prática. (continua)

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

    Imagem

    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    O zen é enganadoramente simples

    O Dharma é enganadoramente simples: é colocar os chinelos, é sentar-se. Na realidade as instruções para o zazen também são enganadoramente simples: entrar na sala, procurar uma almofada, sentar-se, não mover-se e acalmar o corpo para acalmar a mente. Ficar imóvel durante o zazen é importantíssimo, pois uma mente agitada é um corpo agitado. Usamos o corpo como uma âncora para acalmar a mente. Fazer zazen é, portanto, simplesmente sentar-se e existir, ser uno com todas as coisas, ouvir os sons sem julgá-los, não fazer cogitações ou viagens para passado ou futuro. Todas essas parecem ser instruções bem simples, mas somente aqueles que se sentam para experimentar é que descobrem o quão difícil é essa simplicidade.

    Da mesma forma quando estamos vivendo, nossos gestos e ações devem ser controlados. Se houver atenção ao que fazemos não derrubaremos coisas. Se em tudo que fizermos tiver a presença de todo nosso ser, corpo e mente, nossos gestos tornar-se-ão calmos e precisos. O mesmo deverá ocorrer com nossas palavras. Ao tomarmos cuidado com as palavras elas não ofenderão ou causarão desarmonia e desavenças. Tudo isso é uma questão de prestar atenção e é razoavelmente simples. O mais difícil é não permitir que nossa mente se agite com pensamentos e sentimentos e não permitir que os acontecimentos externos nos mobilizem, fazendo com que falemos ou ajamos de forma incorreta, não permitir que nossa mente seja tocada pelo vento.

    Em muitos textos o vento é a analogia preferida para descrever as paixões, pois ele empurra as folhas de um lado para outro e se deixarmos que os sentimentos ajam, ficaremos como as folhas, batendo de um lado para outro, arrastados pelos sentimentos e pelas paixões. Esse é um dos votos do Bodhisattva: “As paixões são inexauríveis; faço o voto de extingui-las todas”.

    Os ventos são as paixões e nossas vidas são abundantes em ventos e tempestades. Extinguindo as paixões poderemos repousar, mas isso não significa que com isso perderemos nossa capacidade de nos emocionarmos, sentirmos e partilharmos dos sentimentos dos outros seres.

    Fazer zazen é, portanto, simplesmente sentar-se e existir, ser uno com todas as coisas, ouvir os sons sem julgá-los, não fazer cogitações ou viagens para passado ou futuro.

    Fazendo com que nossas mentes parem, nos tornaremos boas antenas receptoras do que acontece à nossa volta, entendendo e sentindo o que os outros sentem. A marca daqueles que conseguem silenciar suas próprias paixões é compreender as paixões dos outros, pois há dentro de todos os mesmos impulsos e nós os conhecemos e, por sermos humanos, nada do que é humano nos é estranho.

    É importante sermos capazes de nos mantermos sensíveis ao mesmo tempo que somos capazes de extinguir nossas paixões. Esse é o significado do segundo voto do Bodhisattva.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

    Imagem

    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (3)

    (continuação da 2ª parte)

    Foi muito importante ouvir a Monja Coen sempre repetindo “Vá além, sempre vá além”, quando estava iniciando a minha prática com ela no Templo Busshin-ji anos atrás. Lembro-me do zazen nos retiros, dos momentos de êxtase e bem-aventurança e nunca esqueço o dia em que o “vá além” me fez tomar consciência do fato de que não podia continuar lá, parada num estado de bem-aventurança, mas que, para alcançar a equanimidade, não somente precisava abrir mão dos sentimentos “negativos”, mas também tinha que evitar o apego aos estados “positivos”. Tinha que experimentar abrir mão também da alegria durante o zazen – e aí que pude começar a descobrir o gostinho da Paz e Tranquilidade…

    O Budismo Tibetano fala claramente sobre “Sinais de Progresso/Armadilhas” (Nyams) da prática de meditação e considera a Bem-aventurança um dos três principais Nyams.

    No artigo “The Danger of Samadhi” (“O Perigo do Samadhi”), extraído do livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (literalmente “O Poder e a Dor: Transformando Dificuldade Espiritual em Alegria”, ainda sem versão em português), o autor Andrew Holecek explica que os Três Nyams principais são: 1. Bem-aventurança, 2. Clareza Mental e 3. Sem-pensamento. Ele fala:

      “Estas experiências podem surgir sozinhas ou em combinação. Sem-pensamento, por exemplo, é estado de bem-aventurança que dá origem à clareza. Estas três experiências são como um “docinho para a mente” e um gostinho bom é OK, mas um excesso destes doces deixará a sua meditação doente.
        “Se estas experiências temporárias, chamadas

    nyam

      em tibetano, não foram compreendidas, elas envenenam até mesmo o praticante mais avançado. São armadilhas sofisticadas que podem surgir a qualquer momento, mas tendem a ocorrer nos níveis mais altos. São comuns e muito perigosas.
        “[…] Não há nada essencialmente problemático com estas experiências, o problema é de um relacionamento inapropriado com elas. Devido ao fato de elas serem tão gostosas, nós ficamos viciados. Como as endorfinas que são liberadas no “barato do corredor”, estes

    nyams

      são o “barato do meditador” e como qualquer maratonista, meditadores-maratonistas também desejam mais deste barato. Mas, como temos visto, a meta [da prática] não é de nos sentirmos bem, mas de nos tornarmos reais. Estas experiências podem indicar que estamos fazendo a coisa certa, porque são vislumbres da natureza da mente iluminada e podem apontar o caminho. Mas, vamos perder o caminho se tentamos repeti-las. São subprodutos da meditação. O problema é que pensamos que são o produto final da meditação.”

    Recomendo este livro, que pode ser importado, versão impressa ou digital.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    A mente aquisitiva

    Dizemos que prática é iluminação como um truque para desarmar a mente aquisitiva, mas só fazer a prática ainda não é a iluminação.

    Na Escola Sōtō existem várias maneiras de escapar das armadilhas de uma mente aquisitiva. Nós naturalmente queremos adquirir coisas, até mesmo uma criança pequena já começa a dizer “É meu”.

    No Zen tentamos desarmar essa mente que existe dentro do ser humano. Isso é um tanto difícil de detectar, pois fomos educados desde criança que egoísmo é feio, logo, as pessoas comportam-se como civilizadas. Porém quando temos um grande desastre natural como terremotos, por exemplo, a primeira coisa que surge são os saqueadores. Essas pessoas têm uma mente que deseja adquirir coisas para si, nem que isso implique em tirar dos outros.

    Quando você se senta, tem um objetivo – obter algo para si, que pode ser paz no coração e na mente, serenidade e até mesmo adquirir as coisas que a gente imagina que um santo tenha. Porém essa ambição de conquistar algo pode ser muito forte e egoísta. É como trocar a ambição do ouro pela ambição da iluminação. Podemos até imaginar dois praticantes discutindo sobre quem é mais puro e quem é menos egoísta. Uma das formas que os mestres encontraram para resolver esse tipo de problema é fazer com que o aluno desenvolva o shikantaza, que é a maneira como sentamos que significa “apenas sentar”, não significa ir atrás da iluminação. Na realidade quando você se senta, já é paz e serenidade. Você está sentado como Buda. Sua mente sabe que não é verdade, por isso você deve imitar não somente a postura, mas também a fala de Buda. Alguém poderá dizer que imita a fala de Buda, não diz coisas insultuosas, não fala palavras de baixo calão, evita brincadeiras maliciosas e tenta ter a mente de Buda, mas sua mente continua pensando diferente. Mas se você praticar bastante, vai chegar o momento em que o pensamento vem e, se você não o expressa, ele perde a força de modo que um dia seus pensamentos mudam e não ocorrerão mais, e sem que você tivesse planejado, você é como Buda.

    Nossa prática é imitar Buda sem ambicionar ser como Buda, porque isso também é querer algo para si mesmo, também é uma mente aquisitiva. Quem quer esse algo, não o consegue alcançar porque dentro dele existe o pensamento orgulhoso e materialista de querer ser especial. O melhor entre todos é aquele que não se vê especial. Em razão desse pensamento de que se sentar e praticar já seja a iluminação, algumas pessoas começaram a pensar que não precisam buscar a iluminação simplesmente pelo fato de estarem sentadas quietas e imóveis. Se você pensar que sentar-se, praticar cerimônias e comportar-se adequadamente no Dōjō já é suficiente, acabará se transformando num ator, uma pessoa que finge que é.

    Uma vez em um teatro na Grécia, uma guia de turismo me disse que ator se diz “hipócrita” em grego, aquele que não é, mas finge ser. Na nossa prática, primeiro agimos como se fôssemos Buda, mas não se confunda, você ainda não é Buda. Dizemos que prática é iluminação como um truque para desarmar a mente aquisitiva, mas só fazer a prática ainda não é a iluminação. Esse engano está muito presente dentro de nossa própria ordem.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Dōjō, “O lugar onde a iluminação é alcançada. Isto refere-se inicialmente ao chão debaixo da árvore bodhi, onde o Buda estava sentado no momento de alcançar sua plena iluminação (Skt. Bodhi-Manda); um lugar onde a prática religiosa é realizada, ou onde o Buda é adorado. Um lugar onde os preceitos são dados; um centro de prática.” Fonte: Digital Dictionary of Buddhism

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

    Imagem

    Organização: Rodrigo Daien