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  • Zen

    Uma gota de sabedoria

    Sente-se apenas pelo bem do zazen.

    “Talvez seu zazen ainda seja o zazen de um iniciante ou, algumas vezes, pior do que o de um iniciante. Às vezes, sinto vergonha de mim mesmo quando vejo um estudante praticando muito bem: ‘Ah, ele é muito bom’. Desejaria ser ainda tão jovem quanto ele, mas é tarde demais. De qualquer modo, nossa prática não pode ser melhor do que a de uma rã sentada, mas tudo bem. Assistir alguém praticando um bom zazen é inspirador, não apenas para mim, mas para todos. Se seu zazen for bom o bastante para causar boa impressão, seu zazen será bastante bom, ainda que você não pense assim. Da mesma maneira, ainda que você pense que seu zazen é muito bom e você sinta orgulho de sua experiência de iluminação, se seu zazen não inspirar ninguém, talvez seja uma prática errada.

    “Quando falamos a respeito dos preceitos, dizemos: ‘Não faça isso’, ‘Não faça aquilo’. No entanto, se você estiver fazendo alguma coisa boa como o zazen, não poderá fazer algo ruim ao mesmo tempo. Se você continuar agindo bem, será assim que se observam nossos preceitos. Então, a questão é apenas se sentar, esquecendo tudo a respeito de fama ou lucro. Sente-se apenas pelo bem do zazen. E assim que se tem uma mente que realmente busca o caminho para encontrar seu desejo mais profundo.” Trecho extraído de “Nem sempre é assim”, do mestre Zen Shunryu Suzuki, Editora Religare

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Grande Dúvida

    A maioria das pessoas chega à prática espiritual motivada por um sofrimento que deu origem a um questionamento. Quase sempre, a pessoa está fazendo uma pergunta do tipo “Por que está acontecendo ‘x’?” ou “Por que eu?”.

    Muitas destas pessoas nem dão continuidade à prática num centro de prática séria, e vão embora depois de uma, duas – algumas – visitas. Outras pessoas, depois de algumas sessões de meditação, sentindo algum alívio do problema imediato que as trouxe até o zazen, já relaxam os seus questionamentos. Talvez até se tornem associadas, até venham a se considerar “praticantes”. Mas a verdade é: não chegaram a fazer a pergunta essencial, não se abriram para a “Grande Dúvida” e, assim, ainda não entraram realmente no caminho espiritual.

    Algumas poucas pessoas, ao passar por uma situação de dificuldade, acabam aprofundando as perguntas iniciais (“Por que eu?”, “Por que está acontecendo ‘x’?”) para começar a questionar: “Quem sou eu?”, “Qual é o significado da minha vida?”, “Qual o sentido da vida e da morte?”.

    Estas são perguntas da “Grande Dúvida” – o início da caminhada espiritual. A tradição Rinzai Zen usa os “koans” para provocar a Grande Dúvida. Quanto mais intensamente se vivencie a “Grande Dúvida”, tanto maior será a “iluminação” obtida. Acredito que, na nossa realidade de seres humanos, as nossas “iluminações” são, na verdade, “pequenas iluminações”, pois a diferença entre “ter uma ou algumas experiências de iluminação” e “se tornar uma pessoa iluminada”, ou “se tornar uma pessoa que manifeste plenamente a sua iluminação”, é igual à diferença entre água e vinho.

    Os mestres também nos ensinam que aquela pessoa que se acha “iluminada” não é. Ainda nos ensinam que a prática deve ser constante e pelo resto da vida – e próximas vidas, também.

    Portanto, sempre que acreditamos que encontramos uma resposta à “Grande Dúvida”, é importante que recoloquemos a pergunta e sigamos além, além da resposta atual, além da nossa compreensão deste momento, sempre além, sempre nos aprofundando mais e mais.

    O grande perigo aqui está em achar que encontramos “A Resposta” e que a “Grande Dúvida” já acabou. Vamos cair numa complacência, arrogância – talvez até nos posicionando como prontos para liderar outras pessoas, mas, na realidade, estamos nos iludindo e iludindo os outros. De certa forma, a nossa caminhada espiritual foi abandonada. O nosso Zazen se tornou um “zazen de conforto”, um “zazen de consumo”. Sempre podemos encontrar mais um pedaço da resposta à “Grande Dúvida”.

    Mas, vamos dizer que você está com o seu questionamento “à flor da pele”. Entrou no caminho espiritual e iniciou uma prática. Aí surge a questão da fé. (continua)

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    A iluminação existe?

    A iluminação existe e as pessoas têm como perceber isso, pois têm experiências iluminadas em suas vidas, mesmo que muito breves. Em um belo momento vemos o mundo como maravilhoso e sentimos uma grande e profunda felicidade, quando parece que tudo está certo e é perfeito, mas ao primeiro pensamento e à primeira consideração, essa percepção se esvanece. O que seria, então, a iluminação? Não é um acontecimento extraordinário e especial, mas ao mesmo tempo é extraordinário e especial. Talvez algumas pessoas, tão envolvidas estão com problemas, preocupações, insegurança, raivas e sentimentos menores, que jamais tenham uma experiência iluminada em suas vidas. Essa turbulência sentimental as afasta da percepção pura, mas, no entanto, esta percepção está a qualquer momento disponível, o que acontece é que as pessoas não chegam a percebê-la com facilidade e ela muitas vezes surge em momentos de paz e quietude interna.

    Quando surge um momento como este um sentimento de profunda felicidade pode nos invadir. Esse sentimento de felicidade invasiva é semelhante a quando uma pessoa se apaixona e sabe que é correspondida. No exato momento desta percepção, uma euforia invade a pessoa e ela sente-se profundamente feliz, até que surjam as primeiras perspectivas de problemas, medos ou inseguranças, que irão destruir essa sensação.

    A iluminação não é assim, ela tem esse aspecto de felicidade e plenitude, mas não há um objeto do qual seja dependente, trata-se de uma mudança interna. Como você mudou por dentro todo o mundo lhe parece diferente. O que sucede então é o que chamamos de “Kenshō”, é vermos nossa verdadeira natureza por um breve momento e essa experiência é uma experiência iluminada. Às vezes as pessoas têm essa experiência não exatamente por estarem praticando meditação, mas em qualquer tipo de prática religiosa e a abertura de uma porta mística lhes permite sentir ou perceber como se tivessem levantado a ponta de um véu que lhes possibilitasse ver que do outro lado existe luminosidade.

    No entanto esta experiência se perde com grande facilidade e qualquer pequeno incidente faz com que ela desapareça. Por isso fazemos uma distinção entre o “kenshō”, que é fugaz, e a iluminação verdadeira, que chamamos de “Satori”. “Satori” é ter atingido um estado tal em que esta experiência está disponível sempre. Você pode chamar quando quiser e ela irá lhe invadir. Não que isso seja algo sobrenatural, apenas você aprendeu como fazer a sua mente se comportar daquela forma e quando você faz isso, se dissolvem as distâncias entre sujeito e objeto, entre “eu” e os outros ou entre mim e as coisas. Passa a existir uma identidade entre o “eu” e todas as coisas e é como se o “eu” tivesse desaparecido e essa sensação de totalidade e plenitude é profundamente feliz.

    Talvez algumas pessoas, tão envolvidas estão com problemas, preocupações, insegurança, raivas e sentimentos menores, que jamais tenham uma experiência iluminada em suas vidas.

    Essa sensação possui algumas características interessantes, como por exemplo, ao atingir esse estágio nenhuma pergunta fica sem resposta, não existem dúvidas, dissolvem-se as divisões sectárias entre religiões ou crenças e, então, todas parecem ter um aspecto apreciável e compreensível e por isso surge grande paciência, tolerância e compreensão. Nós praticamos zazen porque é a prática de nossa linhagem, que é focada na iluminação. Já falei algumas vezes que mesmo em nossa escola essa prática não é a mais comum, pois algumas pessoas estão focadas nas cerimônias e demais práticas formais, julgando ser isso o verdadeiro Zen. As práticas formais são apenas técnicas ou métodos para despertar um espírito que facilite o surgimento desta percepção, mas esta exige um treinamento da mente e por isso treinamos uma forma de meditação que pode até ser desconfortável para o corpo, mas o despertar não virá sem este acesso. Não se trata de fé ou crença e, sim, de experiência, portanto tudo que posso lhes dizer é que testem e experimentem e, se vocês tiverem uma pequena experiência, saberão que a grande experiência é possível. Nosso foco é a grande experiência.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (2)

    (continuação da 1ª parte)
    A primeira armadilha que vou tratar não é um “sinal de progresso” – mas é talvez uma das piores armadilhas da nossa prática.

    Chama-se “atalho espiritual”, ou “spiritual bypassing” em inglês, e é encontrada em vários caminhos espirituais. A palavra “bypass” significa literalmente “passar pelo lado”, e a melhor tradução que consegui neste contexto para o português foi “atalho espiritual”. Mas é uma tradução que pode levar a uma compreensão errônea do conceito.

    As décadas de 1950 e 1960 foram um período de grande expansão da malha rodoviária norte-americana com a construção das grandes “interstate highways” (rodovias interestaduais). Isto facilitou bastante a locomoção de uma parte do país ao outro e unificou o país de ponta a ponta, mas também trouxe um efeito colateral que talvez não tivesse sido previsto, e que dificilmente vemos sendo comentado: o declínio e até a “morte” de um grande número de cidadezinhas e vilarejos. Devido aos “atalhos” que agora passavam pelo lado destas cidadezinhas, criados pelo novo sistema rodoviário, veículos que antes passavam por dentro daquelas pequenas cidades – e sempre com alguns dos motoristas parando para comer num dos restaurantes, para abastecer num dos postos de gasolina, ou para fazer compras numa das lojas – agora passavam direto – passavam “pelo lado”, correndo para destinos variados, para desespero dos comerciantes locais. Algumas destas cidadezinhas se tornaram cidades fantasma mesmo e todas elas sofreram consequências econômicas graves.

    Quando ouço a palavra “bypass” é esta a imagem que me vem à cabeça: vilarejos sofrendo ou morrendo como preço pelo “atalho rodoviário”.

    Devido à cirurgia de ponte aorto-coronária ou ponte de safena, que é chamada de “coronary bypass” em inglês, temos a tendência de pensar em “bypass” como algo sempre benéfico, pois, em lugar de “lojinhas indo à falência”, temos pessoas recuperando a saúde, com uma ponte que “passa pelo lado” de uma parte danificada do sistema circulatório.

    Mas este não é o caso de “spiritual bypass”, ou “atalho espiritual”, em que questões internas do praticante de um caminho espiritual são deixadas de lado, baseando-se numa compreensão errônea da prática.

    Alguns exemplos disto são:
    1. uma pessoa que não sabe expressar raiva, que é vista como um modelo de paciência e bondade, mas que no fundo é apenas uma pessoa reprimida e que deve sofrer por conta disso;
    2. uma pessoa que vive o padrão de “codependência”, anulando-se a si mesma no esforço de ser aceita e amada, mas que acaba sendo percebida como “santa” pelos incautos num grupo de prática espiritual.

    A prática correta demanda que cuidemos das nossas questões internas, exige a superação de nossos condicionamentos e traumas – pede o esclarecimento de nossa “sombra”. Não podemos desprezar as nossas emoções. Pelo contrário, a prática correta deve nos levar a uma integração corpo-mente-emoções cada vez melhor. (Continua)

    Assistam a uma palestra da autora sobre o tema

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    A prática quando estamos sós

    Porque ir praticar quando as coisas estão maravilhosas, não tem nenhum mérito.

    É para se sentar com todos que se vem à Sangha, esta é a razão de sua existência. Mas se o fazemos por causa de uma liderança, a prática não é forte, porque a prática no zen não depende da liderança. A tradição é se sentar sozinho durante longo período e visitar o mestre de vez em quando para tirar dúvidas, para mostrar aquilo que se pensa ter realizado, para expor e receber uma confirmação. Se nossa prática depende dos outros, ela é fraca. Deveríamos ser capazes de nos sentar sozinhos em nossas casas e nos reunirmos com a Sangha para apoiar os outros praticantes, não vindo, somente, porque naquele dia o professor estará presente. Isso, para o professor, é como se ele visse sua própria fraqueza, porque sua força é fazer praticantes fortes e não pessoas dependentes. Não é isso que o professor quer.

    Durante toda a história do budismo, o esforço de todos os mestres foi de criar praticantes melhores que eles e que pudessem sucedê-los. Tantos mestres viram suas linhas, suas escolas, desaparecerem, porque não houve sucessores. Por ter isso ocorrido tantas e tantas vezes, a maior alegria de um mestre é ver grandes e fortes alunos que não dependem dele. Numerosos mestres tiveram apenas um discípulo sucessor, raríssimos tiveram centenas. Somente mestres como Buda tiveram muitos sucessores. Seria interessante nós examinarmos o que é a prática, como ela se estabelece. A prática, na verdade, só tem sentido se é usada na vida diária. Infelizmente, em nossa vida diária, temos que vestir máscaras e atuar em papéis que não são o papel do praticante. Alguns deles são verdadeiros impeditivos da realização espiritual. Então, a prática da vida diária é um enorme desafio, pois temos, frequentemente, que agir de outra forma. Na Sangha você pode – e deve – aceitar todas as falhas e erros dizendo: “Não tem importância, vamos tentar mais uma vez”. Se os alunos estão fazendo bem o ritual, o professor pode mudar algo, porque o melhor é que as coisas nunca funcionem muito bem para que possamos nos aperfeiçoar. Se alguém é uma pessoa bem treinada para determinada função, é conveniente tirá-la daquele papel em que ela se sai bem, para que ela passe a fazer algo em que não se saia tão bem. Se alguém ficar fazendo uma tarefa para a qual está bem preparado, será ruim para ele, para o seu ego, não lhe fará bem. Na verdade, a Sangha não deve funcionar muito bem, deve servir de caminho de aperfeiçoamento.

    Na nossa vida profissional funciona tudo ao contrário, você irá escolher a melhor pessoa para determinada tarefa e irá exigir dela proficiência. Frequentemente você terá que ser intolerante, fazer cobranças e assumir seu papel tal como ele é. Quem é policial tem que ser policial, chefe de cozinha tem que ser chefe de cozinha, integralmente. O professor tem que ser severo, cobrador. O policial tem que ser duro, incorruptível, e muitas vezes, intolerante. Embora a cada momento tenhamos que medir os limites das situações, não há regras claras, esse é o desafio da vida: viver sem ensaio. A Sangha não é assim. Nós podemos saber se somos bons praticantes quando as condições não são boas, quando chove e faz frio, e mesmo assim, as pessoas vão praticar. Isso é uma boa prática. Porque ir praticar quando as coisas estão maravilhosas, não tem nenhum mérito.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien