• Budismo Tibetano

    Do meu coração para o seu

    Recentemente, após voltar de um retiro de 21 dias de meditação em silêncio, se eu pudesse compartilhar algo com você de maneira direta e honesta o que foi mais importante pra mim durante esses dias eu diria:

    Precisamos abrir o nosso coração, verdadeiramente, e aprender a nos acolher, nos nutrir com amor, nos ouvir. Sabe aquele “serzinho” que fica dentro da nossa mente reclamando, criticando e nos julgando? Apontando nossas falhas e as vezes nos colocando pra baixo? Precisamos ouvi-lo, acolhe-lo e nutri-lo com amor genuíno, pois é isso que faríamos se um amigo querido viesse desabafar seus problemas pra nós.

    Se aprendermos a fazer isso conosco, isso se expandirá para todo o mundo. Como podemos querer amar nossa família e amigos se não conseguimos ficar 5min em silêncio na nossa própria companhia? Nós estamos com a nossa mente 24h por dia 7 dias por semana e onde quer que formos, ela irá conosco, então, que bom seria se ela fosse nossa companheira para quem pudéssemos desabafar e ser acolhidos ao invés de ficarmos nos cobrando e nos julgando o tempo todo?

    Acredito que esse é um ótimo começo para conseguirmos ter uma vida mais significativa, com bem-estar e felicidade. Também acho que devemos nos equilibrar e pacificar internamente caso tenhamos a intenção de trazer benefício aos outros seres, não que precisamos “primeiro” nos arrumar para depois ajudar, mas que no movimento da vida consigamos ir fazendo essas mudanças de perspectiva internas ao passo que aplicamos isso em nossa vida cotidiana.

    Que você seja genuinamente feliz e esteja bem!

    Essas palavras foram de algo que eu senti e não de teoria que li em algum livro. Tem um sabor especial na minha experiência!

    A aplicação do que aprendi no retiro começa agora, na vida, no meu dia a dia!

    (Isso é porque eu queria ser direto =))

    Muito obrigado a minha mulher (Clara) e filho (Gabriel), agradeço também ao grupo de amigos espirituais (Sangha) que fizeram o retiro comigo, todas as pessoas que de forma direta ou indireta contribuíram para que eu pudesse ter todas as condições de fazer o retiro e ao meu mestre Lama Jigme Lhawang por essa oportunidade única e especial!

  • Zen

    Joko Beck e a função de um Centro Zen

    Hoje eu quero falar sobre a função de um Centro Zen. De uma maneira geral, podemos dizer que é apoiar a prática; e é claro que é verdade. Mas temos um monte de ilusões sobre Centros Zen como também temos sobre os professores. E uma coisa que tendemos a pensar é que um Centro Zen deveria ser um lugar muito agradável para mim – em outras palavras, deve ser não ameaçador (risos). Eu acho que um bom centro deve ser bastante ameaçador às vezes! Não é função de um centro cuidar do seu conforto ou da sua vida social. Com isso não quero dizer que não devemos ter eventos sociais – eu acho que são ótimos -, mas não são a principal função de um centro. A função de um Centro Zen não é prover as pessoas de uma vida social. Não tem necessariamente o papel de fazê-las se sentirem bem, e não é para fazê-las se sentirem especiais.

    Essencialmente, um centro é uma ferramenta poderosa para ajudar-nos a despertar. Como uma sangha praticando em um centro, precisamos, sim, nos apoiar uns nos outros, mas a natureza desse apoio pode não ser exatamente o tipo de apoio que é frequentemente visto num escritório. Você sabe, o namorado de uma moça a deixa – “Oh! coitadinha! Sabe, quando o MEU namorado me deixou…” (risos) e lá vamos nós! Há uma atitude de “somos todos vítimas juntos nessa” que NÃO é apoio. Quanto mais praticamos, bem, menos este tipo de apoio falso é o que se encontra num centro bom.

    Deve ser um lugar, então, que nos dá apoio, sim, mas que também nos desafia, e nesse sentido somos todos professores uns dos outros. Alguns dos ensinamentos mais poderosos em um Centro Zen nada têm a ver com o professor; às vezes o ensino vem de outra pessoa, vindo diretamente da experiência dessa pessoa. Para ser honesta, estar ciente do que a prática real é e compartilhá-la com os outros – é isso que torna um centro um tipo de lugar diferente para se estar.

    Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossas fantasias.

    Infelizmente, Centros Zen tendem a ser um pouco ego-perpetuantes: nós queremos que eles sejam maiores, melhores e mais importantes que o centro do outro cara, com certeza! Há correntes de ego muito sutis que podem circular em um Centro Zen, como em qualquer outra organização, se não tivermos um cuidado especial.

    E algumas reflexões sobre a sangha: um ponto é crucial – quanto mais tempo as pessoas vêm praticando, menos importante deve ser o papel externo delas. E por isso eu não quero que as pessoas que vêm praticando por muito tempo presumam que elas sempre serão monitoras – às vezes, sim, claro, mas quanto mais avançado o aluno, mais eu quero que a sua influência seja sentida através da sua prática e através da sua vontade de não parecer importante e de deixar os alunos mais novos começarem a assumir algumas das posições externamente visíveis.

    A marca de alunos seniores é trabalhar quando ninguém sabe que eles estão lá. Eu vejo pessoas trabalhando no escritório do Centro em horários estranhos; às vezes eu estou voltando das compras e eles estão trabalhando duro. Isso é um sinal de prática madura, fazer o que deve ser feito mantendo a nossa própria importância fora disso.

    Pessoalmente, eu estou tentando ir por esse caminho, minimizando a enorme importância dada ao papel do professor. E eu quero que isso se aplique a todos os alunos mais velhos. Então, se você sente que não está tendo a oportunidade de fazer o que você costuma fazer, ÓTIMO! Então você tem algo muito bom com o que praticar.

    Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossas fantasias. Assim, em nossa chateação, acabamos retornando à base da prática – que é, tanto quanto eu posso colocar em palavras, assumir mais e mais a posição de um observador em nossas vidas.

    Com isso quero dizer que tudo em nossas vidas vai continuar a ocorrer – os problemas, as dificuldades emocionais, os dias agradáveis, os altos e baixos, que são aquilo de que consiste a vida humana -, mas é a capacidade de não ser pego – de apreciar o que está acontecendo quando é “bom”, de ter tranquilidade quando é “ruim”, e de observar tudo isso, que é o trabalho contínuo.

    A marca do amadurecimento da prática é simplesmente a capacidade, mais e mais e mais, de perceber o que está acontecendo e não ser fisgado por isso. Fácil falar, mas provavelmente de 15 a 20 anos de prática rigorosa são necessários antes que nós sejamos dessa forma uma boa parte do tempo.

    E isso não é o estágio final. Quando não há nenhum objeto, nenhuma pessoa, nenhum evento, nenhuma coisa no mundo que me fisga, aos quais eu esteja preso – quando não há nenhum objeto e nenhum self observando -, então, há uma virada para o que seria, para dar-lhe um nome, o estado iluminado.

    Nunca conheci ninguém que eu sentisse que tivesse alcançado isto, mas algumas pessoas têm-se saído bem e, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa assim, você sentirá a diferença que há em alguém que não é fisgado pela vida (necessitado, desejando ardentemente algo ou alguém, insistindo em que a vida seja de certa maneira) – você perceberá que tal pessoa está em paz e livre.

    Estas são as pessoas que são uma influência curativa e benéfica sobre toda a vida que está perto delas. Elas não precisam fazer nada – a cura vem da maneira como elas são. Essa transformação é o que queremos da nossa prática. Temos muita sorte de ter essa oportunidade nesta vida. Vamos aproveitá-la e fazer o nosso melhor.

    Palestra da mestra Zen Joko Beck. Tradução de Isshin-sensei e Muriel Paraboni.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Nichiren

    A prática do Bodhisattva

    Hotsu bodaishin (發菩提心):

    É a aspiração de transformar nosso “eu” no “eu verdadeiro”, acordar para a mente “Bodai” (sânsc. Bodhi), que significa “iluminação” ou “sabedoria que conduz ao despertar”. Simplificando: Florescer a semente de Buda que temos em nosso interior

    Mas essa semente de Buda está encoberta por desejos impuros, sendo essa a nossa condição normal em nossa vida diária. Então vivemos essa vida impura, porém em algum lugar do nosso coração podemos perceber nossa semente de Buda, e em razão disso devemos lapidar o nosso coração, e está força se chama “Shin” (fé).

    Essa prática para florescer a semente de Buda se chama “Bosatsugyo” 菩薩行 (Prática de bodhisattva). “Bosatsugyo” é a ideia original de Budismo Mahayana.

    “Hotsubodaishin” é a origem do caminho para Bodai, que significa: entusiasmo do iniciante para florescer a semente de Buda. Esse “Hotsubodaishin” é a causa e “Bodai” é o seu resultado.

    Bosatsudo (菩薩道):

    O ensino de Shakyamuni está aberto para todos. O Buda criou um caminho que qualquer pessoa pode avançar com a própria decisão. “Bosatsudo” é o “Caminho do Bodhisattva” do Budismo Mahayana. E essas pessoas que caminham nesse caminho puro são veneráveis.

    As pessoas que caminham na via do Bodhisattva são comparáveis às Flores de Lótus Brancas do pântano.

    Por exemplo, no Capítulo 15 do Sutra do Lótus têm uma frase que diz que o praticante da via do Bodhisattva não se contamina com as impurezas mundanas, e isso é como a Flor de Lótus que nasce no pântano e não se suja. As impurezas do mundo são comparáveis a água do pântano, e esses Bodhisattvas nascem neste mundo. Em outras palavras, Bodhisattvas não existem separadamente do mundo real, assim como o Lótus só nasce na água suja.

    Quando nos deparamos com o sofrimento e preocupação, costumamos fugir, recusar e negar. Mas o Bodhisattva não fica alheio, ele encara a realidade de frente. Mais uma coisa importante: o Bodhisattva não se contamina com a sujeira existente no mundo real. E isso é comparável com a Flor de Lótus.

    Flor de Lótus no Pântano:

    Portanto, gostaria de explicar melhor sobre a prática do Bodhisattva em alusão a Flor de Lótus no pântano.

    Logicamente, sabemos que a água do pântano é cheia de impurezas. Caso nos deparássemos com essa água suja ficaríamos enojados. E isso é uma reação natural de um ser humano. Porém qual seria a nossa reação se diante dessa água suja avistássemos algumas folhas verdes e caules com Flores de Lótus Brancas? Será que mesmo assim veríamos a água suja como algo imundo? Ficaríamos ainda mais enojados se houvesse as Flores de Lótus?

    Talvez pela lógica, se compararmos a água suja com a Flor de Lótus, a água pareça ainda mais suja. Mas acredito que ninguém pense dessa forma.

    Essa imagem em virtude da composição de cores e harmonia vai nos transmitir a beleza como em uma pintura.

    O Lótus apesar de florescer na água suja não se contamina com a impureza dela, pelo contrário torna a impureza como parte da Flor de Lótus. Isso não anularia essa aversão que sentiríamos pela água suja?

    A verdadeira prática do Bodhisattva comparada com o Lótus Branco no pântano é a ideia original do Budismo Mahayana.

    O Dharma Maravilhoso do Lótus Branco

    O que é prática do Bodhisattva? Pode se dizer que é praticar o Dharma.

    O Dharma é como o Lótus Branco, portanto tanto o sofrimento e preocupação do mundo real, assim como o sofrimento e preocupação que temos no nosso coração são como a água suja do pântano. Não negar e se harmonizar a essa realidade é o ensinamento do verdadeiro Dharma.

    E esse verdadeiro Dharma se chama “Myoho” 妙法 (Dharma Maravilhoso).

    Como foi dito anteriormente o Lótus Branco no pântano é o mesmo que “Myoho”, ou seja, a prática do Bodhisattva.

    Quando decidimos viver como a Flor de Lótus do Maravilhoso Dharma, abre-se um caminho novo. Essa decisão chama-se “Namu” 南無.

    E esse “Myoho” é viver como o Lótus no pântano.

    O “Myoho Renge Kyo” nos ensina que, o único objetivo do Buda foi mostrar o caminho que possibilita a todos os seres vivos atingir a Iluminação. O “Myoho Renge Kyo” é o ensinamento supremo assim como o Lótus Branco.

    O “Myoho Renge Kyo” é um ensinamento para instruir os Bodhisattvas (ou seja, nós que estamos avançando no caminho), e também para proteger os que estão praticando esse caminho.

    Simplificando, o caminho do Bodhisattva do Sutra de Lótus é o estudo e compreensão do Dharma (ensinamentos do Buda), e acreditar e colocar esses ensinamentos na vida diária.

    Em outras palavras viver como o Sutra do Lótus, é a decisão chamada “Namu”, e juntando isso fica “NAMU MYOHORENGUEKYO”, e isso se chama “Odaimoku” 御題目.

    O Odaimoku é o juramento de se viver como o Lótus Branco. Então recitar com boca, corpo e coração é um passo da prática do Bodhisattva do Sutra de Lótus.

    *texto do rev. Yodo Okuda Shonin, da Nichiren Shu Brasil
    **crédito da imagem: http://500px.com/photo/73747861/buddha-by-dhanushka-lakmal

  • Budismo Tibetano

    O Amor e Lucidez nos Relacionamentos

    Seria possível tornar um relacionamento amoroso caminho espiritual?

    Cada ser humano concebe sua existência através de uma cadeia inter-dependente de relações com outros seres. Somos quem somos por um processo de relação com nossos pais, filhos, parentes, amigos, colegas de trabalho e assim por diante. Somos seres de relação. A visão de Buddha nomeada Pratitya Samutpada traz a noção literal de “originação através de uma relação co-dependente.” O conceito de eu sou parece estar separado dos outros, porém, quando investigado se revela exatamente como Buddha percebeu – um processo de co-dependência e relação contextual aromatizada por pré-disposições mentais.

    Nossa vida é uma reprodução ‘cinematográfica’ de um drama, romance, suspense, comédia e ação, surgida a partir dos mais variados e inacreditáveis processos de relações conscientes e inconscientes. Entre as relações mais favoráveis para uma oportunidade de rápida transformação interior estão os relacionamentos amorosos ou em família.

    Todos buscamos ser felizes. Portanto, vamos também em busca de felicidade ao iniciar um relacionamento. Porém, nossa felicidade nas relações amorosas encontra-se na maioria dos casos basicamente na dependência de sensações de prazer e desprazer.

    Com frequência dizemos ‘eu te amo, independente do que aconteça, irei te amar para sempre.’ Contudo, inexplicavelmente, nossa condição amorosa muda quando nosso parceiro(a) deixa de produzir as mesmas sensações prazeirosas (cognitivas e físicas) em nosso ser. Já perceberam isso?

    Dizemos ‘eu te amo’ mas o fato é que amamos a nós mesmos, amamos as sensações produzidas pelo outro em nosso psicofísico. Não importa se o outro esta feliz ou não e se há uma razão para ele estar agindo de determinada forma. Eu deixo de amá-lo porque ele deixou de me fazer feliz. Tudo bem, acontece, é natural, buscamos por felicidade individual também. Porém, isso ainda não é verdadeiro amor. O amor pleno, todo abrangente, ama genuinamente o outro e a si próprio simultâneamente.

    Nosso coração, sentimentos e pensamentos são dirigidos e modulados por energias de hábito, impressões mentais que controlam nossa vida – Eu gosto quando você me trata assim. Não gosto quando você age de tal forma. Nosso bem-estar é dirigido por estes registros internos, modulados por pré-concepções auto-centradas, tendências egoístas que são cegas para o outro e percebem somente sensações boas ou ruins. Chega a ser vergonhoso constatar nosso auto-centramento. Estamos grande parte de nosso tempo idolatrando a si próprios, sendo escravos de nossas sensações e conceitos.

    Entretanto, há um segredo aí. O auto-centramento revela uma capacidade de conhecer, nutrir e proteger um bem-estar quando posicionado a partir de um referencial que percebe as coisas de forma mais lúcida, sensata, coerente. Descobrimos que nosso corpo, energia e pensamentos são dirigidos a partir de um ângulo ou referencial interno. Podemos ampliar nosso referencial e nos encontrarmos naturalmente mais próximos dos princípios de como realmente a vida, incluindo o universo externo como também o interno, são regidos.

    Verdadeira felicidade nas relações será possível se operarmos a partir de um software interno mais amplo, um universo cognitivo que vai além de uma visão auto-centrada e estreita. Seremos mais felizes com nosso companheiro(a) na medida que desenvolvermos mais e mais liberdade frente a estas modulações habituais que dirigem nossa energia e formos capazes de olhar a vida a partir de uma perspectiva mais inclusiva, que abrange os pensamentos e sentimentos do outro.

    Dizemos: “Ok, entendo. Faz sentido. Mas e aí, como faço?” O truque é o amor genuíno, a bondade amorosa, maitri em sânscrito. O Amor vê, percebe, discerne. É sensível, acolhedor, despreocupado com resultados. É paciente, gentil e aberto. Se nossa atitude estiver fundada no amor genuíno, cada instante de nossa vida será pleno, consciente, desconstraído e apreciativo.

    Quando reconhecemos o outro como parte de quem somos, como elemento atuante na construção deste personagem surgido através de relações contextuais, reconheceremos que nosso bem-estar e felicidade esta diretamente dependente do bem-estar e felicidade de nosso companheiro (a) como também de todos os outros com quem nos relacionamos, direta ou indiretamente.

    Nosso problema, muitas vezes, é o querer estar sob controle. Cegos perante a verdade de que o bem-estar genuíno surge da simplicidade, da abertura e curiosidade inteligente diante o movimento natural do universo e dos seres, nos encontramos constantemente insatisfeitos, movidos por medos, dúvidas e expectativas. Imperceptíveis aos pensamentos e sentimentos do outro, também sofremos. Nos sentimos inseguros por não ter controle sobre esses elementos. Verdadeiro amor é transcendente, amplo, leve, aberto e incondicional. Nos direciona a ir além da obdiência a impulsos auto-centrados. Eu olho para o outro não com as lentes que buscam nele uma fonte de felicidade mas com a perceção mais ampla que o inclui, que compreende igualmente sua busca por bem-estar.

    Como budistas reconhecemos que uma independência verdadeira frente a nossos automatismos cognitivos e emocionais só irá aflorar quando desenvolvermos um conhecimento profundo sobre a operação e natureza de nossa mente. Estamos aqui para aprender e amadurecer. O objetivo do caminho espiritual é nos tornar verdadeiramente adultos. Este conhecimento de nosso universo interior e a gradual segurança que surge a partir de nossa familiarização com ele faz brotar um destemor saudável, lúcido e aberto. Não teremos mais medo de errar nem nos moveremos por expectativas de acertar. Estamos simples e honestamente abertos a viver, experimentar, conhecer e aprender com o coração livre e leve.

    Amor genuíno pode aflorar e se desenvolver de várias maneiras. Uma forma é desenvolvida quando baseamos nosso amor através da percepção da impermanência e transitoriedade de todas as coisas – o movimento natural da vida e do viver. Disto surge uma disposição apreciativa de si, do outro, do momento presente, das condições e causas favoráveis. Surge energia e interesse em aprender a cada instante. Interesse em aproveitar o máximo cada acontecimento, cada situação, cada olhar, toque e palavra. Nossa natureza é dotada da capacidade de experimentar o mundo, de conhecer, compreender, apreciar e se apaixonar.

    O amor compreende o outro. Esta ligado ao que temos a oferecer e não ao que temos a ganhar. É dito que ao conhecer e se desenvolver maestria dos potenciais naturais de nossa mente passamos a ter muito mais a oferecer aos outros e ao mundo. Há riqueza em um relacionamento que surge quando há confiança e regozijo nas coisas boas que se tem a compartilhar.

    Verdadeiro amor nos concede o potencial e interesse de explorarmos as qualidades e potenciais de nosso parceiro(a), mesmo que este potencial revele suas partes mais vulneráveis. Como o amor não é condicional, esta livre do interesse próprio e inclue o mundo do outro, as partes vulneráveis se tornam caminho de transformação, de aprendizado e evolução mútua. Esse olhar magnetiza nosso companheiro(a), atrai positivamente, guia e conduz. Nos direciona ao verdadeiro amor, a relações mais duradouras, estáveis e genuínas. A bondade amorosa nos capacita a acolher carinhosamente nosso amado (a), a nutrí-lo oferecendo suporte para seu desenvolvimento, a magnetizá-lo e guiá-lo a direções positivas, a protegê-lo e orientá-lo e a partilhar da verdade das coisas e estar aberto a ouvir também sua verdade.

    O amor traz consigo o desejo sincero e incondicional que se tem pelo bem-estar do outro, livre de interesses auto-centrados. Passamos a não mais fugir baseados em nossos gostos e não-gostos, mas a ter uma atitude espiritualmente madura que entende as causas e condições que modulam nossos sentimentos como também do nosso parceiro(a). Nos posicionamos lúcidos e hábeis a transformar nossas relações através deste discernimento e da liberdade que surge dele. Estamos mais sensíveis e percetíveis as causas que produzem bem-estar e as condições que geram mal-estar. Quando um relacionamento é baseado nisto surge confiança e abertura. A raiva, o ciúmes, carências e decepções diversas não encontram espaço e suporte, ou seja, condições para surgirem. Cada ato, cada olhar, cada palavra, encontra-se impregnada de amor e compreensão. Para o surgimento disto é necessário abdicar de idéias fixas sobre o outro, sobre si e sobre a realidade circundante. É necessário espaço, respiração e flexibilidade mental. É preciso cultivar abertura, aceitação e empatia no coração.

    Nos relacionamento encontraremos o potencial de ampliar nossas qualidades e potenciais humanos. Será revelado a nós nossos bloqueios e resistências que se apresentarão como oportunidades mágicas de transcendência e evolução. Surge uma base mágica e propícia para realizarmos a natureza e operação de nossas mentes como também expandir seus potenciais e qualidades naturais.

    É importante desenvolvermos a inteligência de nos afastar um pouco quando um relacionamento se mostre, depois de muitas e longas tentativas, insalubre. Porém, é necessário discernir também nossa incapacidade naquele momento de magnetizar e dirigir a relação numa direção positiva, de semear as causas e condições que gerariam um bom relacionamento. Há momentos que nos encontraremos destituídos de habilidades e estabilidade interna para reverter uma determinada situação e, portanto, melhor nos afastarmos um pouco para retomar nosso eixo, nosso equilíbrio e bom senso.

    Haverão outros momentos que estaremos preenchidos de amor e de uma motivação de transformar o que se apresentar em caminho espiritual. Pegaremos na mão de nosso parceiro e seremos sinceros: “Esta situação foi surgindo e não percebemos. Me ajude a descobrir os elementos que levaram a isso e a explorar alternativas que possam modificá-la.” Juntos, com amor, paciência, motivação e discernimento os obstáculos se tornarão em caminho de transformação.

    Em outros estágios nos encontraremos vivendo oportunidades mais raras onde a própria situação de desconforto se manifestará como um espelho da mente e de seus potenciais, de sua capacidade de se colocar em referênciais estreitos e de se expandir em direção a perspectivas muito amplas que inexplicavelmente se cegam a detalhes importantes. Reconheceremos com humildade e certeza que nada é fixo, sólido e que a mente é flexível, luminosa e incrivelmente criativa. Saberemos que nossa natureza é bondosa, desobstruída e realizadora. Que há uma dança natural onde a presença da carência desperta o cuidado. Onde a presença do desejo desperta o poder natural de preenchê-lo e realizá-lo. Onde a manifestação da raiva pede por espaço, por acolhimento e escuta. A causalidade que opera em nossas relações passa a ser apreciada em sua beleza, leveza e potencial, como uma dança espontâneamente mágica. E que nos tornaremos senhores desta dança na medida que dançarmos conforme a música do fluir natural e real da vida.

    Texto pelo meu querido professor do Dharma Lama Jigme Lhawang. Clique aqui para saber mais.

    Veja também o video onde o Lama Jigme Lhawang trata deste tema AQUI

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  • Nichiren

    O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: Kyo (parte 4)

    Kyo é a tradução do termo sânscrito “Sutra”. O significado original da palavra em sânscrito é “fio”, “cordão” ou “trama”.

    Foi originalmente usada no sentido de estabelecer uma relação entre palavras e os sermões de Buda, comentados em prosa. O termo “sutra” não é original nem exclusivo ao Budismo. As composições brâmanes pré-budistas são marcadas com a palavra “sutra”. Os escritos das doutrinas do Jainismo, um ensino popular na Índia durante o período de vida do Buda, assim como o cânone doutrinal de outras religiões indianas pós-budistas, é também chamado de “sutra”.

    No entanto, no que se refere apenas ao senso budista, “sutra” se refere somente aos registros dos sermões e aos ensinamentos de Buda. Hoje, os sutras são transmitidos por escrito e traduzidos para muitas línguas.

    Diz-se que Buda pregou um total de 84.000 sermões, mas não foi Shakyamuni quem escreveu esses ensinamentos. Sua transcrição, na verdade, foi feita por monges e discípulos tempo depois. Inicialmente, os sermões de Buda foram memorizados por aqueles que ouviram diretamente dele e, em seguida, transmitiram oralmente aos outros, que, por sua vez, memorizaram e transmitiram para outros, e assim sucessivamente durante muitos séculos. De fato, todos os sutras começam com a frase de abertura, “Assim eu ouvi.” Esta antiga tradição indiana de transmissão oral, em oposição à escrita, foi praticada durante o período de vida do Buda e mesmo depois, e ainda é observado entre mestres e discípulos hindus. Portanto “Sutra” ou “Kyo” também tem o significado de “palavra” do Buda.

    Shakyamuni embora tenha deixado o corpo físico há quase 3.000 anos atrás, hoje ele ainda está vivo, através de suas palavras escritas no sutra. Portanto, se quisermos encontrar o Buda hoje, de acordo com nossa Escola, tudo que nós precisamos é abraçar o Sutra do Lótus e o seu coração e essência, que é o Odaimoku de Namu Myoho Renge Kyo. Nichiren Shonin explica este ponto em particular no “Kanjin Honzon Sho”: “As pessoas podem manifestar o estado de Buda de duas formas: encontrando o Buda e ouvindo o Sutra de Lótus, ou acreditando nos sutras mesmo que não seja capaz de ver (fisicamente) o Buda.”

    No Kaikyoge (Versos de Abertura do Sutra) se lê: “Seremos capazes de atingirmos a iluminação ao ver, ouvir ou tocar neste sutra. Exposto está a verdade do Buda. Exposto está a essência de Buda. Cada palavra que compõe este sutra são manifestações do Buda. Como inúmeros méritos estão contidos neste sutra, todos os seres vivos são beneficiados por este sutra, sem qualquer impedimento e de maneira espontânea assim como o incenso é percebido por um objeto colocado próximo.”

    Estamos, portanto fazendo o nosso melhor para sinceramente recitar o Sutra do Lótus e o Odaimoku cada manhã e noite, através da devoção não-egoísta. A cada pequeno esforço sincero, nossa vida se aproxima da vida de Buda e somos abençoados com todas as qualidades do Buda: a sua sabedoria, compaixão, paz profunda, bem como a felicidade, satisfação profunda e ilimitados méritos. Nichiren Shonin lutou toda a sua vida para ensinar que o Namu Myoho Renge Kyo é o presente que Buda deixou para todos nós.

    Portanto, sinceramente abracemos este tesouro, e façamos de modo que o estado de Buda possa florescer em nossas vidas e nas vidas daqueles que nos rodeiam.

    *tradução do texto do rev. Tarabini Shonin da Nichiren Shu Itália.
    **crédito da imagem: http://500px.com/photo/48681972/budhha-peace-by-onu-

  • Zen

    Harmonia

    Quando dizemos na cerimônia “Tomo refúgio na Sangha, o lugar da harmonia”, isso é de fato o que a Sangha deveria ser: o lugar da harmonia. Mas a Sangha é feita de pessoas e as pessoas são cheias de egos e defeitos e por causa disso, produzem atrito. Dizemos, então, que a Sangha funciona como um pilão de arroz: batemos no arroz e porque um se arrasta no outro, perde a casca. Nós, na Sangha, sofremos atritos; porque sofremos atritos, perdemos nossa casca e porque perdemos nossa casca, podemos nos tornar puros. A Sangha não é o lugar onde a harmonia existe, mas é o lugar onde buscamos ficar de tal forma que a harmonia se crie. Como fazemos isso?

    Os preceitos são cheios de regras a esse respeito. Já nos dezesseis primeiros preceitos, existe um que diz: “Não se eleve”, principalmente, “não se eleve rebaixando os outros”. Então, quando vemos defeitos nos outros e citamos esses defeitos, automaticamente estamos dizendo que não temos os defeitos apontados nos outros. Na verdade, a prática budista significa, para esse preceito, que “eu não vejo defeitos nos outros, sei das dificuldades que as outras pessoas têm, mas não posso ser cego para as dificuldades que tenho”. Por causa disso, quando encontro defeito em alguém, devo procurar me concentrar nas qualidades dessa pessoa e imediatamente devo citá-las: “tal pessoa tem esses e esses defeitos, porém, tem todas essas outras qualidades”. Devemos apontar suas virtudes, virtudes que muitas vezes nós mesmos não temos.

    O que mais nos atrapalha, a todo momento, é termos um ego, uma vaidade e uma noção de separação. Estou separado dos outros, por causa disso, eu penso que ajo melhor do que os outros. Devo me calar a respeito de todas essas coisas e devo procurar fazer com que as pessoas manifestem suas qualidades. Sobre minhas qualidades devo me calar. Sobre minhas dificuldades, também devo me calar, pois sei que tenho dificuldades e não é útil ficar falando sobre elas, apenas devo tentar me corrigir. O melhor caminho é o silêncio. Calar e agir. Não devemos enxergar, quando os outros apontam alguma dificuldade nossa, um ataque ao nosso ego. Nesse momento, devemos nos perguntar: “Quem se incomodou?”, “Quem se importa com isso?”. Meu orgulho e minha vaidade se importam com isso, por isso me importo e não quero ser criticado. Meu orgulho e minha vaidade são meus grandes inimigos, pois, são a manifestação do meu ego, portanto, eles fazem a separação. Se me sinto separado, então, estou prisioneiro do ego; se estou prisioneiro do ego, sou prisioneiro de nascimento e morte. Eu nasço e morro porque tenho um ego. Se eu morrer para mim mesmo, não existe mais ninguém para morrer, me livro da morte. Para perder o medo da morte, devemos perder o medo de ter um ego ferido e um ego que desaparece. Para nos livrarmos da morte, temos que morrer agora. Agora. Morri.

    Morri para mim mesmo, nada importa. Se nada importa, se o que os outros dizem não importa, se não existe nada que possa me ferir, então, eu superei o ego. Se o professor no zen nos corrige ou aponta um erro, não nos defendemos, não nos justificamos, apenas fazemos gasshô e agradecemos. Mas isso é muito difícil. Por isso pedimos “sente-se em zazen e abandone-se, esqueça o passado, esqueça o futuro, esqueça-se de si mesmo; se se esquecer de si mesmo, então estará livre”. Enquanto houver comentários discriminativos – “gosto disso e não daquilo” – há um ego se manifestando. “Eu prefiro isso” é um ego falando. “Não gostei da atitude de Fulano” é um ego falando. “Eu gostei do elogio que o professor me fez” é o ego falando. Esse ego é nossa ilusão, nossa prisão fundamental. Por causa dele nós estamos aqui, presos em corpos e por causa dele nós nascemos e morremos. O ensinamento de Buda para escapar do sofrimento e escapar de tudo, de velhice, doença e morte, está baseado principalmente em morrer para si mesmo. Morrer para seu próprio ego, morrer para sua vaidade, é para isso que treinamos. Não é para sermos importantes, sermos iluminados, alcançarmos algo, sermos melhores que outros, não é para nada disso. É para nos esquecermos de nós mesmos. Enquanto pensarmos “eu sou melhor”, estamos presos.

    Tomo refúgio na Sangha, o lugar da harmonia.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

    Imagem “O rakusu, esse símbolo que carregamos, uma miniatura do manto de Buda, possui na sua parte de trás uma imagem de uma agulha de pinheiro. Os pinheiros quando crescem sozinhos ficam tortos, mas em uma reserva cheia de pinheiros, um incomoda o outro ao crescer se encostando e se apoiando em busca da luz do sol, desta forma eles crescem retos. Por isso a agulha de pinheiro é o símbolo da Sōtō Zen. Daí a importância da Sangha.” – Genshō-sensei

    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    Sobre o Amor Romântico

    Hoje, 12 de junho, convencionado como Dia dos Namorados, apropriadamente fui indagada sobre a visão budista do amor.

    Deixando as várias conceituações de lado, imagino que a questão envolve o chamado amor romântico, passional, aquele apregoado nos livros, música, cinema, no apelo do dia de hoje. Eu diria, pela ótica budista, de amor idealizado, consequentemente de amor ilusório.

    Afinal, o que todos nós pensamos sobre o amor? ou melhor, o que é que a mídia nos vende como amor? Simples: um sentimento ilusório. Somente pelo fato de ser um sentimento já é difícil de se definir. Afinal cada qual “sente” de acordo com sua bagagem emocional que carrega desde o nascimento.

    O problema (muitos pensarão que o amor não pode ser um problema, mas solução) não está no amor, na idealização, na ilusão, no romance ou na paixão, posto que são conceitos. A questão está no ente que vivencia, desenvolve e se ilude com estes conceitos. Este é  o ponto primordial da visão budista. O foco budista recai sobre o indivíduo que ama, e não no amor.

    Quando nos apaixonamos, a razão e a lógica são preteridas pela emoção e sentimentos e passamos a agir de modo a alimentar cada vez mais a ilusão do amor. E a partir daí o ente que ama e o ente objeto do amor passam a se confundir, envoltos pela neblina da entidade chamada amor.  Pois o ente que ama passa a enxergar apenas o seu objeto amado pela ótica de suas próprias projeções e idealizações. Muitas vezes o outro – o ente objeto, não consegue realmente manifestar-se adequadamente, sequer é consultado para confirmar sua adequação aos ensejos da contraparte. O amado é medido, modelado e formatado de acordo com as projeções e expectativas daquele que ama. Ou seja, nos apaixonamos por nossas próprias ilusões. O outro é ilusório, são nossas motivações egóicas que nos fizeram amar o outro.

    Construímos uma imagem ilusória perfeita do ideal amoroso, da relação romântica ideal, do encontro fabuloso, do sexo fantástico, do casamento, da festa, da igreja enfeitada, dos padrinhos, da viagem de lua-de-mel, da casa, da decoração, dos almoços de família, dos filhos, dos cachorros, do gato, do peixinho e do papagaio de estimação…

    Vivemos intoxicados  pelos sentimentos de êxtase, prazer, excitação, exaltação, desejo, a tudo que está relacionado ao amor apaixonado. E quando somos privados de paixão, caímos no inferno da abstinência, e buscamos desesperadamente uma nova dose, para então novamente repetirmos o processo – praticamente um Samsara sensual.

    Repito: o problema não está no amor, mas naquele que ama. E na maneira que ama. Pois se amamos uma ilusão, o que fazer quando nos desiludimos? neste caso, quando “caímos na real”? quando percebemos que o amado não se encaixa nos parâmetros desejados? quando percebe-se que o outro tem seus defeitos, suas manias, suas exigências, suas fraquezas,  suas necessidades, suas projeções – inclusive sobre aquele que o ama? e quando o amado perceber também os nossos defeitos, manias… ou seja perceber aquilo que você realmente é, e não  a ilusão que você tanto se esforçou em mostrar para fazê-lo apaixonar-se por você? e pior, e se o amado se decepcionar?

    Desta forma, qual a reflexão budista acerca do amor? A interligação entre dois conceitos básicos do Budismo: apego e ilusão. O apego às nossas ilusões, neste caso a nossa ilusão acerca do amor é que gera o sofrimento. E como o Buda já disse há cerca de mais de 3 mil anos atrás: “E qual é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento?

    É apenas a nobre Óctupla Senda: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta”.

     

    Portanto, desejo a todos um verdadeiro Amor Correto embasado na Óctupla Senda neste Dia dos Namorados 2014.

     

    Reva. Sayuri Tyojun

  • Budismo Tibetano

    A Essência de Ser e de Estar

    Qual é a essência do budismo?
    Qual benefício temporário e mais duradouro trará em minha vida?
    Qual benefício tal prática pode oferecer ao mundo?

    Lembro de meus primeiros contatos com o budismo em 1995, nos meus 14 anos de idade. Recordo de estar buscando paz e um próposito mais significativo para minha vida. No primeiro contato, gostei muito da energia das pessoas que se encontravam na meditação. Também fui tocado pela tranquilidade, pelo silêncio e pela energia transmitida através de preces e mantras. Quando ouvi pela primeira vez a visão budista sobre a vida, sobre a operação e natureza da mente indissociável de como eu concebia e experienciava minha existência, meu coração se abriu pela clareza, lógica e praticidade daquela visão. Fui inspirado a sentir que era possível transformar minha experiência condicionada e viver uma vida melhor, mais saudável, significativa e tranquila.

    Porém, até hoje, depois de muitos anos estudando e contemplando o budismo, uma das reflexões que mais me chama a atenção é o que de fato ele tem a oferecer para melhorar minha vida e a de outros de forma eficaz, inteligente, verdadeira, de acordo com o meu contexto de vida, com minha caminhada e dificuldades como brasileiro como também a jornada e limitações de outros brasileiros que também buscam uma alternativa diferente do modelo de vida vigente. Até hoje venho tentando ajustar e adaptar as técnicas milenares do budismo ao meu contexto, a minha capacidade de entender e a cada experimento testando e observando os efeitos imediatos e graduais de tal cultivo, habituação e familiarização surgida através da aplicação de tais métodos.

    Ao ler um pouco do que sabemos sobre a história de Siddharta, o Buddha Shakyamuni, que viveu em torno de 2500-2600 anos atrás, me parece que seu propósito de vida nunca estava separado dos seres ao seu redor, sempre presente, pronto para ajudar quem pedia sua ajuda, buscando tentar aliviar o mal-estar psicofísico daqueles que encontrava em seu caminho. No caminho dos Bodhisatvas, encontramos diversas histórias de yôguis de realização espiritual tomados por compaixão e amor pelos seres aspirando servir de qualquer ajuda as pessoas em necessidade. No capítulo 3 da ‘Introdução a Ação do Bodisatva’ de Shantideva, ele diz: “Possa eu ser  um guarda-costas para aqueles que precisam de um, possa eu ser um guia para aqueles que viajam em uma estrada, possa eu ser um barco, uma jangada ou uma ponte para todos aqueles que desejam cruzar as águas.”

    Me parece que o budismo traz uma essência que não é dountrinária, que também não aspira produzir conclusões sobre as coisas para que outros tenham que aceitar e concordar. Essencialmente o Buddha viu que todos os seres estavam sujeitos ao nascimento, velhice, doença e morte, em seus vários níveis físicos e psiquicos, e o grande mal-estar que trazia esta existência condicionada as pessoas. Ele desejou pacificar isso em sua própria vida e na vida dos outros seres, iniciando pelo seu filho, sua esposa, seus pais, amigos e seu reino. Decidiu encontrar a solução para estas questões que fazem parte da vida de todos os seres.

    No decorrer de sua busca foi observando a operação e natureza de sua mente. Encontrando os elementos internos que coloriam a vida gerando mal-estar ou bem-estar. Gradualmente foi descobrindo a raiz de todos os problemas fundada num equívoco de ver as coisas não como elas realmente são, mas através das lentes habituais que nos fazem conceber uma determinada realidade circundante e perceber um sujeito que experiencia tal realidade também de um jeito específico.

    Percebi, ao longo de meus estudos e contemplações que a teoria sobre a visão e caminho proposto por Buddha, apesar de trazer  bençãos que abrem nosso coração a outras perspectivas, muitas vezes não foi capaz por si só de transformar minha mente, de sanar o problema desde sua raíz. Fui tentando buscar alternativas em métodos mais básicos, principalmente técnicas que diziam respeito ao trabalho com emoções e motivações e ao desenvolvimento de amor, compaixão, paciência, abertura, flexibilidade, compreensão e atenção. Percebi que apesar da importância que havia em direcionar estas qualidades aos outros seres, eu também deveria ser  incluído dentro do grupo daqueles que precisavam  receber atenção, cuidado, amor, compaixão, que desejava ser compreendido e de ter um espaço paciente que acolhesse meu próprio desenvolvimento gradual.

    S.S. Gyalwang Drukpa, meu mestre, durante muito tempo, enfatizava dizendo em tibetano “Dangpo Randon Drub Na Jendon Drub Gui Rê” que significa “Se primeiro atinge-se o benefício para si então se realizará o benefício dos outros.” Num primeiro momento esta instrução me pareceu um tanto auto-centrada, egoísta. Porém, com o tempo, descobri que não existe um eu separado de um contexto de relações que incluem todos os seres e o universo inteiro, a tal da originação co-dependente que o budismo diz ser a essência de seu ensinamento. Também, que sem compreender a mim mesmo, sem ter paciência com meu desenvolvimento, limitações e dificuldades, não haverá espaço para expandir isso ao universo. Sem amar, ter compaixão, flexibilidade e abertura para trabalhar sem medo minhas próprias dificuldades internas, desequílibrios emocionais, instabilidade mental e incompreensões cognitivas, seria difícil para mim desenvolver o mesmo na direção dos seres ao meu redor.

    Lembrei de um ensinamento que se conta sobre a história da vida do Buddha onde um professor ensinava seu aluno a tocar um instrumento de música. O mestre dizia: se você apertar de mais a corda ela arrebentará. Se você deixá-la muito frouxa não sairá som algum. Imediatamente pensei: qual o som que busco ouvir? Ah, gostaria muito de ouvir o som da iluminação soar de dentro do meu coração. O som da compreensão, do amor e da plenitude de ser e estar. Porém, percebi que diferentes mestres e praticantes desde Buddha até hoje demonstraram diferentes trajetos de vida e prática no caminho do Dharma. Me perguntei, então, qual seria a minha forma de praticar o Dharma para realizá-lo verdadeiramente. Fui percebendo que eu era um instrumento musical com suas especifidades, com sua própria afinação, diferente da do Buddha, de seus discípulos e dos muitos praticantes que se realizaram nos séculos que se passaram até hoje. Entendi que precisava encontrar minha própria afinação de acordo com as característica de meu instrumento. Que o ponto central não era o método ou forma de afinação proposta, mas o som da experiência do Dharma ecoando e vibrando em cada partícula de meu ser e, então, emanando naturalmente em direção ao  universo inteiro.

    Portanto, o que é o budismo (ou melhor o Caminho do Despertar)? Qual é a sua essência?

    Ainda estou em processo de descoberta. Porém, uma coisa tenho certeza: estará de acordo com o objetivo do Dharma do Buddha  aquele método que for capaz de soar a compreensão, o amor e o bem-estar genuínos. Que for capaz de fazer vibrar, em última instância, a verdadeira abertura, descontração, flexibilidade, paz e plenitude – a essência de ser e estar plenos, de ser e estar genuinamente acordado, desperto do sono da ignorância.

    Lama Jigme Lhawang
    Brasília, Distrito Federal.

     

     

  • Nichiren

    O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: Renge (parte 3)

    Renge é a tradução do termo sânscrito “Pundarika”, escrito em caracteres chineses e significa “Flor de Lótus”. A palavra “Pundarika” significa literalmente “Lótus Branco”, símbolo do Bodhi, a pura e perfeita iluminação de Buda. Na arte budista flores de lótus são normalmente pintadas com oito pétalas. Estes oito pétalas são para indicar o Nobre Caminho Óctuplo, uma importante doutrina pregada pelo Buda (conheça o Nobre Caminho Óctuplo clicando aqui!).

    O lótus é a única flor que floresce com as sementes já desenvolvidas. Normalmente, quando as flores florescem, as belas cores das pétalas e o seu perfume atraem abelhas e outros insetos. Nesse ponto, a flor é polinizada e, em seguida, seca e morre e, só mais tarde desenvolve uma fruta contendo sementes. Em contrapartida, no caso do lótus o processo é bastante diferente: na verdade, quando floresce já contém seus frutos: a vagem com sementes. Isto é extremamente raro no mundo das plantas.

    No budismo, a flor de lótus, com as suas flores e frutos simultâneos, mostra visualmente a causa da própria planta (as sementes) e o resultado final (a flor). Na terminologia budista, esta relação simultânea é chamada “Inga Guji” e quer dizer “dotado ao mesmo tempo com causas e efeitos”. O princípio de causa e efeito é um dos mais importantes conceitos e fundamentos da filosofia budista.

    O lótus cresce na água estagnada e lamacenta. Na realidade, quanto mais suja é a água mais bonita a flor se torna. Se nós estabelecermos uma analogia com nossas vidas, podemos demonstrar o fato de que através dos problemas e sofrimentos que vivemos todos os dias, podemos obter a pura e maravilhosa condição Iluminada, da mesma forma que o lótus surge imaculado a partir de águas sujas.

    Todos os seres têm o potencial para a Iluminação. Assim, quando recitamos “Namu Myoho Renge Kyo” em frente do Mandala Gohonzon, a pura e bela flor da iluminação contida em nossas vidas pode florescer, amadurecer e prosperar.

    Por outro lado, esta semente de Iluminação potencial (ou latente) deve ser alimentada, regada e tratada como quaisquer outros seres vivos. Isto pode ser feito através da alimentação do Sutra do Lótus, da recitação do sutra e do “Namu Myoho Renge Kyo” e nos dedicando ao Dharma. Sem uma prática e uma fé sincera, as sementes de iluminação ocultas em nossas vidas não podem receber alimentação e conseqüentemente não podem florescer, crescer e muito menos prosperar.

    Nichiren Shonin escreveu no “Kanjin Honzon Sho”: “O Sutra Fugen diz: ‘Este sutra Mahayana (o Sutra do Lótus) é o tesouro, os olhos e as sementes da vida para todos os Budas do universo através do passado, presente e do futuro.’ Você deve se comprometer na prática budista e nunca permitir que as sementes da Iluminação morram’.”

    *Tradução de um texto do rev. Tarabini Shonin, da Nichiren Shu Itália
    **crédito da imagem: http://500px.com/photo/56135872/the-buddha-50%7C365-by-khang-huynh

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (1)

    Tive o prazer de estar presente, como mestra convidada, aos retiros de Alan Wallace no CEBB. Tem sido uma maravilha poder constatar as semelhanças e diferenças entre o nosso Zen e o Dzogchen Tibetano.

    Numa das palestras, baseada no texto “A Essência Vajra”, de Dudjom Lingpa, ele falou dos “nyams” (sinais de progresso) na prática tibetana. Imediatamente me lembrei de experiências e estados de espírito que muitos praticantes do Zen vivenciam.

    Apesar de serem considerados sinais de progresso, estas experiências e estados também podem representar armadilhas, se não forem resolvidos corretamente. Se são “armadilhas”, por que seriam também “sinais de progresso”? Porque são vivências e estados que podem surgir à medida que a prática vai se aprofundando, permitindo que material (lembranças, associações, atitudes) que estava escondido na mente inconsciente possa aparecer, ser visto e libertado. Isto é bom e necessário.

    Mas, se o praticante levar estas experiências excessivamente a sério, elas se tornam armadilhas, podendo até causar ao praticante uma crise que leve ao abandono da prática – em lugar de se manter firme, sob a boa orientação de um professor qualificado, até superar a crise, quando que se dará o florescimento do “sinal de progresso”.

    Devido a este perigo de ocorrer uma crise, pessoalmente, ressalto mais o aspecto “armadilha” do que o aspecto “sinal de progresso” desse tema.

    Nesta nova série de textos que inicio, vou procurar abordar algumas destas armadilhas. Enquanto estiver aguardando pelo próximo artigo, que tal ir se lembrando de momentos de crise na sua prática para refletir sobre este conceito de “armadilha / sinal de progresso”? (Continua)

    Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Organização: Rodrigo Daien