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  • Nichiren

    Sobre os quatro sofrimentos – O Nascimento

    “O mundo triplo não é pacífico,
    É como uma casa em chamas.
    É cheio de sofrimento.
    É terrível.
    Existe sempre os sofrimentos
    Do nascimento, envelhecimento, adoecimento e morte.
    Eles são como chamas
    Cercando eternamente.”
    Buda: Sutra do Lótus, capítulo III

    Tradicionalmente existem quatro coisas dadas como sofrimentos da vida. Os quatro são nascimento, envelhecimento, adoecimento, e finalmente a morte. Hoje, e nos textos que seguirão nas semanas seguintes, escreverei sobre estes sofrimentos.

    Recentemente, em uma lista de e-mail, uma questão surgiu sobre se o nascimento seria ou não uma coisa ruim, e se assim fosse, não temos que nascer para manter nossa prática de Bodhisattva e salvar todos os seres vivos? Uma distinção que eu queria fazer aqui diz respeito a idéia de que nascer seja bom ou ruim, mas na verdade separar isto entendendo como algo diretamente relacionado ao sofrimento.

    Acho que se você perguntar a qualquer pessoa sobre nascimento, dirão que é algo bom, especialmente para os pais de um bebê recém nascido. Por outro lado, um nascimento pode ser um indesejável acontecimento, dependendo das circunstâncias. Estes valores de bom ou ruim são muito subjetivos, e potencialmente enganadores quando estamos falando sobre causas de sofrimento.

    Sofrimento é em si meramente sofrimento, e também é um fato da vida. A primeira Nobre Verdade fala exatamente sobre este assunto. Acredito que o que o budismo nos ajuda a entender é que para cada ação que ocorrer existe um potencial de sofrimento. Quando nós entendemos isto nós podemos verdadeiramente começar a liberar a nós mesmos de mais efeitos do sofrimento, e quando isso acontece passamos a reagir menos àquele sofrimento de uma maneira que nos liberta dele.

    Às vezes falarei sobre isto em termos de um contrato, um contrato onde há uma cláusula que diz: “algo pode dar errado e as coisas podem não dar certo ou durar para sempre”. Esta não é uma parte da realidade da vida em que nós estamos confortavelmente procurando ou até mesmo reconhecendo. Mas ainda assim esta parte ainda está lá. Ela está lá quando nós entramos no carro de manhã para ir trabalhar, ela está lá quando nós nos apaixonamos, ela está lá quando uma nova vida é trazida ao mundo. Nós escolhemos ignorar ela por várias razões, como uma maneira terrivelmente pessimista de viver, e então a realidade pode criar medo e conseqüentemente mais sofrimento.

    Vamos hoje olhar para o nascimento. Eu suspeito que a maioria das pessoas quando pensam sobre nascimento neste contexto eles pensam sobre um bebe recém nascido, então vamos começar por aqui.  Eu conheço um sacerdote que fala sobre o terror ou trauma de um nascimento para o bebê. Aqui está o bebê que está deixando um clima perfeitamente controlado, um ambiente aquático confortável onde a comida é automaticamente suprida, um sistema de gerenciamento de desperdício incluído. A vida neste ambiente é apenas sobre perfeição para esta criança. Finalmente, no dia de nascimento, o bebê é jogado para fora deste ambiente perfeito para uma sala fria, cheia de luzes e pessoas, talvez muitas pessoas.

    O bebê logo percebe que seu passeio na água confortável não existe mais e também percebe que se precisar de alimentação agora deverá fazer alguma coisa para que suas necessidades sejam satisfeitas. As coisas então começarão a ficar extremamente complexas para esta forma de vida desamparada. O trauma do nascimento coloca em movimento uma vida que até a morte é uma tentativa de manipular a vida de uma forma que permita a sobrevivência, alegria e felicidade são possíveis por produtos desta experiência, mas certamente sem prioridades. Sobreviver é a singela coisa mais importante da vida. E sim, diferentes formas de vida tên a habilidade de exibir compaixão e auto-sacrifício, mas estas vêm apenas mais tarde, sob seletas circunstancias.

    Nascimento por si só é um evento que começa com um trauma, mas aquele trauma não reflete onde está ou não está o sofrimento. Na verdade, suspeito que o conceito ou experiência de sofrimento que se difere de dor, não desenvolve até um pouco mais tarde na vida. Eu não sou um grande conhecedor no desenvolvimento infantil, mas isto é o que suspeito que seja o caso, quanto a determinados sofrimentos.

    Agora vamos considerar nascimento de outras formas. Todos os dias nós nascemos novamente para um novo dia de novas experiências. Sim, eles são novos, mesmo que eles sejam como outras experiências de outros dias. Todos os dias começam novamente, e cada momento começa também. De certa maneira, toda a nossa vida é definida por nascimento, incessante, incansável. Talvez por termos feito isto tantas vezes em nossas vidas, nós não nos damos a chance de pensar sobre, mas isso está lá e é o que acontece, ainda que não pensamos. Todo momento nós começamos novamente. Toda a segurança de ter sobrevivido até este momento se vai e a luta pela sobrevivência começa de novo, uma vez que nada é garantido na vida e nada dura para sempre, mesmo que aparente que não vá mudar, mudará.

    Nós também damos vida a novas idéias e novos projetos em nossas vidas. Este nascimento de idéias pode ser excitante ou também pode ser assustador, vai depender de cada indivíduo. Freqüentemente, o nascimento de idéias seja uma causa para esperança e entusiasmo, contudo certamente nem sempre será. À medida que novas idéias estão nascendo dentro de nós, elas estão também seguras, porque elas não precisam se deparar com nenhuma expectativa de desempenho ou sucesso. Assim que elas nascem e são lançadas pelo mundo, então pode ser bastante desafiador mantê-las vivas.

    Existe, como você pode ver, muitas maneiras de se considerar um nascimento. Ainda que um nascimento possa ser algo bom ou ruim, isto é um valor que atribuímos ao evento, e puramente individual e subjetivo. Mas nascimento é realmente uma causa do sofrimento, simplesmente porque justamente com aquele nascimento, qualquer nascimento, há aquela cláusula no contrato que declara: “Pode não durar, pode não ter sucesso, não permanecerá inalterada.” Também tenha em mente que sofrimento não é necessariamente uma coisa ruim ou uma coisa que precisa ser evitada.

    Sofrimento, quando nós entendemos a natureza e a causa, pode se tornar um lugar fértil para crescer e estimular nossa vida à iluminação. É quando nós nos tornamos presos no sofrimento ou quando nós procedemos de forma inábil que o sofrimento é menos que o desejável. Se tornar vítima do sofrimento nos leva a sofrer ainda mais, assim como agir de uma maneira inapta. Novamente, sofrimento não é algo a ser evitado, uma vez que não dá pra ser evitado de qualquer forma.

    Nascimento como um recurso potencial de sofrimento é um fato. Ele não é uma coisa ruim, nem boa, ele simplesmente é. Ele é neutro. O que nós fazemos com o efeito, que tem sido causado, é a chave para nos tornarmos verdadeiramente felizes e iluminados.

    Na próxima semana escreverei sobre envelhecimento, e talvez não seja sobre o que você está pensando.

    Em Gassho.
    Namu Myoho Renge Kyo.

    *tradução do texto “Four Sufferings – Birth” do rev. Ryusho Shonin, da Nichiren Shu.
    **crédito para a foto: http://500px.com/photo/67395841/a-piece-of-heaven-by-alex-greenshpun

     

  • Zen

    Os cinco tipos de zen – Final

    (continuação da 1ª parte)

      Shōjō Zen

    O terceiro tipo de Zen é o Shōjō, literalmente significando “pequeno veículo”. Esse é o veículo ou ensinamento que deve levar você de um estado mental (delusão) para outro (iluminação). Esse pequeno veículo é assim chamado porque é destinado a acomodar somente uma pessoa. Você pode, talvez, compará-lo a uma bicicleta. O veículo grande (Mahāyāna), por outro lado, é mais parecido com um carro ou ônibus: ele leva outras pessoas junto. Por esta razão o Shōjō é um Zen que foca apenas na paz mental da pessoa. Aqui temos um Zen que é budista, mas um Zen que não está de acordo com os maiores ensinamentos de Buda. Ele é mais certamente um Zen apropriado para aqueles que não são capazes de alcançar o mais íntimo significado da iluminação do Buda, como por exemplo, que a existência é um todo inseparável, que cada um de nós possui o cosmos em sua totalidade. Sendo isso verdade, consequentemente nós não podemos atingir a genuína paz mental simplesmente buscando nossa própria salvação e continuar indiferente ao bem-estar dos outros. Existem, entretanto, aqueles que simplesmente não conseguem acreditar na realidade de tal mundo. Não importa quão frequentemente sejam ensinados de que o mundo relativo das distinções e opostos ao qual eles se apegam é ilusório, é o produto de suas visões errôneas, eles não conseguem acreditar de outra maneira. Para tais pessoas, o mundo pode ser completamente mau, cheio de pecado, discórdia, sofrimento, assassinatos e desesperos dos quais eles tentam escapar.

      Daijō Zen

    A quarta classificação é chamada Daijō Zen, Grande Veículo (Mahāyāna), e este é um verdadeiro Zen Budista por ter como sua proposta principal o kenshō-godō (見性), que é enxergar sua verdadeira natureza e realizar o Caminho na sua vida diária. Para aqueles capazes de compreender a importância da experiência da iluminação do Buda e que tenham o desejo de quebrar suas visões ilusórias do Universo e experienciar a realidade absoluta e indiferenciada, o Buda ensinou este modo de Zen. O Budismo é essencialmente uma religião de iluminação. O Buda, após seu supremo despertar, passou cerca de 50 anos ensinando o modo pelo qual as pessoas poderiam perceber suas próprias naturezas. Seu método tem sido transmitido de mestre a discípulo até os dias de hoje. Desta forma pode-se dizer que o Zen que ignora, nega, ou faz pouco da iluminação, não é o verdadeiro Zen Daijō Budista.

    Na prática do Zen Daijō, sua principal meta, no começo, é despertar sua verdadeira-natureza, mas ao iluminar-se você percebe que o Zazen é mais que um meio de iluminação – ele é a manifestação de sua verdadeira-natureza. Neste tipo de Zen, que tem como objeto o “despertar” (Satori), é fácil considerá-lo erroneamente como apenas um meio. Um sábio professor, entretanto, apontará desde o início que o Zazen é na verdade a manifestação da natureza-buda inata e não meramente uma técnica para se alcançar a iluminação. Se o Zazen não fosse mais que apenas uma técnica, após o Satori o Zazen seria desnecessário. Mas, como o próprio Dōgen-zenji mostrou, exatamente o contrário é verdade: quanto mais profundamente você experiencia o Satori, mais você percebe a necessidade da prática.

      Saijōjō Zen

    O Zen Saijōjō, o último dos 5 tipos, é o veículo mais elevado, a culminação e o topo do Zen Budista. Este Zen foi praticado por todos os Budas do passado – como Shakyamuni e Amida – e é a expressão da Vida Absoluta, a vida em sua forma mais pura. É o Zazen que Dōgen-zenji especialmente defendeu e engloba o não esforço por Satori ou qualquer outro objeto. É chamado shikan-taza.

    Nesta mais elevada prática, os meios e os fins fundem-se. O Zen Daijō e o Zen Saijōjō são, na verdade, complementares. A escola Rinzai classifica o Daijō como supremo e Saijōjō inferior, enquanto a escola Sōtō faz o contrário. No Saijōjō, quando praticado da forma correta, você se senta na plena convicção de que o Zazen é a manifestação de sua “verdadeira-natureza” e, ao mesmo tempo, você se senta com total fé de que chegará o dia em que exclamando “Oh, então é isso!”, você sem erro realizará esta verdadeira-natureza. Portanto, você não precisa se empenhar de uma forma autoconsciente em busca da iluminação.

    Hoje, muitos da escola Sōtō defendem que, uma vez que nós somos budas inatos, o Satori é desnecessário. Tal erro notório reduz o shikan-taza, que é propriamente a mais elevada forma de se sentar, para nada mais que o Zen Bompu, o primeiro dos cinco tipos.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Nichiren

    O significado de “Namu Myoho Renge Kyo”: Namu (parte 1)

    Todos os dias na Nichiren Shu, nós recitamos o Sutra do Lótus e “Namu Myoho Renge Kyo”. “Myoho Renge Kyo” é o título completo do Sutra do Lótus e está contido no título de cada capítulo do Sutra.

    Mas o que realmente significa cada palavra e ideograma? É possível receber méritos ou resolver problemas através da recitação do “Namu Myoho Renge Kyo”? É possível para os mortais comuns, como nós, tornarem-se iluminados como Buda? Como é que podemos alcançar a iluminação?

    Examinaremos cuidadosamente o significado e as implicações profundas de cada palavra que constitui “Namu Myoho Renge Kyo”.

    “Namu” vem do sânscrito “namas”, um termo de difícil tradução em uma única palavra quando traduzida para o chinês. Tal como acontece com muitas outras palavras em sânscrito encontradas nos sutras, os primeiros tradutores preferiram transliterar os sons da palavra original ao invés de traduzi-las. O antigo idioma chinês não incluía um alfabeto para a transcrição de cada letra em sânscrito, por isso foram atribuídos caracteres a fim de expressar o mais fiel quanto fosse possível o som da palavra original em sânscrito. “Namas” também foi escrito com outros caracteres chineses que reproduzem a mesma pronúncia, ou com outras variantes fonéticas, como “Nama” e “Namo”. A famosa expressão de saudação indiana “Namaste” também deriva a partir da raiz “namas”.

    “Namu” ou “Namas” tem uma variedade de significados: significa literalmente devoção, em japonês “kimyo”. “Namas” tem também o significado de devotar/confiar as nossas vidas, expressar os nossos agradecimentos, respeitosa saudação, veneração, acreditar sinceramente e tomar refúgio. Durante o período de permanência no Monte Minobu, nos últimos anos de vida, Nichiren Shonin escreveu em “Hakumai Ippyo Gosho” (também conhecido como o “Ji-Ri Kuyo Gosho”): “A palavra Namu é um termo indiano que significa oferecer a própria vida. Na China e no Japão é expresso como kimyo e, basicamente, significa oferecer a nossa vida ao Buda.”

    Nikkô Shonin, um dos seis principais discípulos, ao citar Nichiren Shonin no seu “Ongi Kuden” explica que “existem dois objetos de devoção: à pessoa, que é Shakyamuni, e ao Dharma, que é o Sutra do Lótus. Na expressão Kimyo, o caractere chinês Ki (fazer ou dar) indica o aspecto físico de nossas vidas, enquanto Myo (vida, escrito com um caractere diferente de Myo em Myoho) é seu aspecto espiritual”.

    O termo “Namu”, por isso, assume o significado de uma plena e firme dedicação de nossa vida, tanto no seu aspecto físico quanto no espiritual. Em outras palavras, expressamos nossa confiança no Buda e em seus ensinamentos, em especial no Sutra do Lótus e, ao mesmo tempo nos consagramos (ao Buda e a o Dharma) de todas as maneiras possíveis.

    Em seu sentido de devoção, confiar as nossas vidas ou tomar refúgio, “Namu” significa que nós nos abrigamos no Buda, quando somos abraçados por cada aspecto da infinita compaixão de Buda, de sua sabedoria e de sua vida Iluminada. Por outro lado, indica também que para alcançar este objetivo, temos de viver a nossa vida de acordo com o espírito e os ensinamentos de Buda.

    Nichiren Shonin diz na carta “Presente de um fardo de arroz”: “Seja alguém rico ou não, a vida é sempre o mais precioso tesouro. Essa é a razão pela qual os santos e sábios dos tempos antigos ofereceram sua vida para o Buda e por isso eles foram capazes de obter a Iluminação”. E ainda mais: “Os mortais comuns podem obter a Iluminação se observarem uma coisa: fé determinada. Acima de tudo, fé é a vontade de compreender e viver o espírito, e não apenas as palavras dos sutras.” Na seção em prosa do capítulo “Juryo” (16º) do Sutra de Lótus nós encontramos a frase “Isshin Yoku ken butsu / Fuji shaku Shin’myo”, que significa literalmente “sinceramente pretendendo ver o Buda, não poupam a sua vida” . Estas frases finais mostram claramente que a nossa determinação, compreensão, refúgio e devoção devem conjuntamente surgir de forma não-egoísta através de sincera fé e prática.

    *tradução de um texto do rev. Tarabini da Nichiren Shu Itália.

  • Terra Pura

    O Luto

    O FUNERAL COMO UMA PARTE IMPORTANTE DO PROCESSO DE LUTO

    Morte – algo que não pode permanecer inquestionável

    Com relação ao trágico incidente do ataque à escola primária anexa à Universidade de Educação de Osaka no ano passado[1], o psicopatologista Dr. Hissao Nakai com base na afirmação: “a lembrança da tragédia não serve para desgastá-la, mas sim para purificá-la”, fez a seguinte declaração: “A purificação é um processo de trabalho do luto. É um processo que marca a relação entre nós, após a perda de uma pessoa querida, com a condição inexaurível de que esta pessoa já partiu para a eternidade, não nos sendo mais possível chamá-la de volta. No Budismo chamamos isso de Jôbutsu, tornar-se Buda, Iluminar-se. Penso que o Jôbutsu, na realidade é uma questão para o coração daqueles que sobreviveram – o que chamo de ‘desgaste da lembrança’ ”. (Extraído do livro Sei In Sei U, do Dr. Hissao Nakai).

    O coração daquele que perde para a morte uma pessoa importante, fica totalmente desnorteado. Por mais que se tente conformar-se com palavras como “destino”, não deixamos de indagar: “por que morrer desta forma?” O Mestre Rennyo[2] em uma de suas epístolas destinadas às famílias em luto escreveu: “isto é um fato real”[3] – Ofumi fascículo 4, epístola 9.

    Para as pessoas desorientadas perante o infortúnio da morte, e conseqüentemente, com o inevitável sofrimento, o Buda Shakyamuni ensinou-nos sobre o sofrimento advindo da morte e o sofrimento pela separação daqueles que amamos, através da necessidade de clarear e esclarecer[4], para então podermos aceitar e acolher esses conceitos. Em suma, o Dr. Nakai refere-se ao Jôbutsu, (Iluminar-se, tornar-se Buda), como equivalente ao fato de resignar-se e conformar-se com a morte.Isso não significa o mesmo que esquecer. A pessoa falecida “está morta”, porém, esta conjugação verbal não teria ao mesmo tempo o sentido de que o “morto está existindo” de alguma forma?[5]

     A respeito da possível conformação/compreensão

    Para se alcançar tal estado de esclarecimento, é necessário tempo. Assim como no episódio da saída pelos quatro portais do palácio, conforme ensina a tradição, onde o príncipe Gautama[6] depara-se com os quatro sofrimentos: nascimento, envelhecimento, doença e morte; não podemos pensar que este episódio serviu de pretexto imediato para o príncipe abandonar a vida mundana para dedicar-se ao caminho monástico. Passando por um longo e difícil período de ascetismo, para só então, posteriormente obter a Iluminação sob a árvore Bodhi, é que, a partir deste momento, pela primeira vez, o Buda, revendo seus motivos para abandonar o mundo e tomar o manto, foi tomado pela palavra sofrimento, percebendo o real sentido desta palavra. Penso que isso seria o mais próximo das verdadeiras circunstâncias.

    Em nossas mentes, sequer ousamos pensar em ascetismos tão severos quanto os do Buda, mesmo assim, tendo como guia os seus ensinamentos, vivenciando-se de corpo e alma o processo de luto, será que não podemos alcançar o Jôbutsu (tornar-se Buda, Iluminar-se) pela compreensão do sofrimento?

    A série de procedimentos para o funeral que se seguem logo após o falecimento de uma pessoa, são procedimentos que iniciam uma parte do processo de luto.

    Quando se transpõe o tempo/espaço do período incomum dos ritos fúnebres, de certa maneira, a pessoa morre para o mundo onde convivia com a pessoa que veio a falecer, acompanhando-a no processo do renascer para o mundo dos que estão mortos.

    Obviamente, quanto mais profunda a relação com a pessoa falecida, mais profundamente e mais vezes o rito fúnebre é revivido interiormente. Comemos o oferecimento de alimentos no altar, que a pessoa falecida não mais come e vomitamos boas e más recordações vividas com a aquela pessoa. Assim, repetindo esse processo, vamos compreendendo e aceitando a morte de uma pessoa que nos é querida.

    Quanto mais pungente o processo, quanto mais doloroso, mais forte é o encadeamento da conformação/compreensão possível com a conformação/resignação do próprio ciclo de nascimento e morte.

     

    O importante papel dos ritos fúnebres

    Conforme as palavras do Mestre Shinran[7]: “ao cerrar meus olhos para a vida, atirem-me ao rio Kamo[8] para servir de alimento aos peixes”, tem-se a impressão equivocada de que o Mestre desaprovava os ritos fúnebres. Entretanto, podemos considerar essa forma de funeral como um sepultamento por submersão. Penso que o Mestre deixou em testamento o pedido de jogá-lo ao rio porque este corre para o mar; o mar que o Mestre tanto apreciava. De qualquer maneira, pelo fato do Mestre Shinran celebrar todo mês um rito em memória de seu Mestre, Hônen[9], além do conteúdo de suas cartas, conjeturamos que é impensável que o Mestre Shinran desaprovasse os ritos fúnebres que se seguem após o falecimento. Claro que não se tratava de ritos com orações para os mortos ou por suas almas.

    Mas como e por que será que o Mestre Shinran se voltava para o Mestre Hônen, que estava morto? Afinal, será que não podemos dizer que era um processo pessoal de confirmação do Nembutsu[10]? Um processo de confirmação do Jôbutsu?

    Não podemos separar a cerimônia fúnebre em dois tipos de ritos: o rito em função do morto e um rito em função dos vivos. Mas, na atualidade, a maioria das pessoas pensa que se trata somente de rito em benefício do morto. Assim sendo, entre a classe intelectual, surgem aqueles que discutem sobre a desnecessidade dos ritos fúnebres, declarando que ao morrer não é necessária a realização do rito fúnebre. (Evidentemente isso significa desejar um funeral simples, mas realizado de todo coração. Mas, se o funeral fosse algo totalmente desnecessário, seria o mesmo que atualmente, em dias de coleta de lixo orgânico, enfiar o cadáver num saco plástico e jogá-lo para o lixeiro levar).

    Porém, para os que vivem, o funeral e a série de ritos que se seguem, são uma parte muito importante do processo de luto. É claro que não podemos desprezar os que são contra os funerais e que defendem sua opinião criticando o procedimento “for business” de muitos monges e empresas funerárias, com suas atitudes por demais impessoais, visando apenas o lucro.

    Para a família enlutada, o rito fúnebre deve ser algo fora do comum, pegando-o desprevenido. Assim, se monges e empresas funerárias forçarem a idéia de que seu trabalho é um trabalho cotidiano como outro qualquer, acabam quebrando o importante sentido cerimonioso que este possui.

    Sentimentos que não se consegue exprimir em palavras

    No ano passado, após as explosões simultâneas decorrentes do atentado terrorista em Nova York, todo dia 11 de cada mês, e também no 100º dia do atentado, transmitiu-se através da mídia, ao mundo todo, o estado de espírito da população nova-iorquina, nas aberturas das cerimônias em homenagem aos mortos, realizadas pelo comitê de serviço memorial, sempre se enfocando os familiares dos mortos.

    São pessoas que não possuem o costume de celebrar os ritos de 49 dias de falecimento, e nem de celebrar ritos mensais ou anuais em memória de seus mortos, mas para se tentar aceitar um fato tão irracional como a morte, surgiram novos processos de luto que se adequaram naturalmente às formas preestabelecidas pela tradição budista.

    Após o episódio ocorrido na escola primária de Ikeda, passamos a ouvir mais sobre a maior união de esforços em prol do movimento Children’s Kokoro no Kea (Children’s Care for the mind). Se fosse antigamente, também seria possível juntar as mãos silenciosamente diante de Jizô Bosatsu[11].

    Penso que também é importante, mesmo nas escolas públicas, a homenagem às crianças já falecidas, como o rito de plantio de árvores pelos estudantes, que em silêncio, suspiram palavras que calam bem fundo no coração.

    Ao se passar por todo esse processo, um dia, aquele sentimento impossível de se expressar em palavras poderá ser entendido como um pedido: “por favor, enxerguem com firmeza e determinação nossas vidas, posto que a vida deve ser vivida até o dia da morte”. Assim sendo, penso que chegará o dia em que poderemos nos conformar/ compreender a morte de nossos amigos.

    Rev. Ken Kadowaki (Professor da Universidade Otani – Kyoto – Japão) – traduzido pela Reva. Sayury Tyojun

    ____________________________________

    [1] O autor se refere ao ataque de um indivíduo desequilibrado, ocorrido em 8 de junho de 2001, numa escola primária em Ikeda, elegante subúrbio da cidade de Osaka, no Japão, que resultou na morte de 8 crianças de 6 a 8 anos de idade a facadas, ferindo outras, sendo que 15 foram internadas, e destas, 6 em estado grave. O assassino invadiu a escola escalando uma janela, por volta das 10h15 (23h15 de Brasília), armado com uma faca de cozinha de 15 cm de comprimento. Imediatamente começou a esfaquear aleatoriamente crianças e professores. No total, 23 pessoas, incluindo dois adultos, ficaram feridos, num ataque que durou 12 minutos. Identificado como Mamoru Takuma, de 37 anos, que quando preso, falava frases incoerentes, alegando ter tomado uma forte dose de tranqüilizantes, que já tentara suicídio duas vezes, e que queria ser preso para ser executado. Mais tarde, a polícia averiguou que o assassino já havia passado por tratamento em hospital psiquiátrico e em três oportunidades foi tratado por crises de esquizofrenia.

    [2] Rennyo-Shônin: VIII Patriarca da transmissão e reformador do Budismo Shin no Japão.

    [3] Referência à morte como a única certeza após o nascimento.

    [4] O autor, no texto original em japonês, faz uso de um jogo de palavras com os verbos akirameru, foneticamente iguais e de flexões muito parecidas, que tanto pode significar “esclarecer, clarear” como “conformar-se, resignar-se”. Sendo que para o ideograma que indica o verbo conformar, resignar, no Budismo há uma conotação especial que significa iluminar, compreender.

    [5] Em japonês diz-se shinde iru (morto está), sendo o verbo ‘estar’ indicativo de existência de um ser vivo. O autor aponta para a aparente contradição de se unir a condição “morto” com o verbo “estar” que implica em existir.

    [6] Sidarta Gautama que nasceu no século VI a.C. como príncipe do povo dos Shákyas, no norte da Índia e que mais tarde viria a se tornar o Buda, fundador do Budismo.

    [7] Shinran-Shônin, Patriarca Fundador do Budismo Shin (Escola Jôdo-Shin-Shû) no Japão.

    [8] Rio que atravessa a cidade de Kyoto, onde vivia o Mestre Shinran por ocasião de seu falecimento.

    [9] Hônen Shônin, Mestre de Shinran e Fundador da Escola da Terra Pura (Jôdo-Shû) no Japão.

    [10] Ponto fundamental dos ensinamentos da Doutrina da Terra Pura, onde ao se recitar o Nome Sagrado do Buda Amida através da fórmula “Namu-Amida-Butsu”, o fiel praticante abandona todo o pensamento de auto-poder e se entrega de todo coração ao Poder Salvífico do Buda Amida, o Buda da Vida e Luz Infinitas.

    [11] Bodhisattva Ksitigarbha, o Bodhisattva que abriga em si todas as virtudes, popularmente é considerado o protetor das crianças e dos viajantes.

     

     

  • Nichiren

    As paixões e o despertar

    “Quando se entoa ‘Namu-myoho-renge-kyo’, mesmo fazendo amor, todas as paixões despertam e o sofrimento da vida e da morte é o nirvana” – Nichiren, em “As Paixões Despertam”.

    “Perdoem-me, mas esse é o próprio núcleo da doutrina Mahayana. Nichiren acredita piamente que, como já somos budas e como o nirvana está presente aqui, neste mundo, até mesmo as nossas paixões expressam a natureza da pura realidade. Isso significa que, se tivermos firmemente em vista a nossa natureza de Buda, até os atos mais apaixonados permanecerão despertos. Nichiren despertava os dele repetindo o seu famoso mantra*, porém, há muitas outras maneiras de fazê-lo. (*nota do editor: O Odaimoku, Namu Myoho Renge Kyo, não é um mantra, este é um equívoco na interpretação do autor do texto original)

    “Pessoalmente, acho esse ensinamento prazeroso, afirmativo, um grande alívio ! Até porque ainda não cheguei ao estágio de conseguir abrir mão das minhas paixões. Creio que a maioria das pessoas coincide comigo neste ponto. Mas eu quero muito me libertar do apego e da ilusão. Felizmente, Buda vem ao nosso encontro no meio do caminho. Nós adoramos fazer amor (ou comer batata frita ou qualquer outra coisa); tudo bem. Mas procure preservar a sua natureza de Buda ao desfrutar essas paixões. Pense nos outros, recite um mantra, irradie a generosidade do amor, não esqueça da respiração. Buda nos oferece várias maneiras de fazê-lo; também podemos inventar um jeito só nosso. Trabalhar para vir a ser Buda é uma prática espiritual dificílima”.

    *Franz Metcalf. O que Buda faria? Ed. Pensamento, 2003, pág:69.
    **crédito da imagem: http://500px.com/photo/67221631/buddha-at-sunrise-by-adrian-galli

  • Zen

    A relação mestre-discípulo

    Três características definem o discípulo: silente, obediente e não resistente.

    Uma relação mestre-discípulo é, no Zen, uma relação em que escolhemos alguém para ser nosso mestre na vida e essa escolha deve demorar, não deve ser apressada.

    Normalmente os alunos visitam vários lugares, ouvem diferentes pessoas até encontrar um local onde se sentem conectados, se sentem bem, sentem que aquele lugar fala ao seu coração, que aquele professor especificamente está falando ao seu coração. Depois de um tempo bastante variável, pode ser que se estabeleça uma relação mestre-discípulo e nessa relação não existe uma atitude crítica e, sim, uma aceitação ampla daquilo que está sendo ensinado, com um mínimo de resistência.

    Três características definem o discípulo: silente, obediente e não resistente. Silente, significa que ele ouve e fecha sua boca, é silencioso, mesmo que não concorde com algo, fecha sua boca na esperança de que mais tarde entenda aquele ensinamento. Agora não entende, mas, não protesta, fica silente. Obediente significa que quando o mestre diz “Faça isso!”, o discípulo vai e faz, não importa se a ordem é coerente ou não. Às vezes, os mestres pedem coisas que parecem sem sentido, por exemplo: “Limpe essa sala”, e o discípulo olha e a sala está imaculadamente limpa, mas ele vai lá limpar. Significa que ele não protesta, nem pensa se tem sentido ou não fazer aquela prática que o mestre está lhe pedindo. O discípulo não contesta, ele simplesmente assume a tarefa.

    Existem histórias de mestres do passado mandando o discípulo construir uma torre e depois de pronta, desmontá-la, e depois construir novamente. Numa célebre história isso acontece oito vezes. É preciso ter plena consciência do que é obediência não resistente para pegar um regador e ir regar o jardim sob a chuva, por exemplo. Evidentemente, todos podem se dar conta de que tem que haver absoluta confiança na relação mestre-discípulo para se fazer esse tipo de prática, porque ela, dentro de si mesma, tem riscos.

    Normalmente, no Zen as instruções são de práticas gerais, ou seja, todos os dias levantamos num horário determinado, como acontece num sesshin, vinte minutos depois estamos sentados para fazer zazen. São instruções de prática ritual: “Faça assim!” – não há um espaço para questionamentos do tipo “Por que quando o professor passa atrás de mim eu tenho que fazer gasshō?”. Você tem que descobrir sozinho. Na relação mestre-discípulo, a obediência ocupa um lugar central porque exige o abandono do pensamento centrado em si mesmo, em seu ego.

    “Não resistente” aparece frequentemente nos mosteiros porque a palavra mais frequente utilizada pelos monges em treinamento é “hai”, que significa “sim”. É a palavra que mais se ouve, porque a todo o momento em que um veterano ou um mestre diz algo, você responde: “Hai!”. E você diz sim para mil coisas, sempre sem protestar, sem apresentar uma nova consideração ou uma opinião. Uma ordem é dada: “Faça isso!”, e não existe espaço para “Mas, por que eu de novo, por que não fulano?”. Isso é frequente em muitas situações da vida, mas no mosteiro você aprende a dizer somente “Hai!” e simplesmente realizar sua tarefa sem pensar. Por exemplo, digamos que amanhã é esperada, segundo a previsão, muita neve, e é preciso que alguém acorde às três horas da manhã para tirar a neve do caminho para que se possa chegar à sala de meditação. Então, os monges fulano, beltrano e cicrano foram os escolhidos. Qualquer um poderia ter vontade de se dizer resfriado, ou que é velho, ou que já fez esta tarefa ontem, ou ainda que é fraco, enfim, mil desculpas poderiam ser dadas, mas, nada disso pode ser feito. Os escolhidos simplesmente se levantam às três horas e vão tirar a neve do caminho. Outro dia outros farão a tarefa e pode ser que neve de novo justamente quando for novamente a sua vez! O sentido disso é aceitação, nós temos que aceitar a vida como ela se apresenta, sem tentar mudar as coisas que não podemos mudar, devemos simplesmente aceitar.

    Quando o mestre está presente nós nos comportamos com infinito respeito. Lembro-me de uma pergunta feita à Moriyama Rōshi, sobre sua relação com seu professor, de mais de vinte anos: “Como foi isso?”. Ele respondeu: “Durante vinte anos eu peguei seus chinelos!”. Quando o mestre sai da sala, o aluno principal, o “Jisha”, pega seus chinelos e os coloca na frente da porta, para que quando ele sair seja mais fácil de calçá-los. Não há gentileza que você não faça e isso faz parte da prática espiritual. Você ouve todas as coisas com completa aceitação e também você tem a postura respeitosa. Na presença do mestre sempre se deve estar em “shashu”, 1 jamais estar sentado se ele estiver de pé e não se deve ensinar nada para alguém na presença do mestre, você só ensinará algo se ele pedir.

    É você que faz o mestre, não é ele que se faz, ele só é mestre porque tem discípulo. Não é uma via de mão única, é uma via de mão dupla. Você só consegue ter um mestre se você o vir como mestre. Se você não o vir como mestre ele será uma pessoa comum.

    Hai!

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.


    1) Shashu, postura que se adota quando parado ou em kinhin (“meditação” andando). Fica-se de pé, a coluna vertebral bem reta como no zazen, o quadril encaixado, o queixo para trás e os pés paralelos, separados entre si à distância de um punho fechado. As mãos ficam na altura do plexo solar, o polegar esquerdo fica dentro do punho fechado e a mão direta envolve o punho esquerdo. Os antebraços ficam em linha e paralelos ao chão, os ombros bem relaxados, voltados um pouco para trás. Voltar

    Imagem. Cena do belíssimo filme “Zen”, sobre a vida do mestre Dōgen, fundador da Escola Sōtō Zen japonesa.

    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    Reavaliando meu modo de viver

    – “Sabe, aquele seu antepassado de cinco gerações passadas? Ele está rogando praga em você!” Se alguém falar assim, a maioria levaria um grande susto. Mas, se falassem: ”Sua mãe falecida está lançando uma maldição”? A maioria das pessoas

    responderia indignada:- “Minha mãe não é esse tipo de pessoa!” Ou seja, aceitar que o antepassado está em perdição, ou que está rogando alguma praga, demonstra que o nosso coração não conseguiu assumir a morte dessa pessoa. Assim, alguém aproveitando essa insegurança sugere maldiçoes e magias, cujo apaziguamento geralmente envolve dinheiro.

    Quem morreu não porta mais emoções. Portanto não exigirá isso ou aquilo no altar; nem vai ameaçar dizendo que se você não fizer isso ou aquilo, vai te assombrar.

    Mesmo assim, nós que estamos vivos, por conta própria pensamos que é necessário fazer alguma coisa pelo falecido e projetamos.

    Sob determinado ângulo, isso parece valorização do falecido. No entanto o verdadeiro propósito pode estar no pedido de proteção para a própria vida ou proveniente do medo de chamar alguma maldição para si. Será que na maioria das vezes não é esse o caso?

    Pois a popularização do exorcismo baseia-se nisso.

    A pessoa que morreu, através da sua própria morte está transmitindo para nós que todo o ser vivente morrerá, um dia. E está questionando como queremos viver nossa existência limitada. Quanto mais próxima era a convivência com esse falecido, mais sentimos essa questão. Nós só conseguimos começar a pensar direito sobre a nossa própria vida, só quando defrontamos com a morte de alguém próximo.

    Visitar o túmulo, participar de um rito memorial de um ente querido nada mais é do que uma oportunidade importante para através da vida passada dessa pessoa, poder reavaliar a nossa própria maneira de viver.

     

    Rev. Prof. Makoto Ichiraku (Universidade Otani de Kyoto)

  • Nichiren

    As 6 Perfeições – Sabedoria

    Temos aprendido sobre as seis práticas dos Bodhisattvas, que são: caridade, preceitos, tolerância, esforço, meditação e sabedoria. Nesta oportunidade, gostaria de compartilhar com vocês um pouco sobre a última das seis, a prática da sabedoria.

    Deixe-me falar sobre algo que aconteceu recentemente. Estivemos visitando alguns asilos para idosos às terças-feiras. Durante a visita nós realizamos uma cerimônia budista pela felicidade das pessoas idosas que moram lá e também por seus antepassados. Após o cerimonial, costumamos falar um pouco sobre o Dharma. No entanto, era difícil para eles ouvir os nossos sermões. Sinceramente, nós não sabemos ainda se eles estavam acordados ou se estavam dormindo enquanto falávamos. Resolvemos então cantar algumas músicasAgora temos certeza de que eles estão acordados porque eles ainda cantam as músicas conosco, movendo seus corpos e batendo a palmas das mãos no ritmo de cada canção.

    Um dia, quando nós visitamos o Island Home Care na Alexander Street perto da Rua Punahou, todos, não só os idosos, mas os trabalhadores e até mesmo o proprietário, se divertiam cantando tanto que eles me pediram para cantar mais. Eles queriam que eu cantasse algumas canções dos Beatles. Eu cantei a canção “Yesterday“. Então, eles me pediram para cantar mais uma canção. Eu estava tendo dificuldade em escolher uma canção, então, alguém disse, “Por favor, cante ‘Let it be! ’”. Pensei silenciosamente: Tudo bem, essa é uma canção que eu posso cantar… mas, espere, não existe um trecho na canção que diz ‘Mãe Maria venha a mim… ’? Pode um ministro budista cantar uma canção sobre a Mãe Maria? Mas, eu não desrespeito outras religiões. Eu respeito os cristãos também. Esse é o caminho que os budistas deveriam seguir, penseiDecidi cantar a canção após ver todos os rostos felizes esperando por eu começar a cantar. Então, eu comecei: “Quando eu me encontro em momentos de dificuldade/ Mãe Maria vem a mim/ Falando palavras de sabedoria/, Deixa estar…”. Que bela canção. Segundo a letra da música, as palavras de sabedoria são “deixe estar”. Parece uma maneira budista de ver as coisas como elas são. Além disso, depois que eu voltei para casa, eu pesquisei na internet e encontrei um artigo sobre as palavras “Mãe Maria na letra dessa música, dizendo que quando o compositor e escritor, Paul McCartney foi entrevistado, ele próprio afirmou que a “Mãe Maria” nesta canção foi sua própria mãe e não a Maria mãe de Jesus.

    Agora, gostaria de falar sobre a diferença entre conhecimento e sabedoria.

    Conhecer as coisas é chamado de conhecimento.

    Conhecer as coisas e torná-las úteis e com sentido para sua vida é chamado de sabedoria. Portanto, aprender e praticar deveriam ser incluídos no significado de sabedoria. Temos aprendido muito sobre sabedoria budista desde que começamos a estudar sobre esse assunto, como por exemplo, o ensinamento das Quatro Nobres Verdades, o Nobre Caminho Óctuplo, os Quatro Sofrimentos, os Três Venenos, os Três Selos, o Caminho do Meio e etc. É muito bom ouvir e aprender sobre o Dharma de Buda, mas é um pouco difícil guardar todoesses conceitos logo que ouvimos sobre eles, não é? Mas, não se preocupe. Temos o Namu-Myoho-Renge-Kyo.

    Você sabe por que o nosso fundador Nichiren Shonin recomendou fortemente para nós essa recitação? Porque, no 21º capítulo do Sutra do Lótus, o Buda Eterno Shakyamuni diz que “Todas as doutrinas possuídas por ele, todos os seus poderes sobrenaturais, o depósito de todos os seus aspectos essenciais secretos, e todas as suas mais profundas questões são reveladas e claramente expostas neste sutra”. Isso significa que o Buda Shakyamuni proclamou que ele colocou toda a sua sabedoria no Sutra do Lótus.

    Em seguida, ele diz:

    “Qualquer um que defenda este sutra irá se deleitar em interminavelmente expor os princípios das várias doutrinas e os nomes e as palavras desse sutra, como um vento que se desloca no céu aberto em toda parte, sem entraves ou obstáculos”.

    Portanto, você pode defender o nome do Lótus Sutra, que é Myoho-Renge-Kyo. Basta colocar “Namu“, que quer dizer “Eu me dedico à e então ficará “Namu-Myoho-Renge-Kyo“.

    A energia da sabedoria possuída pelo Buda Shakyamuni está aí. É por isso que Namu-Myoho-Renge-Kyo tem grande importância. Então, quanto mais você aprender e praticar o Darma, mais a sua recitação do Namu-Myoho-Renge-Kyo torna-se eficazNamu-Myoho-Renge-Kyo é uma palavra de sabedoria.

    Na Coréia, eles recitam, “Namo-myop-pah-yon-fah-gyon“. Alguns chineses recitam “Namo-Myo-hua-lin-hua-chin“. Meu amigo indiano recita “NamoSaddharmaPundarika-Sutra“. E, outras pessoas em outros cantos do mundo cantam Namu-Myoho-Renge-Kyo . Realmente não importa como ou em que língua você recita nem quanto tempo você recita o título do Sutra do Lótus. Mesmo um famoso poeta japonês, Kenji Miyazawa, que foi um dedicado um seguidor do Sutra do Lótus recitava “NamoSaddharmaPundarika-Sutra“. Milhões de pessoas em todo o mundo estão recitando o Odaimoku porque nele contém sabedoria.

    Por favor, vamos estudar e aprender sobre o Dharma de Buda para reforçar poder de nossa recitação de Namu-Myoho-Renge-Kyo. O nome do Lótus Sutra engloba e contém toda a sabedoria do Buda Shakyamuni. Acredite em mim e recite Namu-Myoho-Renge-Kyo. Essa é uma maneira de praticar sabedoria.

    *texto do Rev. Imai Shonin da Nichiren Shu Havaí
    **crédito da imagem: http://500px.com/photo/34513574/buddha-by-josh-bulriss-

  • Zen

    Zen consumista ou zen shūgyō? – 5ª parte

    (continuação da 4ª parte)

    Por que interessa tanto esta reflexão sobre zen consumista (“zen por quilo”) versus zen shūgyō? Seria por que um é “superior” ao outro? Será que temos o direito de julgar a prática dos outros?

    Não e não. Mas, é importante que tenhamos clareza sobre o que estamos fazendo. É importante que não estejamos nos enganando, fazendo um tipo de prática acreditando que estamos realizando outro.

    Agora no Ocidente estão surgindo muitas variedades de prática, todas sendo chamadas de “zen” ou de “budismo”. De um lado, isto é bom e interessante, pois pode representar um desenvolvimento do pensamento e prática do Zen. Acho importantes estes experimentos com novas modalidades de prática e experiências, utilizando-se tecnologias modernas, inclusive.

    Mas, por outro lado, cria-se um cenário bastante confuso para o iniciante. Temos o “budismo tradicional” das várias escolas: Theravada, Terra Pura, Sōtō Zen, Rinzai Zen, Zen Vietnamita, Zen Coreano, etc., etc. Depois temos “budismo sem mestre”, “budismo sem crenças”, “budismo secular”, entre outros.

    Mais complicado ainda: temos grupos “híbridos”. No caso do Zen, por exemplo, temos grupos que misturam Sōtō, Rinzai e Sanbō Kyōdan – inclusive misturando as “regras” de uma tal forma que, a meu ver, acaba não sendo nem uma nem outra destas escolas, por não seguirem fielmente nenhuma delas. Por exemplo, o Sanbō Kyōdan (um grupo dissidente do Sōtō Zen) aceita a formação de “mestres zen leigos” e de “mestres zen cristãos/hindus”, etc., algo que não é aceito pela escola Sōtō Zen.

    O sistema de títulos (Oshō, Rōshi, etc.) é diferente nas escolas Sōtō e Rinzai. Consequentemente, não sei se seria realmente correto dizer que um grupo “híbrido” é de fato pertencente à escola “Sōtō”, se segue o padrão Sōtō Zen só parcialmente.

    O problema não está no que é feito ou não, mas nos rótulos. O problema não está na mistura, mas na “identidade” que é assumida (ou, melhor dito, na confusão em relação à identidade). Quando tentamos incluir elementos incompatíveis entre si, corremos o risco de ficar sem uma “identidade” congruente e coerente.

    É importante que não estejamos nos enganando, fazendo um tipo de prática, acreditando que estamos realizando outro.

    Vivemos num mundo de dualidade e precisamos desta dualidade para funcionar neste mundo da “forma”. Consequentemente, ser “algo”, automaticamente exclui tudo o que não é aquele “algo”.

    Desta forma, “ser budista” automaticamente exclui “ser hindu”, por exemplo. Mas, na época do nacionalismo japonês, que levou aquela nação à Segunda Guerra Mundial, Daisetz Teitaro Suzuki popularizou o conceito de um “zen universal”, comum a todas as religiões. Com isto, criou uma nova interpretação do rótulo “zen”, separando-o do “budismo”, abrindo espaço para um “zen cristão”, um “zen hindu”, etc.

    Mas, o Zen do Mestre Dōgen, que é a base da escola Sōtō, nunca deixou de ser claramente “budista”. O Mestre Dōgen nunca se colocou como dissidente dos ensinamentos do Budismo clássico. Assim, como seria possível misturar o Zen com o Hinduísmo? O Budismo ensina o não ātman enquanto que o Hinduísmo ensina o ātman – interpretações mutuamente excludentes. O Cristianismo ensina a existência de uma alma eterna e o Budismo fala da impermanência dos cinco skandhas. 1 Novamente, são ensinamentos contraditórios, incompatíveis.

    Por este motivo, pessoalmente preferiria ver os grupos “híbridos” adotando nomes diferentes, como “neo-zen”, “zen universal”, ou algo assim, para se diferenciarem do Zen Sōtō, por exemplo.

    Acredito que quem quiser se abrigar à sombra de uma tradição milenar deve levar em conta toda a árvore, e não somente os frutos ou os galhos que lhe agradarem.

    Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.


    1. Skandhas (Sanskrit), khandhas (Pāḷi), muito resumidamente, os cinco componentes (agregados) que formam o ser humano, sendo que nenhum deles é uma “alma”, “espírito”, ou essência duradoura. Voltar

    Organização: Rodrigo Daien

  • Nichiren

    Entrando no Sutra do Lótus

    Existe um termo utilizado para determinar um grupo de escolas que se chama Hokekyo Schools, ou Escolas do Sutra do Lótus. Este termo é usado para categorizar escolas que tem como ensinamento e base principais no Sutra do Lótus. Hoje em dia temos a antiguíssima chinesa T’ient’ai, a japonesa Tendai e a linhagem que descendeu do monge Nichiren Shonin. Nichiren Shonin era um monge Tendai, assim como vários outros contemporâneos de sua época, como Dogen e Shinran, que mais tarde fundaram outras escolas. Nichiren passou sua vida estudando todos os sutras e todos os ensinamentos do mestre chinês Chih’i (T’ient’ai) até que descobriu no Sutra do Lótus as respostas para questões que tinha em sua época, defendendo e ensinando o sutra por todo o resto de sua vida. A escolha do texto abaixo se deu para entendermos um pouco da importância deste sutra para a tradição Mahayana. O Sutra do Lótus influenciou todo o budismo do leste e sudeste asiático, julgado um texto importantíssimo por grandes mestres, o rei dos sutras. A tradução de hoje é de um texto da revista Tricycle.com, intitulado “Entering the Lotus” do Michael Wenger, autoridade em estudos budistas de um dos principais centros Zen americanos. Embora seja um relato Zen, temos aqui uma boa oportunidade de aprender sobre o Sutra e o quanto ele é utilizado também em outras escolas, ainda que em proporção diferente das três escolas de Hokekyo.

    —————–

    Michael Wenger explica como estudar o sutra abriu seu senso de prática.

    Embora eu não tenha descrito isto na época, olhando para trás, Eu diria que minha primeira década de prática no Zen tenha sido focada em auto-aperfeiçoamento, especialmente em disciplina. Acho que eu aprendi muito, mas a maioria do que aprendi centralizava em mim mesmo: minhas fortalezas, minhas fraquezas, este tipo de coisa. Durante esta época, eu passei três anos em treinamento monástico no Tassajara Zen Mountain Center, e quando eu retornei, me senti estranhamente desorientado. Eu passei muito tempo examinando e trabalhando em questões pessoais, mas eu não estava particularmente feliz e de fato me senti muito desvinculado de minha vida. Algo parecia estar faltando em minha prática. Eu comecei a me perguntar, bem, e agora?

    Foi nesta época que eu iniciei um estudo intensivo do Sutra do Lótus.  Eu realmente não poderia explicar porque eu estava tão atraído pelo sutra, ao menos no começo. Não estava claro pra mim mesmo. Depois de um tempo, no entanto, eu percebi que o sutra era pra mim muito menos um texto, mas o verdadeiro cenário de minha vida. Estudar o sutra abriu meu senso de prática. A prática não era apenas sobre mim. O domínio da prática transmitida pelo Sutra do Lótus inclui todo mundo e todas as coisas. Este sentido de incluir todas as coisas era o que estava me faltando.

    No leste da Ásia, o Sutra do Lótus tem sido considerado o rei dos sutras.

    O contemporâneo mestre vietnamita Thich Naht Hanh ecoa esta perspectiva quando descreve o sutra como: ‘A mais bela flor no jardim dos sutras do budismo Mahayana.’

    Na introdução de sua tradução para o Sutra do Lótus, W.E. Soothill escreve: “Desde o primeiro capítulo, descobrimos o sutra do Lótus como único no mundo da literatura religiosa. Um esplendor apocalíptico, ele apresenta um drama espiritual da mais alta ordem, com o universo como seu palco, a eternidade como seu período e Budas, deuses, homens, demônios como personagens.” Com sua enorme escala, seus maravilhosos eventos, sua exuberante linguagem, o sutra expressa a visão budista da compaixão com uma força peculiar. De fato, seu poder em inspirar pode até mesmo se tornar um problema, invocando não apenas fé, mas uma espécie de intoxicação. Então, devemos abordá-lo tanto com a mente aberta quanto com cuidado.

    Para muitos estudantes ocidentais do Zen, e estudantes de outros caminhos meditativos, o estudo dos sutras, incluindo o Sutra do Lótus, pode parecer um pouco estranho. Nós nos lembramos da descrição do Bodhidharma do Zen como uma “transmissão especial fora das escrituras”. Estamos familiarizados com a famosa história de Hui Neng incendiando as escrituras. É-nos dito para não confiar em “palavras e letras”. Então, nós tendemos em suspeitar do estudo do sutra, pensamos nisto como uma distração intelectual do que é essencial na prática. Há alguma verdade nisso, mas é apenas metade da história.

    A outra metade é que o estudo dos sutras tem sido sempre uma parte integral da prática budista. Este é certamente o caso do Zen, especialmente quando se trata do Sutra do Lótus.

    Em seus próprios escritos, Eihei Dogen, o fundador da escola japonesa Soto Zen, citou o Sutra do Lótus mais do que qualquer outro texto. Em sua obra-prima, Shobogenzo (Um Tesouro da Visão do Verdadeiro Dharma), ele cita o Sutra do Lótus extensivamente, mesmo tirando daí os títulos de alguns capítulos.

    O título de um capítulo chamado “Butsu yo Butsu” (“Buda e Buda”) refere-se à afirmação do Sutra do Lótus de que “apenas um Buda junto com outro Buda pode compreender a realidade de toda a existência.” No capítulo “Hokke tem hokke” (“O Lótus se torna o Lótus”), Dogen pergunta: “Você se torna o Sutra do Lótus, ou o Sutra do Lótus se torna você?” Em outras palavras, ele está nos dizendo para não sermos empurrados pelo sutra. Não tome o sutra para ser um objeto separado de você mesmo. Em vez disso, torne-se o sutra, e ao fazer isto, você demonstra seu significado diretamente.

    O mestre Zen do século XVIII Hakuin Ekaku é considerado o pai do moderno Zen Rinzai, e seu koan “Qual é o som de uma mão?” é um dos mais famosos. Ele também organizou centenas de koans tradicionais em um sistema que é utilizado ainda hoje no treinamento Rinzai. A associação de Hakuin com o estudo de koan é profundo e bem conhecido, bem mais conhecido que seu profundo envolvimento com o Sutra do Lótus. Mas o sutra do Lótus foi crucial para Hakuin. Ele escreveu sobre suas lutas com o sutra, dizendo como sua dúvida e decepção com o sutra abriram caminho para a percepção de que ele era de fato um “registro perfeito” do Buda-dharma. Uma noite, diz ele, sentado estudando o Sutra do Lótus, o barulho de um grilo ocacionou uma experiência de kensho, ou iluminação súbita, em que ele penetrou profundamente no significado do sutra e todas suas dúvidas foram completamente resolvidas.

    O Sutra do Lótus é vasto e difícil de entender, como a mente de um Buda. Nós não encontramos nele, como encontramos em muitos outros sutras, uma explicação sistemática de um tema. Como uma força da natureza, o Sutra do Lótus não pode ser domesticado para atender nossos planos.  Isto pode criar problemas quando se tenta ensiná-lo.

    Shunryu Suzuki Roshi, o fundador do San Francisco Zen Center e do Tassajara, tentou muitas vezes dar uma série de palestras sobre o Sutra do Lótus. Ele nunca fez isto completamente. Ele começava falando sobre quem estava presente – os vários Budas, bodhisattvas, deuses, criaturas mitológicas, discípulos e assim por diante – e logo era a hora de terminar a palestra. Na aula seguinte, ele começava novamente, e a mesma coisa acontecia. Mas talvez isto era o suficiente.

    Quando eu comecei a estudar o Sutra do Lótus, eu ficava procurando por sua mensagem explícita. Eu nunca a encontrei. Isso não quer dizer que o sutra não tem ensinamentos. Na verdade, ele está repleto de ensinamentos, sobre como os Budas usam vários meios hábeis para conduzir os seres à libertação, como todos os seres tem a capacidade de atingir a iluminação, sobre o poder da fé no Buda, sobre a natureza da mente iluminada que não tem começo, nem fim, e assim por diante. Mas tudo isso é apresentado não como o real ensinamento do Sutra do Lótus, mas como um tipo de preparação para ouvi-lo. Eu me perguntava por que o texto vai e vai criando o cenário para a pregação do sutra, mas nunca parece realmente chegar a ele. Eventualmente me dei conta de que o texto está atraindo você para uma experiência. Ele te coloca exatamente ali mesmo, praticando com inúmeros outros na presença dos Budas. Esta é a mensagem.

    Quando eu palestro sobre o Sutra do Lótus, eu costumo começar com o koan “Manjushri entra no portão”, o primeiro caso da coleção do clássico A Flauta de Ferro. Na mitologia budista, o bodhisattva Manjushri é a personificação da sabedoria, e uma estátua dele fica em cima do altar principal nas salas de meditação Zen-budistas. No koan, o Buda chama Manjushri, que está do lado de fora da porta do templo, “Manjushri, Manjushri, porque você não entra?” Manjushri responde, “Eu não vejo qualquer coisa daqui de fora do portão. Porque eu deveria entrar?”

    Eu gosto da resposta de Manjushri, mas parece um pouco dissimulada. Ele está dizendo que ele não consegue discriminar entre o que está dentro do portão e o que está de fora. Mas, ainda assim, ele opta por não entrar. Então, eu acho que ele não vê a diferença. Talvez ele devesse aceitar o convite do Buda para entrar no templo. Verdadeiramente entrar no portão – verdadeiramente conectar-se com os ensinamentos do Buda – é experimentar diretamente que não existe dentro e fora. Isto não é apenas uma idéia: você não pode entender isto pelo lado de fora. Ao entrar, no entanto, não ache que você está dentro e os outros ainda estão lá fora. Todo mundo entra com você.

    Entrar no portão significa entrar em sua vida. Entrar no Sutra do Lótus significa entrar em sua vida. Isto é prática. Praticar significa permitir que o Sutra do Lótus entre em você. Praticar desta maneira é arriscar ter seu entendimento das coisas revirado, não uma, mas várias vezes. Para isto é necessário fé, fé o suficiente para arriscar a própria fé. Portanto, temos uma escolha. Podemos assistir a vida acomodados na margem, ou podemos arriscar nosso orgulho, nossas idéias, e tudo aquilo que nós usamos para separar nós mesmos dos outros e saltar profundamente dentro de nossas vidas. Dê este salto e você encontrará o Sutra do Lótus aonde quer que você vá.

    *Sobre o autor: Michael Wenger é o Decano (autoridade) em estudos budistas no San Francisco Zen Center; e o editor de Wind Bell: Teachings from the San Francisco Zen Center, 1968-2001.

    **tradução livre do texto Entering the Lotus, publicado no site Tricyle.com: http://www.tricycle.com/special-section/entering-lotus-0 (esta tradução não deve ser publicada fora deste site sem a autorização do autor e do site Tricycle, para não prejudicar quem traduziu, não prejudicar o blog e nem ferir direitos autorais)