O que somos e para onde vamos?

Enxergar nossa verdadeira natureza é enxergar a argila que está por trás de nós. Essa não tem identidade e pode manifestar tudo e em tudo se transformar.

Em minha família, todos que ficaram mais velhos tiveram doença de Alzheimer. Isso nos leva a uma questão interessante: “O que é que nós somos?”. E o que seremos depois? Alguém me perguntou em uma entrevista: “E depois da morte, acaba tudo?”. E minha resposta foi que, dada a maneira como nosso universo funciona, é impossível que alguma coisa acabe.

A primeira lei da termodinâmica é a lei da conservação de energia, ou seja, a energia é constante e só pode ser transformada. A energia pode ser condensada, por exemplo, condensada e transformada em matéria. Matéria, portanto, é energia condensada. Nós somos energia condensada, mas em permanente transformação.

Em outra palestra usei o exemplo do riacho. Sempre que olhamos para o riacho ele parece ser o mesmo, mas todos sabemos que não é o mesmo. A cada segundo uma nova água se apresenta e passado suficiente tempo, os riachos cavam buracos e mudam de curso. Assim é com todo o universo, em constante transformação.

A vida está sempre mudando, sempre se transformando. Poucos minutos atrás estava chovendo, depois abriu o sol, depois chuva e sol e agora somente sol. Todo o tempo é assim, nada é estável, tudo é impermanente e está em constante mudança. Existem duas situações que o Budismo não aceita: uma é o “niilismo”, condição em que nada existe. A outra é o “eternalismo”, ou seja, as coisas continuam para sempre e imutáveis. O mundo não é assim.

É absurdo para o Budismo o termo “alma eterna”, um “eu” que continua para sempre, por toda a eternidade. A vida eterna é um desejo antigo do ser humano, já existiram inclusive expedições em busca da fonte da juventude. A ideia é adquirir uma substância que forneça a juventude e, com isso, a vida eterna, sem doenças e mortes. Muitas religiões criaram o conceito de um “eu” eterno, uma alma que nunca morre, que acumula experiências e se lembra de tudo. Eu não consigo imaginar um castigo mais terrível, continuar preso a esse “eu” com essas exatas memórias, sem poder apagar e me livrar de coisas erradas do passado. Penso que não seria uma boa ideia.

Para o Budismo, todas as coisas são impermanentes e cíclicas. Da mesma forma, para o Budismo uma coisa não pode desaparecer, só existe continuidade. A partir desse raciocínio, só podemos pensar que nós somos continuidade de algo ou alguém, porque não há consequências sem causas.

Esse copo, por exemplo, que aqui está, não veio sozinho, alguém o trouxe da cozinha. Para chegar até a cozinha foi preciso alguém levá-lo até lá, foi preciso alguém comprá-lo e outro alguém fabricá-lo. Podemos ir recuando e sempre encontraremos uma causa para um acontecimento. Mesmo que eu chegue até ao Big Bang da física moderna, ainda poderei fazer o seguinte questionamento: “Mas e antes do Big Bang?”. O tempo não existia, poderia ser a resposta. Pode ser que outro universo de alguma forma tenha condensado energia e dado origem ao Big Bang, não sei. Mas a essência do que estamos falando é que, se é lógico que somos continuidade, senão não estaríamos aqui, também é lógico que existirá uma continuidade de nós mesmos. Mas o Budismo declara que este “eu” que acredito ser minha identidade é temporário, pois ele depende de determinados agregados que são temporários, por exemplo, a memória. Só com memória posso saber quem eu sou, somente com memória pode-se sustentar um “eu” continuado.

Pois bem, se a memória não sobrevive a uma doença como Alzheimer, como sobreviveria ao evento da morte? Sabemos, portanto, que nosso “eu” é temporário, mas que nossa continuidade é certa, assim como a continuidade do riacho. Mesmo que mude a água, o riacho continua. Seria muito tolo perguntarmos para uma nuvem: “Você irá morrer?”. A resposta da nuvem com certeza seria: “Não, eu me transformo em chuva”. Mas, e a chuva, ela morreria quando chegasse à terra? Não, ela se transforma em riacho. O riacho se transforma em rio e o rio em mar e, eventualmente, a água novamente evapora. Novamente teremos uma nuvem. É a mesma nuvem? Não. Mas é a mesma nuvem, a mesma água.

Existe outro símile usado por Hakuin, grande mestre Zen da Escola Rinzai, que diz: “Com argila nós fazemos telhas, incensários, Budas e castiçais. Sou capaz de dizer que essas peças são minhas, mas não digo que essa é minha argila, no entanto, a argila está por trás de tudo”. Ela, a argila, só foi transformada em objetos, mas ainda é argila. Nós que atribuímos identidades ao incensário, ao castiçal e à telha, lhes dando nomes, funções e funcionamento.

Enxergar nossa verdadeira natureza é enxergar a argila que está por trás de nós. Essa não tem identidade e pode manifestar tudo e em tudo se transformar.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Nota do organizador: Com este artigo encerramos nossa participação na seção Zen do site Sobre Budismo. Agradecemos ao Leo pelo convite para cuidar da seção ao longo deste ano, agradecemos imensamente à Isshin-sensei e ao Genshō-sensei, por aceitarem nosso convite para divulgarem aqui seus ensinamentos e reflexões, e a todos aqueles que acompanharam as publicações semanalmente e as replicaram em suas páginas na WEB! Nossos melhores desejos a todos! Gasshō.

Surfar as ondas da vida

Como sofremos de medo de nos entregar, de nos deixar ser levados pela grande corrente da vida!

Recentemente, em São Paulo para um retiro, a minha anfitriã me levou para o litoral para a minha segunda aula de surfe. Imagine, eu com os meus “vinte-e-tantos-bem-passados” anos de idade e falta de coordenação quase total, numa aula de surfe! Que divertido! Que lição de Zen!

Quase sem onda, mesmo assim, na primeira aula, consegui ficar em pé na prancha justamente o tempo suficiente para uma foto (meio segundo? um segundo?). A fotógrafa (a minha amiga) foi bem habilidosa… E como me diverti!

É uma maravilha sentir a força da água, a corrente levando a gente. É uma grande aprendizagem perceber a resistência no corpo, o medo de entregar-se – de deixar ser levada. No começo, agarrava a prancha com força total… Mas que maravilha a sensação de liberdade, ao relaxar o corpo e começar a tornar-me una com a prancha e a água! E como é forte a descoberta de que, soltando o corpo, entregando-se à prancha (e à água), a gente passa a ter maior estabilidade. Com maior estabilidade (o corpo solto e entregue), descobri que tinha mais espaço até para manobrar a prancha, exercendo o meu “livre arbítrio”, dentro da minha limitadíssima capacidade!

Descobri que não precisava ter medo de cair na água, que a água me acolhia até com certa suavidade quando tombava da prancha, ou seja, toda vez que tentava ficar em pé nela… Também ficou clara a necessidade de manter a plena atenção, pois era necessário cuidar para não cair de cabeça e arriscar batê-la no fundo do oceano, que, nestas alturas, estava bastante próximo… Também era importante proteger a cabeça na hora de voltar à superfície depois de cair na água, evitando o risco de batê-la na prancha.

E não é a mesma coisa com a vida? Quanta resistência fazemos! Como sofremos de medo de nos entregar, de nos deixar ser levados pela grande corrente da vida! Que batalha que é para aprender a nos soltar – soltar o espírito, soltar a mente, abrir mão da tentativa de controlar tudo -, abrir mão da rigidez, das opiniões, da falsa segurança daquela “zona de conforto”, do conforto do conhecido e da familiaridade.

Mas foi somente ao relaxar o corpo que pude perceber que estava segura na mão da água. E é somente ao relaxar o “espírito”, como em zazen, quando abrimos mão dos pensamentos, que podemos perceber que estamos seguros na mão do sagrado – que somos parte integrante dessa mão – e nunca fomos separados dela. E é justamente na hora em que conseguimos nos entregar ao sagrado, deixando que a grande correnteza da vida se manifeste, que ganhamos o espaço para exercitar o nosso livre arbítrio, manobrando as nossas “pranchas”, aproveitando o máximo que podemos da onda que nos leva até a “praia”.

Enquanto resistimos, tentando ir contra a correnteza, as ondas vão nos esmagar, mas, ao nos soltarmos, podemos nos divertir bastante durante a nossa jornada, surfando as ondas da vida. Podemos descobrir que errar não precisa ser o fim do mundo, pois não somente estamos sendo carregados pelas mãos do Universo, mas somos uma parte integrante do próprio Universo, inseparáveis.

Refleti muito também sobre a diferença entre ter “metas” e “objetivos” e ter uma “direção” na minha prática. O Mestre Dōgen nos ensina a praticar o nosso zazen sem buscar nada, portanto, sem ter “metas” ou “objetivos” na nossa prática. Estar apegado a uma meta pode levar a muito sofrimento – frustração, sentimento de fracasso, pressão. O ego condicionado cobra da gente, não nos deixa em paz. Então, procuro seguir os ensinamentos de abrir mão das metas e objetivos. Mas será que isto significa ficarmos simplesmente à deriva, soltos no espaço e no tempo? Acho que não. Estudando os ensinamentos do mestre moderno, Uchiyama Rōshi, no seu livro “From the Zen Kitchen to Enlightenment” chego à outra compreensão. Acredito que temos de ter “direção” no zazen, na prática Zen-Budista e na vida, mas não “objetivos” e “metas” fixas.

A minha direção ao sentar zazen é de sentar-me em shikantaza (“somente sentar”) da forma mais correta possível, procurando manter a plena atenção no Aqui e Agora, tentando não me permitir cair nos estados de devaneio, torpor, distração, etc., o mais que eu possa evitar. Sentar-se verdadeiramente em shikantaza exige esforço! Não fico fazendo autocobranças do tipo “O meu zazen foi melhor ontem”, “Não consegui me focar nem um pouco hoje”, etc., tentando cumprir um “objetivo” de fazer “bom zazen”…

A direção na minha prática é de me esforçar para me aprofundar cada vez mais no “Sangaku” (trisiksa [sânscrito], ou ti-sikkha [pāli]), os Três Estudos da prática budista: estudar o Darma, praticar o viver de acordo com os preceitos budistas da melhor forma possível, e manter a melhor regularidade que posso no meu zazen, para alcançar a Extinção do Sofrimento, o Despertar, a Iluminação, como o Buda ensinou. Mas como sei que isto leva kalpas e kalpas de prática (aeons e aeons), não fico me cobrando, perguntando quanto é que falta para alcançar a meta.

E a minha direção na minha vida é de viver o mais plenamente possível no Aqui e Agora e de viver de acordo com os Votos do Bodhisattva. No dia a dia, posso ter uma direção pequena, como a de lavar as minhas roupas amanhã, mas, não ficarei aborrecida se a chuva me forçar a mudar de direção… Parte do meu viver plenamente é aproveitar oportunidades inusitadas como essa de brincar de surfe. Subi na prancha consciente de ter uma direção de “aprender a surfar”, mas sem estar apegada a um objetivo de ter que conseguir efetivamente ficar em pé e surfar já nestas primeiras aulas. Assim, me diverti maravilhosamente. Agradeço profundamente à minha amiga – uma pessoa que surfa de verdade…

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog de Isshin-sensei, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

“Não acreditem em mim. Testem!”

Nós somos isso, a própria vida se manifestando e porque não enxergamos, estamos perdidos.

O grande mestre da Escola Sōtō Zen que trouxe o Zen da China para o Japão, chamava-se Eihei Dōgen. Ele tornou-se monge aos doze anos de idade porque seu pai e sua mãe faleceram e o tio que podia cuidar dele era um monge da escola Tendai, uma Escola Vajrayana. As Escolas Vajrayana se caracterizam pelo uso de recitações, visualizações e mantras. Eihei Dōgen, depois de muito treinamento, foi até a China porque se sentia insatisfeito com o que tinha aprendido até aquele momento na Escola Tendai e depois na Escola Rinzai, que era uma forma de Zen que tinha chegado ao Japão uns cinquenta anos antes do Sōtō Zen. Assim, Dōgen começou a procurar um mestre na China.

Era por volta do ano 1223, e ir do Japão à China naquela época era uma aventura muito perigosa. Normalmente, de cada quatro viajantes, um morria. O companheiro de Dōgen, Miōzen, faleceu na China. Quando Dōgen retornou, trouxe seus ossos. Mas o que importa é que Dōgen depois de procurar mestres em vários lugares e sentir-se insatisfeito, encontrou Tendo Niojo, um herdeiro da tradição Caodong, que era Abade de um mosteiro. Dōgen treinou com ele durante cinco anos. Após esse período, um dia, praticando meditação, Tendo Niojo repreendeu um monge que estava ao lado de Dōgen, porque aquele havia adormecido. E, tomando seu chinelo, bateu no monge dizendo: “Como pode você desperdiçar esse momento e dormir na prática do zazen?”. Neste momento, Dōgen foi tomado por um despertar profundo e subitamente ele entendeu sua natureza, a natureza última, a natureza do Universo, da vida.

Assim, mais tarde ele foi procurar Tendo Niojo em seu quarto, acendeu um incenso e disse: “Mestre, corpo e mente foram abandonados; deixei cair meu corpo e minha mente, eu os abandonei”. E nesse momento, Tendo Niojo entendeu que Dōgen havia se iluminado, o aprovou e mais tarde lhe deu o certificado de transmissão do Dharma. Dessa forma Dōgen voltou ao Japão e começou a ensinar aquele Dharma que havia aprendido com Tendo Niojo.

Mas o que é esse despertar? Nós somos profundamente enganados por nós mesmos. Nós acreditamos na nossa identidade, no nosso corpo e nossa mente como separados de todo o resto. Nós não conseguimos perceber que a vida é só uma e que somos manifestações da vida. Nós não percebemos que nós e todos os seres pertencemos à mesma vida, que nós e a humanidade somos um. Por não perceber isso, nós estamos sujeitos a nascimento e morte. Por que nascemos e morremos? Porque acreditamos no nosso “eu”. E esse “eu” nasce e morre. Mas a vida não nasce e morre. Nossa visão é muito pequena e, porque estamos mergulhados nessa minúscula percepção individual, temos medo da morte, temos medo do sofrimento, não conseguimos viver plenamente porque não sabemos morrer para nós mesmos. Esse ensinamento, esse Dharma, não é exclusivo do Budismo, ele está escondido em vários outros lugares.

Posso citar aqui várias passagens dos evangelhos cristãos com o mesmo ensinamento. Paulo diz “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. São João da Cruz diz “Eu morro porque não morro”, o que significa, “Eu estou morto porque não morro para mim mesmo; como não sei morrer para mim mesmo, eu morro”. Então, eu morro porque não morro. Se nós ao menos conseguíssemos morrer para nós mesmos, poderíamos subitamente enxergar nossa própria eternidade e grandeza. Aqueles que conseguem libertar-se do seu eu, do seu ego, tornam-se completamente diferentes, porque os sofrimentos não podem mais alcançá-los da mesma forma, porque as angústias não têm mais o significado que tinham, porque as perdas são só ondas na superfície do mar.

O mar é belo, as ondas surgem e desaparecem. Nós, quando olhamos o mar, o vemos belo, perfeito, lindo e jamais nos preocupamos com o fato de que as ondas morrem na beira da praia. Quando olhamos a humanidade, sofremos as suas misérias, mortes e perdas, porque olhamos sob a perspectiva de um “eu” individual. Mas quando olhamos o mar, não choramos pelas ondas. Quando olhamos as florestas, não choramos pelas folhas que caem das árvores. Nós conseguimos ver que é uma floresta. Conseguimos ver que ela continuamente nasce e morre, e ela é a própria vida se manifestando. Nós somos isso, a própria vida se manifestando e porque não enxergamos, estamos perdidos. Por isso sentamos em zazen, para nos esquecer de nós mesmos, porque aquele que consegue esquecer-se de si mesmo, pode ser iluminado por todas as coisas.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Mesma essência, distintas manifestações

Mesma essência, distintas manifestações
Tulku Orgyen Rinpoche

Se nossa natureza búdica está além da delusão e da libertação não podemos dizer que em essência somos primordialmente iluminados?

Possivelmente, poderíamos ter sucesso em convencer a si próprios através de tais truques filosóficos. No entanto, isso não é realmente verdadeiro uma vez que nós já nos extraviamos para dentro de um caminho. Se nunca tivéssemos caído em confusão poderíamos legitimamente alegar sermos primordialmente iluminados. Porém, infelizmente, é tarde demais para fazermos tal afirmação. Nossa preciosa jóia realizadora de desejos já caiu no lodo mal-cheiroso.

A Iluminação Primordial significa que a base original e a fruição são idênticas e que não há um caminho de delusão a ser eliminado. Isso é definitivamente diferente da nossa situação na qual já extraviamos para dentro de um caminho e, portanto, precisamos eliminar a delusão para chegar a fruição. Tomemos o exemplo de uma miríade de jóias: algumas estão cobertas de lodo, algumas estão limpas. Todas elas são jóias, mas cada uma é distintivamente individual. A mente dos seres senscientes percebe as coisas de forma individual. Portanto, temos que dizer que são separadas.

Este é um bom exemplo – percebermos todos os seres e Buddhas como incontáveis jóias, algumas cobertas de sujeira, outras limpas. Elas não são idênticas apesar de terem as mesmas qualidades. Se as mentes de todos os seres senscientes fossem uma única mente, então, quando um indivíduo atingisse a iluminação, todos os outros deveriam ser libertados no mesmo instante. No entanto, se você atingir a iluminação, isso não significa que eu serei iluminado. Entenda da seguinte forma: Ainda que os seres tenham qualidades semelhantes, não somos um. Nós temos a mesma essência, que é vazia e ciente, porém nossa forma de manifestação é separada e distinta da de outro ser sensciente. Se eu reconhecer a natureza de Buddha e atingir a iluminação não significa que outra pessoa também a reconhecerá e atingirá a iluminação. Peço desculpas por isso! Se os seres compartilhassem a mesma essência e manifestação, quando alguém atingisse a iluminação todos os outros também atingiriam.

Somos como ouro puro espalhados em diferentes lugares: igual qualidade porém em peças separadas. Da mesma forma, a água: as propriedades da água são idênticas. No entanto, há água em diversas localizações no mundo. Ou pense no espaço dentro de diferentes casas – o mesmo espaço porém com variadas configurações. A qualidade ciente e vazia da mente é idêntica mas a ‘forma’ em torno dela é distintivamente individual. Algumas jóias foram sortudas, outras caíram no lodo.

Do livro “Repeating the Words of Buddha” de Tulku Orgyen Rinpoche
Traduzido do tibetano para o inglês por Erik Pema Kungzang
Tradução para o português pelo Lama Jigme Lhawang

Armadilhas da nossa prática (final)

(continuação da 6ª parte)
A nossa prática do Zen apresenta várias armadilhas que podem, eventualmente, ser também sinais de progresso. Quer dizer, estas armadilhas surgem quando a prática está se aprofundando. Representam riscos de se cair em confusão ou até de realmente acabar perdendo o Caminho.

Vamos olhar algumas destas armadilhas/sinais de progresso:

Convicção de que “já se entendeu” a prática do Zen, de que não há mais nada para se aprender ou aprofundar
Infelizmente, é um “convite” para abandonar a prática, sem seguir os próximos passos.

“Sentimento de não aguentar mais um, alguns, ou todos os colegas de Sanga”
“São todos ________ (preencher a lacuna: ‘loucos’, ‘preguiçosos’, ‘burros’, ‘puxa-sacos’, etc.).” Novamente, surge o risco de abandono da prática, ou, alternativamente, perde-se o foco da prática, olhando mais para os “defeitos” dos outros que cuidando da própria prática.

“Sentimento de não aguentar mais o professor”
“Ele é ________ (preencher a lacuna: ‘controlador’, ‘autoritário’, ‘chato’, ‘exigente demais’, ‘genioso’, ‘louco’, ‘preguiçoso’, ‘burro’, ‘puxa-saco’, etc.).” Ou: “Ele ________ (preencher a lacuna: ‘não me ouve’; ‘não gosta de mim’; ‘gosta mais de outros praticantes’; ‘não me entende’, etc.).” Isto pode acabar numa atitude de “descrença” que trava a prática – e pode até travar a energia do grupo. Não somente surge o risco de simplesmente abandonar a prática, mas também há o risco de, mesmo mantendo a prática, perder-se tempo (dias, meses ou até anos) num relacionamento complicado com o professor, devido às projeções. Focando a atenção nas críticas ao professor, foge-se de olhar para dentro para ver as próprias dificuldades.

“Pesadelos, medos, ansiedades, à medida que o conteúdo do inconsciente que estava reprimido começa a vir à tona”
Esta pode representar uma fase dolorosa, quando pode surgir uma vontade de evitar a prática…

“Crença em que o(s) colega(s) de prática pensa(m) ‘mal’ de você”
“Eles pensam que sou ______ (preencher a lacuna).”

“As várias experiências de ‘makyō’: visões (cores, luzes, seres como Buda ou Cristo), sensações diversas no corpo (formigamento, ‘energia’ circulando, calor, etc.), vozes, dormência, etc.”

Apesar de serem chamadas de “ilusões”, tais experiências geralmente têm sua realidade (a sensação de formigamento, por exemplo, é real…). Devem ser tratadas com naturalidade como qualquer outro pensamento ou sensação que surge durante o zazen: não se envolvendo ou as reprimindo, mas simplesmente as deixando passar… O neurologista James H. Austin, no seu livro clássico “Zen and the Brain” (de 872 páginas, sem tradução para o português), dedica várias páginas à discussão sobre “makyō”. Vale a leitura.

“Emergência Espiritual”
Um aparente, mas não verdadeiro “surto psicótico”, provocado pela abertura espiritual ainda não integrada e que NÃO deve ser tratado com remédios antipsicóticos. Requer, sim, o acompanhamento e orientação de pessoas qualificadas, que compreendem este fenômeno (alguns professores do Darma, psicólogos ou psiquiatras com formação em escolas como a Transpessoal ou Junguiana, etc.). O autor Stanislav Grof trata deste assunto em profundidade nos seus livros “Spiritual Emergency” e “The Stormy Search for Self” (traduções para o português esgotadas).

Para encerrar esta série de artigos, podemos resumir tudo numa regra básica: treine com um mestre qualificado e devidamente autorizado, que fez um treinamento cuidadoso antes de se colocar como Professor de Darma. Investigue as várias escolas, investigue os professores e escolha aquele com quem você sinta mais afinidade e que você acredite ser mais qualificado para lhe guiar no Caminho de Buda, que lhe ajude a escapar das armadilhas e leve-o até a Libertação do Sofrimento, conforme os ensinamentos do Buda.

Com uma boa orientação, não precisamos ter medo destas armadilhas, mas devemos respeitar o fato de que elas existem. Boa prática!

Livros recomendados: Austin, James H. – Zen and the Brain; Grof, Stanislav e Grof, Christina – Spiritual Emergency; Grof, Stanislav e Grof, Christina – The Stormy Search for Self

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

Armadilhas da nossa prática (6)

(continuação da 5ª parte)
Ao observar a minha própria prática e a dos meus alunos, tenho chegado a uma percepção da nossa prática do Zen como um processo de 3 fases, com características distintas e com durações imprevisíveis. De certa forma, acredito que uma determinada fase possa até passar tão rapidamente num determinado momento que quase passa despercebida…

Vejo uma fase que chamo de Fase de Crescimento, quando sentimos que estamos aprendendo coisas novas a cada dia (por assim dizer). Sentimos que a nossa prática está se aprofundando ou que estamos solucionando questões pessoais. Temos a impressão de que está sempre surgindo um novo “insight”, compreensão ou percepção. Sentimos entusiasmo. Achamos a prática excitante.

Mas, em algum momento, aparece uma fase que podemos ver como um Platô ou Deserto, quando parece que nada está acontecendo. Aparentemente não está havendo mais crescimento. A prática perde o seu brilho. Os “insights” secaram. Podemos passar a nos sentir entediados com a prática e até a começar a acreditar que “a prática já deu tudo que tinha para dar”. O risco agora é de cair na armadilha de abandonar a prática durante esta fase, e abortar a possibilidade de aprofundar verdadeiramente a nossa prática. Chamo esta fase de Gestação.

Depois de uma Gestação, vem um Parto – também no nosso Zen. E os nossos partos tendem a ser dolorosos, talvez difíceis. Vejo esta fase como um período em que a prática parece estar indo para trás e não para frente, quando o aluno pode sentir raiva do professor (“Ele não me entende!”), dos colegas da Sanga (“São todos loucos!”), da prática em si (“Está tudo errado com esta prática!”) ou até raiva de si mesmo (“Estou perdendo o meu tempo!”). Pode sentir desânimo, depressão, paranoias, etc. Novamente, há um grande risco do aluno abandonar a prática nesta fase e acabar abortando o “nascimento” de uma nova fase de Crescimento e um novo ciclo de aprofundamento de sua prática…

O Mestre Zen norte-americano Robert Baker Aitken Rōshi dedicou um capítulo inteiro de seu livro “Taking the Path of Zen” (sem tradução para o português) para falar das Delusões e Armadilhas da nossa prática. Ele lista 3 classes gerais de delusões que quase todos encontram mais cedo ou mais tarde na sua prática. Esclarece que delusão, neste caso, significa simplesmente uma distração do caminho de iluminação e compaixão.

A primeira, de acordo com ele, é o ato de correr atrás da fantasia durante o zazen, criando histórias, mergulhando em lembranças, formando planos, etc. A segunda é vaguear e sonhar nos devaneios dos pensamentos aleatórios no zazen. E a terceira é o Makyō, ou “visão misteriosa”, quando podem ocorrer visões dramáticas, sensações de distorções corporais ou a sensação de estar ouvindo ou cheirando algo que não está realmente presente. As experiências de makyō (quando aparecem, pois não são necessárias), são sinais de progresso, mas também representam uma armadilha se ficamos fascinados por elas em lugar de tratá-las como qualquer outra distração e ir continuando a aprofundar a nossa prática.

O livro de Robert Baker Aitken Rōshi, “Taking the Path of Zen”, pode ser importado na versão impressa.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

Mudando a mente

Temos que aceitar a vida tal como se apresenta.

Temos a tendência de pensar que o “eu” é estável e sólido, mas não é. Ele é constantemente alterado pelas circunstâncias e acontecimentos. Ortega y Gasset, um famoso filósofo moderno disse que “O homem é o homem e sua circunstância”, a circunstância de agora me altera. Como você pode lidar com a vida tal como ela se apresenta? Você não pode alterá-la, só a sua perspectiva com relação à vida pode ser alterada.

Tem uma pessoa para quem tenho que ligar amanhã. Apesar de estar em retiro, eu assumi um compromisso com ela, pois seu filho está com câncer e amanhã começa a quimioterapia. Ela me disse: “Amanha começa a químio; vai ser uma coisa muito pesada”. Então eu lhe disse: “Não, amanhã começa a cura”. A situação é a mesma, mas você pode mudar a maneira como a vê. É, sim, uma coisa difícil que começa, mas é também a cura.

Quando eu era criança, leucemia era uma sentença de morte, mas hoje há 85% de possibilidade de cura. A vida toda é assim, você pode olhar para ela e vê-la de forma diferente, alterar a maneira como a vê. Veja a sangha, por exemplo, você pode pensar que ela é obrigada a aceitar a sua maneira de ver as coisas e pode ser que a comunidade não aceite sua opinião. O que você faz, aceita ou luta? Você é a sangha. Você deve aceitar. À medida que vamos vivendo vamos elaborando a vida e a transformando, mudando os óculos que colocamos para ver o que sucede. Se uma pessoa não gosta da minha maneira de agir eu posso ter dois óculos: com um eu a verei como errada e eu como certo, e com outro eu me verei como errado. Quem sabe eu não saiba como atingir os objetivos? Mais ainda, quem sabe eu nem deveria ter objetivos?

Nós pensamos em alcançar ou fazer algo e isso cria ansiedade e expectativa. A vida não é para ser vivida desta forma, impondo à vida nossos projetos pessoais. Talvez o projeto da vida seja diferente. Vamos construindo nossa vida com nosso caminhar. Quando existe um projeto, este cria um conflito, pois irei forçar a vida a se coadunar ao meu projeto. Temos que aceitar a vida tal como se apresenta, pois talvez meu projeto não seja possível dentro da vida.

O mais famoso físico da era moderna, Stephen Hawking, tem uma doença degenerativa que lhe paralisou o corpo inteiro e se comunica através de um dispositivo de geração de fala que lhe permite ditar seus livros, dar palestras e entrevistas. Quantas pessoas no mundo têm um problema infinitamente menor que esse, mas que é suficiente para impedir que essas pessoas façam algo em suas vidas? Temos no Brasil um famoso pianista, João Carlos Martins, que sofreu alguns acidentes e uma agressão física na Bulgária, onde lhe bateram com uma barra de ferro na cabeça acarretando um problema neurológico que fez com que perdesse os movimentos das mãos e fosse impedido de continuar a tocar piano. Ele desistiu da musica? Não, tornou-se um maestro e rege uma orquestra. Ele aceitou a vida tal como ela se apresentou.

Nós, com nossos corpos e mentes perfeitos, nos incomodamos com situações, palavras e atitudes e não enxergamos que temos que nos adaptar ao mundo e não ele a nós. Durante milênios a Escola Zen vem desenvolvendo esse tipo de treinamento que estamos realizando. Antes de criticarmos o modelo da sangha, modelo de aceitação, obediência e silêncio, modelo de destruição do ego, temos que nos lembrar que são mais de mil anos de trabalho de muitos mestres para desenvolver esse tipo especifico de treinamento. Por que os mestres ensinam um dia de um jeito e no outro dia mudam? Para que ninguém se agarre às instruções, métodos, formas e pensem que elas são a essência do Zen. São apenas instrumentos de treinamento. Mudar as formas é um ensinamento precioso que diz para que não nos agarremos, não existe certo e errado ou tem que ser feito dessa ou daquela maneira.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

O corretivo

Todos nós temos uma tendência de achar que sabemos como os outros ‘devem’ agir, como os outros ‘devem’ ensinar – sempre tendemos a achar que ‘sabemos melhor’.

O Budismo faz um diagnóstico da nossa “doença” espiritual e receita “remédios”. Enquanto que algumas terapias podem ser agradáveis (uma boa massagem, por exemplo), nem todos os tratamentos “médicos” são confortáveis – alguns tratamentos são extremamente desagradáveis e dolorosos (alguém afirmaria que passar por uma cirurgia seria algo “agradável”?). Tomamos os remédios e aceitamos os tratamentos porque desejamos nos curar das nossas enfermidades.

Portanto, para avaliar aquilo que vemos no relacionamento de um professor com seus alunos, precisamos observar o resultado a médio/longo prazo, sem julgar por um único ou alguns poucos incidentes que possamos eventualmente testemunhar.

Trata-se de uma verdade comum a todas as tradições espirituais. Não são nada infrequentes as situações em que um observador (visitante, simpatizante, aluno), ao assistir a alguma interação entre um professor e um de seus alunos, reage com “mil opiniões” a favor ou contra a atitude do professor ou do aluno.

Às vezes, ao ver o professor agindo com firmeza com um aluno, o observador se assusta, ficando com medo de também ser tratado com a mesma firmeza (ou pior). Outras vezes, na mesma situação, se ofende, julgando que o professor é “agressivo”. Ou, vendo o professor tratando um aluno com delicadeza, carinho ou alegria, acusa-o de “favoritismo”, “complacência” ou “falta de seriedade”.

Na verdade, geralmente, o observador está simplesmente projetando as suas próprias experiências de vida, interpretações, medos e opiniões. Todos nós temos uma tendência de achar que sabemos como os outros “devem” agir, como os outros “devem” ensinar – sempre tendemos a achar que “sabemos melhor”. Tiramos as nossas conclusões rapidamente, na hora – já “vimos tudo”, “já entendemos a situação”. Mas, para poder avaliar corretamente, é necessário considerarmos não somente um “incidente” isolado, mas todo o contexto e o histórico do relacionamento do professor com aquele aluno, bem como o andamento depois do “incidente” em questão. Mais ainda: é necessário libertarmo-nos dos nossos próprios condicionamentos, projeções e opiniões, abrindo o Olho da Sabedoria para saber enxergarmos além das aparências, e o Coração de Compaixão verdadeira, para que possamos compreender o coração do outro.

O velho ditado aqui também vale: “Não julgue o livro pela capa”. O conteúdo do livro pode lhe surpreender.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog de Isshin-sensei, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

A Ponte do Meio Balde

Em Eihei-ji há uma pequena ponte sobre um riacho que se chama “Ponte do Meio Balde”, porque Dōgen ia até lá e recolhia um balde de água, cuja metade derramava de volta. Esse era um ensinamento seu, ele dizia que devemos sempre devolver uma parte. Ensinava, também, que se algo sobrasse da água usada, nunca deveria ser arremessado para longe, mas colocado, cuidadosamente, perto de nós, na terra.

Esses pequenos gestos têm grande significado no Zen, pois contêm um grande ensinamento. Todas as coisas são dignas de serem tratadas com reverência, por isso, em nossa prática quotidiana, em nossas pequenas ações diárias, devemos proceder da mesma forma. O Brasil é um país com abundância de recursos, proporcionalmente à sua população. Sempre pensamos que poderíamos abusar da natureza com grande largueza, e até hoje, muitas das cidades brasileiras não têm redes de esgoto; lançamos tudo nos rios, no mar, cortamos florestas, depredando, assim, a Terra. Destruímos nosso patrimônio, pois sempre tivemos, no Brasil, essa noção de que os recursos naturais nunca vão acabar. Assim, não nos importamos, porque se o lugar onde estivermos não nos servir mais, vamos adiante e usamos o que há em outro.

Em relação aos animais, costumamos pensar, na nossa civilização, que eles não são seres dignos de respeito e que não têm sentimentos. Como exemplo de quão longe já chegou esse tipo de pensamento, há uma declaração de um general americano da guerra do Vietnã que ficou célebre, pois disse que “os orientais não dão o mesmo valor à vida que nós”, para justificar que não era muito importante se alguém morresse. Num famoso documentário, Corações e Mentes, aparece esse general fazendo essa declaração, e em vez de algo ser dito, vemos a imagem de uma mãe vietnamita chorando a morte do filho. Se tal declaração nos parece hoje absurda, quanto aos animais estamos bastante convictos de que não possuem sentimentos da mesma forma que nós.

Todas as coisas são dignas de serem tratadas com reverência.

Caiu-me nas mãos um livro que se chama A Era da Empatia. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Segundo esse livro, experimentos com animais começam a demonstrar cabalmente o contrário. Em uma destas experiências, é colocado um rato numa pequena gaiola onde, para comer, tem que apertar uma pequena alavanca. Uma vez que esteja condicionado a isso, é colocada junto à gaiola dele uma gaiola com outro rato ligado a fios. Cada vez que o primeiro rato aciona a alavanca para pegar comida, o segundo rato recebe um choque e grita de dor. Ao perceber que, para comer, o outro tem que sentir dor, o rato para de se alimentar. Isso significa que ele se importa, de alguma maneira, com a dor do outro.

Os primatas têm comportamento assim também. Muitas vezes foram registrados atos altruístas, não somente com relação a seus companheiros de espécie, mas, também, com relação a outros seres, como no caso de um chimpanzé que foi observado pegando um pássaro caído, colocando-o num galho de árvore e abrindo suas asas. O que significa isso? Ele sabe que se trata de um pássaro e sabe como esse animal se comporta. Há, portanto, registros de animais salvando vidas de outros animais e de seres humanos, às vezes até com sacrifício da sua própria vida. Isso indica que nós não somos tão especiais em termos de sentimentos e que não podemos dizer que os outros não têm os mesmos sentimentos ou que não sofrem como nós. Se até os animais têm comportamento de empatia, solidariedade e consolo, sendo capazes de consolar os que sofrem, não é surpreendente que os seres humanos tenham desenvolvido esse tipo de comportamento.

Todas essas histórias, desde a da Ponte do Meio Balde até a dos chimpanzés, têm relação com nossa atitude de integração e respeito com toda a natureza e com tudo o que nos cerca. O primeiro preceito budista diz “Não matar”. Isso não significa, somente, não matar seres humanos, mas tem relação com tudo o que nos cerca. Meu primeiro professor do Zen dizia que esse preceito inclui não matar uma pedra, simplesmente porque também uma pedra pode ser danificada. Se não houver um motivo plausível, não temos o direito de destruir qualquer coisa ou de causar qualquer sofrimento. Esse é um questionamento que cada um deve fazer com relação a si mesmo e à sua vida no mundo.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Armadilhas da nossa prática (5)

(continuação da 4ª parte)
Foi num seminário do B. Alan Wallace, que tive a oportunidade de assistir no CEBB como “mestra convidada” (e deixo aqui os meus agradecimentos), que ouvi uma descrição de um fenômeno que já havia notado no Zen, mas sobre o qual não havia (até então) conseguido encontrar nenhum comentário ou material escrito. Confesso que fiquei muito feliz de finalmente receber uma confirmação da minha percepção, junto com uma verbalização mais explícita sobre o tema.

Neste seminário ele falou sobre o texto “Vajra Essence” (ainda não publicado em português), de seu mestre Dudjom Lingpa. No livro “Stilling the Mind: Shamatha Teachings from Dudjom Lingpa’s Vajra Essence”, ele apresenta este texto com amplos comentários e explicações. Num dos capítulos, ele transmite uma lista de 26 nyams do Budismo Tibetano, como ensinados pelo seu mestre.

Não sou especialista no Budismo Tibetano e por isso, prefiro deixar aqui somente algumas pinceladas, deixando para os interessados que desejam se aprofundar no assunto e que leem o inglês buscar mais informações no livro do Prof. Wallace.

Vamos investigar alguns destes nyams, com os meus comentários:

    A sensação de bem-aventurança e êxtase de que a quietude mental é prazerosa, mas de que o movimento é doloroso.

Como comentado nos artigos anteriores, há um grande risco de se apegar ao prazer da bem-aventurança e êxtase e ficar preso neste ponto, sem realmente continuar se aprofundando na meditação até alcançar a essência do ser.

    Uma inexplicável sensação de paranoia ao encontrar outras pessoas, visitar suas casas ou estar na cidade. Infelicidade tão insuportável que você é levado a pensar que seu coração vai explodir.

O aprofundamento na meditação naturalmente afrouxa as nossas resistências internas e medos, raivas e traumas não resolvidos podem vir à tona. Quando isto acontecer, é importante manter a tranquilidade, acolher esta energia e deixá-la fluir e se transformar naturalmente, sem apegar-se a ela e nem reprimi-la novamente. Deixe vir e deixe ir como uma nuvem no céu.

    A convicção de que há algum significado especial em todos os sons externos que você ouve e nas formas que você vê, pensando: “Isso deve ser um sinal ou presságio para mim”, compulsivamente especulando sobre o cantar dos pássaros e sobre tudo mais que você vê e sente.

As Sereias gregas estão aparecendo para lhe seduzir… cuidado!

    A sensação de que sons externos e as vozes dos seres humanos, cães, pássaros e assim por diante perfuram o seu coração como espinho.

Ficamos perceptivelmente mais sensíveis à medida que a mente se aquieta. Consequentemente, os sons podem parecer agulhas e o movimento mais leve da respiração pode parecer um terremoto.

Finalmente, ainda falando da visão do Budismo Tibetano, temos a armadilha do “materialismo espiritual”, onde o ego converte a espiritualidade para o seu uso próprio, um tópico tratado de uma forma brilhante pelo Chogyam Trungpa Rinpoche no livro “Além do Materialismo Espiritual”.

Nos próximos artigos, vou falar sobre as Armadilhas da Prática/Sinais de Progresso no Zen.

O livro de B. Alan Wallace, “Stilling the Mind: Shamatha Teachings from Dudjom Lingpa’s Vajra Essence”, pode ser adquirido em edição eletrônica ou impressa.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien