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  • “Começando com o pé esquerdo!” - Sobre Budismo
    Zen

    “Começando com o pé esquerdo!”

    A qualquer iniciante do Zen é dito que entre no zendô (salão de meditação) com o pé mais distante do altar, qual seja, o pé esquerdo. Muitos que visitam centros de prática Zen se espantam com a quantidade e detalhes da etiqueta ao permanecer no zendô. Toda esta formalidade tem sua razão de ser, mas nesta oportunidade, gostaria de propor, especialmente para aqueles que ensaiam os primeiros passos no Zen, que reflitamos sobre o que nos trouxe até este momento tão importante, ou seja, qual foi até aqui a nossa motivação para começarmos a prática. E, com o perdão do trocadilho, isso é essencial para não entramos “com o pé esquerdo” nela!

    A mestra Charlotte Joko Beck abordou este tema no seu livro “Sempre Zen” (Editora Saraiva, edição esgotada e muito difícil de encontrar mesmo em sebos). Para ela “Muitas pessoas …têm sólidas concepções do que a prática é.” E daí, ela enumera o que entende não se tratar absolutamente da prática: “… não diz respeito a causar mudanças psicológicas.” “…não é para conhecer intelectualmente a natureza física da realidade, saber do que consiste o universo, ou como funciona.” “…não é atingir algum estado de graça. Não é ter visões.” “…não é ter ou cultivar poderes especiais.” “…não é para ter sentimentos agradáveis…” “…Não é para se sentir bem…”. “…não se relaciona a algum estado corporal de saúde absoluta…” “…não significa alcançar um estado de onisciência…” E a mestra diz que a lista poderia seguir adiante. Acho que já nos identificamos com alguns desses itens, não é mesmo?

    Joko Beck conclui com uma questão para pensarmos: “Se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de ponta-cabeça, o que é este barco vazio? Quem somos nós? O que, em termos de nossas vidas, podemos perceber, conhecer? E o que é a prática?” Como deveríamos responder estas questões? E você, já decidiu com qual pé quer começar a sua prática? Gasshô

    Organização: Rodrigo Daien

  • Cultivando a consciência relaxada - Blog Sobre Budismo
    Terra Pura

    A História De Uma Muleta

    Quando visitei uma família nissei há algum tempo, perguntaram-me sobre o budismo e então seguiu-se esta conversa:

    “Reverendo, meus pais eram budistas, mas eu não aprendi o budismo. Eu freqüentava uma igreja cristã porque ela ficava perto de casa. Quando fiquei mais maduro, eu quis aprender o budismo que meus pais viviam. Será que o senhor pode me dizer o que é o budismo ou falar de alguns dos seus ensinamentos básicos?”

    Sim, vou lhe explicar em poucas palavras. O budismo é uma religião de iluminação e um caminho de vida. Não é uma religião de crença. Logo, no budismo não há dogmas para se acreditar nem credos para se seguir. O budismo ensina a ver e compreender a vida e as coisas exatamente como elas são. E nos ensina a viver corretamente.

    Cada pessoa, independentemente de sua posição e condições, seja rica ou pobre, saudável ou doente, homem ou mulher, jovem ou velha, negra ou branca, tem seus próprios problemas. Foi para enfrentar os problemas da vida humana que nasceram as diferentes religiões. O propósito de todas as religiões é solucionar os problemas humanos.

    Algumas pessoas, em vez de enfrentar e resolver seus problemas, tentam fugir deles e, deste modo, só criam mais problemas. Algumas pessoas, embora tenham problemas, simplesmente os ignoram, como se eles não existissem; estas pessoas vivem uma vida dupla e são sempre melancólicas na sua vida interior. Algumas pessoas bebem para esquecer seus problemas, ou mudam de casa ou, em casos extremos, cometem o suicídio.

    Outras pessoas pensam que o ser humano é fraco, e acreditam na existência de um ser sobre-humano e sobrenatural que pode ajudá-las. Estas pessoas acreditam que existe um ser supremo, que é um criador, um amparo, um protetor e um juiz e que é onipotente. Elas, portanto, rezam a este ser pedindo a cura dos problemas humanos: oram a ele, adoram-no e o glorificam e pedem sua misericórdia.

    O budismo é totalmente diferente dessas duas atitudes. O budismo ensina um modo auto-responsável de vida. Ensina a verdade ou os fatos da vida e do mundo, para que possamos ver e compreender a vida tal como ela é e as coisas tais como elas são. A vida, às vezes, é muito difícil. Há muito sofrimento e muitos problemas, mas não devemos nem tentar ignora-los ou fugir deles, nem depender de um agente externo para solucioná-los. Nós mesmos temos de aceitar estes problemas, aceitá-los de modo dinâmico. Para isso, precisamos de profunda compreensão e coragem.

    “Mas, Reverendo, o senhor não acha que precisamos de uma muleta, já que o ser humano é fraco?

    Sim, talvez uma muleta seja necessária para algumas pessoas. Mas você acha que queremos ver andar de muleta um homem que pode caminhar por si mesmo? Não é triste um homem caminhar de muleta toda a sua vida? Queremos ver todas as pessoas capazes de se porem de pé e caminharem livremente, como seres independentes. Acho que esta atitude mostra uma verdadeira bondade e amor pelos outros.

    O budismo ensina o homem a ser capaz de pôr-se de pé e caminhar por si mesmo. Os ensinamentos tornam o homem independente e livre. Todos os ensinamentos são como um dedo apontando o caminho. Mas nós temos que caminhar; ninguém caminha por nós.

    “Mas Reverendo, no budismo as pessoas não recitam o Nembutsu ou Namu Amida Butsu , a fim de serem salvas? Isso não é uma prece? Os budistas não rezam nem pedem pela misericórdia de Buda?

    Ah, não! Buda não é nenhuma espécie de deus Buda é um homem que alcançou a Iluminação. Ele é um mestre que deseja que nos tornemos, como ele mesmo, livres, independentes e iluminados. Nembutsu é uma expressão de gratidão. O Nembutsu é uma voz que se manifesta quando a vida eterna ou verdadeira é percebida na vida individual. É uma voz interior do ser humano, quando o finito e o infinito se unem ou quando o sujeito e o objeto se tornam um. O Nembutsu é um grande sentimento de gratidão, quando o ego desaparece e torna-se completamente uno com os outros.

    Quando somos verdadeiramente capazes de ver e compreender a vida, sua realidade, seu valor e beleza, bem como seus problemas, somos capazes de aceitar a vida de modo dinâmico e trilhar seu caminho com apreço e gratidão. Este caminho de vida é o budismo.

    Rev. Gyomay Kubose

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    Terra Pura

    Budismo e as Artes Marciais

    Não passa despercebido para nenhuma pessoa que tenha algum interesse pela cultura oriental e nem mesmo a um desinteressado turista ocasional, que visita os países orientais, o fato de que o Budismo se tornou a base do desenvolvimento da cultura e da ética sócio-religiosa de praticamente todo o extremo oriente, bem como, especificamente do Japão.

    Seria impossível a qualquer pessoa que tome contato com qualquer aspecto da cultura japonesa, deixar de notar a influência do Budismo, nos fatos históricos, na arquitetura tradicional, na literatura, nas artes plásticas, artes marciais e artes sociais (“Ikebana”, cerimônia do chá, etc.), bem como na ética social japonesa. Também o folclore e a música clássica japonesa têm sua marca budista bem viva e até mesmo muitos dos feriados nacionais japoneses são datas marcadas pelo calendário budista.

    Podemos observar também essa influência marcante da cultura budista na formação sócio-cultural japonesa, em aspetos como a introdução da escrita ideográfica chinesa (“Kanji”), através dos textos sagrados budistas (“Sutras”) e também no desenvolvimento e codificação dos “alfabetos” fonéticos simplificados (“Kaná”). E ainda, em aspetos éticos, sociais e legislativos, como por exemplo, o fato da primeira constituição japonesa, elaborada sob os auspícios do príncipe Shôtoku (573-621), ter tido influência estrutural do “Código de Manu”, de origem indiana, introduzido no Japão pelos primeiros monges budistas.

    Também no Brasil, o papel do Budismo como fator de união sócio-cultural dos imigrantes japoneses é marcante em todos os grandes centros de aglutinação dos japoneses e seus descendentes, influenciando também outros setores da sociedade ocidental. Podemos perceber isso claramente em movimentos conhecidos como “cultura alternativa”, que englobam desde a chamada “medicina alternativa”, artes marciais (muitas, introduzidas no ocidente sob a forma de esportes) bem como de outras artes, com forte influência principalmente do Budismo Zen.

    Mais especificamente no campo das Artes Marciais, alguns aspectos precisam ser esclarecidos para que se tenha uma ampla visão desse conjunto.

    Muitos ocidentais ao tomarem contato com a cultura oriental através de filmes largamente divulgados pelo cinema e televisão, como os Kung-Fu, Samurais, Ninjas e etc., acabam tendo uma impressão de que Budismo e Artes Marciais são inseparáveis e que todos os monges budistas seriam “experts” nessas artes, o que não passa de pura ilusão cinematográfica. Mas, ao mesmo tempo, o desenvolvimento das artes marciais do extremo oriente acabaram por fixar conceitos budistas que vieram a se tornar inseparáveis da própria conduta de seus praticantes.

    Conta-se que o próprio Buda Shakyamuni, em sua juventude, vivendo ainda como príncipe do povo dos Shákyas, ao sopé da cordilheira do Himalaia, foi adestrado nas artes de guerra, como luta corporal, arco-e-flecha, manuseio de bastão, lança e outras armas próprias de sua época. Entretanto, após ter atingido sua iluminação aos 35 anos de idade, pregou sempre um caminho de paz, harmonia e principalmente a não-violência (ahimsa), conceito este que foi brilhantemente retomado por Mahatma Gandhi, no começo do século XX, influenciando grandemente o movimento de Independência da Índia, que até então era uma colônia do império britânico.

    Na China, muitos são os que atribuem a Bodhidharma (o introdutor do Zen Budismo, nesse país) a criação do Kung-Fu, mas não existem relatos históricos que sustentem essa tese. Entretanto, há sim, uma estreita relação do desenvolvimento do Kung-Fu como arte marcial e o Templo Shao-Lin, fundado por Bodhidharma, e que mais tarde chegou ao Japão sob a denominação de Shorinji-Kempô.

    O Kung-Fu Shao-Lin e o Shorinji-Kempô são artes marciais que utilizam basicamente movimentos que imitam o comportamento dos animais em seus sistemas de combate, mas que antes de mais nada, são sistemas de unificação do corpo e mente, e de manutenção da saúde física, mental e espiritual, tendo como apoio, principalmente a meditação Zazen.

    Outra arte marcial largamente difundida na China e praticada em muitos templos budistas é o Tai-Chi-Chuan, que é de origem Taoísta, mas que, assim como este último, foi sincretizado pelo sistema budista, nesse país.

    No Japão, o Budismo foi importado da China e da Coréia, sem trazer esses aspectos marciais. Mas, com o desenvolvimento histórico, grande foi o número de guerreiros da classe dos samurais que afluíam aos templos budistas, principalmente das escolas Zen e Jôdo (Terra Pura), buscando apoio espiritual, e chegou até mesmo a existir uma categoria de monges guerreiros (Sôhei) em monastérios como os da Escola Tendai. Assim acabou se dando o nascimento de um conceito japonês de arte marcial que mesmo hoje em dia é indissociável do Budismo e do Shintoismo (religião autóctone, ligada à casa imperial japonesa).

    Mas como teria se dado essa ligação?

    Em primeiro lugar precisamos lembrar que os guerreiros japoneses estavam antes de tudo ligados ao conceito de “Dai-Nippon” (O Grande País do Sol Nascente) e tinham como figura central o próprio imperador que era considerado descendente da Deusa Shintoísta Amaterasu (A Deusa do Sol).

    Sendo o Shintoísmo (Shintô significa Caminho dos Deuses) uma religião que prega a ascenção do ser humano ao nível dos deuses através de práticas de purificação física e espiritual, era bastante conveniente aos guerreiros dos primeiros tempos, mas com o desmembramento do Japão em feudos e pequenos reinados, muitas guerras internas surgiram e a classe dos samurais se viu diante de uma situação inusitada: ter que lidar com o fato da morte iminente, tanto sua como de seus adversários, e a própria impermanência de todas as coisas, que se lhes apresentava através das conseqüências das guerras e dos combates. É nesse contexto que surge o Budismo como uma altenativa para se poder trilhar um caminho de despertar para a realidade dos fatos da vida e de conforto espiritual.

    Para o Shintoísmo, a morte é um fato impuro. Ao matar alguém, seja numa guerra ou em combate pessoal, o samurai tinha que se submeter a complicados ritos de purificação, dentro desse sistema. Já o Budismo, apesar de ter como uma de suas bandeiras a não-violência, não faz discriminação entre vida e morte, sendo esses, apenas dois aspectos da própria existência. São considerados como inseparáveis, assim como as duas faces de uma mesma moeda ou de uma folha de papel.

    Àqueles que buscavam o Budismo para receber orientação sobre a vida-e-morte, os monges transmitiam os ensinamentos de Buda e os métodos de meditação, principalmente o Zazen.

    É interessante notar que o Zazen passou a ser a técnica por excelência dos praticantes de artes marciais, pois além de levar a pessoa a despertar sua visão interior para contemplar a Verdade, ou seja, a vida-e-morte assim como ela é, proporcionava uma tranqüilidade mental e espiritual que se refletia na própria técnica do guerreiro.

    O espírito do Zen passou a permear as artes marciais na prática. Um praticante de Ken-Jutsu (a arte da espada samurai), por exemplo, passou a utilizar o esvaziamento de sua mente e de seu espírito, tornando-se uno, primeiramente em si (corpo e mente), uno com sua espada (kataná), uno com seu adversário e assim, uno com o próprio universo. Nesse momento, não há mais matar ou morrer, ou ainda, o próprio matar torna-se o morrer, e morrer apenas o outro lado da mesma vida.

    Com sua mente una e “vazia” como a própria imensidão do universo, os movimentos podem se desenvolver sem passar pelo critério da discriminação intelectual. O espadachim, sua espada e seu adversário tornam-se um só. O arqueiro, seu arco, sua flecha e o alvo tornam-se um só. Não há mais separação entre sujeito e objeto e assim as técnicas se concretizam por si só.

    Entretanto, o Budismo prega o respeito pela vida e tem como um de seus votos principais o “não matar e não causar mal a nenhum ser vivente”. Como lidar com esse fato se a razão da vida de um guerreiro é o matar?

    Foi dessa maneira que muitos samurais se recolheram aos templos budistas para meditar e assim buscar um caminho de libertação desse mundo em que sofremos e ao mesmo tempo trazemos sofrimentos aos outros seres.

    Muitos foram os que se recolheram aos templos da escola Zen, outros nas escolas da Terra Pura, almejando alcançar um nascimento, um “renascimento” interior para o mundo da Vida e da Luz Infinitas.

    Com o passar do tempo, as guerras tomaram outras proporções, armas de fogo muito mais sofisticadas começaram a ser utilizadas e a própria classe dos samurais foi extinta por édito imperial, mas o espírito dos antigos guerreiros continua vivo em muitos templos e “Dôjôs” (local de prática do Caminho), através das artes marciais.

    A palavra que encontramos nos nomes das artes marciais é um indício disso. Judô, Aikidô, Kyudô e etc. é a leitura japonesa do ideograma chinês Tao, que dentre tantos significados tem o sentido de “Caminho”. Um caminho de aperfeiçoamento espiritual, um caminho de desenvolvimento interior, um caminho de unificação com o Absoluto.

    Assim sendo, o Caminho do Guerreiro (Bushidô), se transforma no próprio trilhar do Caminho para a Iluminação (Butsudô), que é o Caminho pregado pelo Buda.

     

    Rev. Wagner Bronzeri (Shaku Haku-Shin)

    Soryo budista da Escola Jôdo Shinshû, ramo Ôtani.

    Templo Budista Apucarana Nambei Honganji.

    www.amida.org.br