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  • Terra Pura

    O Grou e a Tartaruga

    O Grou e a Tartaruga

    Quando uma pobre velhinha soube que o Buda Shakyamuni iria pregar em sua vila, ela resolveu doar uma lamparina a óleo, para que mesmo escurecendo, o Buda pudesse continuar a pregar seus valiosos Ensinamentos. Mas como ela era muito pobre, os locais fizeram pouco caso dela, dizendo que era muita pretensão, querer doar uma lamparina. Na Índia é muito comum o oferecimento de lamparinas, que simbolizam as luzes da sabedoria que dissolvem as trevas da ignorância.

    Mesmo sendo tão pobre que não tinha dinheiro nem para comprar óleo, muito decidida, a velhinha resolve vender seus cabelos para comprar óleo e poder fazer sua doação, seu Danna. Conta-se que o vendedor de óleo, quando soube que a velhinha estava vendendo seus preciosos cabelos com o intuito de comprar o óleo  para a lamparina a ser oferecida ao Buda, comovido, acabou oferecendo-os de graça para ela. Com isso, algumas vertentes da lenda contam que ela fez de seus cabelos, o pavio da lamparina.

    E assim ela realiza sua doação e vai ouvir os Ensinamentos do Buda. Todos da vila estavam presentes e havia muitas lamparinas, doadas pelos locais mais ricos e poderosos. Quando repentinamente soprou uma forte ventania, ventania de tempestade que apagou todas as lamparinas, empurrando-as para o lago próximo, que se enchia rapidamente com a enchente. Somente a lamparina da pobre velhinha manteve-se heroicamente acesa, levada pelo vento a pousar sobre uma flor de lótus. Quando a flor de lótus que mantinha a lamparina estava prestes a afundar, um tsuru (grou) que sobrevoava o lago, pegou-a em seu bico a flor de lótus com a lamparina e pousou no meio do lago. Mas começava a chover cada vez mais forte ao longe, na cabeceira do rio e o lago enchia cada vez mais, deixando o tsuru numa difícil situação, pois se ela alçasse vôo, a lamparina se apagaria.

    Mas eis que de repente, para surpresa de todos que presenciavam a cena, o grou começou a subir e se mover até a beira do lago, quando segura, viu-se que o tsuru havia pousado exatamente em cima de uma tartaruga que prontamente levou-a sã e salva junto com a lamparina até terra firme.

    É uma bela estória de não-discriminação e o valor da doação (Danna) de coração e intenção verdadeiras. Enseja o desejo de que mantenha-se a longevidade dos Ensinamentos graças ao bom coração de pessoas como a velhinha da lenda.

    Essa é a estória que ilustra o simbolismo do castiçal em forma de tsuru e tartaruga do nosso altar. Além disso, contam as lendas mais antigas que o tsuru vive mil anos e a tartaruga dez mil anos. São símbolos da longevidade, mas que significam a Sabedoria infinita, a infinitude dos Ensinamentos, e a Vida Infinita do Buda Amida que se mescla com a Luz infinita que não se apagou…. e não se apaga.

    Quando se é usado o arranjo “Itsutsugussoku” (Ornamento de 5 Oferecimentos), quando no altar são colocados dois vasos, dois castiçais e um incensário, isso para os grandes ritos como o de Ação de Graças em Memória do Mestre Shinran (Hô On Kô), observe-se que os dois castiçais possuem detalhes muito sutis. O tsuru do lado direito (o que é mantido comumente) tem o bico aberto, assim como a tartaruga, pronunciando A. Já a dupla do lado esquerdo (de quem olha) têm a boca fechada emitindo UN, juntos eles simbolizam o OM (A-Un). No nosso caso do Higashi Honganji, a folha de lótus no bico do tsuru tem um cacho de sementes de lótus voltado para nós, simbolizando as sementes do Ensinamento dirigidos a nós. No lado interno deste caule há um botão de flor de lótus que simboliza o Amida, por isso ele está voltado para dentro, virado para o Buda. E voltado para fora, uma folha ainda fechada, pronta para se abrir, expandindo os Ensinamentos.

    Nada que está no altar é destituído de função e/ou simbolismo, tudo tem uma bela ilustração. Quando visitarem um templo, prestem atenção nestes detalhes, na riqueza dos ornamentos. Cada peça é um Ensinamento em si.

     Rev. Sayuri Tyôjun

  • Nichiren

    Paz interior, a mudança está em nós.

    “Não precisamos olhar muito longe para vermos exemplos de inquietação e conflitos, eles estão em nossas comunidades, sociedade, no mundo como um todo. Há um excesso de ansiedade e inquietação, e não é o que nós dizemos e queremos que fará com que isso mude, mas o que nós somos.

    Ao invés de olhar à nossa volta e dizer que não há paz suficiente, precisamos olhar para dentro de nós e descobrir se temos ou não paz interior. Quando nós conseguirmos alcançar paz em nossa própria vida, então gradualmente a paz prevalecerá em nossa sociedade. Nós podemos nos tornar faróis da paz iluminando o caminho para a felicidade dos outros.

    Parece uma fórmula muito simples, no entanto o mistério se encontra em como fazer. Talvez uma das coisas mais difíceis de se alcançar, ou nós costumamos pensar que é. É fácil olhar ao redor e identificar caminhos pelos quais a sociedade poderia ser pacífica, envolvendo principalmente outras pessoas mudando para se tornar o que nós gostaríamos que fossem. É muito mais difícil olhar para dentro e ver o que nós precisamos mudar em nossas vidas para que possamos estar em paz em nosso coração.

    Vamos explorar algumas ideias, que podem ser consideradas, para trazermos paz interior. São apenas algumas possibilidades das várias possíveis que podemos por em prática. Talvez, algumas delas vocês já devem ter parado para pensar ou talvez, algumas sejam novidades.

    A primeira consiste em tomar toda e completa responsabilidade pelo modo que agimos e reagimos. Ninguém ou nenhuma coisa faz você agir de uma forma específica. Você escolhe a maneira como se comporta. É de sua responsabilidade decidir como você será e portanto como irá agir. Focar em ser e agir de acordo com a sua essência, pode mudar a maneira como você reage às outras pessoas e como você age sob diversas circunstâncias no dia a dia.

    Conheça sua essência ao contrário de conhecer seu Ego, suas necessidades ou sua história passada. Separe um tempo para conhecer quem você realmente é; quais são suas paixões, suas alegrias, seus valores, seus objetivos. Esta é uma longa jornada de auto-conhecimento, uma viagem que não tem atalhos. Identificar quais são seus valores te ajudará a entender o que será preciso para mantê-los. Muitas vezes na vida, justamente por não estarmos suficientemente consciente do nosso verdadeiro eu, agimos sob falsas necessidades.

    A segunda, consiste em abandonar a droga da vez de nossa sociedade, a adrenalina. Parece que todos nós temos sucumbido à necessidade das coisas acontecerem sempre muito rápido, e estimular que a nossa vida se acelere junto. Viver no limite tem se tornado para muitos o que determina se estamos ou não realmente vivos, se estamos na realidade. Parece que, se não estamos fazendo na máxima velocidade, com o máximo de excitação, então nós, de alguma maneira, não estamos vivos ou não somos reais.

    Por não nos conhecermos, ou por estarmos tão desconfortáveis em conviver com nosso eu verdadeiro, mascaramos isto com entusiasmo e excitação. Esteja confortável com você mesmo. Seja o que for que estiver desconfortável, mude. E o lugar para começar a mudança é internamente.

    Isto leva à próxima sugestão, que tem a ver com o que te perturba; Existe uma razão para você agir e reagir da maneira que faz. E a razão não está fundamentada fora, mas dentro de você. Conheça a verdade dentro de si mesmo, ela está por trás destas questões que te incomodam. Às vezes, a verdade dura e fria é que você está vendo nos outros as coisas que você não gosta em si mesmo mas que é incapaz de mudar internamente. Nosso ambiente é um reflexo do nosso próprio eu.

    Finalmente, priorize sua vida. Pense sobre o restante de seus dias de vida. Vá em frente e faça uma estimativa de quantos dias você espera viver, quantos dias de vida te restam. Agora, como você gostaria de passar esses dias? Você quer que sua vida seja uma soma de coisas realizadas, listas de tarefas concluídas, o tempo gasto correndo atrás de coisas e coisas acumuladas? Ou você prefere olhar para trás e ver uma vida com grandes relacionamentos, experiências maravilhosas, paz e tranquilidade?

    O impacto que a sua vida tem nos outros é extremamente subestimado. Sua paz interior, sua calma, seu contentamento ou a falta destas coisas, se espalham ao seu redor. Você pode gerar um impacto significativo no seu ambiente através de mudanças que você realiza em sua vida.

    Não é fácil fazer este tipo de mudança, no entanto há um grande benefício em fazer até mesmo uma pequena destas mudanças.”

    *tradução livre do texto Inner Peace, do rev. Ryusho Shonin, da Nichiren Shu.

  • Terra Pura

    Hoje é seu dia de colher batatas?

    Guenza-san perdeu muito cedo o seu pai, mas a sua mãe viveu até bem depois.

    Certa vez, a sua mãe disse: “Tenho vontade de comer batata.”

    E, Guenza-san respondeu: “Então, vou buscar algumas.” E foi cavar batatas com um cesto de bambu nas mãos. Mas, quando chegou na roça, qual foi a surpresa ao ver uma outra pessoa cavando a terra para tirar as batatas de seu terreno. “Ladrão de batatas!” ―teve vontade de gritar. Mas, ao invés disso, Guenza-san voltou sorrateiramente para casa para que a pessoa não notasse a sua presença. Ele próprio não viu o rosto da pessoa. Provavelmente, como era um vilarejo pequeno, logo que visse o rosto da pessoa iria reconhecê-la. Se isso acontecesse, a marca de que essa pessoa era um ladrão iria ficar para sempre na sua memória. Por isso, não quis ver o rosto dela. Por outro lado, se a pessoa percebesse que Guenza-san havia descoberto a sua presença, a sensação de desconforto entre eles iria restar para sempre. Por essa razão, ele foi embora sorrateiramente para não descobrir quem era a pessoa nem fazer a pessoa perceber que ele o havia descoberto.

    Porém, ao chegar em casa com o cesto vazio sem nenhuma batata, a sua mãe lhe perguntou: “As batatas ainda não estavam maduras?” E Guenza-san respondeu, sem nenhum apego: “Ah, parece que hoje não era a nossa vez de colher as batatas.” Talvez, para Guenza-san, as batatas não tinham dono. Ele sabia que as batatas não eram nem dele nem de outra pessoa. As batatas não cresceram pensando em serem comidas por nós. E nós, acabamos comendo-as. Na verdade, temos de pedir perdão às batatas. Para as batatas, serem comidas pelo ladrão ou pelo Guenza implica no mesmo. São igualmente um incômodo para as batatas. A isso Guenza-san havia percebido. Aos olhos das pessoas, pelo Guenza ter cultivado com todo o esforço as batatas em seu terreno, elas seriam de sua propriedade, mas se pensarmos pelo lado das batatas, não passa de um grande incômodo. A priori, não existe quem tem a posse das batatas. Por isso, ele deve ter pensado: “Hoje, era a vez daquela pessoa colher as batatas. No dia seguinte, talvez terei chance de colher as batatas. Hoje, não era a minha vez.”

    Rev. Jitsuen Kakehashi

  • Budismo Tibetano

    Felicidade Genuína

    A verdadeira felicidade. O que é? Onde encontrá-la?

    Todos buscamos ser felizes. Isto é um fato.
    Porém, será que estamos buscando felicidade na direção que irá produzí-la?

    Felicidade em sânscrito é sukha. O termo sukha indica uma noção de bem-estar, um estado de ser, de estar, de viver e se relacionar com o mundo ao redor.

    Um profundo bem-estar não é algo construído, passageiro, dependente de outros fatores externos, como a sensação de felicidade que se tem ao comer uma comida saborosa, ganhar um presente ou desfrutar da presença de bons amigos.

    Saberemos se estamos verdadeiramente felizes quando estivermos sós, sem nada a nos agarrar, sem nenhum objeto de suporte que ative sensações agradáveis. Simplesmente estando consigo, inspirando e expirando, desfrutando da presença natural de nosso ser além de qualquer artifício do ego.

    Esta felicidade não é meramente uma disposição de ânimo pois nada é necessário para que encontre-se disposta a florescer. Não há nada que a bloqueie ou impulsione. É o que é, livre de todas nossas construções e projeções mentais. É chamada de o “Grande Bem-estar” ou a “Grandiosa Bem-aventurança” (maha sukha em sânscrito).

    Não há como obtê-la, pois não é uma construção de nossas mentes. É um estado de ser presente por de trás do cenário do filme de nossas vidas, a natureza da própria qualidade luminosamente refletora que projeta as imagens na límpida e translúcida tela de nossa mente-coração. Esta felicidade ocorre naturalmente ao desatarmos os nós criados por nossa mente, condicionamentos, impressões de hábito, formas de perceber a nós mesmos e a realidade ao nosso redor.

    Nosso ser pede por harmonia, busca por paz e contentamento. Porém, constrói as causas contrárias. De forma geral, ainda que venhamos a buscar por verdadeira felicidade, nutrimos as causas para a agitação, stress, depressão e tristeza em nossas vidas. Vivemos os medos do passado e as expectativas do futuro. Esquecemos do presente e entramos em uma viagem sem fim repleta de ilusões e criações mentais dessintonizadas com o momento onde as coisas realmente estão acontecendo: agora.

    Paramos alguns instantes. Respiramos profundamente. Relaxamos nosso corpo. Tranquilizamos nossa energia. Acalmamos nossa mente. Percebemos que nosso corpo agradece. Que nossa energia dá sinais de bem-estar. Reconhecemos que nossa mente se destenciona e levemente se abre. Vamos respirando e acalmando, desfrutando do momento presente, exatamente onde estamos, na caverna de retiro que nada mais é do que o próprio ambiente de nossas mentes. Desenvolvemos a prática espiritual que essencialmente é o nutrir bons pensamentos e o se desinteressar por tudo aquilo que não produz o que buscamos verdadeiramente – equilíbrio, tranquilidade, amor e lucidez. Gradualmente, vamos cultivando o repouso tranquilo, consciente, em paz – paz-cientes. Vamos reconhecendo a natureza deste momento, suas qualidades e potenciais extraordinários. Construtos do passado e do futuro não encontram suporte junto a este desfrutar natural, este florescer auto-surgido. O passado já passou. O futuro ainda esta por vir. É no presente que semeamos o futuro. Este exato momento é o lugar e tempo mais importante de nossas vidas. Viver cada instante, cientes do desenrolar de nossa consciência no aqui e agora, cultivando as causas de nosso bem-estar, transformando nossa forma de olhar para o mundo e para nós mesmos, nos familiarizando com quem realmente somos é a direção de nossa felicidade verdadeira.

    Isto é a essência de uma vida saudável, repleta de contentamento, apreciação a cada passo, alegria a cada instante. É estarmos florescendo a cada momento, a cada olhar, a cada sorriso, a cada escuta, a cada troca. A felicidade genuína esta muito próxima. Basta ser nutrida, reconhecida e familiarizada para que se torne uma continuidade de ser, estar, viver e fluir na vida.

    Lama Jigme Lhawang
    Comunidade Budista Drukpa Brasil
    info@drukpabrasil.org
    www.drukpabrasil.org

  • Nichiren

    Varrer a sujeira! Sujeira limpa! – A prática através da limpeza

    Como o fim do ano se aproxima, o povo japonês costuma fazer uma limpeza geral em toda a casa. Esta é uma tradição chamada “O-So-ji”, que significa “O” grande, “So-ji” limpeza. Eles pretendem com isso limpar e purificar os maus elementos ou o mau karma acumulado no ano antigo a fim de ter um bom ano novo. “So”, de “So-ji”, quer dizer varrer para longe, “Ji”, quer dizer remover e extinguir. So-ji pode ser entendida como limpeza de maus augúrios ou de coisas ruins. Portanto, So-ji, se refere a ambos os sentidos da limpeza, física e espiritual.

    A formação para ser um reverendo se inicia com a limpeza. O shami é um reverendo noviço que recebe formação, através dos ensinamentos do seu mestre e tem de trabalhar muito todos os dias. Dia após dia a limpeza continua desde manhã cedo até a noite, especialmente limpando o banheiro. Às vezes eu despertava na noite, pois tinha pesadelos com a limpeza. Muitas vezes eu estava cansado e pensava, “Por que eu preciso limpar o banheiro dia após dia, gostaria de estudar os ensinamentos de Buda muito mais.” No entanto, um Shami aprende que o seu principal alicerce para ser um sacerdote se forma inconscientemente através da limpeza.

    Geralmente, não existem tantas pessoas que amam fazer limpeza. Normalmente, as pessoas executam a limpeza com sentimentos, tais como, “Eu não quero limpar, mas eu sei que sou obrigado”, desnecessário dizer que é ainda pior com a limpeza do banheiro. Ninguém pretende limpar o banheiro. Mas para ser um sacerdote, o shami deve fazê-lo gostando ou não. Caso contrário não há nem desenvolvimento nem aprendizado se ele reclama, “Eu não gosto de trabalho sujo!” Assim, no início, o shami limpa o banheiro, uma vez que luta entre sua vocação e sua real intenção. Logo ele percebe a realidade, de como é difícil limpar um banheiro. É difícil imaginar como é árduo o trabalho ante de fazê-lo. Por isso, depois deste longo treinamento, os seus comportamentos tornam-se inconscientemente gentis e amáveis. Às vezes, eles enfrentam essas situações que são parecidas com um banheiro sujo e, depois, eles percebem a insensatez dos seres humanos e percebem sua tristeza e vazio. Tudo é um exercício de um shami. Através dos treinos eles aprendem perseverança e espírito de compaixão e desenvolvem o prazer de servir as pessoas. Desde os velhos tempos, diz-se que uma limpeza no banheiro deixa as pessoas com um caráter suave, porque esfregar o vaso sanitário amadurece o ego imaturo, acaba com a vaidade e o egoísmo e aprimora o caráter bom e gentil da mente. Limpeza parece uma questão insignificante, mas é o mais importante na formação para ser capaz de aprender muitas coisas com o seu corpo e mente. Ela melhora o seu próprio caráter para se dedicar ao trabalho missionário.

    Um tempo atrás, havia um discípulo do Buda Shakyamuni que atingira a iluminação por meio da limpeza. Seu nome é Cudapanthaka. Geralmente temos uma imagem que os discípulos de Buda são inteligentes e espertos, mas ele não foi. Ele era estúpido e ele não pôde memorizar até mesmo o seu próprio nome, mas finalmente ele se tornou uma grande iluminada figura da história budista.

    Em primeiro lugar, Cudapanthaka se tornou um discípulo do Buda sob a orientação do seu irmão, que tinha uma mente muito perspicaz. No entanto, apesar de ele fazer o seu melhor sempre, a disciplina foi tão difícil para ele, que ele não conseguiu memorizar nada. Ele muitas vezes se debatia sobre permanecer como discípulo ou não, mas finalmente um dia decidiu sair. Quando ele estava saindo, o Buda o chamou e o ordenou como seu discípulo direto. “Cudapanthaka, você vai ficar aqui e virado para o leste, recite repetidamente isto ‘Limpar a sujeira! Sujeira limpa! ’ enquanto limpa as mãos com este pano branco”. No entanto, ele não podia sequer memorizar esta frase. Ele tentou várias maneiras, mas não foi assim tão fácil para ele. Ele continuou a tentar memorizar a frase, enquanto ele limpava suas mãos. Assim muitos dias se passaram e o seu pano branco, que o Buda tinha dado para ele, se tornou muito sujo por causa da sujeira de suas mãos. Ele então ficou chateado com a sujeira do pano e logo tentou lavar a sujeira muitas vezes, mas não conseguiu torná-lo branco como antes. Depois, ficou triste e preocupado e foi até o Buda pedindo desculpas entre lágrimas. O Buda disse a Cudapanthaka que estava olhando fixamente no pano. “O seu pano branco se tornou sujo por causa da sujeira de suas mãos, isto aconteceu pela sujeira de sua mente. Se isto é assim, como é que vai fazer? “Cudapanthaka respondeu, “Farei o meu melhor para limpar a minha sujeira e a sujeira de outros.” Ele começou a limpar tudo, o jardim, salão principal, instalações sanitárias, sapatos, bolsas, roupas e etc, enquanto ele recitava “Limpar a sujeira! Sujeira limpa!” Outros discípulos notaram isso e foram surpreendidos com os diferentes comportamentos de Cudapanthaka. Mesmo assim trataram-no como um tolo. Um dia, alguns discípulos tentaram testar Cudapanthaka que ultimamente tinha conquistado boa reputação e lhe pediram para fazer um discurso para muitas pessoas. No discurso, ele falou sobre si mesmo com honestidade perante o público-alvo. Disse: “Eu sou verdadeiramente uma pessoa tola. Por isso, não tenho quaisquer bons ensinamentos para pregar para vocês, somente aquilo que eu lembro e tenho praticado sob orientação do Buda. Gostaria de compartilhar isso, por favor, escutem, por favor. Logo que ele falou isso, recitou lentamente com uma bela voz e suavemente. “Limpar a sujeira! Sujeira limpa! Limpar a sujeira! Sujeira limpa!” Os discípulos que haviam tentado testá-lo ficaram muito impressionados com a profunda compaixão na sua voz e se desculparam com ele. Seu breve discurso foi concluído com aplausos.

    Cudapanthaka realizou o ensino da limpeza através de toda sua vida e ele ensinou para outros as práticas da limpeza física e mental. Ele dedicou a sua vida para limpar sua mente. Embora ele fosse uma pessoa ignorante que não podia sequer memorizar o seu nome, ele finalmente conseguiu o caminho sublime da mente obediente. Ainda hoje depois de 2500 anos, esta verdadeira história incentiva muito.

    Limpeza é mera limpeza, mas vai nos trazer muitos ensinamentos. Meu mestre sempre me deu aulas sobre limpeza, “Limpa o Templo que também irá limpar a sua mente. “Quando você limpa a sujeira do chão, você deve pensar que você limpa a sujeira da sua mente.” “A vassoura varre e limpa em qualquer lugar; pavimentos, escadas, o jardim, mas não pode limpar a vassoura em si. Uma vassoura precisa de outros para limpá-la. Da mesma forma, nós, seres humanos, não podemos limpar a nossa própria mente por nós mesmos. Nós precisamos de companhia para nos ajudar a limpar as nossas mentes assim como para ajudarmos a limpar a mente de outros”.

    “O pano de chão limpa o chão e pode absorver um derramado sobre o tapete. Embora o pano seja limpo, gradualmente vai se tornando sujo e velho, mas o pano nunca se queixa. Isso nos mostra o ideal da fé do Sutra de Lótus, embora uma pessoa apoia e ajuda muitas pessoas a serem felizes, ela não se vangloria, não se orgulha, não é arrogante, e não quer nada em troca, apenas sorri sempre . Este é o caminho do Bodhisattva”.

    No que diz respeito à limpeza da mente, Nichiren Shonin disse “A mente é como um espelho embaçado. No entanto, se você o limpa bem, o espelho pode ser uma joia que reflete a verdade. Tenha fé firme e limpe seu espelho de manhã e à noite, sem negligência. Como é que você limpa o espelho? Basta recitar ‘Namu Myoho Renge Kyo’.” Recitando Odaimoku você limpa sua mente. Um espelho embaçado pode ser limpo, mas a mente embaçada nós não conseguimos observar por nós mesmos e também não sabemos como limpá-la. Todos os dias, a mente pode ser ferida e confundida facilmente. Devemos, portanto, limpá-la. Nós podemos limpar e purificar nossa mente simplesmente por recitar Odaimoku.

    Com o ritmo de Namu Myoho Renge Kyo, você pode limpar não só a sua casa, mas também sua mente. Através da limpeza física e mental, você irá perceber um sentimento leve e alegre. Por favor, se dediquem a limpeza física e mental todos os dias.

    Gasshô

    *tradução livre do texto “Sweep Dirt! Clean Grime!” da Nichiren Shu UK.

  • Zen

    Zazen ou Shūzen?

    Caros amigos, na condição de curador deste espaço, além de propor reflexões já publicadas sobre ensinamentos de mestres, procurarei, sempre que possível, disponibilizá-lo aos professores. Esta semana, acompanharemos um texto da Isshin-sensei. Boa leitura!

    “A grande maioria das pessoas vem para um centro de prática zen-budista porque está passando por algum tipo de crise na sua vida que está causando muito sofrimento. Estas pessoas começam a sua prática na esperança de encontrar alívio para a sua dor. Assim, o objetivo de sua prática pode ser “relaxar”, “corrigir defeitos”, “acumular méritos” – a lista é infinita.

    Este tipo de prática com “metas” e “objetivos” é chamado shūzen (習禅, “aprender-zen”), que significa “zen para aprender algo”. A “mente de ganho” está presente nesta atividade. Quando sentamos e fazemos “meditação” como parte de uma prática com o objetivo de nos livrarmos do sofrimento que nos trouxe para um centro de zen, NÃO estamos verdadeiramente nos sentando em “zazen”, não estamos em “shikantaza”.

    Mas, geralmente, é justamente o sofrimento e o desejo de aliviá-lo que levam uma pessoa ao zen. Isto é perfeitamente natural e não deve ser criticado. Então, como resolver esta questão?

    A chave, a meu ver, está em fazer a transição, em algum momento, do shūzen para o zazen, a meditação sem objetivos ou metas – despertar a “mente do caminho” (bodaishin). Isto não significa que a prática em si, como um todo, pode ficar sem ter uma direção – a iluminação e o bem de todos os seres – e espera-se ver melhorias na qualidade de vida do praticante, mas quando sentamos em zazen precisamos abrir mão das nossas metas e objetivos, sentar zazen simplesmente por sentar zazen e mergulhar no shikantaza – o “simplesmente, justamente, exclusivamente sentar”.

    Vamos descobrir o que é este shikantaza, o verdadeiro zazen ensinado pelo mestre Dōgen?”

    Isshin-sensei, missionária internacional da Sōtōshū e orientadora da sangha Águas da Compaixão, escreveu este artigo com exclusividade para o site Sobre Budismo.

    Imagem, Cris Duarte

    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    Budismo: Zen e Nembutsu

    Quando comparado a uma religião de crença, o budismo é um caminho de vida. O budismo é auto-realização, autodesenvolvimento, uma vida criativa. É um modo de viver. É filosofia, psicologia e religião – não só uma crença, mas algo imediato e direto. Tudo na vida é religião… é o caminho budista. Especialmente no zen – no qual se diz que levantar da cama, escovar os dentes e lavar o rosto, tudo é religião.

    Cada dia, cada momento da vida, é em si uma religião. Como viver, como encontrar a si mesmo na multiplicidade e complexidade da vida de hoje é descobrir a vida pura e simples que você está buscando. É isso que o zen ensina. É isso que o budismo como um todo ensina, um caminho de vida pelo qual você pode encontrar paz, alegria e harmonia em seu meio ambiente. O budismo ensina que todas as coisas existentes são o resultado do karma e que você é responsável, não os outros. Nenhum agente externo é responsável por sua felicidade ou miséria.

    O zen enfatiza, basicamente, a meditação. O shin enfatiza o nembutsu. Embora estas abordagens possam parecer diferentes, na verdade não o são. Tanto o zen como o shin procuram alcançar a liberação completa, a salvação e a conquista da liberdade. Através do apego, os homens freqüentemente tornam-se escravos de muitas coisas. Quando a pessoa se torna escrava de sua própria paixão, esta paixão cresce dentro dela e se transforma em miséria para a própria pessoa e para os outros. O caminho budista de vida é a libertação, a salvação que desata os nós emaranhados dos problemas humanos.

    Independentemente dos textos usados nas várias escolas de budismo, todos ensinam este caminho de vida para chegar-se à iluminação, à salvação. O conteúdo da iluminação é o nirvana. O nirvana é aquela totalidade da vida onde encontramos a verdadeira paz, alegria e harmonia. O zen é um dos caminhos para a iluminação e a liberdade.

    A palavra japonesa “zen” é ch’an em chinês, jhana em páli (a antiga língua sagrada da Índia) e dhyana em sânscrito. Dhyana é meditação estática e dinâmica – não só a quietude estática como também a quietude em meio à multiplicidade. A escola zen está se tornando amplamente conhecida hoje em dia nos Estados Unidos e na Europa. Mas, em alguns círculos, membros da chamada beat generation* apoderaram-se de certas partes do zen sem compreender as demais: adotaram apenas a parte beat do zen, sua pulsação, seu aspecto dinâmico. E assim, “ser beat ” tornou-se um modismo nos dias de hoje – o estilo boêmio de viver, a vida no ritmo beat .

    É claro que a nossa vida é uma espécie de pulsação (um beat ) – assim como as batidas do nosso coração. Nosso coração é um pulsar contínuo e, por isso, a vida é uma pulsação; ela não é algo estático, mas sim um ritmo. Porém esta pulsação não é fortuita. Ela tem um ritmo universal, é uma com a verdade. Mas a geração beat toma apenas uma parte da vida e diz, “Não me importo com a formalidade, o conformismo; não me importo com os outros, vivo do jeito que quero”. Hoje em dia, muitos adolescentes estão se tornando mais ou menos assim. Eles têm tanta energia que querem fazer alguma coisa; mas não querem se amoldar querem apenas fazer o que desejam.

    Um homem não é um ser independente, como pensam muitos adolescentes. Um homem é um ser muito intimamente interdependente e inter-relacionado com outros seres. Ninguém pode viver sem os outros. Somos uma parte integrante do todo. Assim, esta vida não é uma pulsação egoísta, individual e independente, mas uma pulsação em conjunto. Sim, a vida é a pulsação singular do indivíduo, mas ela é também a pulsação da totalidade, a pulsação conjunta do Universo. A pulsação do indivíduo é a mesma pulsação dos outros. É claro que cada um tem sua pulsação específica, porém essa pulsação tem unidade e identidade com o ritmo universal. A pulsação universal do zen foi mal interpretada, deturpada e transformada num modismo. O verdadeiro zen não é uma coisa fortuita, egoísta, individual. Ele é singularmente individual, mas, ainda assim, tem universalidade.

    Um jovem do norte da China certa vez caminhou várias centenas de quilômetros até onde Bodhidharma sentava em meditação. Este rapaz muito sério e sincero, ao encontrar Bodhidharma, disse, “Meu nome é…Caminhei muitas centenas de quilômetros em busca de ensinamentos. Ensine-me, por favor, o que é o budismo”. Bodhidharma não levantou os olhos nem lhe deu resposta. O rapaz esperou o dia todo, mas em vão, não teve resposta. E ali ficou toda a noite. Na manhã seguinte, voltou a aproximar-se do mestre e mais uma vez suplicou pelos ensinamentos. Esperou todo o dia, sem resultado. No terceiro dia a mesma coisa – nenhuma resposta. O rapaz , já inquieto, perguntava a si mesmo como poderia atrair a atenção de Bodhidharma. Durante três dias, Bodhidharma sequer o olhou, nem mesmo de relance. O rapaz precisava fazer alguma coisa – agarrou o lóbulo da orelha, arrancou-o e o atirou diante do mestre, dizendo: “Mestre, fale!” E então Bodhidharma o olhou pela primeira vez e pensou que aquele jovem devia ser sério, que estava realmente pedindo ensinamentos. Olhou-o e concordou em deixá-lo ficar ao seu lado. Esse jovem, que estava disposto a pôr sua vida naquilo que queria, tornou-se mais tarde o sucessor de Bodhidharma.

    Quando fazemos alguma coisa, não devemos fazê-la ao acaso; precisamos pôr toda a nossa vida nela. Esta é a atitude budista. Quando você jogar basquete, jogue basquete – não fique só correndo à toa pela quadra. Um homem, qualquer que seja sua atividade, põe toda sua vida e responsabilidade em cada uma de suas palavras. Mesmo que sua vida esteja em perigo, ele pode arriscá-la. Este tipo de atitude é o caminho budista de vida.

    Lembro-me de uma mulher de Oakland, Califórnia, quando eu ali vivia. Seu filho único adorava futebol americano, mas ela se opunha firmemente porque os jogadores se machucavam com freqüência. Mas o garoto lhe suplicava que o deixasse jogar. Um dia, a mãe lhe disse, “Não quero que você jogue porque pode se machucar, mas, se apesar disso quiser jogar, então jogue; mesmo que morra na quadra, jogue; já que gosta tanto de futebol, dê sua vida por ele”. O rapaz tornou-se um dos mais destacados jogadores de futebol americano entre os nisseis do norte da Califórnia. Esta mãe era uma verdadeira budista.

    As mães japonesas, quando os filhos iam para a guerra, costumavam dizer-lhes, “Vá e morra”. Em japonês, a expressão “vá e morra” significa arriscar a vida, dar tudo de si. Elas nunca diziam “vá lutar e volte; pratique um ato glorioso e volte para casa”. Quando somos chamados pelo dever, nós o cumprimos mesmo arriscando a vida. O caminho budista é dar tudo de nós àquilo que fazemos – não necessariamente na guerra, mos no trabalho do escritório ou em qualquer campo de atividade. Todo homem tem uma vida para viver, uma vida para preencher com trabalho responsável. Devemos nos dedicar a um trabalho honroso, para sermos capazes de pôr toda a nossa vida nele. Este, no budismo, é o caminho do zen. O homem e seu trabalho são uma única coisa. O homem e seu trabalho são um, assim como o rapaz e sua namorada são um. Quando duas pessoas se amam, o amor é mútuo. É um amor uno, não um amor unilateral. O verdadeiro amor é uma completa união e unicidade. Sujeito e objeto tornam-se uma única e mesma unidade. Quando a pessoa ama o seu trabalho, qualquer que ele seja, o trabalho é ela e ela é o trabalho.

    Li numa biografia de Henry Ford que quando estava desenvolvendo uma máquina, ele costumava trabalhar até a meia-noite, uma, duas horas da madrugada, muitas vezes até as três, e, quatro, ia tomar café no bar da esquina. Quando sua mente estava na máquina, ele esquecia as horas, esquecia de comer, porque se envolvia por completo com o trabalho. Existe uma alegria imensa neste modo de viver. Na ciência e na religião, a pessoa que é bem-sucedida – na verdade, não gosto da palavra “bem-sucedido” – é aquela que realmente dá a vida ao seu trabalho. Tomemos o Mahatma Ghandi como exemplo: ele viveu por aquilo em que acreditava. Mesmo encarcerado, mesmo sem comer, Ghandi cumpriu seu impulso interior de viver uma vida de verdade. Ele viveu uma vida de unicidade.

    Este mundo de unicidade é o nembutsu. Saber que tudo aquilo a que chamamos pares de opostos – você e eu, a sociedade e eu, o país e eu, pai e filho, marido e esposa, Deus e homem, criador e criatura, corpo e alma, espírito e matéria – são realmente um só, isso é o nembutsu. Nenhum membro de qualquer um destes pares de opostos pode existir sem o outro. “Marido” não tem sentido sem “esposa”. Sem um marido, não existe a esposa. E assim por diante. Mas, no Ocidente, debatemo-nos na tentativa de dividir nossa vida em duas. No budismo, eu sou a família, a família é eu; todos esses pares são unos. Embora estejamos vivendo na complexidade, esta complexidade não é casual, mas sim um relacionamento definido e interdependente. O budismo ensina a encontrar a unidade nos muitos e os muitos na unidade (a diversidade em cada um de nós). Este mundo de unicidade é o nirvana; é o Namu Amida-Butsu, o nembutsu.

    O nembutsu é a unidade de sujeito e objeto. Namu Amida-Butsu significa que Buda e eu somos um, que toda a humanidade e eu somos um. Quando pomos toda a nossa vida em alguma coisa, tornamo-nos unos com ela. Quando um homem arrisca sua vida pela humanidade, ele e a humanidade são unos.

    Cada um de nós, em nossa pequenez, é digno do maior respeito. Cada um de nós tem o propósito verdadeiramente sincero de cumprir e realizar as próprias potencialidades. Portanto, qualquer que seja a nossa atividade, devemos fazê-la com todo o nosso ser. Explicar esta idéia talvez não tenha fim. Não são as palavras, nem as concepções ou as idéias, mas aquilo que fazemos a cada dia, a cada momento, com um senso de responsabilidade e com uma atitude de realização. Nisto encontramos uma vida alegre e gratificante. Esta realização da própria vida significa a realização do mundo como um todo. Isto é o nembutsu e esta é a essência do zen.

    * Dá-se o nome de “geração beat” aos grupos contestadores surgidos em meados dos anos 50 e início dos 60, os beatniks, que repudiavam os valores e comportamentos convencionais e se opunham aos padrões morais da sociedade estabelecida. Seus principais valores ram a boemia, o álcool e o jazz, e tinham uma visão deturpada do zen-budismo. Os beatniks foram uma espécie de precursores dos hippies, surgidos em meados dos anos 60, que com seu lema de “paz e amor”, propunham o completo afastamento da vida convencional, o consumo de drogas para alcançar estados alterados de consciência e a peregrinação à Índia e ao Nepal.

    Por Rev. Gyomay Kubose (do livro “Budismo Essencial – A Arte de Viver o Dia-a-Dia”)

  • Desejo por fama - Blog Sobre Budismo
    Terra Pura

    Budismo: O Caminho da Introspecção

    Diz uma antiga fábula que cada ser humano carrega consigo dois sacos, um pendurado na frente de seu corpo e outro nas costas. O primeiro contém os defeitos alheios e o segundo contém seus próprios defeitos. É por isso que o ser humano tem olhos para ver os defeitos alheios, mas não consegue enxergar suas próprias mazelas.

    Assim, nós temos a tendência de responsabilizar os outros por todo o mal que nos acontece, sem parar para pensar que as causas desses males podem estar em nós mesmos. Olhamos para fora de nós em busca das causas de nossas inquietações e aflições sem cogitar que elas podem estar dentro de nós. Pior ainda, ao olhar para os outros enxergamos neles defeitos que na realidade estão em nós, o que gera conflitos e animosidade. É o mecanismo que os psicólogos chamam de projeção. As religiões funcionam da mesma forma quando falam em Deus e no Diabo. Vemos Deus como alguém infinitamente bom que nos pode dispensar bênçãos em resposta a nossos pedidos e orações. E responsabilizamos o Diabo por todo o mal que desaba sobre nós. No Brasil, hoje muitas pessoas atribuem ao Diabo males como doenças desemprego e pobreza, achando que basta rezar para Deus para expulsar o Demônio e se livrar desses males.

    No Budismo também se fala no Diabo. As Escrituras budistas contam que na noite de sua iluminação, o Buda Shakyamuni venceu uma grande batalha contra Mara, o demônio da morte, do desejo e da ilusão. Entretanto, o Budismo não vê o Diabo como um personagem que existe fora de nós, mas sim como uma imagem de todos os defeitos e falhas que existem dentro de nós mesmos, como ignorância, inveja, orgulho, cólera, preguiça, egoísmo, indecisão, agitação, teimosia, rabugice, dúvida, etc. Assim, a batalha do Buda contra o diabo Mara foi, na verdade, um combate travado contra suas próprias tendências negativas, ou, em outras palavras, contra seus demônios interiores.

    O Budismo nos convida, então a seguirmos o exemplo de seu fundador, buscando dentro de nós mesmos as causas dos males que nos afligem, ao invés de buscá-las em fatores externos ou em diabos imaginários. É por isso que grandes mestres budistas como o Reverendo Prof. Daiei Kaneko definiram o Budismo como sendo o Caminho da Introspecção. Introspecção significa olhar para dentro. O Budismo nos exorta, pois, a voltarmos a atenção para dentro de nós mesmos para superarmos nossos males e encontrarmos a verdadeira felicidade.

    Reva. Yvonete  Joko

    www.amida.org.br

  • Nichiren

    Comprendendo a palavra ‘correto’ na quarta nobre verdade

    Algumas pessoas sentem uma certa dificuldade em compreender alguns termos quando iniciam os estudos e prática no Budismo. O texto a seguir é de um reverendo de nossa escola, Nichiren Shu, chamado Ryusho Shonin. Ele nos ajuda no entendimento da quarta nobre verdade, ou Nobre Caminho Óctuplo, especificamente no uso da palavra Correto:

    “Ao tentar explicar sobre o Nobre Caminho Óctuplo, rapidamente sinalizo que a palavra ‘correto’ em cada um dos oito corretos caminhos não é ‘correto’ como oposto de ‘errado’, mas sim uma procura pelo que é mais habilidoso. Ou seja, o que irá produzir o maior bem e mais valor tendo em mente causar o menor prejuízo possível.

    ‘Correto’ não é sobre uma doutrina que procura proibir as coisas, impor regras, ditar mandamentos e assim por diante, buscando restringir as ações das pessoas. ‘Correto’ diz respeito a tentar encontrar dentro de nós qual a essência de nossa vida. ‘Correto’ é sobre entender de uma maneira profundamente íntima como podemos fazer o bem e manter o equilíbrio da melhor maneira possível.

    Não há uma resposta perfeita para o que é correto. O que pode ser correto hoje, com certeza pode não ser correto amanhã ou daqui a muitos anos. Algumas vezes o valor de correto muda porque nós sabemos mais sobre a nossa própria vida ou sobre as situações em que estamos envolvidos.

    De vez enquanto nós nos deparamos com algumas situações realmente difíceis as quais precisamos fazer escolhas. Talvez não haja uma boa escolha que possamos fazer; talvez seja prejudicial se fizermos ou se não fizermos. Mas pode ser uma situação que, de forma legítima e verdadeira, cause o menor dano possível. Mesmos nestas situações se nós estivermos realmente procurando causar o verdadeiro bem, nós devemos ter em mente escolher a opção mais habilidosa em que possamos evitar ou reduzir causar algum prejuízo.

    A retribuição por agir corretamente é a eliminação das causas do sofrimento em nossas vidas. Budismo não é uma doutrina de salvação ou julgamento. Causa e efeito é um princípio universal neutro o qual não há salvação exceto por mudar as causas feitas e então vivenciar efeitos diferentes. Seguir o nobre caminho óctuplo é o nosso método para remover o sofrimento.”

    Um outro Reverendo de nossa escola, chamado Ryuei Shonin, explica bem a relação que temos em nossa prática com a recitação do Odaimoku (NamuMyoHoRenGeKyo), onde refletimos e relacionamos a nobre verdade discutida (Caminho Óctuplo):

    “Recitar o Odaimoku deve ser uma maneira de gerar e emanar amor e gentileza, compaixão, simpatia e equanimidade. Nossa recitação pode ser uma forma de querer bem a todos as outras pessoas e criaturas. Nós recitamos pela felicidade e pelo bem-estar de todos em nossa vida, nós recitamos para que eles sejam livres do sofrimento, para que todos os seres sem exceção vivam em paz e harmonia. (…) Isso pode ser uma forma muito poderosa de prática e pode ajudar-nos a acessar a habilidade de fazer o bem, o cuidado altruísta e a compaixão de nossa natureza búdica.”

    Namu MyoHoRenGeKyo. Gassho.

  • Como estudar o Dharma - Sobre Budismo
    Budismo Tibetano

    Como estudar o Dharma

    Nos últimos tempos, tenho recebido com mais frequência pedido de ajuda para formar grupos de estudo do Dharma em nossa comunidade budista. Casou que um querido amigo fez uma pergunta neste sentido porém dentro de um contexto de estudo individual, em casa, de livros do Dharma. Perguntou como poderia aproveitar mais o tempo de estudo e leitura como também se havia alguma sugestão quanto ao que fazer antes, durante e após a leitura e estudo de um livro do Dharma e eu fui respondendo a ele via facebook. Imediatamente me dei conta que muitas pessoas tem gosto pela leitura e muitos tem interesse em não só ler mas de desenvolver um estudo mais aprofundado do Dharma. E, por quê não em casa, num parque ou em algum outro lugar tranquilo de nossa escolha? O texto aqui presente, levemente editado, surgiu desta partilha.

    Motivação

    Para desenvolvermos qualquer atividade na vida, precisamos de um motor que nos impulsiona a ir em determinada direção, a agir, a desenvolver algo. Esse motor é chamado em minha tradição espiritual de “motivação”, “samuttana” em sânscrito ou  “Kunlong” em tibetano. De acordo com sua definição em língua tibetana é aquilo que induz algo a ser feito a partir de uma intenção ou perspetiva mental virtuosa.

    Nos himalaias da Índia e Nepal onde vivi por mais de dez anos era evidente a expressão deste elemento da motivação no dia-a-dia dos tibetanos. Antes do nascer do sol ambos laicos e religiosos acordam e a primeira coisa que desempenham é o seu cultivo espiritual diário, relembrando do Buddha, do Dharma e da Sangha – os Três Tesouros do Budismo -, tomando refúgio e gerando a mente do despertar (bodhichitta) que aspira a iluminação junto a todos os seres. Isso continua durante o dia, antes das refeições, ao começar o trabalho, ao iniciar qualquer novo empreendimento, e antes do sono da noite, relembra-se novamente das três jóias.

    Qual seria a funcionalidade disto para nós ocidentais, simpatizantes ou praticantes budistas?

    Precisamos todos de inspiração em nossas vidas. Quando olhamos um sorriso gostoso de uma criança, nos inspiramos a sorrir juntos. Quando vemos uma sincera bondade vinda de alguém nos inspiramos também a ser bondosos. Quando recordamos do Buddha, não como uma imagem, uma foto, mas como um ser humano como nós, que trilhou um caminho, deixou seu exemplo, ensinamentos (Dharma), instruções que continuam vivas no coração de sua comunidade (Sangha), surge inspiração em nosso coração, uma sensação de que nós também, igual ao Buddha e todos os outros que vieram depois dele, podemos também desenvolver estas qualidades internas e fazer aflorar plenamente os potenciais naturais de nossa mente.

    Há técnicas específicas dentro da tradição budista para desenvolver profundamente este elemento da motivação.

    Em minha tradição, recitamos o Sutra da Recordação das Três Jóias (em sânscrito Arya Triratna Anu Smriti Sutra) e também a oração de Refúgio e da Geração da Intenção Bodhitchita.

    Dependendo da linhagem do budismo dos himalaias, também pode-se recitar preces que invocam determinados mestres considerados como seres iluminados nesta tradição. Um deles é Guru Padmasambhava. De forma geral, quando invocamos Guru Rinpoche (outra forma de endereça-lo) o fazemos através da Prece de Sete Linhas.

    Recordando o Buddha, do Dharma e a Sangha

    O que estamos cultivando em nossas mentes ao recordar das Três Jóias ou invocar Guru Padmasambhava? Como faze-lo para que realmente tenha efeito?

    Quando recordar do Buddha ou de Guru Padmasambhava imagine eles como sendo expressões vivas da natureza co-dependente universal onde tudo esta conectado. Eles são esta natureza viva tomando forma na exata medida da necessidade e aspirações dos seres. Quando os invocamos, eles surgem como esta energia de amor primordial inseparável de nossa própria mente e cumprindo sua promessa de nos olhar, cuidar e amar como seus próprios filhos. Eles nos fitam com um olhar compassivo, amoroso e lúcido. Há um sentimento nesta relação que nós estabelecemos com eles, sentimos a presença deles e vemos a lucidez e amor claramente em seus olhares.

    Sinta-se próximo ao Buddha ou Guru Rinpoche, sentindo-se verdadeiramente como seu filho espiritual. Sinta sua presença e energia, se entregue a este mestre espiritual que é em essência sua própia natureza luminosa e ilimitadamente acolhedora. Abra seu coração, invoque ele com confiança e entrega, e desfrute de suas bençãos.

    Lembre do Milagre de seus ensinamentos estarem presentes hoje, estarem disponíveis a você. Se não fosse estes ensinamenos, como estariamos em contato com esta profunda visão e experiência? Recorde-se com alegria e agradecimento pelo Buddha ter apontando em palavras sua experiência (Dharma) e por aqueles que preservaram estas palavras vivas até hoje (Sangha).

    Refúgio e Boditchita

    Tome refúgio nas três jóias como seus guias, a direção que você aspira andar, trilhar e realizar.

    Ao tomar refúgio você não é mais um ser comum, com uma aspiração do mundo. Sua direção não é mais mundana. Seus olhos se abrem para a verdade e seu coração para as bençãos de uma linhagem ininterrupta de milhares de anos. Deste coração, você lembra dos ilimitados seres ao seu redor, começando por sua companheira e por seu filho, por sua família e amigos,

    e extendendo a desconhecidos e pessoas que você não sintoniza até abranger todos os seres nas dez direções. Aspire que eles estejam livres do sofrimento e de suas causas e que encontrem felicidade genuína e suas causas e que nunca se separem disso, permanecendo em completo equilíbrio e equanimidade. Este é um aspect essencial da tomada de refúgio e Bodhitchita.

    Nobre Silêncio

    Após recordar das Três Jóias e tomar refúgio nelas como sua direção de acessar o solo da Grande Iluminação para o benefício de todos os seres, repouse na energia, luminosidade e tranquilidade espaçosa deste refúgio e intenção. Em silêncio, simplesmente se entregue a esta energia, sem alterá-la, sem dirigí-la. Solte, relaxe e desfrute deste momento presente.

    Em meio ao silêncio, observe as qualidades e potenciais naturais de sua mente, sem criá-los, mas reconhecendo o reflexo destas qualidades no próprio movimento da mente através dos sentidos físicos e dos eventos mentais.

    Perceba este movimento ocorrendo dentro de um espaço mental, livre, desobstruído, luminoso, criativo e naturalmente expansivo. Este espaço luminoso é sua verdadeira natureza.

    Vá no seu próprio ritmo, sem pretensões ou buscas. Não há nada a ser realizado ou atingido. Esta natureza já é, sua presença faz parte de nosso ser, porém tem passado  desapercebido pela nossa cegueira cognitive, nossos condicionamentos e marcas de hábito.

    Inspirando e expirando, pacientemente (em paz e cientes), vamos soltando, vamos relaxando, aprendendo a sentir o espaço tranquilo onde toda a experiência se manifesta. Gradualmente, vamos nos familiarizando com isso dentro do nosso próprio tempo, respeitando nosso momento e capacidades. Nosso prática é a gentileza, a compreensão e a bondade amorosa para com nossa mente, energia e corpo. É isso que estamos cultivando em nossos corações.

    O melhor tempo de meditação é aquele tempo que conseguimos desenvolver qualidade em nossa prática, não impaciência, perturbação e sofrimento. Devemos nutrir coisas boas no momento de nossa prática espiritual, sem forçar nada, respeitando nosso corpo, sendo gentil com nossa energia e carinhoso com nossa mente. Inicie seu estudo, sem pressa, degustando cada palavra, cada frase, cada exemplo, cada insight.

    Os Três Treinamentos

    No texto Mahayana o Sutra dos Três Treinamentos (shikshah traya nama sutra em sânscrito) o Buddha descreve três treinamentos que abrangem todas as suas instruções – O Treinamento em disciplina ética (shila), o Treinamento em estabilidade meditativa (Samadhi) e o Treinamento em Discernimento (prajna). Não importa o que desejamos desenvolver em nossas vidas precisamos nos empenhar emu ma direção clara, ter interesse constante e jubiloso naquilo que aspiramos realizar. Naturalmente, ao escolher  uma direção e começar a trilhá-la, abondamos outras direções e distrações. Não possível caminhar em dois caminhos diferentes ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo, temos que trilhar nossos caminhos respeitando todos aqueles que encontramos em nosso trajeto. Caso assim fizermos, não só não iremos ser obstaculizados durante a caminhada mas apoiados pelos aliados e amigos espirituais que fazemos durante o trajeto. Isso é um aspecto essencial da disciplina ética. Temos paz a cada passo, a cada respiração, a cada instante de consciência e intenção, o fruto de nossa Shila ou disciplina ética.

    A partir desta paz de espírito e equilíbrio mental e emocional nossa meditação irá se desenvover proporcionando com que possamos olhar com mais e mais lucidez, paciência e espaço para nossa vida e o universo que nos circunda. Ao nos familiarizarmos com estes estados positivos de mente, gradualmente estarão presentes dentro de uma continuidade em nosso ser. Isso é um aspecto essencial do Samadhi ou a profunda e precisa estabilidade meditativa.

    Já o discernimento, de acordo com este sutra, surge através de três fatores – o discernimento surgido do pensar, o discernimento surgido do refletir e o discernimento surgido do familiarizar-se ou meditar.

    Entendendo as palavras e seu contexto através do pensar. Trazendo o sabor delas através do refletir como elas se encaixam e fazem sentido em nossa própria vida, em nosso dia-a-dia.

    O cultivar deste sabor surgido da reflexão é o meditar, é o que leva a estabilizar a continuidade desta experiência, o samadhi. Deste sabor, surge consciênica, discernimento, lucidez, a sabedoriao, o prajna (discernimento) surgido do pensar, refletir e familiarizer-se. Concluímos nosso estudo e fazemos a dedicação de méritos, para que toda e qualquer virtude gerada através da disciplina ética, meditação e sabedoria se expanda e toque a todos os seres, tal como uma gota de água que nunca secará quando retorna ao vasto oceano. Um exemplo de decicação de méritos simples de nossa tradição dos himalaias é uma escrita pelo grande mestre indiano Atisha.

    Dedicação de méritos

    Há vários tipos de dedicações escritos por diferentes mestres de diferentes tradições do budismo. Caso não tenha a sua pessoal, pode-se fazer a seguinte de nossa tradição “Dedicação de Méritos.”

    Lama Jigme Lhawang
    Comunidade Budista Drukpa Brasil
    Recife, PE

    Obs. Caso haja o interesse de desenvolver um estudo do Dharma acompanhado e orientado por nossa comunidade, é só escrever para info@drukpabrasil.org ou pelo site Drukpa Brasil.