• Nichiren

    Desapego, uma desculpa para a indiferença?

    Uma certa vez, perguntaram-me se acreditava que o conceito Budismo Engajado era genuinamente Budista ou se era uma ideia ocidental de caridade e boas ações sendo aplicadas ao Budismo. Expliquei que honestamente acreditava e sentia que o Budismo em toda sua essência já é e sempre foi sobre envolvimento social, bondade e todas estas coisas que hoje identificamos como atividades de um Budismo Engajado. Expliquei que como o Budismo tem sido incorporado em várias culturas, estas culturas tem também influenciado como o Budismo tem sido praticado, o que em alguns casos, acredito, tendem a obscurecer as atividades socialmente engajadas de budistas.

    Pessoalmente sou entusiasmado em ser e praticar um Budismo Engajado e encorajo todos a minha volta a fazerem o mesmo. Encorajo todos os membros e discípulos a expressarem suas práticas Budistas na sociedade através de trabalhos sociais em que quaisquer de suas capacidades e habilidades podem ser desejadas e se adequem. No entanto, depois de pensar um pouco sobre esta questão, me perguntei se talvez eu estivesse tão comprometido com a ideia de Budismo Engajado que eu facilmente compreendi e ajustei em meu entendimento sobre o Budismo.

     “Ninguém discordaria que os ensinamentos internos e práticas que guiam a transformação e libertação do EU (self) são a essência do Budismo. Mas a percepção e consciência que estas práticas desenvolvem não são aplicadas ao longo do dia – em nosso trabalho, em nossas relações, e em nossas reações a crises sociais mais próximas de nós e ao redor do mundo – então ‘altruísmo’ passa a ser um eufemismo para o egoísmo, e desapego uma desculpa para a indiferença.” – Fred Epsteiner, ‘The Path of Compassion: writing on Socially Engaged Buddhism’

    Taigen Dan Leighton em seu livro ‘Faces of Compassion: Classic Bodhisattva Archetypes and Their Modern Expression’ (em tradução não oficial: ‘Faces da Compaixão: Arquétipos Clássicos de Bodhisattva e suas Expressões Modernas’), ele fala sobre como na profunda essência de ser um bodhisattva está a noção de “despertar universal ou iluminação de todos”. Mais pra frente ele ainda afirma que, “Eles existem para guiar e prover o socorro aos sofrimentos dos seres, e oferecer a todos uma abordagem à uma vida espiritual mais significativa.”

    Estas declarações em si, realmente não falam necessariamente sobre o conceito de Budismo “engajado” porque elas ainda têm em seu coração uma missão subjacente, não óbvia, implícita, de propagação. Enquanto que para mim, a ideia de Budismo “engajado” é trabalhar dentro da sociedade de uma maneira que reflita nossos ensinamentos Budistas, sem um motivo claro de proselitismo. Em outras palavras eu não acredito que seja um tipo de compensação do tipo quid pro quo; nós damos e fazemos sem qualquer expectativa.

     “Ao seguir ensinamentos sobre generosidade, paciência, conduta ética, meditação balanceada, e compreensão do que é essencial, nós podemos vir a viver também para beneficiar os outros. Assim, nós também aprendemos compaixão por nós mesmos e vemos que nós não estamos separados da pessoa que imaginávamos como afastadas de nós e como opostas às nossas esperanças e desejos. Eu e Outro se desenvolvem juntos.” – Leighton, ‘Faces of Compassion’, pg. 26

    Então em outras palavras nós seguimos ensinamentos que estão na essência do Budismo e percebemos que nós não podemos manter estes ensinamentos apenas conosco, para si, porque nós também estamos conectados a todas as outras pessoas, e como diz Leighton, “EU e Outros se desenvolvem juntos”. A ideia de que ao seguirmos o Budismo nós nos afastamos da vida é uma falta de compreensão da doutrina. A literatura Budista é cheia de homens e mulheres vivendo normalmente e praticando o Budismo com sucesso.

    “Pode ser agradável a certas pessoas viver uma vida reclusa em um lugar tranquilo longe de barulho e perturbação. Mas é certamente mais louvável e corajoso praticar o Budismo vivendo entre seus semelhantes, ajudando-os e a serviço deles. Talvez pode ser útil em alguns casos para uma pessoa viver recluso por um tempo, a fim de melhorar a sua mente e personalidade, como uma formação moral, espiritual e um treino intelectual, para se fortalecer o bastante para mais tarde voltar e ajudar os outros. Mas se alguém vive a vida inteira em solidão, pensando unicamente em sua felicidade e libertação, sem se importar com os demais seres, isto certamente não está de acordo com os ensinamentos do Buda, que são baseados em amor, compaixão e serviço aos outros.” – Walpola Rahula, ‘The Path of Compassion’, pg. 103

    Penso que existem varios escritos que auxiliam no assunto para estar seguro em afirmar que a prática na sociedade ajudando outras pessoas é realmente uma prática Budista importante e legítima.

    O capítulo 22 do Sutra de Lótus diz: “Quando vemos alguém que não recebe este sutra pela fé, você deve mostrar a ela algum outro profundo ensinamento meu, ensine-o, beneficie-o e leve-o a contentar-se. Quando você fizer tudo isto, você será capaz de retribuir os favores que lhe foram dados pelo Buda.”

    Talvez seja um exagero, mas nesta declaração “beneficie-o e leve-o a contentar-se” entendo serem instruções que dizem que independente de haver ou não alguém que toma fé no Sutra de Lótus, ou qualquer outro profundo ensinamento do Buda, nós ainda devemos considerar como podemos beneficiar as pessoas e leva-los ao contentamento. Em outras partes do Sutra de Lótus é dito que inumeráveis benefícios surgirão aquele que eleva O Sutra de Lótus, então quando nós fazemos com que alguém se contente, eles não estão nos alegrando, mas em vez disso a nossa prática e expressão do Sutra de Lótus.

    Não é importante quão grande ou pequeno o esforço pode parecer para a pessoa que está fazendo, é o fazer que realmente significa algo. No início nossos esforços podem parecer triviais, mas eles são importantes, nada mais que isso. Se nós olhamos apenas para alcançar um grande objetivo, então nós nunca deveríamos sequer ter começado. É melhor começar que sonhar. Ao definir os objetivos, muitas vezes incentiva-se a quebrar este objetivo em pedaços menores, que faz com que a tarefa pareça menor e mais viável. Cada pequeno esforço é realmente monumental quando você considera que a inércia de não se importar é superada pelo simples primeiro paço. Existem várias maneiras de se envolver, ouça sua paixão, o que te guia, o que te move. Comece por aí. Dê um tempo e não sinta que apenas porque você começou com algo e isso não diz nada ao seu coração você não pode tentar alguma outra coisa. Faça o que sente que é certo, o que acha que tem um talento especial, e faça isso com a alegria de praticar como um bodhisattva.

    *tradução livre do texto “Detachment an Excuse for Indifference?” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

  • Terra Pura

    Preocupações Mundanas

    O Sutra Maior de Amida (Daikyo) diz:

    O Buddha afirmou ao Bodhisattva Maitreya, aos devas e aos seres humanos:  “A virtude e a sabedoria dos sravakas e dos bodhisattvas na terra de Amitayus são indescritíveis. Aquela terra é sublime, bem-aventurada, serena e pura. Por que vocês não praticam diligentemente atos benévolos, não refletem sobre a naturalidade do Caminho e não percebem que ele está acima de todas as discriminações e que possui o poder de penetrar ilimitadamente? Cada um de vocês deveria realizar um grande esforço para chegar ao Caminho. Esforcem-se para escapar do samsara e nascer na Terra da Paz e da Abundância. Assim, tendo sido destruídas as causas dos cinco reinos malignos, elas cessarão naturalmente e vocês progredirão sem impedimentos na busca do Caminho. A Terra Pura é fácil de alcançar, mas muitos poucos seres chegam realmente até ela. Ela não rejeita ninguém e atrai natural e infalivelmente os seres. Por que vocês não abandonam os assuntos mundanos e empenham-se em entrar no Caminho? Se fizerem isto, obterão uma vida infinitamente longa e uma bem-aventurança ilimitada.

    “As pessoas do mundo, fracas na virtude, empenham-se na discussão sobre assuntos que não são urgentes. No meio de uma perversidade abjeta e de aflições extremas, estas pessoas trabalham arduamente para ganharem as suas vidas. Não importa se nobres ou corruptas, ricas ou pobres, jovens ou idosas, homens ou mulheres, todas estas pessoas atormentam-se com relação à riqueza e aos bens materiais. Neste assunto, não há diferença entre pessoas ricas e pobres. Ambas possuem as suas ansiedades. Suspirando desanimadas e tristes, elas acumulam pensamentos angustiantes ou, guiadas pelos seus desejos internos, correm freneticamente em todas as direções e, assim, não dispõem de tempo para um descanso em paz.

    “Por exemplo, se elas possuem terras, elas preocupam-se com estas terras. Se possuem casas, elas inquietam-se com relação a estas casas. Elas estão também ansiosas com relação aos seis animais domésticos, tais como vacas e cavalos, com relação aos empregados e empregadas, ao dinheiro, à riqueza, às roupas, à comida e à mobília. Com os seus problemas se aprofundando, elas suspiram repetidamente e a ansiedade crescente as tortura e as atemoriza. O infortúnio súbito pode acontecer a elas: todas as suas posses podem ser destruídas pelo fogo, varridas pelas inundações, saqueadas por ladrões ou capturadas por adversários ou credores. Assim, uma inquietante tristeza as aflige e perturba incessantemente os seus corações. A raiva apodera-se de suas mentes, mantendo-as em constante agitação, aumenta crescentemente a sua pressão, endurece os seus corações e nunca os deixa em paz.

    “Quando as suas vidas chegam ao fim nestas condições de agonia, as pessoas do mundo devem deixar a todos e a tudo para trás. Mesmo as pessoas nobres e ricas possuem estes tormentos. Com muita ansiedade e medo, elas sofrem com estas aflições. Afetadas por suores frios e por febres, elas experimentam dores persistentes.”

    Meditemos…

  • Budismo Tibetano

    Aprendendo a Meditar

    Tanta conversa, tanta informação, mas como é mesmo que eu faço?

    Aspiramos por verdadeiro bem-estar. Estamos constantemente buscando por equilíbrio. Ainda que, no budismo, venhamos a descobrir e entender que a nível último as coisas não tem uma existência real, que são como um sonho, caso isto não for saboreado em nossas vidas, a instrução não terá efeito. Não nos ajudará em nada.

    Buddha ensinou algo muito importante que funciona como a faculdade do paladar, que propicia o saborear das coisas. Um instrumento usado durante todo o trajeto de treinamento da mente – bhavana. Bhavana em sânscrito carrega o campo semântico de “cultivo”, “familiarização” ou “habituação” com algo. No ocidente este termo é frequentemente traduzido como “meditação.” Porém, o que é meditação e como aplicá-la?

    Imagine uma grande cascata caindo forte de uma alta montanha. Quando tentamos olhar através da água nada vemos pois encontra-se turva e espumada. Ao passo que ela vai caindo ao chão sua força e velocidade diminuem e conseguimos ver melhor através dela. Forma-se um rio que desce entre as montanhas. Na medida que este rio estreita suas margens a velocidade e força da água aumentam. Na medida que as margens se ampliam a velocidade e força diminui. Até que, em algum momento, um grande lago se forma onde encontramos a mesma água completamente imóvel, cristalina, translúcida. Podemos ver nosso próprio reflexo sobre sua superfície como também se focarmos dentro, no fundo do lago podemos perceber o que lá se encontra. Da mesma forma, ao respirarmos, relaxamos. Nos presentearmos com mais espaço em nossos corações e mentes. Tranquilidade mental surgirá e com ela uma extraordinária clareza, inteligência, uma profunda lucidez.

    Nossa mente é análoga a água neste exemplo. Quanto mais espaço temos em nosso ambiente mental menor será a força dos pensamentos, menos agitada estará nossa mente e mais conscientes estaremos de cada evento mental.

    Quando inicia-se na prática da meditação considera-se a mente como se fosse um macaco ou um cavalo selvagem. Uma das melhores e mais eficazes formas de domar um cavalo selvagem é acostumá-lo com um amplo redondel (um cercado para treinar cavalos). Gradualmente vamos diminuindo seu tamanho ao passo que o cavalo se habitua com seu novo espaço. Conforme o redondel vai diminuindo o cavalo não sente-se inseguro pois o local já é familiar, não demonstra nenhuma ameaça. Com gentileza, vamos tocando no cavalo, vamos o acostumando com nossa presença até que poderemos, então, dirigí-lo.

    Sentamos em silêncio e eretos em uma cadeira, banco ou no chão. Importante lembrar que qualidade é melhor que quantidade. A qualidade de nossa  meditação é muito mais benéfica do que a quantidade de tempo que desempenhamos. Podemos parar por alguns minutos, por 15,  24 minutos ou mais. Há três qualidades essenciais para se desenvolver na meditação: relaxamento, clareza e estabilidade. Relaxamos profundamente nosso corpo, nossa energia e mente. Cultivamos o equilíbrio de uma mente lúcida porém profundamente relaxada. A continuidade surgida através desta habituação é o aspecto da estabilidade.

    Um dos principais objetos de foco na meditação é a respiração. Buddha ofereceu esta instrução em diversos de seus discursos no cânone mahayana. Nesta tradição, as várias técnicas de meditação, cultivo, familiarização ou habituação  podem ser sumarizadas em três qualidades principais, que em tibetano chamam-se de drenpa (Plena Atenção, smrti em sânscrito), shejin (vigilância, samprajana em sânscrito) e bag yô (prudência, apramada em sânscrito).

    De forma geral, o que geralmente lemos no inglês “mindfulness” ou “atenção plena” nas traduções de textos budistas a partir da língua original tibetana é a tradução de um destes três termos.  Daí, a dificuldade em diferenciar estas três qualidades mentais de importante funcionalidade no treinamento da mente e na meditação.

    Drenpa é como um porteiro de hotel. É ele que decide quem e o que vai entrar ou não vai passar pela porta dos sentidos físicos e da mente. É não esquecer do que deve ser aceito, adotado e cultivado e do que deve ser descartado, rejeitado ou abandonado. Drenpa é definida como o aspecto da mente que funciona sustentando, retendo ou mantendo a mente a seu objeto, não deixando com que se esqueça ou se desvie de seu foco. Protege e nutre a permanência e imobilidade da mente.

    Shejin é como um supervisor de um hotel que esta ciente, observa, examina e monitora as três portas (corpo, fala e mente) focalizadas pelo porteiro. Funciona como um aspecto de vigilância ou prontidão alerta no qual a mente tem conhecimento ou reconhece o que esta fazendo.

    Bag yô é como o gerente de um hotel que dirige o supervisor que vigia o trabalho do porteiro. É quem gerencia as regras do hotel, dá o direcionamento e trabalha para mantê-lo na mesma direção. É uma qualidade mental de consciência, cuidado e prudência para com a porta focalizada pelo porteiro da‘plena atenção’ (drenpa) e supervisionada pelo supervisor da ‘vigilância’(shejin). A ‘prudência’ (bag yô) é uma qualidade tanto realizadora como protetora. É aquela que engaja Drenpa e Shejin em uma certa direção positiva e a protege de engajar-se em atitudes negativas.

    Além do mais, quando aprofundamos a relação entre drenpa e shejin, o primeiro é dito ser tal como uma corda que segura, mantém ou sustenta uma ovelha em seu lugar ao passo que “Shejin” é tal como um pastor que assiste, observa e vigia suas ovelhas para garantir que elas não se soltem e fujam. Drenpa retém a mente em seu lugar escolhido enquanto que “Shejin” encontra-se alerta vigiando a situação para garantir que “Drenpa” esteja operando. Quando “Drenpa” enfraquece ou se distrai e a mente então vagueia, “Shejin” toma conhecimento disto e informa a mente para restabelecer ou reafirmar “Drenpa”.

    No contexto da meditação em silêncio focalizando a respiração, estes funcionam da seguinte forma:

    Quando se dirige a atenção calmamente à respiração, surge uma familiaridade cada vez maior com os movimentos da respiração presentes. O praticante começa a se familiarizar com a própria mente através da experiência de respirar, onde as ruminações da mente já não são tão atrativas. O primeiro aspecto da qualidade de “Drenpa” se dá quando trazemos nossa mente de volta a respiração. Através da qualidade de “Shejin”, nós tomamos conhecimento deste direcionamento no momento que o fazemos. “Shejin” toma conhecimento quando o cavalo da mente sai em disparada e informa “Drenpa” para trazê-lo de volta. Quando se dirige a atenção gentilmente à respiração, surge uma familiaridade experiencial cada vez maior com os movimentos da inspiração e expiração. O praticante começa a se familiarizar com esta experiência. Este é o aspecto de “familiaridade” da atenção plena.

    O segundo aspecto de “Drenpa” é ‘recordar-se’, ‘relembrar-se’. Este aspecto significa que nós estamos tão estáveis e firmes em “Drenpa” a ponto de termos constante conhecimento do que estamos e do que devemos fazer no momento presente. Recordamos constantemente de manter nossa mente a respiração. No início de nossa meditação experienciamos o movimento de nossa mente selvagem. Na medida que desenvolvemos “Drenpa”, nos familiarizando com a respiração e nos recordando de retornar a ela, aos poucos nos estabelecemos em um estado contínuo de não-esquecimento. Este apresenta-se, então, com mais energia para permanecer onde esta (drenpa) e para tomar conhecimento do que esta fazendo (Shejin). Esta estabilidade provê um continuum que torna-se a fundação para o desenvolvimento de um tipo de potencialidade ou habilidade. Este é o aspecto recordatório da plena atenção.

    O terceiro aspecto de “Drenpa” é exatamente este potencial, uma força que se manifesta como não-distração ou não esquecimento. Com o não esquecimento  colocamos nossa mente na respiração e lá ela permanece. O continuum desta estabilidade irá se sobressair sobre qualquer possível distração ou ruminação mental. A mente opera através dos sentidos, expressa-se através de pensamentos, mas não mais é arrastada em suas próprias criações. O cavalo deixa de pular e dar coices, permacendo tranquilo. Desta forma, experienciamos a natural qualidade imóvel e estável de nossa mente. Isso é força, o terceiro aspecto da atenção plena.

    Quando, então, desenvolvemos os elementos da ‘familiaridade’, ‘recordação’ e ‘não esquecimento’, podemos dizer que plena atenção esta presente. Não mais distraídos, conseguimos ver com mais clareza as coisas. Esta lucidez é capaz de perceber os fenômenos diretamente, em sua própria natureza, qualidade, potenciais e operação. Uma vez que a qualidade natural de equilíbrio e imobilidade da mente esteja  presente, surge a clareza da mente. Esta lucidez discerne a realidade em perspectiva e retrospectiva, como também reconhece sua natureza básica. Este é o aspecto de lucidez da plena atenção.

    O cultivo e habituação de “Drenpa”, “Shejin” e “bag yô”faz surgir um ambiente mental mais amplo, e na medida que damos continuidade nesta familiarização este espaço vai tornando-se cada vez maior. Plena “Drenpa” ocorre quando, ao invés de percebermos a respiração, nos tornamos a respiração. A sensação de separatividade entre nossa mente e a respiração começa a dissolver-se. Neste estágio não há mais nada a sustentar, a manter ou agarrar-se. Repousamos na naturalidade e espontaneidade pura da mente, sua verdadeira natureza. Permanecemos em um retiro interior espaçoso, livre e incrivelmente repleto de potenciais desimpedidos.

    Aqui, tal como transmitida na tradição Mahamudra da Linhagem Drukpa, nada há mais para apreender mas para se revelar por si só. Bhavana torna-se abhavana, ou seja, meditar tornar-se não-meditar. Ou, como o grande siddha indiano Maitripa propôs, que a verdadeira meditação é aquela dotada de asmrti, ou seja, a não atenção plena, o próprio descanço revitalizador e auto-conhecedor de sua própria natureza. Surge um grande lago translúcido onde qualquer onda que manifeste-se em sua superfície não mais perturba seu interior mas adorna sua capacidade de expressão.

    Lama Jigme Lhawang
    Comunidade Budista Drukpa Brasil
    info@drukpabrasil.org
    www.drukpabrasil.org

  • Nichiren

    Bonnô soku bodai: desejos mundanos são iluminação?

    Bonnô Soku Bodai
    烦 悩 即 菩 提

    Os caracteres chineses, lidos em japonês como “bonnô” traduzem a palavra em sânscrito “klesha“, que significa: aflição (dor pelo contato, pela separação ou pelo egoísmo), ilusão (julgamento errado sobre a natureza de um objeto), confusão (mistura de causas e condições obscuras e causas e condições iluminadas) e agitação (incapacidade de fixar a concentração nas causas e nas condições libertadoras ou de libertar-se das consequências das causas e das condições aprisionadoras). A tradução chinesa aqui é um desses casos em que é possível definir limites muito relevantes para o significado do termo original sem alterar o espírito dos caracteres adequados.  O significado budista creditado aos dois kanji é, para o primeiro, “dolorosa ansiedade para chegar” e para o segundo, “dolorosa separação” ou “a certeza de não poder alcançar“. O hiato deixado entre a ansiedade dolorosa de chegar e a dor melancólica de partir é, em última análise, uma metáfora para “vida”. É uma questão – para nós budistas – que pode ser preenchida através do espírito de investigação e da prática do Caminho do Meio.

    O falecido Tamura Yoshirô (1921-1989), um eminente sacerdote da Nichiren Shu, opositor da leitura ultranacionalista de Nichiren e ilustre acadêmico, investiu a maior parte de sua vida em estudar a doutrina que Shimaji Daito havia exposto, chamada de “iluminação original”. Tamura, em um escrito em 1983 explicou essa filosofia em duas etapas diferentes.

    Primeiro concebeu a ideia da não-dualidade como a mais alta expressão do budismo Mahayana: todas as vidas individuais, vazias e sem consistência própria são percebidas e concebidas, somente se levando em conta a interdependência de todos os fenômenos. Esta posição filosófica nega qualquer diferença ontológica entre Buda e os mortais comuns, entre Terra Pura e existência mundana, entre o alter e o ego e assim por diante. Colapsam então todos os conceitos relativos às convencionais distinções do mundo fenomenal.

    Em seguida explicou que a compreensão da não-dualidade nos transporta novamente ao mundo fenomenal, ratificando suas distinções relativas como expressões da realidade não dual da iluminação original.

    Esta segunda razão, é geralmente expressada pelo famoso termo Mahayana “bonnô soku bodai” (paixões terrenas são por si só iluminação) ou “shoji soku nehan” (nascimento e morte é precisamente o nirvana).

    O princípio em questão exige esclarecimento para que se evite a frouxidão moral advinda apenas da compreensão superficial de seu significado: esta igualdade não é no nível dos fenômenos, mas no nível da essência. Uma formulação mais clara do princípio exige ser expressa nesta versão: “na sua essência os desejos mundanos são idênticos à iluminação“. Somente quando se realiza a iluminação, percebe-se que “bonnô” e “bodai” são as mesmas coisas.

    Quando se atinge a iluminação, a identificação dos desejos como iluminação se torna um fato. Somente na perspectiva do Buda as diferenças desaparecem e tudo se torna igual. Essa percepção só pode ser obtida através da prática budista.

    Concluindo, “bonnô soku bodai” pode ser resumido da seguinte forma:

    Para as pessoas comuns:
    no nível essencial: ilusões = iluminação
    no nível fenomenal: ilusões ≠ iluminação

    Para um Buda:
    no nível essencial: iluminação = ilusões
    no nível fenomenal: ilusões = iluminação

    Diferentes escolas qualificam e quantificam os “bonnô”, diferenciando uns dos outros mas, independentemente de distinção especial, na frase “bonnô soku bodai”, existem algumas características que são úteis para premissas linguísticas: o idioma chinês, assim como o japonês, usam partículas sintáticas que são destinadas a qualificar gênero e número dos objetos em discussão.

    Por exemplo, usamos uma partícula “satsu 册” para livros e, nessa perspectiva, “sansatsu 三册” significa três livros. Assim se expressa os conceitos existentes de pluralidade (três) e aqueles de interesse específico (livros). É interessante notar que nenhuma partícula – para o gênero ou número – expressem a qualificação ou a quantificação da palavra “bonnô” em “bonnô soku bodai“. A frase recebe então um tom absolutista.

    Tem a mesma sorte “bodai” 菩提 com o significado implícito de “incorporação” do “bonnô” 烦悩. Isso quer dizer que para satisfazer a equação “desejos mundanos = iluminação” se deve assumir todos os tipos de todos os bonnô. Colocar os bonnô à prova e viver de acordo com Caminho Óctuplo e de acordo com o Sutra do Lótus é a condição necessária para obtenção de “bodai” (iluminação), assim como, um bronzeado exige a exposição total do corpo à luz solar e um treino muscular harmonioso e global desenvolve um físico saudável, forte e equilibrado.

    Uma discussão semelhante também se aplica à expressão “shôji soku nehan”, com especial atenção reservada para o fato de a tradução literal de shôji , “vida-morte” (samsara), não vem acompanhada das palavras “sofrimento de…” que muitas vezes estão presentes.

    Em outras palavras o nosso compromisso de melhorar, em perseguir a nossa emancipação pessoal, não pode ser esporádico ou descontínuo ao longo do tempo ou em situações específicas. É como dizer que um policial ocasionalmente rouba alguma coisa ou extorque alguém. Como devemos julgá-lo? Policial ou ladrão? Certamente os tribunais ainda não formularam uma definição híbrida. É certamente mais plausível para nós pensar que ele iria acabar ser fichado como “totalmente criminoso” e não como “semi-policial”.

    Na sociedade, também pode acontecer de tais comportamentos antiéticos serem tolerados até a descoberta da culpa, até que a tolerância se esgote ou até que a complacência dos envolvidos acabe, mas, o Dharma imediatamente (soku)  imprime a marca (causa interna, nyo-ze in 如是因) dos pensamentos (i 意), das palavras (ku 口) e das ações (shin 身) e seus frutos intrínsecos (nyo ze ka 如是果) que por sua vez se tornarão efeitos (nyo ze ho 如是報).

    T’ient’ai (538-597) diz em Grande Concentração e Discernimento, “A ignorância e a poeira dos desejos são iluminação, e os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana”. Em Registros dos Ensinos Orais, Nichiren afirma:. “A ideia de ir superando gradualmente os desejos mundanos não é o sentido último do capítulo ‘A Duração da Vida Eterna’ [do Sutra do Lótus]. Você deve compreender que o sentido último deste capítulo é que os mortais comuns, assim como eles estão em seu estado natural, são Budas” e,” Hoje, quando Nichiren e seus seguidores recitam as palavras Namu Myoho Rengue Kyo, eles estão queimando a lenha desejos mundanos, alimentando o fogo da sabedoria da iluminação.”

  • Zen

    Irmão vento, irmão sol, irmão Buddha

    Por ocasião do Natal, compartilho algumas reflexões muito inspiradoras do mestre zen Thich Nhat Hanh colhidas de seu “Vivendo Buda, Vivendo Cristo” (editora Rocco) sobre a urgência de todos nós sermos tolerantes e abertos uns com os outros, seja com membros de nossa própria sangha, seja com os de outras tradições. Que estes breves ensinamentos nos ajudem a diminuir as distâncias que se sustentam apenas por conta de nossos preconceitos e sectarismo. Boa leitura!

    “Quando acreditamos que nossa fé é a única que encerra a verdade, teremos certamente a violência e o sofrimento como resultado.”

    “Não pense que o conhecimento que você atualmente possui é imutável, a verdade absoluta. Evite ser intolerante e se fixar em suas opiniões atuais. Aprenda a praticar o desapego com relação às concepções a fim de estar aberto ao ponto de vista de terceiros. No meu entender, esta é a prática mais fundamental da paz.”

    “Há muitos anos, reconheci que, compreendendo melhor nossa tradição, também desenvolvemos um maior respeito, consideração e compreensão pela dos outros.”

    “Temos de acreditar que, ao nos envolvermos num diálogo com a outra pessoa, temos a possibilidade de realizar uma mudança dentro de nós mesmos, que podemos nos tornar mais profundos. O diálogo não é uma forma de assimilação no sentido de que um lado se expande e incorpora o outro no seu ‘eu’. O diálogo precisa ser praticado com base no ‘não-eu’. Temos de permitir que o que é bom, belo e significativo na tradição do outro nos transforme.”

    “Nenhuma tradição isolada monopoliza a verdade. Precisamos reunir os melhores valores de todas as tradições e trabalhar em conjunto para eliminar as tensões existentes entre elas a fim de dar uma chance à paz. (…) Para que um futuro seja possível, aconselho-os a estudar e por em prática os melhores valores da sua tradição religiosa e compartilhá-los com os jovens de uma forma que eles possam compreender. Se meditarmos juntos como uma família, uma comunidade, uma cidade e uma nação, seremos capazes de identificar as causas do nosso sofrimento e descobrir uma saída.”

    “Enquanto não houver paz entre as religiões, não poderá haver paz no mundo.”

    Gasshō

    Imagem: detalhe de “Christ and Buddha”, de Paul Ranson, 1880

    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    Oceano – Uma Parábola

    “Numa noite um navio parte de uma ilha tropical. Depois de muitas horas em alto mar, um marinheiro caiu pela amurada mergulhando na água. Ninguém no navio notou que faltava um homem e continuaram navegando em sua rota. A água estava gélida e as ondas estavam agitadas. Estava assustadoramente escuro. O marinheiro se sacudia freneticamente para se manter acima da água.

    Ele então começou a nadar em direção a uma ilha que ele viu antes de cair. Tinha perdido totalmente seu senso de direção e não estava seguro de que estava indo para a direção correta. Embora fosse um bom nadador, seus braços e pernas logo começaram a enfraquecer, seus pulmões estavam cansados e ofegava por ar. O marinheiro se sentia perdido e totalmente sozinho no meio do oceano. Seu fim parecia estar próximo. Sendo tomado pelo desespero, suas energias se esvaíam, como a areia de uma ampulheta e começou a engasgar com a água que batia em seu rosto, sentindo seu corpo sendo sugado para as profundezas.

    Neste instante, ele ouviu uma voz das profundezas do oceano que dizia: “Livre-se! Livre-se de seu esforço! Está tudo certo, você está bem! Namo Amida Butsu!”

    O marinheiro ouvi a voz e parou com seu esforço inútil de tentar nadar por suas próprias forças. Ao invés disso, virou de costas, com os cotovelos abertos e as mãos atrás da nuca, como se estivesse deitado em seu gramado numa confortável tarde de verão. Ele estava surpreso por ver que o oceano o segurava, o suportava e o levava a qualquer parte, sem nenhum esforço de sua parte!

    Agora, a água parecia quente e as ondas estavam calmas, pois sem nadar contra elas ele apenas subia e descia com seu passar. O oceano que antes parecia querer sugá-lo agora cuidava dele e ele estava agradecido e feliz em saber que tudo estava certo! Compreendeu, então, que tudo sempre esteve certo e que ele sempre esteve bem! Ele apenas não sabia disso. O oceano não mudou em nada. Mas alterando sua maneira de pensar, a relação do marinheiro com o oceano foi que mudou. O mar transformou-se de um inimigo perigoso e assustador, num amigo que abraça e apoia.

    O marinheiro sabia que não podia boiar para sempre no meio do oceano. Se não tivesse nenhum outra obrigação ou responsabilidade, ele poderia ficar ali e desfrutar desta calma infinita. Mas, a imagem de sua mulher e filhos pequenos esperando em casa ansiosamente por sua volta o inspirou a tentar alcançar a costa.

    Ele começou a nadar como antes, mas com uma importante diferença. Agora, ele confia no oceano como um ente querido que protege e consola. Ele sabe que toda vez que se cansar, pode deixar-se levar, pois o oceano o apoiará. Mais importante, ele agora sabe que enquanto nadar, será o poder do oceano e não o seu próprio que o manterá acima da água. Sim, ele move seus cotovelos para nadar, mas aprendeu que pode boiar sem se esforçar.

    Agora que se sente seguro nos braços do mar, o marinheiro pode pensar em como achar uma ilha. Estuda a posição das estrelas e da lua, bem como a direção dos ventos. Usando seu treinamento como marinheiro, este imagina onde estaria a ilha mais próxima e se move em direção a ela. O nadador não tem nenhuma garantia de que escolhera a direção correta, mas agora tem certeza de que o oceano não o deixará se afogar. Eventualmente ele encontrará a ilha. Em retribuição por esta nova confiança e alegria, o marinheiro escuta a si mesmo murmurar: “Namo Amida Butsu! Namo Amida Butsu! Namo Amida Butsu….!”

    (Extraído do livro “Ocean – An Introduction to Jodo Shinshu Buddhism in America” – Rev. Kenneth K. Tanaka (Wisdom Ocean Publication) – Tradução livre do Rev.  Mauricio Hondaku)

  • Terra Pura

    O Que Acontece Com Quem Morre?

    Tem gente que responde que quando morremos viramos lixo. É um pensamento um tanto quanto materialista, não é?  Na realidade, não seremos exatamente lixo e sim tornar-nos-emos cinzas. Ou seja, a verdade é que seremos cinza e o termo lixo é uma concepção relativa. Pois o lixo refere-se àquilo que não serve mais ou àquilo que se tornou descartável. Se o fim do ser humano é lixo, a vida seria o caminho para tornar-se lixo.

    Seja como for, por que nós perguntamos: o que acontece com quem morre? Provavelmente isso nasce da insegurança de não saber de onde viemos e para onde vamos, da dúvida da nossa própria presença no presente. Ou seja, quando indagamos de onde viemos e para onde iremos, na verdade estamos questionando nossa própria existência atual.

    Não conseguindo sequer entendermos nossa existência presente… Essa dúvida faz surgir a interrogação sobre o pós morte: O que será que acontecerá quando eu morrer?

    Segundo o conceito de transmigração (vidas sucessivas), tradição da Índia antiga, explica-se a crença de existência de alma imortal; como um ciclo de renascimentos. Quer dizer, com votos de um bom renascimento futuro, agüente o sofrimento atual e acumule méritos para a próxima vida.

    No âmbito do Japão acredita-se que o falecido torna-se espírito. E que quem está vivo deve cumprir determinado rito memorial, rito para repouso das almas e cerimônias ritualísticas com o receio de que o falecido não rogue praga e nem invoque calamidades. Esse pensar baseia-se na crença de que todo o bem estar, o bom destino e a boa sorte deste mundo está sob controle dos espíritos.

    Tanto a idéia de transmigração da Índia, quanto à crença em espíritos do Japão, ambos comprometem a percepção da nossa própria ignorância que viemos edificando e que acaba resultando em contradições, em fraudes e erros da atualidade.

    Em contrapartida o ensinamento do Budismo Shin Terra Pura prega que o ser humano é um ser comum carregado de paixões mundanas, que vive no corpo impermanente e que sempre responderá pelo passado; ciente do futuro questiona o presente, sem mascarar a verdade.

    Indagar: – o que acontece com quem morreu, sem nem avaliar o presente que estamos vivendo significa estarmos apenas sentindo-nos perdidos na rota sem saída e permanecermos iludidos num mundo de enigmas.

     

    Rev. Prof. Bunsho Obata

    Reitor da Universidade Dobo (Kyoto, Japão)

  • Nichiren

    Resolução de ano novo como prática

    Tipicamente no Ocidente, e talvez em outros lugares, é como uma tradição fazer resoluções de ano novo. Mas é muito simples fazer resoluções como uma maneira extravagante de dar boas vindas ao novo ano, é quase como uma brincadeira com nós mesmos para ver se conseguimos mudar nossos hábitos para melhor, quando na verdade sabemos que não temos a foça de vontade necessária para realizar estas mudanças sozinhos, diariamente.

    Ao invés de simplesmente dizer, “A partir deste momento Eu vou parar de fumar, ou de comer coisas que me fazem mal, ou ser tão impaciente e estressado quando estou dirigindo”. Nós dizemos, “A partir do ano que vem, ou da próxima semana, ou a partir de amanhã eu vou parar de fazer aquilo e aquela coisa, começar a fazer aquilo ou aquela coisa.

    É quase como se nós quiséssemos nos dar uma chance ou nos fazer um agrado. É realmente um tipo de jogo que fazemos com nós mesmos e com o calendário. No final, nós realmente não levamos estas resoluções muito a sério.

    Nos ensinamentos do Buda, entretanto, a situação é bem diferente. Resoluções ou votos são uma parte integral do caminho do Bodhisattva. Na verdade, sem fazer os votos ou resoluções para o bem de todos os seres, não se pode ser considerado um bodhisattva verdadeiro. Muitos de vocês já estão familiarizados com estes votos, por exemplo, certo? (veja aqui)

    Os quatro grandes votos feitos por todos os Bodhisattvas são: “(1) Os seres são inúmeráveis, faço voto de salvá-los todos. (2) Nossos desejos são inesgotáveis, faço voto de extingui-los todos. (3) Os ensinamentos do Buda são imensuráveis, faço voto de estuda-los todos. (4) O caminho do Buda é insuperável, faço voto de atingir o sublime caminho.

    Além destes quatro grandes votos, cada bodhisattva também faz seus votos particulares que expressam suas resoluções e práticas individuais. Na carta Kaimoku Sho (A Abertura dos Olhos), Nichiren Shonin fez um grande voto: “Eu nunca quebrarei meu voto de que hei de me tornar um pilar do Japão, eu me tornarei os olhos do Japão, eu me tornarei a grande embarcação do Japão”. Esta passagem tem sido algumas vezes tomada como uma expressão de megalomania e delírios de grandeza. No entanto, quando lido corretamente, podemos perceber que, muito longe de ser megalomania, Nichiren na verdade está expressando seu voto particular de um bodhisattva que é estar perfeitamente disposto a dar sua vida às causas e necessidades do contexto histórico em que ele havia nascido.

    O que Nichiren está expressando é a sua grande compaixão e senso de responsabilidade para salvar o povo do Japão. Este é o espírito que também devemos incorporar, a vontade de fazer uma resolução que expresse nosso próprio senso de responsabilidade solidária em nosso contexto histórico, social e cultural em que vivemos.

    Voltemos às nossas resoluções de ano novo. Nossa prática do Odaimoku (Namu MyoHo RenGe Kyo) é por si só um voto ou resolução, e também o caminho que nos permite cumprir todas as nossas resoluções e votos. Namu MyoHo RenGe Kyo, entre inúmeras outras coisas, significa “Eu me dedico e me refúgio ao Maravilhoso Dharma do Sutra da Flor de Lótus”. Esta resolução é ainda mais fundamental do que os quatro grandes votos.

    Este é o voto-raiz que está plantado na verdadeira causa fundamentada na natureza búdica. Os quatro grandes votos são o tronco que brota a partir deste fundamento, e os votos particulares, como o de Nichiren, são os ramos. As folhas, as flores e as frutas são o belo resultado destes votos que se revelam em nossas vidas.

    Através deste voto-raiz, nós podemos nos fortalecer para comprir ambos os quatro grandes votos e os nossos votos particulares, além das resoluções que fazemos de acordo com nossos circunstâncias e contextos particulares.

    Existe algo ainda mais maravilhoso, o Odaimoku não é apenas nosso voto para se dedicar ao maravilhoso Dharma, ele é também o voto do Buda Eterno que dedica o Maravilhoso Dharma para nós. No Odaimoku, nosso voto e o voto do Buda se convergem, se encontram, em um único momento de Namu MyoHo RenGe Kyo. Isto significa que cada vez que recitamos Namu MyoHo RenGe Kyo nós estamos começando do zero. Cada vez que recitamos, existe um encontro entre o nosso próprio momento limitado de resoluções indeterminadas e o momento atemporal de infinitos votos do Buda Eterno. Este encontro de tempo limitado e o infinito atemporal é muito mais importante do que o início de um ano novo, de uma nova década de um século ou até mesmo de um milênio.

    *tradução livre do texto “Resolution as practice” do rev. da Nichiren Shu, Ryuei Shonin

    Gasshô.

  • Budismo Tibetano

    Equilíbrio Emocional

    A Busca por Equilíbrio na Vida

    A vida é repleta de desafios, com seus altos e baixos e infindáveis aprendizados. O que e quem somos surge a partir da relação que temos com o mundo e os seres ao nosso redor. Somos seres sensíveis. É exatamente por esta razão que muitas vezes sentimos a necessidade de nos proteger através de máscaras, armaduras e fugas. Porém, ser sensível não é sinônimo de desequilíbrio. Pelo contrário, a sensibilidade indica uma qualidade, um potencial que percebe não só as coisas grosseiras e superficiais da vida como também suas sutilezas. Ser sensível, dotado de sentimentos e emoções não necessariamente significa ser  condicionado e desequilibrado. Pode indicar também uma qualidade sutil, reveladora de que somos seres humanos dotados de faculdades extraordinárias que possibilitam perceber e sentir a vida, os outros e a nós próprios a partir de diversos ângulos psicofísicos.

    Entretanto, qual é a causa desta sensação de mal-estar, apertos no peito, pressões no estômago, tensões musculares e dores de cabeça quando nos encontramos emocionalmente perturbados?

    A primeira nobre verdade que Buddha ensinou após sua iluminação é a verdade que fala da presença deste mal-estar em nossas vidas, uma constante insatisfatoriedade, descontentamento e sofrimento. Isto Buddha chamou de dukha. Dukha provém da raiz sânscrita duk que se refere a uma carroça com o eixo de suas rodas descentralizado, danificado. Independente da direção que dirigirmos nossa carroça, ela nunca vai para onde esperamos que ela vá. Estamos constantemente insatisfeitos. As coisas nunca funcionam exatamente do jeito que queremos.

    Nossa aflição não provém do fato de perceber e sentir as coisas per se mas de caírmos dentro de uma experiência que parece ser sólida, que concebemos ser real. Acreditamos que aquilo que vemos lá fora é verdadeiro independente de nós, separado de nossa própria experiência. Disto somos arrastados sem controle por intensas tempestades emocionais, medos e expectativas. Esperamos não nos separar daquilo que nos traz bem-estar e temos medo de encontrar tudo aquilo que ameaça nosso equilíbrio, nossos apegos, indentidades e proteções de um ego mentalmente construído, ilusório e destituído de qualquer substancialidade. Deciframos erroneamente o universo e dizemos que ele nos engana.

    Quando compreendemos que as situações, pessoas e coisas não tem uma existência independente, mas que são uma experiência pessoal, podemos vir a reconhecer que tais experiências são dotadas da natureza insubstancial da mente, são nada mais do que projeções mentais. Passamos a sentir que as coisas não estão lá por si e em si mas surgem inseparáveis de nossas próprias mentes. Magicamente, as mesmas coisas que antes nos pertubavam começam a perder força e poder de influência sobre nós. Um equilíbrio natural começa a surgir, onde os altos e baixos emocionais provindos do apego e da aversão não são mais tão intensos e frequentes.

    Ao purificarmos nossa visão e experiência de mundo encontramos paz, uma imparcialidade nascida de uma profunda lucidez, que em tibetano se chama tang.nyon (upeksha em sânscrito). Tang neste contexto significa abandonar a percepção equivocada da realidade que produz as perturbações do apego e da aversão, e todos os desequilíbrios emocionais; nyon é o estado equânime, tranqüilo, que não oscila. Essencialmente é a equanimidade surgida através do discernimento sobre a verdadeira natureza das coisas. É entender melhor a si e aos outros. É compreender profundamente o movimento natural da vida, do universo, sua natureza e operação.

    Nos momentos difíceis, de perturbação e desequilíbrio dê a você o presente de uma profunda e revigorante respiração. Perceba, então, que seu corpo, sua energia e sua mente agradecem. Respire dando espaço para os sentimentos, emoções e movimentos da mente não se sentirem apertados, pressionados, suprimidos ou bloqueados. Respeite o que quer que se expresse em seu coração. Observe. Acolha. Gentilmente tente entender o que tais sentimentos estão dizendo, apontando, lhe revelando. Flua junto com a emoção em meio a este ambiente mental espaçoso, lúcido e amoroso. Transforme o próprio movimento da mente em caminho espiritual.

    Desta forma, liberamos o que quer que surja em sua própria natureza, no momento de seu surgimento ou durante o desfrute de sua expressão. A familiarização, desenvolvimento e fruição desta experiência é o que chamamos em minha tradição, a Linhagem Drukpa, de Ronyom em tibetano que significa “equalização do sabor” ou Rotchik “um só sabor” onde toda e qualquer experiência não mais se difere quando saboreada em sua natureza única, livre de toda e qualquer elaboração mental.

    O equilíbrio emocional naturalmente estará presente quando fundado em um corpo físico, energético e mental saudáveis. Cuide de seu corpo, de sua energia e de sua mente. Aprenda com eles, com sua linguagem e inteligências próprias. Faça exercícios físicos. Nutra e equilibre sua energia através de um olhar apreciativo e bondoso para com a vida e a humanidade. Resignifique e reorganize sua vida através de um profundo bom-senso nascido da reflexão e da meditação. Aprenda a usufruir das qualidades naturais de sua sensibilidade humana para desenvolver uma profunda familiarização com seu universo interior e com a verdadeira natureza de todas as coisas. A tansição cíclica de nossas experiência insatisfatórias e emocionais é o que chama-se em sânscrito de samsara ou existência cíclica. Samsara não é uma condição fundamental da existência e da natureza das coisas, mas um universo mental, um jeito de ver e experienciar as coisas.

    Lama Jigme Lhawang
    Comunidade Budista Drukpa Brasil
    info@drukpabrasil.org
    www.drukpabrasil.org

  • Zen

    Não deixe sua vida passar em vão

    謹白參玄人 “Eu, respeitosamente, incito os que estudam o caminho:
    光陰莫虚度 não passem seus dias e noites em vão.” – Sandōkai

    O mestre Zen Shunryū Suzuki-rōshi morreu há quarenta e dois anos, precisamente em 4 de dezembro de 1971. O mestre estava com câncer, mas em um vídeo gravado naquela época ele quase não levanta suspeitas quanto ao seu estado de saúde porque o tempo todo o mestre fala como “um menino que acabou de ganhar uma bola de presente de Natal”. Naquela ocasião, o mestre comentava o “Sandōkai”, um dos textos clássicos da escola Sōtō Zen, de autoria do grande mestre Sekitō Kisen (700-790), 8º patriarca do Zen na China. Como nossa homenagem a este homem extraordinário, segue um trecho deste seu comentário. (tradução livre de “Branching Streams flow in the Darkness”, Shunryū Suzuki, University of California Press, Ltd.)

    “Nosso esforço no Zen é observar as coisas ‘como ela é’. Embora falemos desta maneira, não estamos necessariamente observando as coisas ‘como ela é’. Nós dizemos, ‘Aqui está meu amigo, lá está a montanha e acima está a lua’. Mas seu amigo não é apenas seu amigo, a montanha não é apenas a montanha e a lua não é apenas a lua. Se pensarmos ‘Eu estou aqui e a montanha está lá’, esta é uma forma dualista de observar as coisas. Para ir a San Francisco, temos que atravessar as montanhas Tassajara. Esta é nossa compreensão habitual. Mas este não é o caminho buddhista de observar as coisas. Encontramos a montanha ou a lua ou nosso amigo ou San Francisco dentro de nós mesmos. Bem aqui. Esta é a grande mente na qual tudo existe.” (…)

    “Como buddhistas, nós não comemos um determinado vegetal apenas para obter uma determinada qualidade nutritiva especial, ou o escolhemos porque ele é yin ou yang, ácido ou alcalino. Simplesmente comer a comida é nossa prática. Nós não comemos apenas para nosso sustento. Como recitamos por ocasião das refeições: ‘Para praticar nosso Caminho, comemos esta comida’. Esta é a forma como a grande mente está incluída na nossa prática. Pensar ‘isto é apenas um vegetal’ não é o nosso entendimento. Devemos tratar as coisas como parte de nós mesmos, dentro de nossa prática e dentro da grande mente. Mente pequena é aquela que está limitada aos desejos ou a alguma proteção emocional específica ou à discriminação entre bom e mau. Assim, em grande parte, mesmo que pensemos que observamos as coisas ‘como ela é’, na verdade, não o fazemos. Por quê? Por causa de nossa discriminação ou de nossos desejos. O caminho buddhista é tentarmos arduamente abandonar esse tipo de discriminação emocional entre bom e mau, abandonar nossos preconceitos e ver as coisas ‘como ela é’.

    Quando eu digo ver as coisas ‘como ela é’ o que eu quero dizer é praticar arduamente com nossos desejos – não nos livrarmos dos desejos, mas levá-los em conta. Se você tiver um computador, você deve digitar todos os dados: este tanto de desejo, este tanto de alimento, este tipo de cor, esta quantidade de peso. Devemos incluir os nossos desejos, como um dos muitos fatores, a fim de ver as coisas ‘como ela é’. Nós nem sempre refletimos sobre nossos desejos. Sem parar para refletir sobre nosso julgamento egoísta, dizemos ‘Ele é bom’ ou ‘Ele é mau’. Mas alguém que é mau para mim não é necessariamente sempre mau. Para alguém mais, pode ser uma boa pessoa. Refletindo desta forma podemos ver as coisas ‘como ela é’. Isto é mente buda.” Ouça do próprio mestre.

    Gasshō

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    Organização: Rodrigo Daien