Zen consumista ou zen shūgyō? – 5ª parte

Zen consumista ou zen shūgyō? – 5ª parte


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(continuação da 4ª parte)

Por que interessa tanto esta reflexão sobre zen consumista (“zen por quilo”) versus zen shūgyō? Seria por que um é “superior” ao outro? Será que temos o direito de julgar a prática dos outros?

Não e não. Mas, é importante que tenhamos clareza sobre o que estamos fazendo. É importante que não estejamos nos enganando, fazendo um tipo de prática acreditando que estamos realizando outro.

Agora no Ocidente estão surgindo muitas variedades de prática, todas sendo chamadas de “zen” ou de “budismo”. De um lado, isto é bom e interessante, pois pode representar um desenvolvimento do pensamento e prática do Zen. Acho importantes estes experimentos com novas modalidades de prática e experiências, utilizando-se tecnologias modernas, inclusive.

Mas, por outro lado, cria-se um cenário bastante confuso para o iniciante. Temos o “budismo tradicional” das várias escolas: Theravada, Terra Pura, Sōtō Zen, Rinzai Zen, Zen Vietnamita, Zen Coreano, etc., etc. Depois temos “budismo sem mestre”, “budismo sem crenças”, “budismo secular”, entre outros.

Mais complicado ainda: temos grupos “híbridos”. No caso do Zen, por exemplo, temos grupos que misturam Sōtō, Rinzai e Sanbō Kyōdan – inclusive misturando as “regras” de uma tal forma que, a meu ver, acaba não sendo nem uma nem outra destas escolas, por não seguirem fielmente nenhuma delas. Por exemplo, o Sanbō Kyōdan (um grupo dissidente do Sōtō Zen) aceita a formação de “mestres zen leigos” e de “mestres zen cristãos/hindus”, etc., algo que não é aceito pela escola Sōtō Zen.

O sistema de títulos (Oshō, Rōshi, etc.) é diferente nas escolas Sōtō e Rinzai. Consequentemente, não sei se seria realmente correto dizer que um grupo “híbrido” é de fato pertencente à escola “Sōtō”, se segue o padrão Sōtō Zen só parcialmente.

O problema não está no que é feito ou não, mas nos rótulos. O problema não está na mistura, mas na “identidade” que é assumida (ou, melhor dito, na confusão em relação à identidade). Quando tentamos incluir elementos incompatíveis entre si, corremos o risco de ficar sem uma “identidade” congruente e coerente.

É importante que não estejamos nos enganando, fazendo um tipo de prática, acreditando que estamos realizando outro.

Vivemos num mundo de dualidade e precisamos desta dualidade para funcionar neste mundo da “forma”. Consequentemente, ser “algo”, automaticamente exclui tudo o que não é aquele “algo”.

Desta forma, “ser budista” automaticamente exclui “ser hindu”, por exemplo. Mas, na época do nacionalismo japonês, que levou aquela nação à Segunda Guerra Mundial, Daisetz Teitaro Suzuki popularizou o conceito de um “zen universal”, comum a todas as religiões. Com isto, criou uma nova interpretação do rótulo “zen”, separando-o do “budismo”, abrindo espaço para um “zen cristão”, um “zen hindu”, etc.

Mas, o Zen do Mestre Dōgen, que é a base da escola Sōtō, nunca deixou de ser claramente “budista”. O Mestre Dōgen nunca se colocou como dissidente dos ensinamentos do Budismo clássico. Assim, como seria possível misturar o Zen com o Hinduísmo? O Budismo ensina o não ātman enquanto que o Hinduísmo ensina o ātman – interpretações mutuamente excludentes. O Cristianismo ensina a existência de uma alma eterna e o Budismo fala da impermanência dos cinco skandhas. 1 Novamente, são ensinamentos contraditórios, incompatíveis.

Por este motivo, pessoalmente preferiria ver os grupos “híbridos” adotando nomes diferentes, como “neo-zen”, “zen universal”, ou algo assim, para se diferenciarem do Zen Sōtō, por exemplo.

Acredito que quem quiser se abrigar à sombra de uma tradição milenar deve levar em conta toda a árvore, e não somente os frutos ou os galhos que lhe agradarem.

Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.


1. Skandhas (Sanskrit), khandhas (Pāḷi), muito resumidamente, os cinco componentes (agregados) que formam o ser humano, sendo que nenhum deles é uma “alma”, “espírito”, ou essência duradoura. Voltar

Organização: Rodrigo Daien

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1 comment

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  1. 1
    Adair Neto

    Excelente artigo, Isshin-sensei! É realmente muito difícil (mas necessário) pensar um budismo ocidental sem cair no erro de largar o budismo. Talvez não seja possível conciliar Zen e Cristianismo, visto que uma é tradição e a outra, religião. Não seria melhor conciliar Budismo e Cristianismo? Ou isso é impossível? (tenho minhas opiniões, mas gosto de acalentar discussões)
    Uma nota: a sensei disse “O Cristianismo ensina a existência de uma alma eterna”. Isso é verdade em muitos círculos cristãos contemporâneos, mas não é um ensino cristão genuíno. A crença na imortalidade da alma é grega e foi agregada pelos cristãos helenistas. Os cristãos primitivos e judeus criam na ressurreição integral do ser humano no fim dos tempos.

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