Zen consumista ou zen shūgyō? – 3ª parte

Zen consumista ou zen shūgyō? – 3ª parte


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(continuação da 2ª parte)

No segundo texto desta sequência, abordei ensinamentos sobre a dificuldade em se alcançar a iluminação, em que o leigo que não se retira completamente da vida secular, como faziam os monges da sangha original, tem poucas probabilidades de se iluminar.

Os ensinamentos Mahāyāna aparentemente minimizam a importância destes ensinamentos, diminuindo a diferença entre o monge e o leigo em relação à possibilidade do último de alcançar a iluminação e falam da “Natureza Buda” inata em todos nós.

Como interpretar isto? Será que esta Natureza Buda significa que já estamos verdadeiramente iluminados, assim como estamos neste momento? Será que significa que qualquer ato nosso já é um “ato iluminado”? Será que isso significa que o shūgyō (treinamento ascético) não é realmente necessário?

O Mestre Dōgen foi para a China e peregrinou até encontrar as respostas destas perguntas e notamos que a visão dele na sua maturidade retomou a importância de tornar-se monge e se retirar da vida secular por um período de treinamento, antes de “voltar ao mercado”, quando o monge já devidamente formado passaria a cuidar de um templo e atender a uma comunidade de congregados.

O ponto-chave aqui está no “retirar-se da vida secular” e não no simples ato de receber ordenação monástica ou de vestir o manto de Buda. Só receber os votos monásticos não substitui o shūgyō.

O Zen Shūgyō do Mestre Dōgen era a prática do monge-em-treinamento dentro de um mosteiro, em tempo integral, sob a orientação de um mestre qualificado, durante um período de tempo razoavelmente longo, pois, conforme o ideal, o monge-em-treinamento continuava no mosteiro, longe dos envolvimentos seculares, até alcançar algum nível de “realização”.

Tradicionalmente, no Zen, o tempo “médio” de shūgyō num mosteiro de treinamento e/ou na convivência direta com o professor (frequentemente morando juntos e servindo-o como seu atendente) tem sido um mínimo de cinco anos, antes do recebimento da Transmissão do Darma (ordenação superior). Para receber autorização como “Professor de Darma”, qualificado a se tornar independente e ter os seus próprios alunos ou ser abade de um templo, ainda mais tempo é necessário. Neste ponto, a tradição zen é bastante semelhante a outras tradições/ escolas budistas, como as Tibetanas (com seus retiros de 3 anos, 3 meses e 3 dias) e a Theravada (em que seriam necessários aproximadamente cinco anos para a ordenação superior e uns dez anos para ser reconhecido como Ajahn – Professor de Darma).

Mas o que vem acontecendo no nosso zen ocidental? Muitos grupos norte-americanos descartam completamente a necessidade de treinamento em mosteiro. Mais preocupante ainda é o fato de que, devido à falta de professores qualificados, há muitos alunos que recebem ordenação monástica, mas basicamente praticam “por conta própria, à distância”, com muito pouca convivência direta com os seus professores. Talvez passem uma ou duas semanas por ano com seus professores – muitas vezes somente em retiros (neste caso, lembramos que estar junto do professor num retiro de zazen é bastante diferente de estar com ele na convivência do dia a dia “normal”). O resultado disto é que estes praticantes são mais autodidatas que realmente treinados na tradição. Com sorte, alguns chegam a fazer o mínimo obrigatório de treinamento oficial para licenciamento na escola Sōtō Shū, mas este mínimo é muito pouco e se não estiverem convivendo diariamente com o seu professor durante períodos de tempo mais longos, realmente, a situação fica difícil. Esta pessoa que recebeu ordenação, mas que tem recebido muito pouco treinamento tradicional (shūgyō) é mais leigo que monástico, quando realmente paramos para pensar. Na visão do Mestre Dōgen, sem o período de reclusão e afastamento do mundo secular, a realização do caminho fica muito difícil, apesar de não impossível.

E como é que fica para os leigos ou para os nossos praticantes ocidentais “nem-leigo-nem-monge”, então? Se alcançar a iluminação é tão difícil, para que deve ele se sentar em zazen e fazer as práticas do Zen? Lembramos que alcançar a iluminação não é impossível, então todos nós devemos nos empenhar na nossa prática da melhor forma. E, no mínimo, estaremos cultivando as sementes saudáveis da nossa 8ª Consciência e cultivando carma positivo para levar conosco no nosso fluxo de consciência.

Mesmo como leigos, que tal procurarmos distinguir entre o “zen de consumo” e o “zen shūgyō”? Que tal praticarmos o mais possível o shūgyō num centro de prática orientado por um professor de Darma qualificado e autorizado?

Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Imagem do Salão do Dharma do mosteiro Eihei-ji 永平寺, fundado pelo mestre Eihei Dōgen, há cerca de 800 anos

Organização: Rodrigo Daien

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