Zen consumista ou zen shūgyō? – 2ª parte

Zen consumista ou zen shūgyō? – 2ª parte


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O zen ocidental vem desenvolvendo uma experiência nova no budismo tradicional com a criação de uma nova “figura”, que é o “praticante ocidental”, nem monge, nem leigo. Se, de um lado, isto é um desenvolvimento maravilhoso, pelo outro lado, é um caminho cheio de armadilhas.

Historicamente, o Budismo foi, desde o seu início, uma prática monástica. A participação do seguidor leigo basicamente se resumia a tomar refúgio nos ensinamentos, seguir cinco preceitos leigos e apoiar os monásticos, numa condição bastante semelhante àquela de um “paroquiano” de uma igreja ocidental. Assim, não se esperava uma prática mais aprofundada dos seguidores leigos, com seus compromissos de trabalho e família.

Na tradição Theravada, considerava-se que o leigo (upāsaka [masc.] ou upāsikā [fem.]) basicamente não teria condições de se tornar um arahat, ou que isso seria extremamente raro (vide págs. 134 a 136 de Ensinamentos de Buda, de Nissim Cohen), apesar de poder alcançar os três primeiros dos quatro estágios do caminho: 1) entrada na correnteza; 2) retornar uma vez; 3) não retornar e 4) iluminação. O caminho da libertação do sofrimento era um caminho que exigia a renúncia da vida mundana e ingresso na vida monástica, essencialmente devido ao problema da renúncia ao prazer das sensações sutis (rūpa e arūpa-raga, relacionados aos prazeres alcançados nos jhānas).

Com o aparecimento da tradição Mahāyāna, passou-se a ensinar a possibilidade do seguidor leigo alcançar a iluminação, mesmo reconhecendo que as responsabilidades mundanas dificultavam imensamente a sua caminhada. Mesmo assim, a prática continuava a ser essencialmente uma prática monástica, apesar de estar tomando uma forma bastante diferente da forma original indiana. Ficou enfatizado o valor do bodhisattva e desenvolveu-se o conceito da Natureza Buda.

Quando lemos os textos do Shōbōgenzō de 12 Fascículos de Mestre Dōgen, percebemos que ele parece ter passado a dar cada vez mais importância ao caminho da vida de monge e ao treinamento monástico para alcançar a iluminação.

Então, como adaptamos estas práticas, este caminho, para esta nova modalidade ocidental da prática do zen que é do praticante que não é nem leigo, nem monge?

Aos poucos, vamos investigando isto, em textos futuros.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Imagem: Angô no Mosteiro Feminino de Nagoya (Aichi Senmon Nisodo), novembro de 2003. No detalhe, Isshin-sensei em treinamento.

Organização: Rodrigo Daien

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1 comment

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  1. 1
    Dhanapala

    Algumas coisas me surgiram ao ler esse texto:
    1. a afirmação de que “Na tradição Theravada, considerava-se que o leigo basicamente não teria condições de se tornar um arahat”. A prova para isso é a referência às págs. 134 a 136 de Ensinamentos de Buda, de Nissim Cohen. Tal visão, porém, como o próprio Cohen diz, aparece em comentários, e comentários, por definição, não são canônicos. Isso significa que não se pode propriamente falar que a tradição Theravada “como um todo” concorda com isso.
    2. O texto complementa dizendo que “ou que isso seria extremamente raro”, para em seguida dizer: “Com o aparecimento da tradição Mahāyāna, passou-se a ensinar a possibilidade do seguidor leigo alcançar a iluminação”. Ora, há várias tradições mahayanas e principalmente no mahayana inicial a possibilidade de leigos atingirem a iluminação era algo ainda mais raro e impalpável. Há de se notar, igualmente, que quando se fala de mahayana e se o compara com as tradições antigas, como o theravada, é preciso distinguir claramente que o uso das palavras muda, e, portanto, “iluminação” para um não é necessariamente a mesma coisa que para o outro, o que torna comparações simples como “o theravada diz isso e o mahayana diz aquilo” bem complicadas.
    3. Parece que é dito no texto que um motivo para, no Theravada, o caminho da iluminação ser difícil para o leigo, ser “essencialmente devido ao problema da renúncia ao prazer das sensações sutis (rūpa e arūpa-raga, relacionados aos prazeres alcançados nos jhānas)”. Espero que nos textos seguintes dessa série isso seja desenvolvido, pois se há alguém que possa ter problema com o “prazer das sensações sutis” é muito mais provável que seja o monge e não o leigo.
    – Estou aguardando pelo prosseguimento da série, principalmente pelas comparações entre a visão de Dogen e o estado atual do zen ocidental. Avante!

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