Zen consumista ou zen shūgyō? – 1ª parte

Zen consumista ou zen shūgyō? – 1ª parte


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A transmissão do budismo de uma cultura para outra tem-se demonstrado, às vezes, um processo difícil e demorado. Por exemplo, devido às grandes diferenças culturais e de valores sociais entre a Índia e a China, a transmissão do budismo para o segundo país passou por fases de “mistura” com o taoísmo e o confucionismo e levou aproximadamente 600 anos para assentar a poeira e para que o budismo chinês pudesse assumir sua própria identidade.

Em contraste, a transmissão da China para o Japão, Coreia e outros países fortemente influenciados pela cultura chinesa foi um processo muito mais suave com muito menos confusão.

Bem, estamos vivenciando a transmissão do budismo dos países orientais para os países ocidentais e lidando com diferenças culturais e linguísticas quase inimagináveis. E isto se aplica também ao caso da transmissão do zen Japonês para os países das Américas (do Norte e do Sul).

Se é verdade que acredito que vêm surgindo algumas inovações interessantes e válidas no budismo “ocidental”, como a expansão da prática leiga, vejo também muitas más-interpretações graves sobre o zen-budismo japonês aqui no ocidente: confusões e mitos sobre a sua prática, moralidade, formas, rituais… Vejo muita “apropriação cultural”, em que grupos adotam aqueles aspectos do zen que aparentemente se encaixam na sua ideologia, seja “hippie”, “feminista”, “LGBT”, “esquerdista”, “neoliberal”, etc., e descartam quaisquer aspectos do zen que destoem destes ideais preconcebidos, alegando “degeneração das práticas” ou “diferenças entre as mentalidades orientais e ocidentais”.

Sem experimentar verdadeiramente o “pacote completo” do zen, selecionam pedaços aqui e acolá para formar uma coisa que, para fins didáticos, estou chamando de “zen consumista”.

A prática num mosteiro de treinamento oficial tradicional é chamada de “shūgyō” (修業), que significa “busca de conhecimento, estudo, aprendizagem, treinamento, prática ascética, disciplina”. Ainda para fins didáticos, vou chamar isto de “zen shūgyō”.

Nos próximos artigos, pretendo procurar esclarecer um pouco a diferença entre este “zen consumista” e o “zen shūgyō”.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

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4 Comments

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  1. 1
    João Holanda

    Adaptação é uma coisa, é bem conhecida a capacidade do Budismo, particularmente do zen, de adaptar-se a novas paisagens. Porém o que se pretende é “consumir” o Zen como um produto de marketing qualquer. Sem preservar, respeitar e submeter-se a singularidade dos seus ensinamentos. Mindfullnes e outras praticas New Age privilegiam apenas a pratica meditativa no Zen omitindo seu cerne, seu núcleo fundamental e indivisível, sua tradição religiosa, social e política(libertária). Não me agrada esse viés consumista, é apenas mais uma forma de viver descompromissado. Vejo as coisas assim: “A prática num mosteiro de treinamento oficial tradicional é chamada de “shūgyō” (修業), que significa “busca de conhecimento, estudo, aprendizagem, treinamento, prática ascética, disciplina”. Essa é uma busca profunda, por abismos desconhecidos do nosso ser. Nada fácil, nada gratuito.

  2. 3
    Ian Maker

    Karl Marx profetizou o processo de comoditização da espiritualidade. Mas, ele não percebeu que o próprio marxismo cultural não escaparia do poder coercitivo das leis do mercado.
    A comoditização do Budismo já é realidade no mundo global ocidental. Contudo, não acredito que o amálgama cultural no qual estamos inseridos. Configure uma ameaça aos que se empenham verdadeiramente na busca da sabedoria desta doutrina. O Budismo é uma filosofia. Filosofia não é modismo. Onde existe modismo, não há nenhuma busca nobre.

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