Vir-a-ser e Renascimento

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Chegamos agora a nona proposição: Upadana-paccaya bhavo: “Através do apego, o processo do tornar-se é condicionado.” O processo do tornar-se, também chamado de existência, consiste de dois processos: (1) o processo do kamma (kamma-bhava), ou seja, o aspecto kâmmicamente ativo da vida e (2) o processo do renascimento resultante do kamma (upapatti-bhava), ou seja, o aspecto kâmmicamente passivo e moralmente neutro da vida.  O aspecto kâmmicamente ativo do processo do processo vital é, como visto anteriormente, representado pelos cinco elos, a saber, ignorância, formações kâmmicas, desejo sedento, apego e o processo do kamma (avijja, sankhara, tanha, upadana, kamma-bhava). O aspecto passivo também é representado por cinco elos: consciência, fenômenos físicos e mentais, as seis bases, impressões e sensações (vinnana, nama-rupa, salayatana, phassa, vedana). Assim, os cinco elos passivos se referem apenas aos fenômenos kâmmicos resultantes e não com o que se associa ao kamma ativo. Os cinco elos ativos são as causas dos cinco elos passivos do futuro, como consciência resultante do kamma, etc., de modo que os cinco elos passivos são o resultado dos cinco elos ativos. Deste modo, podemos representar P.S. mediante vinte elos: cinco causas numa vida prévia, cinco resultados na vida presente; cinco causas na vida atual e cinco resultantes na vida futura.[1]

Como diz o Visuddhimagga (Cap. XVII):

Cinco causas existiram no passado,

Cinco frutos são encontrados na presente vida;

Cinco causas agora produzidas,

Cinco frutos por colher no futuro.

Deixe-me lembrar da minha definição do termo “causa” como sendo “aquilo que, mediante necessidade interna, segue-se no tempo pelo seu resultado.” Existem vinte e quatro modos de condicionamento, mas apenas um deles deveria ser chamado de causa, a saber, kamma.

Embora esta causa kâmmica seja seguida no tempo pelo resultado, ela ainda assim seria dependente de (mas não produzida por) um resultante kâmmico precedente como sua condição mediante o estímulo. Por exemplo, sensação, dentro de P.S. é um resultado do kamma; mas, ao mesmo tempo, é uma condição que estimula o surgimento subsequente do desejo, que mais tarde será um resultado do kamma.

Vamos retornar agora a nossa proposição: Upadana-paccaya bhavo: “Através do apego, o processo do tornar-se é condicionado”, ou seja, (1) o processo do kamma (kamma-bhava) e, por conseguinte, na vida seguinte, (2) o processo do renascimento resultante do kamma (upapatti-bhava). O processo do kamma nesta proposição é, propriamente falando, um nome coletivo para as volições (cetana) produtoras do renascimento juntas com todos os fenômenos mentais com elas associados; o segundo elo, formações kâmmicas (sankhara) designa como tal, meramente a volição produtora de renascimento. Mas em verdade ambos os elos equivalem a uma coisa só, a saber, kamma.

Apego, ou upadana, pode ser um estímulo para todo tipo de kamma maléfico e prejudicial. O apego sensorial, ou apego a objetos dos sentidos e prazeres dos sentidos, pode ser um estímulo direto ao assassinato, roubo, furto, adultério, inveja, ódio, vingança; para muitas ações maléficas de corpo, fala e mente. Apego a regras e rituais meramente externos pode conduzir a auto complacência, torpor e estagnação mentais, desprezo pelos outros, presunção, intolerância, fanatismo e crueldade. Em todos estes casos, o apego é, para o processo do kamma uma condição de estímulo e é um estímulo direto para ações volitivas maléficas de corpo, fala e mente. Além do mais, o apego também é, para qualquer processo kâmmico maléfico, condição mediante o surgimento simultâneo.

Mostrei, pois como o apego é condição para o processo do kamma (kamma-bhava). Mostrarei agora como o processo do kamma é condição para processo de renascimento resultante (upapatti-bhava). Vamos agora à décima proposição.

 

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Bhava-paccaya jati: “Através do processo do tornar-se (processo produtor de kamma) o renascimento é condicionado.” Isto quer dizer: o processo do kamma dominado pelas volições (cetana) afirmadoras da vida é a causa do renascimento. Renascimento aqui inclui todo processo embrionário que, no mundo humano, começa com a concepção no útero materno e termina com a parturição. Assim, a volição kâmmica é a semente da qual toda a vida germina, como a semente de manga origina uma pequena mangueira, que, ao longo do tempo se torna uma grande árvore. Mas como alguém sabe que o processo do kamma, ou volição kâmmica, é realmente a causa do renascimento: o Visuddhimagga (XVII) dá a seguinte resposta:

Embora as condições exteriores quando do nascimento dos seres possam ser absolutamente idênticas, podemos ver diferenças no que se refere ao seu carácter, tal como seres nobres e vis, etc.  Embora condições externas, tais como o esperma ou o sangue dos pais, sejam as mesmas, podemos perceber diferenças entre os seres humanos, mesmo que sejam gêmeos. Esta diferença não pode ser sem razão, como se pode observar, em qualquer momento e em qualquer ser. A causa não pode ser outra além do processo kâmmico pré-natal. Do mesmo modo, quanto à vida dos outros seres renascidos, diferenças devem ter sua origem neste mesmo processo. Kamma, ou volição é, de fato, a causa das diferenças entre os seres no que diz respeito ao seu caráter (nobre ou vil). Neste sentido, o Buddha disse: “o kamma divide os seres em nobres e vis.” É desta forma que devemos entender o processo kâmmico como causa do renascimento.

Assim, de acordo com o budismo, o renascimento presente é o resultado do desejo, apego e volições kâmmicas no nascimento passado. E o desejo, apego e volições kâmmicas neste renascimento são a causa de renascimento futuro. Mas, assim como no processo de mudanças físicas e mentais que é a existência, nada pode ser encontrado que permaneça de um momento para o outro, da mesma maneira, não encontramos nenhuma entidade, nenhum ego, que passaria de um nascimento ao seguinte. Neste processo sempre repetido de renascimento, no sentido absoluto, nenhuma entidade-ego pode ser encontrada além destes fenômenos condicionados e passageiros que surgem. Assim, falando de modo preciso, não sou eu mesmo ou minha pessoa que renasce, nem é outra pessoa que está a renascer. Todos os termos tais como “pessoa” ou “meu”, “indivíduo” ou “homem” ou “eu” ou “você”, etc., não se referem a nenhuma entidade real, são apenas termos usados ​​por conveniência. Em Páli chamamos estes termos de vohara-vacana, ou “termos convencionais”, e realmente não há nada a ser encontrado, além de fenômenos mentais e físicos condicionados e passageiros. Portanto, o Buddha disse:

A acreditar que o executor da ação será o mesmo que experimenta seu resultado (na próxima vida): este é um dos extremos. A acreditar que o executor da ação e aquele que experimenta o seu resultado são duas pessoas diferentes: este é o outro extremo. Ambos os extremos foram evitados pelo Perfeito que ensinou a verdade que está entre os extremos, qual seja: Devido à ignorância, as formações kâmmicas são condicionadas; através das formações kâmmicas a consciência, (no nascimento subsequente); através da consciência, os fenômenos mentais e físicos, através dos fenômenos físicos e mentais, as seis bases; através das seis bases, a impressão, através da, as sensações; através das sensações, o desejo sedento; através do desejo sedento, apego; através do apego, o processo vital; através do processo vital (kâmmico), o renascimento; através do renascimento, decadência, morte, tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero. Assim, surge toda essa massa de sofrimento.

Este caráter fenomênico e desprovido de ego da existência foi maravilhosamente expresso em dois belos versos do Visuddhimagga:

Nenhum fazedor das ações é encontrado,

Ninguém que pelo menos uma vez colha seus frutos.

Fenômenos vazios passam.

Este é apenas o ponto de vista correto.

 

Nenhum deus ou Brahma pode ser chamado

O criador desta roda da vida:

Fenômenos vazios passam,

Todos dependentes de condições.

Ao ouvir que o buddhismo ensina que tudo é determinado por condições, alguém pode chegar à conclusão de que o buddhismo ensina algum tipo de fatalismo, ou que o homem não tem livre arbítrio, ou que a vontade não é livre. Agora, em relação a estas duas questões, quais sejam, (1) “O homem tem livre-arbítrio?” e (2) “a vontade é livre?”, o buddhista vai dizer que estas duas questões devem ser rejeitadas por serem colocadas de forma errada e, portanto, irrespondíveis.

A primeira pergunta “O homem tem livre-arbítrio?” deve ser rejeitada pois, para além dos fenômenos mentais e físicos e da constante mudança, falando em termos absolutos, coisa alguma ou entidade pode ser encontrada a qual possamos chamar de “homem”, de modo que o simples termo “homem”, como tal, é um nome sem qualquer realidade.

A segunda questão “a vontade é livre?” deve ser rejeitada, pois “vontade” é apenas um fenômeno mental momentâneo, assim como consciência, sentimento, etc., e, portanto, não é algo que preexista a si mesmo. Portanto concluímos que, de uma coisa que ainda não existe – de uma coisa que ainda não é – não podemos perguntar se ela é livre ou não. A única questão admissível seria: “o surgimento de vontade independente de condições ou é condicionado?” Mas a mesma pergunta se aplica igualmente a todos os outros fenômenos mentais, bem como a todos os fenômenos físicos, em outras palavras, para qualquer ocorrência que seja. E a resposta seria: Seja “vontade” ou “sensação”, ou qualquer outro fenômeno físico ou mental, o surgimento de qualquer coisa que seja depende de condições. Não havendo as condições, nada pode surgir ou entrar na existência.

Segundo o budismo, tudo que é mental e físico acontece de acordo com leis e condições, se assim não fosse, caos e acaso reinariam. Mas tal coisa é impossível e contradiz todas as leis do pensamento.

 

Créditos da foto:  http://records.photodharma.net/photos/mural-paintings-at-kyauktawgyi-pagoda

 

[1] O processo kâmmico do passado (1-2) e o do presente (8-10), embora representados aqui por diferentes elos, são, entretanto, idênticos e ambos incluem as cinco causas kâmmicas. Do mesmo modo, os dois elos (11-12) representam os cinco resultados kâmmicos (3-7). Ver diagrama ao final do capítulo.

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