Vipassana, meditação sobre a vacuidade – Prática

Vipassana, meditação sobre a vacuidade – Prática


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Mulher praticando meditação - Blog Sobre Budismo

Todos os ensinamentos budistas têm o objetivo de nos conduzir gradualmente à realização da vacuidade. Aqui, “vacuidade” significa a vacuidade de existência inerente, concreta, e a erradicação total em nossa mente deste falso modo de ver as coisas marca nosso atingimento da iluminação, do estado búdico.

O que é “vacuidade de existência inerente“? Em termos práticos, o que isso significa? A assim-chamada “existência inerente” — da qual todos as coisas são ditas como sendo vazias — é uma qualidade que projetamos instintivamente sobre cada pessoa e coisa que experienciamos. Nós vemos as coisas como total e solidamente existentes em e por si mesmas, por sua própria parte, com sua própria natureza, bem independentes de qualquer outra coisa e condição, ou de nossa própria mente que as experiencia.

Pegue uma mesa, por exemplo. Vemos uma mesa sólida, independente, lá, tão obviamente uma mesa que até mesmo questioná-la parece ridículo. Mas onde está a mesa? Onde a sua “mesidade” está localizada? É uma de suas pernas? Ou é o seu topo? É uma de suas partes? Ou mesmo um de seus átomos? Quando ela passou a ser uma mesa? Quantas partes você deve tirar antes de ela deixar de ser uma mesa?

Se você investigar totalmente, descobrirá que simplesmente não pode encontrar a mesa que pensa estar lá. Há, entretanto, uma mesa interdependente, que muda de momento a momento, não-inerente, mas não é isto que vemos. Este é o X do problema. Nós não experienciamos a realidade nua de cada coisa e de cada pessoa, mas sim uma imagem exagerada da realidade, cheia, projetada pela nossa mente. Este erro marca cada uma de nossas experiências mentais, é bem instintivo e é a própria raiz de todos os nossos problemas.

A penetrante desordem mental começa com a apreensão errônea de nosso próprio “eu“. Nós somos compostos pelo corpo — uma massa de carne, ossos e pelo — e pela mente — um fluxo de pensamentos, sentimentos e percepções. O composto é convencionalmente conhecido como “Maria”, “João”, “mulher”, “homem”. É uma aliança temporária que termina com a morte do corpo e com o fluir da mente para outras experiências.

Estes fatos rígidos, não-embelezados, podem ser inquietantes. Uma parte de nós, o ego, desejando segurança e imortalidade, inventa um “eu” inerente, independente, permanente. Não é um processo deliberado, consciente, mas ele toma lugar nas profundezas de nossa mente subconsciente.

O “eu” fantasiado aparece de maneira especialmente forte nas horas de stress, excitamento ou medo. Por exemplo, quando nós escapamos por pouco de um acidente, há um poderoso senso de um “eu” que quase sofreu morte ou dor, e que deve ser protegido. Esse “eu” não existe, é uma alucinação. Nossa aderência a este falso “eu” — conhecida como a ignorância do auto-apego — macula todas as nossas relações com o mundo. Nós somos atraídos por pessoas, lugares e situações que gratificam e mantém nossa auto-imagem, e reagiremos com medo ou animosidade a tudo que a ameace. Nós vemos todas as pessoas e coisas como definitivamente deste modo ou daquele. Assim esta raiz, o auto-apego, ramifica-se em apego, inveja, ódio, arrogância, depressão e na miríade de outros estados mentais turbulentos e infelizes.

A solução final é eliminar esta ignorância raiz com a sabedoria que realiza, em tudo o que experienciamos, a vacuidade das falsas qualidades que projetamos sobre eles. Esta é a transformação última da mente.

A vacuidade soa bem abstrata, mas de fato é muito prática e relevante para nossas vidas. O primeiro passo para entendê-la é tentar ter uma idéia do que pensamos existir; localizar, por exemplo, o “eu” em que acreditamos tão fortemente, usando o raciocínio claro na meditação analítica, ver que ele é uma mera fabricação, que é algo que nunca existiu e nem mesmo poderia existir.

Mas não exagere! Você definitivamente existe! Há um “eu” convencional, interdependente, que experiencia a felicidade e o sofrimento, que trabalha, estuda, dorme, medita e se torna iluminado. A primeira e mais difícil tarefa é distinguir entre este “eu” válido e o fabricado; geralmente nós não podemos distingui-los. Na concentração da meditação, é possível ver a diferença, reconhecer o “eu” ilusório e erradicar nossa crença habitual nele. A meditação aqui é um primeiro passo prático nessa direção.

A prática

Mulher meditando diante de um lago - Meditação analítica - Vipassana

Comece com uma meditação sobre a respiração para relaxar e acalmar sua mente. Motive-se fortemente para fazer estar meditação com o objetivo de se tornar se iluminado pelo benefício de todos os seres.

Agora, alerta como um espião, vagarosa e cuidadosamente torne-se consciente do “eu“. Quem ou o quê está pensando, sentindo e meditando? Como parece que ele veio à existência? Como ele aparece para você? O seu “eu” é uma criação de sua mente? Ou é algo que existe concreta e independentemente em seu próprio direito?

Se você acha que pode identificá-lo, tente localizá-lo. Onde está o “eu”? Está na sua cabeça… nos seus olhos… no seu coração… nas suas mãos… no seu estômago… nos seus pés? Considere cuidadosamente cada parte do seu corpo, incluindo os órgãos, vasos sanguíneos e nervos. Você pode encontrar seu “eu”? Ele pode ser bem pequeno e sutil, então considere as células, os átomos, as partes dos átomos.

Depois de considerar o corpo inteiro, novamente pergunte a si mesmo como o seu “eu” manifesta sua existência aparente. Ele ainda parece ser vívido e concreto? O seu corpo é o “eu” ou não?

Talvez você pense que sua mente é o “eu“. A mente é um fluxo constantemente mutante de pensamentos, de sentimentos e de outras experiências, indo e vindo em rápida alternação. Qual destes é o “eu”? É um pensamento amoroso… um pensamento furioso… um sentimento feliz… um sentimento deprimido? O seu “eu” é a mente que medita… a mente que sonha? Você pode encontrar o “eu” em sua mente?

Há qualquer outro lugar para se procurar o “eu“? Ele poderia existir em algum outro lugar ou de outro modo? Examine toda possibilidade que puder pensar.

Novamente, olhe para o modo pelo qual o seu “eu” realmente aparece, para você, como você o sente. Depois desta busca pelo “eu“, você percebe alguma mudança? Você ainda acredita que ele é sólido e real como você sentia antes? Ele ainda parece existir independentemente, em e por si mesmo? Em seguida, desintegre mentalmente o seu corpo. Imagine todos os átomos se separando e flutuando. Bilhões e bilhões de partículas diminutas se espalham pelo espaço. Imagine que você realmente pode ver isto.

Agora, desintegre sua mente. Deixe flutuar cada pensamento, sentimento, sensação e percepção. Permaneça nesta experiência de espaço sem ser distraído pelos pensamentos. Quando voltar o sentimento de um “eu” independente, inerente, analise-o novamente. Ele existe no corpo? Na mente? Como ele existe?

Não faça o erro de pensar, “Meu corpo não é o ‘eu’ e minha mente não é o ‘eu’, portanto eu não existo”. Você existe, mas não do modo que intrinsecamente sente, como se fosse independente e inerente. De modo convencional, o seu “eu” existe em dependência da mente e do corpo, e esta combinação é a base para a qual o pensamento conceitual atribui um nome: “eu” ou “self” ou “Maria” ou “João”. Este é o “você” que está sentado, meditando e se surpreendendo com o pensamento de que “Talvez eu não exista!”

Tudo o que existe é necessariamente dependente de causas e condições, ou de partes e nomes, por exemplo. É assim que as coisas existem convencionalmente, e entender a interdependência é a principal causa para entender a natureza última de uma coisa, sua vacuidade. A natureza convencional de algo é sua dependência de causas condições, e sua natureza última é a sua vacuidade de existência inerente, interdependente.

Pense agora sobre como o seu corpo existe convencionalmente, em dependência de pele, sangue, ossos, pernas, braços, órgãos e assim por diante. Por sua vez, cada uma dessas coisas existe em dependência de suas próprias partes: células, átomos e partículas sub-atômicas.

Pense sobre a sua mente, como ela existe em dependência de pensamentos, sentimentos, percepções, sensações. E como, por sua vez, cada uma destas existe em dependência de experiências de consciência anteriores, que deram surgimento a eles.

Agora, volte ao seu sentimento de um “self” ou “eu”. Pense sobre como você existe convencionalmente, em dependência do corpo-e-mente do nome — as partes do “eu”.

Quando o corpo sente fome ou frio, por exemplo, você pensa, “Eu estou como fome”, “Eu estou com frio”. Quando a mente tem uma idéia sobre algo, você diz, “Eu penso”. Quando você sente amor por alguém, você diz, “Eu te amo”. Quando você se apresenta a alguém, você diz, “Eu sou fulano”. Separado deste senso de um “eu” que depende dos fluxos sempre mutantes do corpo e da mente, há um “eu” sólido, imutável e independente?

A mera ausência desse “eu” inerentemente existe é a vacuidade do “self”.

Termine a sessão com uma conclusão de como você, o seu “eu”, existe. Conclua dedicando sinceramente qualquer energia positiva e insight que tenha obtido à iluminação de todos os seres. Pense que esta acumulação é apenas um passo ao longo do caminho para finalmente alcançar o insight direto na vacuidade, e assim cortar a raiz do sofrimento e da insatisfação.

(McDonald, Kathleen. How to Meditate: A Practical Guide.
Editado por Robina Courtin. Ithaca: Snow Lion, 1998. Pág. 58-62.)

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1 comment

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  1. 1
    elda m. savatti

    oi leonardo sou elda de itapema e estudei varios anos o budismo na iatlia gostei muito deste texto e te agradeço onde vc mora eu sou de santa catarina ai vai meu email um abraço elda

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