A Escola da Terra Pura (parte 2)

A Escola da Terra Pura (parte 2)


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O ensinamento central de Shinran é a mente confiante (jap. shinjin), a entrega ao voto original de Amitabha e a negação do próprio poder. As práticas do próprio poder incluem todas as práticas diferentes da recitação do nome de Amitabha e até mesmo esta recitação, se for feita sem a entrega total ao voto original de Amitabha. Segundo Shinran, não é possível salvar os outros com o próprio poder; seria necessário confiar primeiro no poder de Amitabha e atingir a iluminação na Terra Pura. A mente confiante tem três aspectos (jap. sanshin): a mente pura (jap. junshin), que confia sinceramente; a mente única (jap. isshin), que confia só no Buddha Amitabha; a mente contínua (jap, sôkushin), cuja confiança é ininterrupta, mesmo quando outros pensamentos surgem.

Devido à importância do Buddha Amitabha no buddhismo Terra Pura, muita gente parece achar que se trata de uma religião que adora o Buddha como um deus e que o Buddha é uma espécie de representação visual dele — uma imagem, uma pintura, algo modelado na figura de um ser humano. Mas, se olharmos para a verdadeira essência dos ensinamentos de Shinran, veremos que a imagem do Buddha é meramente um meio de assistir a fé.

À parte os poucos escolhidos que se envolvem numa prática religiosa especial, ou encontram a fé após sofrer algum tipo de despertar espiritual, é difícil para a maioria das pessoas apreender a realidade de seres invisíveis como deuses ou buddhas. É difícil para nós assimilá-los no nível emocional. E então, estátuas e pinturas dos buddhas tornaram-se objetos de veneração. Contaram-se todos os tipos de histórias buddhistas. Mas nada disso expressa necessariamente a essência da religião. A estátua ou pintura do Buddha, pousada com dignidade no templo, é uma nau para levar pessoas sofredoras à distante margem da paz e da tranqüilidade, uma lanterna para levar luz a um lugar escuro. Tais ícones são encarados como seres benéficos, estendendo a mão para nós, confusos, perdidos, tomando-nos pelas mãos e levando-nos na direção certa. É por isso que unimos nossas mãos em prece, curvamos a cabeça e agradecemos diante dessas imagens.

Mas esse não é o nosso objetivo. A verdadeira realidade concebida por Shinran, o lugar para onde todos serão finalmente conduzidos, era a Terra Pura, acima de todas as imagens. A Verdadeira Escola da Terra Pura, fundada por Shinran e depois popularizada por Rennyo, chamava a esse objeto primário da fé e da veneração do myôgo (nome). Esse nome era constituído de seis, oito ou às vezes dez caracteres chineses escritos num pedaço de papel, e este era venerado. A maioria desses myogo consistia dos caracteres Namu Amida Butsu ou “Encontro refúgio no Buddha Amitabha”.

O que significa venerar essas palavras escritas, e que relação elas têm com nosso próprio sofrimento? O Buddha de Shinran era o conceito Namu Amida Butsu, e essa idéia não é como um Buddha concreto que pode ser visto com os olhos. A Terra Pura é, como a própria fé, invisível. Um mundo em uma escala infinita. É tempo eterno — algo que transcendeu todos os conceitos de tempo. É isso que Shinran expressava com as palavras Amida Butsu. Namu significa “refugiar-se em”. Refugiar-se em alguma coisa quer dizer ajoelhar-se diante dela, abaixar a cabeça, entregar-se a ela completamente e fazer o voto de unir-se a ela. Rennyo desenvolveu o nenbutsu de Shinran, de refugiar-se no Buddha, em um nenbutsu que era uma expressão de alegria e gratidão por encontrar o Buddha, e foi essa forma que se popularizou. […]

Em vez de recitar Namu Amida Butsu ou Namo Amida Butsu, enunciando claramente cada sílaba, muitos japoneses idosos dizem Namandabu ou até Namanda, mas estas são só versões abreviadas da fórmula original. Recitar Namanda está de completo acordo com a intenção de Shinran. Ele não estava dirigindo olhar a nenhuma imagem, mas à Terra Pura, uma região invisível, infinita e ilimitada, em oposição à esfera do pensamento racional e científico.

(Hiroyuki Itsuki, Tariki)

Yuienbô, discípulo de Shinran, compilou alguns de seus ensinamentos no Tratado de Lamentação das Heresias (jap. Tannishô), um comentário sobre as divergências quanto aos ensinamentos dados por Shinran Shônin. A obra apresenta o voto original (jap. hongan) de Amitabha, relacionando-o à mente confiante (jap. shinjin) e à recitação do nome de Buddha (jap. nenbutsu), apresentado como o caminho único e desimpedido para a iluminação. Segundo Shinran, o nenbutsu vem do outro poder e está além do próprio poder; confiar ou não no nenbutusu torna-se uma decisão de cada um.

O Tannishô é o texto sagrado em que se registra com exatidão o percurso da mente de Shinran Shônin, um religioso extraordinário que durante os noventa anos de sua existência buscou somente a verdade que perpassa a vida e a morte. A maior parte do que foi registrado nesta obra parece referir-se ao último período da vida do Shônin, talvez após os seus oitenta anos de idade. No cotidiano, em conversa franca e informal com seus jovens discípulos, podemos sentir a vibração de Shinran Shônin como pessoa. Por um lado, diante das perguntas dos discípulos vindos de Kanto, atual região de Tôkyô para visitá-lo, ele expressa suas convicções em um tom severo, como numa luta real; por outro lado, às vezes, qual luz da primavera que acolhe tudo com seu calor, ele abraça a aflição dos discípulos abrindo uma nova visão da mente. Ele também recorre a paradoxos sutis, derrubando a estrutura ilusória do senso comum, conduzindo-os ao mundo da verdade religiosa. Este livro revela que Shinran Shônin continua vivo no coração das pessoas. O texto do Tannishô não menciona seu autor. Mesmo na cópia mais antiga existente, de Rennyo Shônin (1415-1499), não há referência ao nome do autor, que, talvez, nunca tenha sido registrado no texto. Apesar disso, supõe-se que Yuien-bo, um discípulo direto de Shinran Shônin que morava em Kawada, atual cidade de Mito da província de Ibaragi, na província de Hitachi, nordeste de Tôkyô, tenha sido o autor desse texto.

(Da introdução de Jitsuen Kakehashi em Tannishô)

Quando confiamos que o voto inconcebível de Amitabha nos salva e assegura o nascimento na Terra Pura, surge em nosso coração o desejo de recitar o nenbutsu. Nesse mesmo momento, recebemos a dádiva de termos sido abraçados, protegidos e nunca mais abandonados. Precisamos nos conscientizar de que o voto original de Amitabha não faz distinção entre jovens e velhos, bons e maus. Só a mente confiante é essencial. Isso significa que o voto tem por fim salvar aqueles a quem afligem profundos males kármicos e intensas paixões maléficas. Assim, ao confiarmos no voto original, não dependemos de outras práticas virtuosas porque não há bem superior ao nenbutsu, nem precisamos temer o mal, pois não há mal capaz de impedir o voto original de Amitabha. […]

Se até uma pessoa boa consegue nascer na Terra Pura, muito mais o poderá uma pessoa má. Entretanto, costuma-se dizer, “Se até uma pessoa má consegue nascer na Terra Pura, muito mais o poderá uma pessoa boa”. Normalmente, essa afirmação soa razoável, e no entanto, contraria a intenção do voto original do outro poder porque quem pratica o bem com o seu poder próprio não confia só no outro poder, não corresponde ao voto original de Amitabha. Contudo, é quando a intenção de próprio poder se converte na confiança ao outro poder que se consegue nascer na verdadeira Terra da Recompensa. Amitabha fez o seu voto por compaixão a nós que, dominados por paixões maléficas, somos incapazes de nos libertar do samsara através de qualquer prática que realizemos. A intenção que gerou o voto é conduzir essas pessoas más à condição de buddha. A confiança no outro poder por parte de uma pessoa má é a causa verdadeira do nascimento na Terra Pura. Por isso as palavras, “Se até uma pessoa boa consegue nascer na Terra Pura, muito mais o poderá uma pessoa má.”

(Tannishô)

Shinran Shônin dizia: “Não existe nenhum mal capaz de ultrapassar a promessa de Buddha [Amitabha] de salvar todos os seres.” Pensamos que se fizermos algo mau seremos punidos, ou que nossas bênçãos dependem da quantidade de oferendas que fazemos. Mas isso são apenas idéias mesquinhas do cérebro humano. É claro que Buddha não pode ser medido por nossas curtas inteligências. Se fosse assim, o que seria o Buddha?

(Shundo Aoyama Rôshi, Para Uma Pessoa Bonita)

(continua…)

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