A Escola da Terra Pura (parte final)

A Escola da Terra Pura (parte final)


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No século XIII, após o falecimento de Shinran, formou uma tradição que acabou se denominando como o Templo do Voto Original (jap. Honganji) do Buddha Amitabha, construído inicialmente como uma espécie de mausoléu para abrigar as cinzas de Shinran. Seu abade era sempre um descendente direto de Shinran. A família recebeu a designação Ôtani ou “grande vale” pelo fato de este templo estar localizado numa região com este nome. No final do século XVI e início do século XVII, após um período de intensas guerras internas no Japão, o Shôgun Ieyasu Tokugawa doou terras em Kyôtô para que descendentes da família Ôtani construíssem seus templos. Uma grande gleba de terra foi oferecida ao irmão mais novo no lado oeste da cidade, dando origem ao Templo do Voto Original do Oeste (jap. Nishi Honganji). Outra gleba foi oferecia para o irmão mais velho no lado leste da cidade, originando o Templo do Voto Original do Leste (jap. Higashi Honganji). A partir daí, os dois templos se constituíram como ordens religiosas independentes.

O Nishi Honganji deu origem à Ordem Honganji ou Ramo Honganji (jap. Honganji-ha ou abreviadamente Honpa). O Higashi Honganji deu origem à Ordem Ôtani ou Ramo Ôtani (jap. Ôtani-ha ou abreviadamente Daiha). Estes dois ramos da família de Shinran são os maiores da escola Shin. Além delas, outras oito ordens se formaram a partir de discípulos diretos de Shinran. Atualmente, a tradição Shin é a maior das escolas buddhistas japonesas.

Ser conduzido ao nascimento na Terra Pura significa o rompimento da pequena casca chamada “eu” que nos distingue dos outros para sentir-se interligado a todos, em união (jap. ichinyo), tornando-se alguém que “beneficia os seres vivos salvando-os tal como desejamos”. Por essa razão, só seremos salvos da tristeza e do vazio gerados pelo amor finito, humano, confiando no grande caminho do voto original do nenbutsu. Essa é “a compaixão da Terra Pura”. […] O voto original do Buddha Amitabha nos dá o Namu Amida Butsu como a prática para o nascimento na Terra Pura, propiciando o bem a quem não o possui e tornando-se a prática de quem não a exerce, pra que todos os seres tornem-se um buddha, sem discriminação. Recitar o nenbutsu confiando nesse voto não significa recitá-lo para evitar o mal e praticar o bem, mas é simplesmente emocionar-se e agradecer a intenção do Tathagata que nos salva, doando-nos o nome sagrado, pleno de todas as virtudes.

(Da introdução de Jitsuen Kakehashi em Tannishô)

A compaixão do caminho dos sábios [jap. shôdômon] e a do caminho da Terra Pura [jap. jôdomon] são diferentes. A compaixão do caminho dos sábios significa ter empatia com o outro, sentir como seu o sofrimento alheio e velar por todos os seres vivos. Porém, é muito difícil salvar plenamente os seres vivos da forma como o desejamos. A compaixão do caminho da Terra Pura significa tornar-se de imediato um buddha através da recitação do nenbutsu e, com a mente da grande compaixão, beneficiar os seres vivos salvando-os tal como desejamos. Nesta vida, mesmo tendo empatia e sentindo o sofrimento alheio como se fosse nosso, é difícil salvar os seres vivos conforme desejamos, Por isso, nossa compaixão é incompleta. Apenas a recitação do nenbutsu manifesta a mente da grande compaixão que propicia a salvação plena. […] Acreditamos, porque nos foi ensinado, que seres ignorantes [jap. bonbu] de capacidade inferior, como nós, alguns analfabetos, serão salvos se tiverem a mente confiante. Para as pessoas de maior capacidade, este ensinamento pode parecer desprezível, mas para nós, ele é elevado. Ainda que existissem ensinamentos superiores, não conseguiríamos segui-los pois ultrapassariam a nossa capacidade. O desejo fundamental dos buddhas é libertar a mim e a vocês do samsara.[…]

Como esses miseráveis seres errôneos que somos poderiam ser libertados do samsara, não fosse o voto compassivo? Pensando assim, todo o nenbutsu que recitamos ao longo de nossa vida é para correspondermos a essa dádiva da grande compaixão do Tathagata e para agradecermos os seus benefícios. […] Alcançar a condição de Buddha na próxima existência é o principal ensinamento da escola da Terra Pura do outro poder e o fundamento par a consolidação da mente confiante. Essa é também a prática fácil [jap. igyô], acessível às pessoas de capacidade inferior. Esse ensinamento não discrimina entre o bom e o mau. Na era atual, extinguir as paixões e os obstáculos maléficos durante a vida é extremamente raro. Por isso, até mesmo os monges puros que praticam o Shingon e o Hokke também anseiam pela iluminação na próxima existência. O que dizer então de nós? Mesmo que sejamos incapazes de seguir os preceitos e que nos falta a compreensão da sabedoria, atravessaremos o mar de sofrimento do samsara e chegaremos à margem da Terra da Recompensa a bordo da nau do voto de Amitabha. Assim desaparecerá de imediato a nuvem negra das paixões maléficas, surgirá instantaneamente a lua da iluminação da natureza do Dharma, nos uniremos à luz sem impedimento que brilha nas dez direções e poderemos beneficiar todos os seres. Nesse momento atingiremos a iluminação.

(Tannishô)

Depois de Shinran, o principal propagador da escola Shin foi Rennyo Kenju (1415-1499), o oitavo abade do Honganji. Rennyo transformou o templo Honganji no centro da escola Shin e principal instituição religiosa do Japão medieval. Devido aos ataques dos monges guerreiros do templo Enryakuji (sede da escola Tendai), Rennyo refugiou-se em vários locais. Em 1471, ele se estabeleceu em Yoshizaki (atual Fukui).

Rennyo, discípulo de Shinran, foi um homem que dedicou sua vida a difundir os ensinamentos autênticos e corretos de seu mestre o mais amplamente possível entre as pessoas. Rennyo é freqüentemente criticado por vulgarizar a filosofia profunda de Shinran ao comunicá-la às massas. Mas, no que diz respeito ao Outro Pode,r é raro encontrar uma pessoa que tenha exemplificado esta filosofia em sua vida de forma tão vital e completa quanto Rennyo.

Hônen ensinou que a difícil prática de alcançar o nascimento na Terra Pura podia ser facilitada. A tarefa de Shinran foi tomar esse caminho fácil que seu mestre ensinou e trilhá-lo mais a fundo. E Rennyo dedicou sua vida a propagar amplamente a fé profunda de Shinran entre as pessoas. Por meio desse triplo processo de “tornar fácil o que é difícil”, “profundo o que é fácil” e “amplo o que é profundo”, o buddhismo japonês pôde perdurar no coração das pessoas. […]

Não foi outro senão Rennyo que inventou a cerimônia de veneração matinal da Verdadeira Escola da Terra Pura e a firmou entre seus seguidores. Ele combinou a passagem dos “versos da autêntica fé, o nenbutsu e o poema japonês do Wasan em um ofício a ser recitado pela manhã e ao anoitecer. Gradualmente, as pessoas o adotaram e fizeram dele parte do ritmo de suas vidas. A cerimônia que Rennyo inventou quinhentos anos atrás foi passada de geração em geração por todo esse tempo. […] Quando nos damos conta de que centenas de milhares — não, milhões — de pessoas do povo passaram esse buddhismo de geração em geração, como parte de suas vidas, de seu próprio ser, não podemos deixar de nos impressionar com o fôlego e o valor do que Rennyo nos deixou.

(Hiroyuki Itsuki, Tariki)

Rennyo escreveu oitenta cartas (jap. Ofumi ou Gobunsho), em linguagem simples, para que as pessoas do povo tivessem acesso aos ensinamentos de Shinran. Ele também criticou as seitas que surgiram no seu tempo. Estas cartas foram compiladas em cinco volumes por seu disípulo Ennyô e se tornaram extremamente importantes para a escola Shin.

Rennyo escrevia essas cartas como mensagens a seus seguidores. As cartas contêm instruções detalhadas tanto sobre questões de fé, tais como o modo de fazer reuniões religiosas, quanto sobre questões mais práticas com respeito à defesa da Verdadeira Escola da Terra pura, tal como a maneira de reagir à perseguição de guerreiras e senhores feudais locais.

Quando o líder da aldeia recebia uma carta de Rennyo, conclamava todos os seguidores locais para uma reunião chamada de ko (literalmente, “palestra”). Nessa reunião religiosa em nível de aldeia, ele lia a carta em voz alta. Ao fazê-lo, os pensamentos de Rennyo eram transmitidos a dezenas de outras pessoas. Os ouvintes decoravam a carta, voltavam a seus povoados e mais uma vez passavam adiante a mensagem de Rennyo. Às vezes, as cartas eram copiadas e, então, enviadas a outro ko, ou grupo de seguidores. Alguns seguidores que possuíam cópias das cartas de Rennyo as recitavam todos os dias, ao amanhecer e ao fim da tarde, exatamente Omo se fossem sutras buddhistas. Dessa forma, os ensinamentos de Rennyo foram transmitidos à geração seguinte, e a organização Honganji cresceu a passos largos. Foi só esse substancial sucesso mundano de expansão do Honganji que, sem dúvida, resultou nas críticas e ataques que foram dirigidos a Rennyo. […]

Se Shinran é alguém em busca do caminho, Rennyo é um propagador do caminho. Ambos buscavam a mesma verdade, mas seguiram rotas diferentes para chegar a ela. Rennyo forneceu às massas japonesas do período medieval uma identidade dentro de uma comunidade religiosa. Em seus últimos anos, Rennyo elevou o Honganji à condição de uma instituição diante da qual até os grandes senhores feudais do período tremiam. Ele foi um homem de sucesso, que atingiu os seus objetivos e conquistou fama e reconhecimento em vida.

(Hiroyuki Itsuki, Tariki)

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