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    A ansiedade descortinada

    O que é a mente? Certamente, ela não é o cérebro em si, afinal, nós podemos vê-lo. A mente é então uma parte incorpórea, uma parte que não se pode tocar, cheirar, analisar com eletrodos ou guardar num jarro com formol.

    É nesse campo de atuação que se manifestam os processos de percepção. A mente é esse veículo que sente e filtra o mundo a partir dos sentidos – mas eles enganam quem ainda permanece dormindo, permanece na ilusão.

    Por não entendermos isso, sofremos. E às vezes, o baque é grande: há poucas décadas, classificamos a depressão como o “mal do século” passado.

    Neste novo alvorecer do milênio, o foco parece ter mudado para algo que atinge milhares de pessoas de uma forma um pouco mais sutil que a depressão: a ansiedade.

    Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) em recente estudo publicado, o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo, com números representando 9,3% de sua população.

    Isto se deve a fatores socioeconômicos, ambientais e emocionais. Neste último tópico, pode se evidenciar que o não conhecimento de si mesmo seja um dos pontos que acarreta este mal-estar permanente.

    O sentimento é de vazio, mas um vazio que preenche, sufoca e aflige. Uma agonia e um medo sem fim. Sem motivos aparentes. E o que se notabiliza é que a mente de um ansioso está no futuro; ele é um pensador que apenas pensa, e pensa e pensa. Na hora de agir, não age por conta do terror instalado em seu peito. Esta é a grande questão.

    Perdendo a mão na roda do momento presente, o indivíduo que sofre deste transtorno vive em algo que ele não presencia no agora. Ele sempre está adiante, remarcando passos, refazendo planos, imaginando situações que ainda não aconteceram.

    “E nós temos uma escolha. Podemos passar a nossa vida inteira sofrendo porque não podemos relaxar com a forma como as coisas realmente são ou podemos relaxar e abraçar a abertura da situação humana, que é fresca, não fixa e imparcial”.

    Este ensinamento do livro “A Beleza da Vida: a incerteza, a mudança, a felicidade”, de Pema Chödron, nos escancara a bifurcação logo à nossa frente.

    A monja budista estadunidense de tradição tibetana mostra que a mudança vai acontecer. Aceitar isso é o primeiro passo para parar de descer na escada do sofrimento. Essa espiral de ilusões nos hipnotiza, deixando a aparência de que temos controle absoluto sobre nossas vidas.

    Se tudo muda, o ansioso deixará de sê-lo. Esta não é uma condição permanente. Não há nada para sempre. Basta que se respire, observe a própria respiração, relaxe… e volte a viver no agora. No inspirar e expirar.

    E o que era vazio em seu peito, agora está cheio de ar. Para depois de novo esvaziar e de novo encher-se.

    * * *

  • Meditação

    Meditar envolve deixar ser

    Quantas vezes nos deparamos com situações no cotidiano que estão além do nosso controle? E, como elas estão fora dessa nossa alçada, geralmente sofremos.

    As coisas mudam e esperamos que elas apenas não mudem. Temos uma tendência inconsciente de um querer velado. De um desejo absorto de tudo continuar como exatamente está. E como isto está fora da nossa alçada, sofremos mais uma vez.

    Na verdade, é no ato de sentar-se que nos desprendemos dessas certezas e desses múltiplos quereres. E a meditação vai além desse sentar-se.

    É uma maneira nova de experienciar o que está ao nosso redor com um olhar também novo – dá para meditar no chuveiro, na fila do banco, em frente ao computador, no cinema, namorando, lendo este texto.

    É quando a gente percebe o momento presente, a todo instante. Quando a gente percebe que o que está ao nosso redor é também dentro. E não há mais essa divisão de dentro e fora, de um eu e um você isolados. Quando a gente se senta, é para entender melhor isso, através das técnicas meditativas.

    “O método que o Buda descobriu é a meditação em si. Ele descobriu que debater-se para encontrar respostas não funcionava. Foi somente quando haviam brechas em seus esforços que os insights chegaram até ele. E ele começou a perceber que havia ali um sentido, uma qualidade desperta dentro dele que se automanifestava apenas na ausência de esforço. Portanto, a prática de meditação envolve ‘deixar ser’”, diz o mestre do Budismo tibetano, Chögyam Trungpa Rinpoche.

    Em seu livro “Além do Materialismo Espiritual”, com a mais recente edição lançada no Brasil pela editora Lúcida Letra, ele traça os percalços e os tortuosos labirintos psicológicos que percorremos tentando validar a nossa espiritualidade.

    Não há necessidade de forçar ou validar nada. Apenas deixe ser.

  • Budismo

    Não entre na fila

    Quando o nosso caminho espiritual começa a se mostrar diante de nós, sempre nos perguntamos: “O que preciso fazer para transformar a minha vida?”.

    Esta é apenas uma das inúmeras dúvidas que afligem a condição humana e, provavelmente, foi um dos questionamentos que acometeu o príncipe Siddharta Gautama, o primeiro Buda que se tem notícia.

    Além das tradicionais “Quem eu sou?”, “Para onde vamos?” e “De onde viemos?”, lá pelos idos de 560 a.C., a pauta do sofrimento sempre esteve nas cátedras do pensamento do jovem Siddharta.

    Ele chegou à conclusão de que é a visão errônea da realidade à nossa volta – e também dentro de nós – a causa primeira do nosso sofrer.

    Eis o grande ponto-chave para abrir uma porta a qual todos nós temos acesso: não há o que transformar. Esta é a resposta.

    Se tudo é perfeito do jeito que é, não há porque “entrarmos na fila”, esperando a nossa vez ou um próximo passo para o que se deseja no exterior; para o que pensamos ser as “grandes transformações” em nossa vida. Esse passo (ou salto) deve se dar para o infinito interior.

    Afinal, “todo ser tem a natureza de buda”, como disse Buda em um de seus ensinamentos, quando já não atendia mais pelo nome de Siddharta. Ele, enfim, não tinha mais nome. Ele era todas as coisas. O próprio coração das coisas. Ele era e é você.