Sobre os quatro sofrimentos – O Nascimento

Sobre os quatro sofrimentos – O Nascimento


Pinterest

“O mundo triplo não é pacífico,
É como uma casa em chamas.
É cheio de sofrimento.
É terrível.
Existe sempre os sofrimentos
Do nascimento, envelhecimento, adoecimento e morte.
Eles são como chamas
Cercando eternamente.”
Buda: Sutra do Lótus, capítulo III

Tradicionalmente existem quatro coisas dadas como sofrimentos da vida. Os quatro são nascimento, envelhecimento, adoecimento, e finalmente a morte. Hoje, e nos textos que seguirão nas semanas seguintes, escreverei sobre estes sofrimentos.

Recentemente, em uma lista de e-mail, uma questão surgiu sobre se o nascimento seria ou não uma coisa ruim, e se assim fosse, não temos que nascer para manter nossa prática de Bodhisattva e salvar todos os seres vivos? Uma distinção que eu queria fazer aqui diz respeito a idéia de que nascer seja bom ou ruim, mas na verdade separar isto entendendo como algo diretamente relacionado ao sofrimento.

Acho que se você perguntar a qualquer pessoa sobre nascimento, dirão que é algo bom, especialmente para os pais de um bebê recém nascido. Por outro lado, um nascimento pode ser um indesejável acontecimento, dependendo das circunstâncias. Estes valores de bom ou ruim são muito subjetivos, e potencialmente enganadores quando estamos falando sobre causas de sofrimento.

Sofrimento é em si meramente sofrimento, e também é um fato da vida. A primeira Nobre Verdade fala exatamente sobre este assunto. Acredito que o que o budismo nos ajuda a entender é que para cada ação que ocorrer existe um potencial de sofrimento. Quando nós entendemos isto nós podemos verdadeiramente começar a liberar a nós mesmos de mais efeitos do sofrimento, e quando isso acontece passamos a reagir menos àquele sofrimento de uma maneira que nos liberta dele.

Às vezes falarei sobre isto em termos de um contrato, um contrato onde há uma cláusula que diz: “algo pode dar errado e as coisas podem não dar certo ou durar para sempre”. Esta não é uma parte da realidade da vida em que nós estamos confortavelmente procurando ou até mesmo reconhecendo. Mas ainda assim esta parte ainda está lá. Ela está lá quando nós entramos no carro de manhã para ir trabalhar, ela está lá quando nós nos apaixonamos, ela está lá quando uma nova vida é trazida ao mundo. Nós escolhemos ignorar ela por várias razões, como uma maneira terrivelmente pessimista de viver, e então a realidade pode criar medo e conseqüentemente mais sofrimento.

Vamos hoje olhar para o nascimento. Eu suspeito que a maioria das pessoas quando pensam sobre nascimento neste contexto eles pensam sobre um bebe recém nascido, então vamos começar por aqui.  Eu conheço um sacerdote que fala sobre o terror ou trauma de um nascimento para o bebê. Aqui está o bebê que está deixando um clima perfeitamente controlado, um ambiente aquático confortável onde a comida é automaticamente suprida, um sistema de gerenciamento de desperdício incluído. A vida neste ambiente é apenas sobre perfeição para esta criança. Finalmente, no dia de nascimento, o bebê é jogado para fora deste ambiente perfeito para uma sala fria, cheia de luzes e pessoas, talvez muitas pessoas.

O bebê logo percebe que seu passeio na água confortável não existe mais e também percebe que se precisar de alimentação agora deverá fazer alguma coisa para que suas necessidades sejam satisfeitas. As coisas então começarão a ficar extremamente complexas para esta forma de vida desamparada. O trauma do nascimento coloca em movimento uma vida que até a morte é uma tentativa de manipular a vida de uma forma que permita a sobrevivência, alegria e felicidade são possíveis por produtos desta experiência, mas certamente sem prioridades. Sobreviver é a singela coisa mais importante da vida. E sim, diferentes formas de vida tên a habilidade de exibir compaixão e auto-sacrifício, mas estas vêm apenas mais tarde, sob seletas circunstancias.

Nascimento por si só é um evento que começa com um trauma, mas aquele trauma não reflete onde está ou não está o sofrimento. Na verdade, suspeito que o conceito ou experiência de sofrimento que se difere de dor, não desenvolve até um pouco mais tarde na vida. Eu não sou um grande conhecedor no desenvolvimento infantil, mas isto é o que suspeito que seja o caso, quanto a determinados sofrimentos.

Agora vamos considerar nascimento de outras formas. Todos os dias nós nascemos novamente para um novo dia de novas experiências. Sim, eles são novos, mesmo que eles sejam como outras experiências de outros dias. Todos os dias começam novamente, e cada momento começa também. De certa maneira, toda a nossa vida é definida por nascimento, incessante, incansável. Talvez por termos feito isto tantas vezes em nossas vidas, nós não nos damos a chance de pensar sobre, mas isso está lá e é o que acontece, ainda que não pensamos. Todo momento nós começamos novamente. Toda a segurança de ter sobrevivido até este momento se vai e a luta pela sobrevivência começa de novo, uma vez que nada é garantido na vida e nada dura para sempre, mesmo que aparente que não vá mudar, mudará.

Nós também damos vida a novas idéias e novos projetos em nossas vidas. Este nascimento de idéias pode ser excitante ou também pode ser assustador, vai depender de cada indivíduo. Freqüentemente, o nascimento de idéias seja uma causa para esperança e entusiasmo, contudo certamente nem sempre será. À medida que novas idéias estão nascendo dentro de nós, elas estão também seguras, porque elas não precisam se deparar com nenhuma expectativa de desempenho ou sucesso. Assim que elas nascem e são lançadas pelo mundo, então pode ser bastante desafiador mantê-las vivas.

Existe, como você pode ver, muitas maneiras de se considerar um nascimento. Ainda que um nascimento possa ser algo bom ou ruim, isto é um valor que atribuímos ao evento, e puramente individual e subjetivo. Mas nascimento é realmente uma causa do sofrimento, simplesmente porque justamente com aquele nascimento, qualquer nascimento, há aquela cláusula no contrato que declara: “Pode não durar, pode não ter sucesso, não permanecerá inalterada.” Também tenha em mente que sofrimento não é necessariamente uma coisa ruim ou uma coisa que precisa ser evitada.

Sofrimento, quando nós entendemos a natureza e a causa, pode se tornar um lugar fértil para crescer e estimular nossa vida à iluminação. É quando nós nos tornamos presos no sofrimento ou quando nós procedemos de forma inábil que o sofrimento é menos que o desejável. Se tornar vítima do sofrimento nos leva a sofrer ainda mais, assim como agir de uma maneira inapta. Novamente, sofrimento não é algo a ser evitado, uma vez que não dá pra ser evitado de qualquer forma.

Nascimento como um recurso potencial de sofrimento é um fato. Ele não é uma coisa ruim, nem boa, ele simplesmente é. Ele é neutro. O que nós fazemos com o efeito, que tem sido causado, é a chave para nos tornarmos verdadeiramente felizes e iluminados.

Na próxima semana escreverei sobre envelhecimento, e talvez não seja sobre o que você está pensando.

Em Gassho.
Namu Myoho Renge Kyo.

*tradução do texto “Four Sufferings – Birth” do rev. Ryusho Shonin, da Nichiren Shu.
**crédito para a foto: http://500px.com/photo/67395841/a-piece-of-heaven-by-alex-greenshpun

 

Categories

2 Comments

Add yours

+ Leave a Comment