Sobre o Amor Romântico

Sobre o Amor Romântico


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Hoje, 12 de junho, convencionado como Dia dos Namorados, apropriadamente fui indagada sobre a visão budista do amor.

Deixando as várias conceituações de lado, imagino que a questão envolve o chamado amor romântico, passional, aquele apregoado nos livros, música, cinema, no apelo do dia de hoje. Eu diria, pela ótica budista, de amor idealizado, consequentemente de amor ilusório.

Afinal, o que todos nós pensamos sobre o amor? ou melhor, o que é que a mídia nos vende como amor? Simples: um sentimento ilusório. Somente pelo fato de ser um sentimento já é difícil de se definir. Afinal cada qual “sente” de acordo com sua bagagem emocional que carrega desde o nascimento.

O problema (muitos pensarão que o amor não pode ser um problema, mas solução) não está no amor, na idealização, na ilusão, no romance ou na paixão, posto que são conceitos. A questão está no ente que vivencia, desenvolve e se ilude com estes conceitos. Este é  o ponto primordial da visão budista. O foco budista recai sobre o indivíduo que ama, e não no amor.

Quando nos apaixonamos, a razão e a lógica são preteridas pela emoção e sentimentos e passamos a agir de modo a alimentar cada vez mais a ilusão do amor. E a partir daí o ente que ama e o ente objeto do amor passam a se confundir, envoltos pela neblina da entidade chamada amor.  Pois o ente que ama passa a enxergar apenas o seu objeto amado pela ótica de suas próprias projeções e idealizações. Muitas vezes o outro – o ente objeto, não consegue realmente manifestar-se adequadamente, sequer é consultado para confirmar sua adequação aos ensejos da contraparte. O amado é medido, modelado e formatado de acordo com as projeções e expectativas daquele que ama. Ou seja, nos apaixonamos por nossas próprias ilusões. O outro é ilusório, são nossas motivações egóicas que nos fizeram amar o outro.

Construímos uma imagem ilusória perfeita do ideal amoroso, da relação romântica ideal, do encontro fabuloso, do sexo fantástico, do casamento, da festa, da igreja enfeitada, dos padrinhos, da viagem de lua-de-mel, da casa, da decoração, dos almoços de família, dos filhos, dos cachorros, do gato, do peixinho e do papagaio de estimação…

Vivemos intoxicados  pelos sentimentos de êxtase, prazer, excitação, exaltação, desejo, a tudo que está relacionado ao amor apaixonado. E quando somos privados de paixão, caímos no inferno da abstinência, e buscamos desesperadamente uma nova dose, para então novamente repetirmos o processo – praticamente um Samsara sensual.

Repito: o problema não está no amor, mas naquele que ama. E na maneira que ama. Pois se amamos uma ilusão, o que fazer quando nos desiludimos? neste caso, quando “caímos na real”? quando percebemos que o amado não se encaixa nos parâmetros desejados? quando percebe-se que o outro tem seus defeitos, suas manias, suas exigências, suas fraquezas,  suas necessidades, suas projeções – inclusive sobre aquele que o ama? e quando o amado perceber também os nossos defeitos, manias… ou seja perceber aquilo que você realmente é, e não  a ilusão que você tanto se esforçou em mostrar para fazê-lo apaixonar-se por você? e pior, e se o amado se decepcionar?

Desta forma, qual a reflexão budista acerca do amor? A interligação entre dois conceitos básicos do Budismo: apego e ilusão. O apego às nossas ilusões, neste caso a nossa ilusão acerca do amor é que gera o sofrimento. E como o Buda já disse há cerca de mais de 3 mil anos atrás: “E qual é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento?

É apenas a nobre Óctupla Senda: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta”.

 

Portanto, desejo a todos um verdadeiro Amor Correto embasado na Óctupla Senda neste Dia dos Namorados 2014.

 

Reva. Sayuri Tyojun

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4 Comments

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  1. 3
    bianca

    Grata pelo texto. Acredito que nossa maior decepção amorosa que pode ocorrer é realmente de dentro para fora, a gente se ilude e se perde em meio as fantasias, devaneios e sonhos projetados. Creio que por isto que manter a atenção no momento presente e meditação faz tão bem ao coração e aos relacionamentos ♥

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