Seis bases

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Agora, chegamos à quarta proposição: Nama-rupa-paccaya salayatanam: “Através dos fenômenos mentais e físicos as seis bases são condicionadas”. As cinco primeiras dessas bases são os cinco órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo; a sexta base é a base da mente (manayatana), termo coletivo para as muitas e diferentes classes de consciência, isto é, os cinco tipos de consciência sensorial e os vários tipos de consciência mental. Assim, cinco bases são físicas, a saber, olhos, ouvidos, etc., e a sexta base é idêntica à consciência.

Agora, de que modo os fenômenos físicos e mentais são condição para as cinco bases físicas, ou seja, os órgãos dos sentidos; e como funcionam para a sexta base, ou consciência? Aqui temos quatro pontos principais:

A primeira questão é: como os fenômenos mentais (nama) são condição para as cinco bases (ayatana), ou órgãos dos sentidos? Os sete fenômenos mentais inseparáveis associados com a consciência sensorial, como sensação, percepção, etc., são, para as cinco bases físicas ou órgãos dos sentidos, condição mediante pós-nascença, bem como de outros modos. A atividade mental, durante a vida, é um suporte necessário para as cinco bases físicas, ou órgãos dos sentidos, já produzidos no momento do nascimento, como dito antes.

A segunda questão é: como os fenômenos mentais são condição para a base mental (manayatana) ou consciência? Os fenômenos mentais, como sensação, percepção, volição, etc., são, a qualquer tempo, para a base mental ou consciência, condição mediante surgimento simultâneo ou co-nascença (sahajata-paccaya).

Vocês devem lembrar que afirmei repetidamente quanto à impossibilidade da consciência surgir sem o surgimento simultâneo da sensação e dos demais fenômenos, pois aquela e estes são inseparáveis e mutuamente dependentes uns dos outros. Assim, eu mostrei como os fenômenos mentais são condição para as cinco bases físicas ou órgãos dos sentidos, bem como para a base mental ou consciência (manayatana).

Agora chegamos à terceira questão: como os fenômenos físicos (rupa) são condição para as cinco bases (ayatana) físicas ou órgãos dos sentidos? Os quatro elementos físicos primários, quais sejam, solido, fluido, calor e movimento, são, para quaisquer das bases físicas, desde seu primeiro momento na existência, condição mediante surgimento simultâneo (sahajata-paccaya); mas, ao longo da vida, estes elementos são, para as cinco bases, condição mediante fundação (nissaya) dos quais os órgãos dos sentidos são completamente dependentes. Além disso, o fenômeno físico “vitalidade” (rupa-jivit’indriya) é, para as cinco bases, condição mediante a presença (atthi-paccaya), etc.; em outras palavras, as cinco bases, ou órgãos dos sentidos, dependem da presença de vida física, sem a qual os cinco órgãos dos sentidos não existiriam.

O fenômeno físico da nutrição (ahara) é, para as cinco bases físicas uma condição mediante a presença, pois os cinco órgãos dos sentidos só podem existir na medida em que conseguem nutrição apropriada. Mostrei assim como os fenômenos, ou rupa, são condição para as cinco bases físicas, ou ayatana.

Resta somente a quarta questão: Como os fenômenos físicos podem ser condição para a base mental (manayatana), ou consciência? Os cinco fenômenos físicos como olho, ouvido, nariz, etc., são para os cinco tipos de consciência, ou seja, visão, audição, etc., uma condição mediante a fundação (nissaya) bem como mediante pré-nascença, presença, etc. Estes cinco tipos de consciência não podem, ao longo da vida, surgir sem o pre-surgimento (purejata) dos cinco órgãos dos sentidos como sua fundação (nissaya); portanto, sem o prévio surgimento e presença do olho, não há visão; sem o prévio surgimento e presença do ouvido, não há audição, etc.; de modo que, caso os cinco órgãos dos sentidos sejam destruídos, nenhuma consciência sensorial correspondente pode surgir.

De modo semelhante, o órgão físico da mente é condição para os vários estágios da consciência mental. [1]Nos livros canônicos, nenhum órgão físico específico é apontado como a base física da consciência-da-mente, nem cérebro nem coração, embora todos os comentários bem como de modo geral a tradição budista mencionem o coração como sendo tal base. Penso que foi meu amigo birmanês Shwe Zan Aung o primeiro a trazer à baila tal informação em seu Compendium of Philosophy.[2]

Assim, mostramos como os fenômenos físicos são condição para a base mental (manayatana), ou consciência. E com isso explicamos o sentido da proposição: “Através dos fenômenos mentais e físicos as seis bases são condicionadas”.

 

 

[1] Mano-vinnana ou consciência-da-mente, não depende do funcionamento simultâneo de nenhum dos cinco órgãos dos sentidos, embora objetos visíveis, sons, etc., possam, todavia, reaparecer como objetos metais internamente. Deste fato a consciência durante o sonho é um exemplo vívido.

[2] Shwe Zan Aung, Compendium of Philosophy (London, 1910), pp. 277f. Para um budista pouco importa se é o cérebro, o coração, ou qualquer outro órgão a base física da mente.

 

Créditos da foto:  http://blogs.warwick.ac.uk/iggylitro/tag/litro/

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