Se você quiser praticar o dharma significa que você quer atingir a iluminação

Se você quiser praticar o dharma significa que você quer atingir a iluminação


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Texto por Dzongsar Khyentse Rinpoche no retiro, “Advice on How to Practice”, Silz, Germany, August 2001.

Se você realmente quiser praticar o Dharma significa que você quer atingir a iluminação. Esforçar-se para ser feliz, ou ser uma boa pessoa não é seu objetivo principal.

Claro, não é como se você pretendesse ser infeliz ou se tornar uma pessoa ruim. Como regra geral, você precisa se encaixar na sociedade, e tenta ser educado e gentil. Você tem etiqueta, e você é respeitoso.

Muitas pessoas pensam: “Como ele pode ser um praticante de Dharma!? Ele é tão arrogante!” No entanto, é muito difícil julgar o outro, porque, para o praticante genuíno do Dharma, “se encaixar” realmente não é seu objetivo principal.

Se alguns dos grandes mestres do passado, como Tilopa ou Naropa, entrassem nesta sala agora, eu não acho que eu iria permitir-lhes a entrada! Iríamos considerá-los como moradores de rua, mendigos de rua ou intrusos mesmo.

Imaginem Tilopa, quase completamente nu – talvez parcialmente coberto com algum pedaço de pano, se tivermos sorte. Seu cabelo nunca foi lavado, e há peixes ainda vivos saindo de sua boca, com sua cauda ainda trêmula. Vivo! “Ele é supostamente um budista, como ele pode fazer uma coisa dessas?” Nós tendemos a ser muito teístas em nossa mente julgadora.

Nós realmente deveríamos ter esta aspiração. Devemos orar para que um dia possamos chegar a um patamar em que teremos coragem suficiente para nos tornarnos como essas pessoas excêntricas. Agora, só podemos nos dar ao luxo de sermos um pouco não-conformistas. Um pouco de loucura é bom. É o tipo de atividade de construção de personagem. Mas estamos com muito medo de ir além disso! Ficaríamos desamparados e esse tipo de coisa. Assim, devemos rezar para que, um dia, nos tornemos realmente loucos. Não no sentido de se tornar algo como um lunático de um desses asilos. A loucura, a qual estamos nos referindo é que vai além dos “oito Dharmas mundanos”; realmente não se importar se você está sendo elogiado ou criticado é a loucura final!

Do ponto mundano de vista do mundo, sempre que é elogiado, você deveria estar feliz, e quando você é criticado, você deve ser infeliz. No entanto, os seres sublimes não são movidos [por elogios ou críticas] – é por isso que acho que eles são loucos. Isto é o que você tem que almejar.

Então continue de uma forma que qualquer ser humano decente iria querer que você se comportasse. Mas, ao mesmo tempo, deixe este alarme soar continuamente em sua cabeça: “Tudo isso é inútil.”

O Dharma não é uma terapia

Nunca se deve pensar que você resolverá sua vida através da prática do Dharma. É por isso que o Dharma não é uma terapia. É exatamente o oposto. Eu digo: o efeito do Dharma é agitar sua vida. Ele foi criado para realmente virar sua vida de cabeça para baixo. Se é o que você pediu, por que reclamar?

Se o Dharma não estiver virando sua vida de cabeça para baixo, o Dharma não estará funcionando para você. O Dharma que não vira sua vida de cabeça para baixo é mais um desses métodos da nova era: “Deepak Chopra”, “12 passos”, “Homens são de Marte e Mulheres são de Vênus”. O Dharma realmente deve perturbá-lo.

Virando sua vida de cabeça para baixo

É um grande erro pressupor que praticar o Dharma irá nos ajudar a acalmar e a levar uma vida sem problemas; nada poderia estar mais distante da verdade. Dharma não é uma terapia. É bem o oposto na verdade: o Dharma é algo sob medida para virar sua vida de cabeça para baixo — é justamente isso que você encomendou.

Então, quando sua vida sai completamente do planejado, por que você reclama? Se sua prática e sua vida não capotarem, esse é um sinal de que o que você está fazendo não está funcionando.

É isso que distingue o Dharma de métodos New Age envolvendo auras, relacionamentos, comunicação, bem-estar, a Criança Interior, ser um com o universo e abraçar árvores. Do ponto de vista do Dharma, tais interesses são os brinquedos de seres samsáricos — brinquedos que rapidamente nos entediam até a letargia.

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4 Comments

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  1. 1
    Paulo Reis Junior

    Gostei!
    A iluminação é ser amoroso e ter entendimento, um deficiente mental feliz pode ter muito amor, mas não tem entendimento, ele é o que é! Procurar ter o paraíso bem embaixo dos pés, significa entender que a mente é o campo fértil, o pensamento é a semente, uma semente de cevada plantada no campo fértil não gerará um broto de arroz. O Dharma é diferente para cada ser senciente, cada um terá brotos do que semeou, seja lá o que for.
    Independente do que acredite, o outro é único, inédito, em toda eternidade nunca existiu e nunca irá existir alguém igual a aquele que compartilha na brevidade da existência, entendimento raro e diferente contigo. O privilégio de ver a luz do outro, com a sua luz, significa compartilhar com o outro as sementes raras de ambos os seres, mas o único que pode semear no campo fértil, continua sendo o ser.
    Esse entendimento resulta que será julgado com a medida de justiça dos outros, mas um galho não se torna pedra por que alguém julgou assim. O seu campo é o que é! Indiferente de ser apreciado ou não pelo outro.

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