Sangham saranam gacchami

Sangham saranam gacchami


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A última afirmação na fórmula do refúgio diz respeito a terceira joia, o Sangha. Assim como o Buddha e o Dhamma, o Sangha também é objeto de uma meditação, tendo como foco as suas qualidades. Para que exista sangha, é preciso um mínimo de quatro monges ordenados seguindo o vinaya. Segundo a tradição theravada, são dois os sentidos de sangha como comunidade ou fraternidade de ordenados. Temos a Aryia Sangha ou Ordem Nobre, composta por monges que realizaram um ou mais aspectos do caminho, o que os torna digno de ofertas. Por outro lado temos Puthujjana Sangha, a Ordem Comum, ou seja, monges que ainda não se libertaram em nenhum aspecto mas estão lutando arduamente para atingir a condição de nobreza mencionada anteriormente. Tomar refúgio e relembrar as qualidades do sangha como prática tem como foco a ordem nobre. Eis a recitação em pali:

Supatipanno Bhagavato savakasangho, ujupatipanno Bhagavato

savakasangho, nayapatipanno Bhagavato savakasangho, samicipatipanno

Bhagavato savakasangho; yadidam cattari purisa yugani attha purisa puggala, esa Bhagavato savakasangho;

ahuneyyo, pahuneyyo, dakkhineyyo, anjali karaniyo, anuttaram punnakkhettam lokassa ti

 

A comunidade de discípulos do Bem-Aventurado que pratica completamente,

A comunidade de discípulos do Bem-Aventurado que pratica corretamente,

A comunidade de discípulos do Bem-Aventurado que pratica sabiamente,

A comunidade de discípulos do Bem-Aventurado que pratica apropriadamente,

A saber, os quatro pares de seres nobres, os oito estágios individuais de realização.

Estes, de fato, são a comunidade de discípulos do Bem-Aventurado.

Merecedora de presentes, merecedora de hospitalidade, merecedora de oferendas,

Merecedora de grande respeito;

Ela é um incomparável campo de méritos neste mundo.

 

Deixarei as listas dos quatro pares de discípulos e dos outo tipos individuais para um próximo texto, a título de complemento. Passemos aos termos da fórmula acerca do sangha.

  1. Supatipanno – que pratica completamente. Isto significa seguir de modo fiel as instruções dadas pelo Bem-Aventurado, praticar o Dhamma, viver em conformidade com o Dhamma e a disciplina.
  2. Ujupatipanno – que pratica corretamente. O caminho que conduz diretamente a nibbana, que implica o abandono da má conduta de corpo, fala e mente.
  3. Nayapatipanno – que pratica sabiamente. Algumas traduções dizem caminho verdadeiro, caminho verdadeiro para nibbana. Significa a prática correta e cuidadosa do caminho óctuplo, de modo que um monge pode até mesmo sacrificar a vida em nome da correção de sua prática.
  4. Samicipatipanno – que pratica apropriadamente. Isto quer dizer fazer uso dos quatro requisitos doados pelos leigos de modo a avançar no caminho, como um filho que recebe bem a herança da família e não a dissipa de modo irresponsável. Os quatro requisitos são: comida, roupas, medicamentos e abrigo.
  5. Ahuneyyo – merecedora de presentes. Pode-se traduzir também como digno de presentes. Diz respeito aos requisitos mencionados acima, que são doados pelos leigos e podem produzir grandes frutos, ou seja, méritos para os leigos por ajudar na formação de futuros arahants. Este é o fruto que torna o sangha digno.
  6. Pahuneyyo – merecedora de hospitalidade. Só há sangha enquanto vigora o ensinamento de um Buddha. Nesse sentido podemos entender a comunidade como um visitante raro que devemos tratar de modo adequado, com toda hospitalidade, como convidado de honra.
  7. Dakkhineyyo – merecedora de oferendas. Chama-se oferta o presente dado com fé na próxima vida, ou seja, com fé que as consequências positivas da oferta se farão presentes para além da existência atual.
  8. Anjalikaraniyo – merecedora de grande respeito. Uma vez que os membros da comunidade monástica vivem a vida santa com sinceridade isso os torna dignos de reverência. A reverência dentro da tradição buddhista se faz com as palmas das mãos juntas diante da cabeça.
  9. Anuttaram punnakkhetam lokassa – campo inigualável de méritos neste mundo.  Dadas todas as qualidades da ordem dos nobres discípulos, podemos entender porque se diz que ela é um campo inigualável de méritos. Os melhores resultados da generosidade ocorrerão se tal generosidade se dá para com a comunidade monástica. Isso não exclui as demais ajudas que as pessoas façam regularmente ou não, apenas quer dizer que dentro da tradição antiga a comunidade dos discípulos nobres do Bem-Aventurado ocupa lugar de honra como receptora de generosidade.

 

 

Uma última observação. David Kalupahana, em livro já citado por nós conclui sua exposição das três joias e suas qualidades apontando que  não devemos tomar a palavra refúgio no sentido de haver um agente externo como uma divindade como causa da proteção implicada pela palavra refúgio (ele afirma que deveríamos encontrar outra tradução ao invés de refúgio por conta disso). Uma das coisas que ele aponta e que vale a pena manter em mente é que ao tomar refúgio nas três joias é como se tomássemos refúgio em nós mesmos, no sentido de que a vida moral implicada nas três joias torna-se vivida e torna-se nosso escudo contra as vicissitudes que o mundo apresenta. Mas isso só acontece se trazemos a prática para nossa vida de modo consistente. Nesse sentido a fórmula da tomada de refúgio não se torna mera repetição, mas um lembrete constante de como viver a vida.

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