Reverência

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Então, quais são as características de uma vida religiosa, uma vida de fé? Internamente há o Ensinamento, ou seja, a Doutrina, externamente há a expressão religiosa. Isto é, nós ouvimos e acreditamos nos Ensinamentos religiosos e manifestamos esta crença externamente através da reverência. Estas são as duas mais importantes características da vida religiosa.

Vasubandhu (a.c.320-400) da Índia, um dos Patriarcas da tradição da Terra Pura, evidenciou a reverência como o primeiro passo para a entrada na pura vida religiosa. Sem a reverência não há verdadeira religião. Nós dissemos que a verdadeira vida religiosa é aquela dedicada a ouvir o Ensinamento e praticar a reverência.

Estaremos nós então, considerando cada ocasião na qual reverenciamos ou ouvimos o Ensinamento como sendo uma genuína manifestação de pura vida religiosa? É mais ou menos como diz o velho ditado: “Mesmo uma cabeça de sardinha pode tornar-se objeto de reverência se alguém tem fé”. Mesmo algo como uma cabeça de sardinha pode tornar-se objeto de fé se alguém posiciona sua mente neste sentido e eu penso que isto poderia até ser chamado de “reverência”.

Entretanto, se olharmos mais cuidadosamente para o interior da mente que reverencia desta forma geralmente encontraremos mais egoísmo do que qualquer outra coisa. Esse egoísmo pode assumir uma pretensa religiosidade, mas realmente ele está apenas tentando satisfazer os desejos do ego. Se nossa vida religiosa estiver fundamentada nesta espécie de atitude egoísta, estaremos certamente inclinados a escolher qualquer fé, desde que haja mais vantagens para nós mesmos. Um exemplo marcante disso, é o comerciante no qual a fé religiosa é meramente uma extensão de seu desejo de lucro. Isso não é Religião Verdadeira, qualquer que seja o sentido da palavra.

Reverência no seu sentido original tem a conotação de auto-transcendência, literalmente abaixar a cabeça. Tal é a forma de reverência que o nosso todo deve assumir.

Anseios tais como o desejo de saúde ou de bem estar podem compor uma parte de nossa vida, mas não podem nunca formar sua totalidade. Sendo assim, por um lado, mesmo que reverenciemos para obter satisfação dos nossos desejos pessoais, por outro lado, eu digo que isso não é a verdadeira reverência.

A reverência vista especificamente desta forma, não é algo fácil. Alguém poderia quase dizer que ela é impossível dentro dos limites da capacidade humana.

O monge chinês T’an-luan (476-542), um dos patriarcas da Terra Pura, certa vez escreveu: “A devoção é sempre acompanhada de reverência mas a reverência nem sempre é acompanhada de devoção”. A devoção, o verdadeiro “inclinar a cabeça diante de algo”, leva naturalmente a uma vida de sincera reverência. Mas, não obstante quão zelosamente possamos reverenciar, se nós continuamos abrigando desejos egoístas em nossos corações, então, nossa reverência não constituirá a sincera reverência, é uma vida de negação do ego e de todas as suas intenções.

Essa pura vida religiosa, essa vida que não permite o egoísmo, brota quando todo o nosso ser é transformado num veículo para receber o Ensinamento. Toda a nossa vida deve tornar-se um ato de ouvir o Ensinamento, todo o evento servindo de condição para o aprendizado de vida, independendo de quais sejam as circunstâncias nas quais nos encontremos.

Genericamente falando, não podemos nunca fazer uma mesma coisa duas vezes na vida. Assim sendo, sempre acho um pouco engraçado quando pessoas mais velhas dizem às mais jovens: “Vocês jovens cometem tolices porque não viveram o bastante para saber melhor. Nós, pessoas mais velhas, temos muita experiência e portanto raras vezes cometemos erros como vocês”. Isso parece bastante verdadeiro a princípio, mas eu não penso que seja válido. Enfatizando um pouco o que eu digo, sinto que uma criança de três anos é exatamente igual a um adulto de oitenta, pois cada experiência vivida por ambos é única e sem repetição. Independentemente de quanta experiência possamos ter tido, ninguém prediz o que está guardado ou reservado para nós, no próximo instante, no futuro. A cada momento, cada um de nós está adentrando aquele intervalo de tempo que é sempre novo e nunca foi antes percorrido por nenhum outro ser humano.

Não podemos predizer o que o amanhã pode trazer. Mesmo que possamos falar sobre nossos planos de vida, isto não significa que eles aconteçam no futuro. Assim, por mais que tentemos usar a religião para atingir fins egoístas, mais angústias teremos que suportar diante dos eventos inesperados que surgem a cada momento. A religião usada desta forma, jamais poderá nos ajudar com sucesso, diante dos imprevistos da realidade da vida.

Um Sutra afirma: “É neste exato momento, neste exato lugar, que o Buda prega o Dharma”. A verdadeira religião deve ser aquela que preenche a totalidade de nossa vida. A religião deve ser uma fonte inesgotável para esta vida, ou seja, o ponto do qual, nós constante e renovadamente, recebemos o Ensinamento. Nossas vidas serão assim, transformadas, transformadas numa vida de reverência, que é a verdadeira vida religiosa, na qual nós inclinamos nossas cabeças e ouvimos o Ensinamento.

Vista desta perspectiva, a modernização da religião, não é meramente uma questão de reformá-la para sua adequação às necessidades dos dias atuais. Nós que temos tais necessidades, devemos em verdade, ser aqueles que recebem os Ensinamentos e se empenham em buscar neles o significado das nossas vidas.

Um pensador religioso, o Manshi Kiyozawa (1863-1903) disse certa vez:

A religião não existe para o alimento, para a nação, para o enriquecimento ou defesa de uma nação, para a fama ou prosperidade individual. A religião existe para a aspiração infinita, que jaz nas profundezas da mente humana.

A verdadeira religião não tem resposta para nossas buscas egoístas. Ao invés disto, ela nos mostra o caminho além do sofrimento e da aflição causados por aquelas mesmas buscas. Enquanto isto não for entendido, a religião não pode dar a resposta aos nossos mais íntimos anseios.

Rev. Takashi Hirose (extraído do livro “O Caminho do Discípulo”)

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    Larissa

    Esse texto me tocou profundamente. Tenho um bebê de três meses e desde o seu nascimento, todas as minhas convicções caíram. Eu tinha tantos planos para minha vida com ele, tantos sonhos… Qd ele nasceu ficou 15 dias internado na UTI e desde que voltamos pra casa ele vem apresentando problemas de saúde cada vez mais difíceis de lidar. Eu realmente estava usando a religião como uma forma de negociar com Deus, pedindo a cura de meu filho. Ao ver as coisas só piorando ao invés de melhorarem com tanta oração, fui percebendo que a forma como eu estava conduzindo minha vida e lidando com essa situação estava equivocada. Hoje o que eu mais busco é poder estar feliz e serena com minha família mesmo diante do sofrimento causado pela doença. Mas confesso que estou achando bem difícil…. Quem disse que seria fácil, não é mesmo!!
    Muito obrigada pelo belo texto!!

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