Responsabilidade universal no mundo moderno


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Responsabilidade universal no mundo moderno, Dalai Lama - Blog Sobre Budismo

Transcrição da Palestra Pública de Sua Santidade sobre a Responsabilidade Universal no Mundo Moderno. Royal Albert Hall, Londres, Reino Unido, 22 de maio de 2008.

Traduzido por Fernando Schneider da equipe Sobre Budismo de tradução. Muito obrigado Fernando.

Texto original: Universal Responsibility in the Modern World

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Riki Hyde-Chambers, Presidente da Tibet Society, (Sociedade do Tibete, em tradução livre): Senhoras e senhores, é com grande privilégio que vos apresento a Sua Santidade Tenzin Gyatso, o décimo quarto Dalai Lama do Tibete.

Alguém na plateia: Nós te amamos!

Sua Santidade o Dalai Lama: Obrigado.

Em primeiro lugar, deixe-me sentar mais confortavelmente. Não se preocupe, não vou começar a meditar em silêncio. Muito obrigado. Estou muito, muito feliz por poder me reunir com o público neste auditório mais uma vez. Eu acho que é a terceira vez ou talvez a segunda. Não me lembro.

Queridos irmãos e irmãs, estou extremamente feliz por poder me sentar aqui e interagir com vocês. Vou começar falando por cerca de 30, 40 minutos. Quando falo, geralmente não há uma duração exata, depende do meu humor. Se meu humor estiver bom, falo por mais tempo, se meu humor não estiver tão bom, a conversa será mais curta. Sempre que dou uma palestra não faço nenhuma preparação nem tenho quaisquer anotações. Apenas expresso o que sinto de uma forma completamente informal. Em seguida, haverá algumas perguntas. Isso será útil para mim, porque às vezes há perguntas inesperadas ou assuntos que eu nunca havia considerado. Isso me ajuda a pensar sobre o assunto mais seriamente, assim, há um benefício mútuo.

Para começar, quero agradecer aos organizadores, principalmente a Tibet Society. Acho que é a sociedade mais antiga desse tipo, formada quando nos tornamos refugiados, para apoiar a causa do Tibete. Lembro-me do Sr. Ennals e dos outros membros ativos que fizeram uma grande contribuição para a causa tibetana. Ele não está mais entre nós, mas Riki estava aqui na minha primeira visita, em 1973, e desde então em seu rosto, não houve muita mudança. Ele não é fisicamente muito grande, mas é cheio de energia e é muito caloroso. Essas pessoas carregam o espírito original e o fazem ficar ainda mais forte. Quero agradecer a Tibet Society e os nossos outros amigos e apoiadores. Muito obrigado. Entre os parlamentares, há uma série de pessoas que mostram uma preocupação genuína. Obrigado. Sempre acreditei que os nossos apoiadores não são somente pró-tibetanos, mas sim pró-justiça. Eu aprecio muito isso.

Também quero agradecer aos músicos e dançarinos tibetanos. Gostei muito deles. Por quase meio século eles estão desalojados. As gerações mudam, mas o nosso povo mantêm o espírito tibetano vivo. Aqui na Inglaterra há poucos tibetanos, mas eles mantêm o nosso espírito muito vivo. Não só isso, as crianças que nasceram aqui receberam de herança o espírito tibetano de seus pais. Uma herança da geração mais velha para a geração mais jovem. Esse era o nosso objetivo inicial. Logo após nos tornarmos refugiados, a nossa principal preocupação era preservar a rica cultura budista tibetana. Em outras palavras, uma cultura de paz e de compaixão. Hoje, isso é algo muito relevante para esse mundo. Portanto, desde o início, o nosso principal esforço tem sido o de preservar a cultura tibetana. Hoje, nossas principais discussões com as autoridades chinesas são sobre como proteger o patrimônio cultural do Tibete. Essa é a nossa principal preocupação. Aqui, esse pequeno grupo esforçou-se para preservar o nosso espírito, a nossa herança cultural. Muito obrigado.

Voltando para a palestra, acho que a maioria de vocês sabe que eu tenho duas preocupações principais. Número 1 – agora por causa dessa luz é necessário [veste o boné]. Essa não é a seita do chapéu vermelho, a seita do chapéu amarelo ou a seita do chapéu azul. É algo muito prático. Meu principal interesse, o meu principal compromisso, que faço de forma voluntária, são duas coisas: 1) a promoção dos valores humanos e 2) a promoção da tolerância religiosa. Estou comprometido com essas duas coisas até a minha morte. O terceiro compromisso é com relação ao problema/luta tibetana. Essa última não é necessariamente um compromisso voluntário, por causa dos fatos históricos. A coisa mais importante é que o povo tibetano, dentro e fora do Tibete, confia muito em mim e deposita muita esperança em mim, então, tenho a responsabilidade moral de atendê-los da melhor forma que eu puder. É claro que a minha capacidade, conhecimento e experiência em diversas áreas são muito limitadas, mas é minha responsabilidade moral atendê-los da maneira que eu puder. Porém, há um limite de tempo. Já estou em um cargo algo como semi-aposentado, pois tivemos líderes políticos eleitos em 2001. Então, a minha posição é algo parecido com o de conselheiro sênior. Na maioria dos casos, o líder político escuta a minha opinião, mas às vezes isso não acontece. Isso é bom. Além disso, da minha parte, tenho algumas dúvidas em relação a algumas de suas políticas, mas sempre permaneço em silêncio. Dessa maneira estamos sinceramente praticando a democracia.

Quando viajo para dar palestras, eu geralmente falo sobre duas coisas: a promoção dos valores humanos e a promoção da tolerância religiosa. Porém, minhas recentes visitas aos Estados Unidos, Alemanha e agora aqui, tornaram-se muito mais politizadas por causa dos recentes acontecimentos no Tibete. Tudo bem. Assim, o tema da minha palestra aqui é a responsabilidade universal no mundo moderno. Desde a minha primeira visita à Europa, em 1973, eu carrego esta mensagem de responsabilidade universal, com um sentido de responsabilidade global. Desde que fui para a Índia em 1959, tive a oportunidade de conhecer uma variedade de pessoas – e meu inglês quebrado é bem útil para ouvir a BBC World Service – e parece-me que estamos diante de muitos, essencialmente feitos pelo homem, problemas. É claro que os desastres naturais são algo diferente, mas a maior parte dos nossos problemas é essencialmente de nossa própria criação. Ao mesmo tempo, ninguém quer problemas. Há algumas milhares de pessoas nesse auditório e eu acho que quando você se levanta bem cedo ou meio tarde, de manhã, ninguém espera ter mais problemas, mais dificuldades durante o dia. Ninguém sente isso. De manhã cedo, assim que acordo, eu creio, espero ou desejo que ele seja um dia agradável. Um dia alegre, sem problemas. Essa é a natureza humana. Essencialmente, a maioria dos desordeiros não o são intencionalmente, mas a sua abordagem se torna irrealista e isso causa problemas inesperados. Uma abordagem irrealista também não acontece intencionalmente, acontece por causa da falta de uma perspectiva holística, abrangente e em muitos casos por miopia. Assim, em última instância, há uma falta de senso de responsabilidade global, que nos divide em “nós” e “eles” e nos faz sentir que os nossos interesses são independentes dos outros. Consideramos nossos próprios interesses como os mais importantes e ignoramos os interesses dos outros. Isso cria um problema. Na realidade, os nossos interesses e os interesses dos outros estão muito interligados, somos parte dos 6 bilhões de seres humanos. Portanto, se 6 bilhões de seres humanos são felizes, um indivíduo é obrigado a ser feliz. Se 6 bilhões estiverem com problemas, você não pode escapar. Essa é a realidade. De acordo com essa realidade, o nosso conceito secular de que “nós” e “eles” são independentes está, penso eu, desatualizado. Agora, particularmente nesses tempos modernos, com as condições econômicas, as questões ambientais e o tamanho da população, tudo é interdependente. Então, nessas circunstâncias, de acordo com o conceito budista, você deveria considerar todos os seres sencientes como o ser senciente mãe, a quem você deve desenvolver o mesmo sentimento de proximidade que tem com sua própria mãe. Assim, de acordo com a doutrina teológica, toda a criação foi criada por Deus. Portanto, nós seres humanos, os outros seres sencientes e todo o mundo foram criados por Deus. Um amigo muçulmano me disse que um verdadeiro muçulmano deve amar toda a criação, da mesma maneira que ama a Deus. Palavras diferentes, uma abordagem diferente, mas com o mesmo significado. Por isso há a ideia de que há um senso de responsabilidade global, que devemos desenvolver um senso de preocupação por toda a humanidade, o mundo inteiro. Isso, eventualmente, está se desenvolvendo. Por mais de 30 anos esse tem sido o meu conceito e ele ainda é relevante nos dias hoje. Cada vez mais pessoas parecem concordar com ele.

Então, como desenvolver um sentimento de responsabilidade global? Está muito mais relacionado ao compromisso com a promoção da tolerância religiosa e dos valores humanos. Em primeiro lugar, vou abordar a promoção dos valores humanos.

O que são valores humanos? Dinheiro? Ah, sim. Isso é muito importante. Em tibetano dizemos Kunga Dhondup. Esse é o apelido de dinheiro, que significa literalmente, “aquele que faz todos felizes e pode conseguir tudo”. Isso é verdadeiro, sem dinheiro você não consegue fazer as coisas. Dinheiro é importante. Às vezes faço uma piada para um público budista, principalmente para os tibetanos: costumamos recitar um mantra especial tibetano, “Om Mani Padme Hum”. Alguns de vocês devem conhecer, eu acho. Recitamos, às vezes rapidamente, então fica: “Om Mani Padme Hum, Om Mani Padma Hum, Om Mani Padma Hum”, então tornar-se “OmMani, OmMani, Mani, Mani, Mani” [falado mais e mais rapidamente]. Ele parece muito com “money money money money”. Então, dinheiro tem seu valor e todas essas facilidades externas são valiosas. Pois bem. Mas todos eles oferecem conforto físico e não mental. Se você tiver muito dinheiro, você terá alguma satisfação na sua vida mental: “Ah, eu tenho muito dinheiro”. Isso é ilusório, pois observamos que um bilionário tem muito dinheiro, mas pode ser uma pessoa muito infeliz. Podemos observar isso. Eles têm muitas preocupações, ansiedade, desconfiança e ciúme. O dinheiro não lhes traz a paz interior. Mais dinheiro traz mais suspeita, desconforto e preocupações. Acreditar que se você tiver dinheiro tudo será resolvido, que você vai ter 100% de satisfação, é uma ilusão. Mas, é claro, você tem de ser o juiz desse fato, porque eu nunca digo que os assuntos que eu falo estão 100% corretos. Por favor, investiguem por si próprios. Eu mesmo estou treinado de modo que sempre estou investigando.

A tradição budista tibetana é de fato a tradição Nalanda. Nalanda é, eu acho que podemos afirmar, a universidade mais antiga que existe, porque tem mais de 2.000 anos de idade. Não é apenas um mosteiro, mas um centro de aprendizagem. A tradição budista tibetana foi criada por um grande filósofo indiano, um lógico, dessa universidade. Seu nome era Shantarakshita. No século VIII, ele foi convidado pelo imperador tibetano a vir para o Tibete. Ele tinha 900 anos, de acordo com o sistema de idade tibetano; de acordo com um amigo indiano ele tinha em torno de 75 anos. Esse amigo brinca que os tibetanos adicionam um zero a mais, de modo que 90 se tornou 900. Shantarakshita – seu nome soa bem, em tibetano Shiwa Tso – foi a pessoa que estabeleceu o budismo no Tibete, com a ajuda do imperador tibetano. Pelo fato de ele ter sido um grande estudioso e lógico, ele nunca estava satisfeito. Ele dizia, “investigar sempre, argumentar sempre, raciocinar sempre”. Esse era o seu estilo. Ele introduziu a tradição budista dessa forma. Até agora, a principal instituição budista tibetana sempre levou seus estudos dessa maneira: investigação, investigação. Eu também sou treinado em investigação e em experimentos, e por isso quero compartilhar com vocês, até mesmo sobre as minhas próprias ideias: “por favor, continuem investigando”. Não aceitem facilmente minhas palavras.

A paz interior e a satisfação interior genuínas dependem de nossa atitude mental. Que tipo de atitude mental? Em primeiro lugar, somos animais sociais, por isso, deve haver um fator emocional que nos une como um grupo social. Há também um fator biológico. Nós nascemos do ventre de nossa mãe, e, naquele momento, somos como animais, pequenas crianças. Nossa sobrevivência depende totalmente do cuidado de alguém, geralmente de nossa mãe. Se a sua mãe o abandonar por apenas um, dois ou três dias, eu acho que você morreria. Nossa sobrevivência depende totalmente do cuidado dos outros. Além disso, o corpo físico sobrevive dos nutriente do leite da mãe. A sobrevivência dos jovens, não só dos seres humanos, mas dos gatos, dos cães e até mesmo dos pássaros, depende inteiramente do cuidado dos outros. Isso é um fato. Então, deve haver um fator emocional que desenvolveu esse tipo de determinação na mãe: o afeto da mãe. Esse afeto traz consigo a determinação de uma mãe em sacrificar seu próprio conforto ou até mesmo sua vida, a fim de proteger e cuidar.

Recentemente, eu estava em um voo noturno, acho que do Japão para os Estados Unidos ou dos Estados Unidos para a Europa. No assento da frente havia um casal com dois filhos. Um tinha talvez seis ou sete anos de idade e o outro um ano de idade. O mais novo não dormiu a noite inteira, ele estava andando para lá e para cá e gritava. Em certo momento, ofereci-lhe um doce que tinha no bolso. Ele o pegou e em seguida, continuou andando. No início, o pai estava cuidando do menino, mas depois da meia-noite, de repente, deitou-se no assento. Então, a mãe cuidou da criança por toda a noite. Os olhos da mãe até ficaram vermelhos devido, penso eu, à falta de sono. Assim, essa foi a reafirmação para mim de que as mães são muito, muito bondosas. Esse tipo de atitude não vem do ensino religioso, mas da natureza. É principalmente um fator biológico. O afeto é fundamentalmente a base da nossa vida.

Houve uma pesquisa científica sobre o assunto. Em certa ocasião, um cientista fez uma apresentação sobre macacos jovens, alguns dos quais estavam com suas mães e outros foram separados delas. Os macacos que estavam com suas mães eram sempre brincalhões e muito raramente brigavam. Os macacos que foram separados de suas mães estavam sempre de mau humor e brigavam frequentemente. Nós somos iguais. Portanto, uma vida pacífica e feliz está muito relacionada com a afeição. Em outra ocasião, um médico cientista em uma conferência, falou sobre como cobaias ou ratos, que se lambiam uns aos outros tiveram um efeito muito mais positivo na cicatrização de feridas. Isso também indica que o afeto tem um efeito sobre nossos corpos físicos bem como em nosso conforto mental. Portanto, podemos dizer que o afeto é um valor humano básico. Desde o momento do nascimento até a morte, o afeto ou a compaixão humana, desempenha um papel muito importante.

Agora que imensas crises têm se desenvolvido, a compaixão realmente faz a diferença. Meu próprio caso são os recentes acontecimentos de 10 de março. Na tarde de 10 de março, recebi notícias de Lhasa que alguns tibetanos estavam fazendo manifestações. Assim que eu ouvi isso, eu tive a mesma experiência de 10 de março de 1959: muita ansiedade e também medo. Ao nível de inteligência, houve muita ansiedade, medo, dúvida e incerteza. Mas, ao nível mais emocional, parecia que estava tudo bem. Normalmente eu durmo pelo menos oito ou nove horas. O que você acha, é muito? Felizmente, apesar de uma série de perturbações no nível da inteligência, meu sono nunca é perturbado. Então, parece haver certa serenidade. O principal fator de isso ocorrer é o meu treinamento e a meditação diária. Um tipo especial de meditação é “receber e dar”, “dar e receber”, a palavra tibetana é tonglen. Costumo meditar sobre isso, sobre o altruísmo. Claro, meu dia começa às 03h30min todas as manhãs, que é quando faço a meditação por pelo menos quatro horas, principalmente a meditação analítica. Uma parte da minha meditação é visualizar as pessoas que tomam decisões e desenvolver o altruísmo. É muito importante fazer uma distinção entre a ação e a pessoa. Levando em consideração a ação, temos que nos opor quando necessário, para dar uma resposta. Mas a pessoa que realizou o delito realmente merece a nossa compaixão, nossa preocupação. Foi seu próprio ato errôneo, por isso, do ponto de vista budista, a partir do ponto de vista religioso não-teísta, de acordo com a lei da causalidade, eles têm que enfrentar as consequências. Portanto, há mais razão para sentir preocupação por esse instigador do que pelas suas vítimas. Visualize essas coisas, em seguida, tome a raiva, ódio e desconfiança deles e dê-lhes a compaixão, um espírito de perdão e paciência. Esse tipo de prática de meditação parece bobo porque é apenas imaginação. Sim, não tem nenhum efeito real. Mas o nível emocional do praticante obtém imensos benefícios dessa prática. Essa é a minha experiência, mas não é nada especial.

Já contei, anteriormente, a história de um monge tibetano que conheci bem antes de 1959, que passou 18 anos em um gulag (campo de concentração) chinês. No início dos anos 80, o governo chinês adotou uma nova política que permitia tibetanos irem para a Índia e permitia os tibetanos fora do Tibete voltar para “casa”, para as suas aldeias. Portanto, este monge se mudou para Dharamsala. Então, como já nos conhecíamos muito bem, um dia nós conversamos. Ele me disse que durante 18 anos no gulag chinês havia enfrentado o perigo por algumas ocasiões. Eu pensei que talvez ele quisesse dizer que sua vida estava em perigo. Perguntei-lhe: “Que tipo de perigo?” Sua resposta foi: “Perigo de perder a compaixão para com os chineses”. Esse é o tipo de atitude que estou falando. O praticante adquire certo grau de paz interior através dessa prática e esse é um exemplo.

A fim de manter a paz interior, a compaixão realmente faz a diferença. Isso é muito importante. Quando falo de compaixão, acho que é válido ser mais preciso. Existe um tipo de compaixão que é essencialmente de nível inferior e tem um fator biológico, é a compaixão de nível inferior misturado com apego. Essa compaixão limitada, como uma semente, pode ser reforçada com a ajuda de raciocínio até se tornar de nível superior ou ilimitada, compaixão imparcial. Nós precisamos disso. Para dar um exemplo, como eu mencionei antes, para que meu próprio futuro seja feliz e bem sucedido como um animal social, como um dos 6 bilhões de seres humanos, eu tenho que cuidar dos outros seres humanos, porque meu futuro depende deles, não é? Se eu criar mais inimigos irei sofrer. Se eu criar mais amigos irei me beneficiar. Como podemos criar amigos? Somente através de dinheiro? Não. O dinheiro pode trazer amigos, mas eles são, essencialmente, os amigos do dinheiro, não são seus amigos. Quando a sua fortuna cresce e você se torna mais rico, mais rico, mais rico, você vai encontrar mais amigos. Quando a sua fortuna se for, aqueles amigos também desaparecerão. Mesmo se você os telefonar, eles podem nem responder. Esses amigos não são realmente seus amigos, são amigos do seu dinheiro. Portanto, amigos de verdade só vêm de um sentimento de preocupação ou respeito. Respeite-os. Desenvolva um senso genuíno de preocupação, de compaixão, como até mesmo os animais fazem. Meu ponto principal é que uma semente de felicidade, de calma interior, de força interior, cria mais força interior, mais autoconfiança e menos medo. Isso faz com que, automaticamente, algum tipo de sentimento de proximidade para com outros seres humanos se desenvolva. Uma atitude compassiva abre nossa porta interior e como resultado disso, fica muito mais fácil se comunicar com os outros. Se houver muita atitude autocentrada, então, o medo, a dúvida e a suspeita virão, e como resultado a nossa porta interior se fecha. Então, fica muito difícil de se comunicar com os outros.

Um médico em uma conferência nos Estados Unidos apresentou os dados de um experimento que ele tinha feito. Ele disse que as pessoas que costumam usar as palavras “eu”, “meu” e “mim”, correm um risco maior de ataque cardíaco. Por que isso? Ele não explicou. Mas eu pensei: “Ah, isso pode ser verdade”, porque uma pessoa egoísta é alguém que estima somente a si mesmo ou mesma e esse sentimento se reflete em seu uso da palavra “eu”. Não há nada de errado com essa palavra, mas a atitude por trás dela está em pensar apenas em si mesmo. Se você pensar só em si próprio, até mesmo um pequeno problema parece insuportável. Se você pensar mais no bem-estar do outros – “outros”, aqui, é infinito – sua mente se abre mais e seu problema parece insignificante. O mesmo problema, a mesma tragédia pode parecer muito diferente. De um ângulo, você pode ver algo como sendo muito ruim. De outro ângulo, você pode vê-lo e dizer: “Está tudo bem.” Isso acontece muitas vezes, e portanto, uma atitude compassiva realmente amplia sua mente. Um pequeno problema não é algo muito sério. Isso faz a diferença para a nossa paz interior. Esse é o caminho para promover os valore humanos, que é a base da nossa paz interior. Esse é um fator muito importante para se ter uma vida feliz, incluindo um corpo saudável.

Um cientista me disse que a raiva, o ódio e o medo estão de fato comendo nosso sistema imunológico. Compaixão fortalece nosso sistema imunológico. Portanto, levando em consideração a saúde física e mental – por causa da paz de espírito – o calor humano é um fator chave. Isso, como já mencionei anteriormente, não necessariamente vem da fé religiosa, mas sim da natureza. Por isso eu costumo chamá-la de “ética secular”. Isso é muito, muito importante para a paz. A paz mundial genuína e duradoura deve partir da paz interior. Às vezes me refiro a isso como “desarmamento interior”. Através da raiva e do ódio, é muito difícil ter paz genuína. Mesmo, em uma família, se você estiver cheio de ódio e desconfiança, como você poderá ter paz genuína nessa família? A compaixão traz a paz real.

Em nível global, precisamos do desarmamento externo para a verdadeira paz no mundo. Se houver primeiro o desarmamento interior, existe uma real possibilidade de alcançarmos o desarmamento externo, passo a passo. Eu costumo falar “meu século”, sobre a geração mais velha, os com mais ou menos a minha idade, 60 ou 70, que pertence ao século XX. O nosso século, quer gostemos ou não, tornou-se o século do derramamento de sangue, guerra e violência. Nossa geração vai deixar a geração mais nova resolver os problemas que nós começamos. A nova geração, que pertence a este século, o século XXI, terá, esperamos que assim seja, um século pacífico. Paz não significa a inexistência de conflitos entre a humanidade. Conflitos podem acontecer, por isso, para manter a paz, apesar do conflito, o único método realista é o espírito de diálogo, respeitando o outro lado e compreendendo seu ponto de vista. Precisamos tentar resolver os problemas dentro de um espírito de irmandade, num espírito de reconciliação e de compromisso. Costumo compartilhar isso com as pessoas: vamos agora tentar fazer deste século um século de diálogo. Assim, haverá a possibilidade real de paz.

Então, isso era sobre a promoção de valores humanos. Agora vou falar sobre a promoção da tolerância religiosa. Se você tem um senso de responsabilidade global, todos os seres humanos, incluindo os não crentes e mesmo aqueles que criticam a religião, os que são anti-religião, são seus irmãos e irmãs. Uma vez que geramos esse sentimento, não haverá mais problema com as pessoas de diferentes religiões. É um direito delas. Se você olhar de perto, todas as grandes tradições religiosas, como mencionei brevemente antes, carregam a mesma mensagem de amor, compaixão e perdão. Uma abordagem diferente é necessária por causa dos diferentes lugares, diferentes épocas e climas diferentes. A mentalidade das pessoas é um pouco diferente. Portanto, uma abordagem diferente é necessária para promover esses valores humanos. Todas as grandes tradições religiosas levam a mensagem de amor e um sentimento de irmandade. Portanto, é apenas uma questão de abordagem diferente. Alguns dizem que Deus existe, que Deus fez todas as coisas e que são, portanto, irmãos e irmãs em um sentido verdadeiro. Alguns dizem que é a lei da causalidade. Mais uma vez, boas experiências vêm do amor e do respeito pelos outros. Experiências ruins vêm dos atos prejudiciais aos outros. Isso traz consequências negativas. É o mesmo fim, mas com uma abordagem diferente. Portanto, se você entender essas coisas, você vai ver que não há nenhum obstáculo para obter a verdadeira harmonia entre as tradições religiosas. Pode ser útil aqui fazer uma distinção entre fé e respeito. Fé você tem pela sua própria religião e respeito é por todas as religiões. Isso é uma coisa. Outra coisa é o conceito de uma religião, uma verdade e o conceito de várias verdades, várias religiões. Essas duas coisas parecem contraditórias, mas isso é devido ao contexto diferente. Numa base individual, o conceito de uma verdade, uma religião é muito importante no desenvolvimento de uma fé única, mas em termos de um grupo de pessoas, o conceito de várias verdades, várias religiões é relevante. Isso é um fato. Essa é a realidade. Portanto, não há contradição entre o conceito de uma verdade, uma religião e o conceito de várias verdades, várias religiões. Essa é a minha maneira de promover a tolerância religiosa. Ponto final. Agora, as perguntas e respostas.

Membro do Parlamento Norman Baker: Sua Santidade, muito obrigado por essa palestra maravilhosamente calorosa e compassiva. Você encantou a plateia, que ouviu cada palavra aqui no Royal Albert Hall. Estamos todos muito contentes por você estar em Londres e por ouvi-lo essa tarde. Você é um farol de esperança e inspiração, não apenas para os tibetanos, mas para muitos milhões de pessoas em todo o mundo. Obrigado.

Senhoras e senhores, eu sou Norman Baker, Membro do Parlamento, presidente da Tibet Society. É com enorme privilégio que conduzo essa sessão de perguntas e respostas, que receio, será necessariamente um pouco truncada, pois a Sua Santidade tem um compromisso muito importante, logo após esse compromisso conosco. Então, em frente às perguntas, se me permitem.

A primeira pergunta é: “Quais é a sua opinião sobre os terremotos na China?”

Sua Santidade o Dalai Lama: Eu fiquei muito triste e muito chocado, principalmente quando vi a foto do jovem estudante que morreu sob os escombros da escola que desabou. Imediatamente senti: “Ah, devido à política do filho único, muitos dos pais desses alunos têm apenas um filho”. Uma mãe, um filho. Quanta dor essas mães e pais estão sentindo? Seu único filho. Isso é muito triste. Mas uma coisa muito encorajadora foi a resposta de todo o mundo, semelhante ao do tsunami quando aconteceu. Com o caso de Mianmar também, apesar de a maneira com que a força militar lidou com a situação ter sido muito pobre, acho que a resposta tem sido maravilhosa. O caso chinês também é muito encorajador, incluindo a resposta dos tibetanos que haviam sofrido muito recentemente. Por exemplo, os monges do mosteiro Drepung, perto de Lhasa, tem sofrido muito nos últimos tempos. Muitos monges foram detidos ou estão desaparecidos, mas, após o terremoto, os monges desse mosteiro também arrecadaram fundos para as vítimas. Outro sinal encorajador é a maneira transparente com que o governo chinês lidou com esse problema. Isso é muito, muito animador. Então, espero que agora haja mais transparência em áreas mais amplas.

Norman Baker: Obrigado. A segunda questão é um pouco diferente: “O que lhe faz rir?”

Sua Santidade o Dalai Lama: Em uma palavra, o amor, em outra, eu imediatamente rio dos pequenos erros dos outros. Uma vez em Londres, visitamos um lugar, não me lembro de onde, em que um jovem tibetano estava apresentando uma dança ou algo parecido. A criança estava usando sapatos muito grandes e logo que eu vi esses sapatos grandes eu ri muito. Às vezes, as pessoas são demasiadamente sérias. Uma vez na Cidade do México em uma missa multi-religiosa, havia alguns representantes de diferentes tradições, incluindo um representante do budismo japonês. Como de costume, ele era muito sério – ou muito digno – e como de costume, ele fazia assim com o rosário. Então, de alguma forma a corda arrebentou e as contas se espalharam por toda parte. Mas ele nem se mexeu. Eu ri muito com isso.

Norman Baker: A terceira pergunta é: “O que podemos fazer no Reino Unido para ajudar na luta de manter o Tibete e suas maravilhosas tradições vivas?”

Sua Santidade o Dalai Lama: Obrigado por sua preocupação. Nosso principal objetivo, como todos sabem, não é buscar a separação, porque os nossos interesses permanecem na República Popular da China. Temos muito a nos beneficiar com isso, se levarmos em conta o desenvolvimento material, desde que tenhamos uma significativa autonomia, com a salvaguarda de preservar a nossa cultura. Não há tempo para explicar em detalhes agora, mas recentemente o governo chinês pareceu estar dando mais atenção para o problema tibetano. Além disso, acho que a evidente demonstração de preocupação em todo o mundo definitivamente impacta sobre os líderes do governo chinês. Então, por favor, continuem a manifestar a sua solidariedade e preocupação. É realmente útil. Eu particularmente aprecio a preocupação sincera dos parlamentares e seu desejo em ajudar. Isso é realmente muito útil. Por favor, continuem. E então, onde quer que você encontre uma oportunidade de falar com os irmãos e irmãs chineses, então fale. Eduque-os, porque alguns dos chineses não têm a informação completa sobre a realidade. Às vezes, há uma sensação de que nós, tibetanos somos contra os chineses, mas nós absolutamente não somos. Por isso, é importante educá-los.

Norman Baker: Infelizmente, foi-me dito que só é permitido mais uma pergunta. Sinto muito por isso. “Você gostaria de renasce em Londres?”

Sua Santidade o Dalai Lama: O que você quer dizer com “renascer”?

Norman Baker: Reencarnar.

Sua Santidade o Dalai Lama: Sim, isso é possível. Desde a minha infância, descrevemos ingleses como “narigudos”. Assim, a minha próxima reencarnação poderia ser como narigudo! Isto é, teoricamente falando. É importante que haja alguma utilidade. Assim como sempre rezo, enquanto a dor e o sofrimento dos seres sencientes permanecerem, eu permanecerei, a fim de servi-los. Esse é o meu tipo favorito de oração. Tento desenvolver esse tipo de determinação. Então, naturalmente, minha próxima vida será onde quer que ela tenha alguma utilidade. Isso é com certeza. Então, se houver mais utilidade, então, naturalmente, renascerei aqui.

Norman Baker: Nós adoraríamos tê-lo aqui entre nós. Senhoras e senhores, fui perguntado pela BBC esta semana, “Por que o Tibete?”. Não é simplesmente pela maravilhosa cultura e história do país, nem pelos terríveis abusos dos direitos humanos que ocorreram lá, nem pela liderança inspiradora de Sua Santidade. É porque a causa tibetana é também a nossa causa, uma luta pelo direito de cada pessoa de ser livre, de dizer o que quer dizer, sem estar sujeito à detenção, prisão ou tortura. Pelo direito de poder se manifestar pacificamente pelas causas em que eles acreditam. Pela possibilidade de seguir uma religião e cultura, sem serem intimidados pelo Estado ou por outras pessoas. Essa não é unicamente a causa tibetana, essa deveria ser a causa de todos nós. Em seu programa, você já deve ter visto alguns dos pontos de ação que alguns de nós estamos buscando no parlamento e que a Tibet Society está buscando também. Por favor, tirem um instante para olhar para eles e veja se você pode ajudar de alguma forma. Se você não é um membro da Tibet Society, por favor, junte-se a nós e ajude-nos em nossa campanha pela justiça, para que possamos aguardar o dia, um dia não muito distante, espero, quando o Tibete será mais uma vez livre e poderemos nos encontrar em Lhasa.

Por último, quero lhes contar sobre uma iniciativa que, espero, Sua Santidade, você vai concordar. Ela é chamada de “Dê uma Mão para a Paz”. Em instantes você vai, eu espero, apertar a minha mão e há duas crianças tibetanas a quem passarei esse aperto de mão. Há também 2.000 pessoas daqui até a Embaixada da China e esse aperto de mãos da paz sairá daqui até chegar à Embaixada da China. Espero muito que essa seja uma mensagem de paz e reconciliação, dando assim um fim construtivo para esse encontro tão útil e maravilhoso desta tarde. Muito obrigado por terem vindo.

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2 Comments

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  1. 1
    ELCY CUNHA BERANGER

    COMO SEMPRE,O DALAI LAMA EMANA ALEGRIA, PAZ,COMPAIXÃO…LINDA PALESTRA, LEONARDO ! OBRIGADA POR NOS TRAZER TANTOS TEXTOS DE QUALIDADE.ABRAÇO GRANDE E PAZ. _/_

  2. 2
    Paulo Reis Junior

    Se dizemos que não há luz, é porque alguma vez vimos a luz. Algo parecido ocorre com a felicidade. “Se desejas ser feliz, tens que desejar ver a outros felizes, também” (ditado hindu)

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