Resolução de ano novo como prática

Resolução de ano novo como prática


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Tipicamente no Ocidente, e talvez em outros lugares, é como uma tradição fazer resoluções de ano novo. Mas é muito simples fazer resoluções como uma maneira extravagante de dar boas vindas ao novo ano, é quase como uma brincadeira com nós mesmos para ver se conseguimos mudar nossos hábitos para melhor, quando na verdade sabemos que não temos a foça de vontade necessária para realizar estas mudanças sozinhos, diariamente.

Ao invés de simplesmente dizer, “A partir deste momento Eu vou parar de fumar, ou de comer coisas que me fazem mal, ou ser tão impaciente e estressado quando estou dirigindo”. Nós dizemos, “A partir do ano que vem, ou da próxima semana, ou a partir de amanhã eu vou parar de fazer aquilo e aquela coisa, começar a fazer aquilo ou aquela coisa.

É quase como se nós quiséssemos nos dar uma chance ou nos fazer um agrado. É realmente um tipo de jogo que fazemos com nós mesmos e com o calendário. No final, nós realmente não levamos estas resoluções muito a sério.

Nos ensinamentos do Buda, entretanto, a situação é bem diferente. Resoluções ou votos são uma parte integral do caminho do Bodhisattva. Na verdade, sem fazer os votos ou resoluções para o bem de todos os seres, não se pode ser considerado um bodhisattva verdadeiro. Muitos de vocês já estão familiarizados com estes votos, por exemplo, certo? (veja aqui)

Os quatro grandes votos feitos por todos os Bodhisattvas são: “(1) Os seres são inúmeráveis, faço voto de salvá-los todos. (2) Nossos desejos são inesgotáveis, faço voto de extingui-los todos. (3) Os ensinamentos do Buda são imensuráveis, faço voto de estuda-los todos. (4) O caminho do Buda é insuperável, faço voto de atingir o sublime caminho.

Além destes quatro grandes votos, cada bodhisattva também faz seus votos particulares que expressam suas resoluções e práticas individuais. Na carta Kaimoku Sho (A Abertura dos Olhos), Nichiren Shonin fez um grande voto: “Eu nunca quebrarei meu voto de que hei de me tornar um pilar do Japão, eu me tornarei os olhos do Japão, eu me tornarei a grande embarcação do Japão”. Esta passagem tem sido algumas vezes tomada como uma expressão de megalomania e delírios de grandeza. No entanto, quando lido corretamente, podemos perceber que, muito longe de ser megalomania, Nichiren na verdade está expressando seu voto particular de um bodhisattva que é estar perfeitamente disposto a dar sua vida às causas e necessidades do contexto histórico em que ele havia nascido.

O que Nichiren está expressando é a sua grande compaixão e senso de responsabilidade para salvar o povo do Japão. Este é o espírito que também devemos incorporar, a vontade de fazer uma resolução que expresse nosso próprio senso de responsabilidade solidária em nosso contexto histórico, social e cultural em que vivemos.

Voltemos às nossas resoluções de ano novo. Nossa prática do Odaimoku (Namu MyoHo RenGe Kyo) é por si só um voto ou resolução, e também o caminho que nos permite cumprir todas as nossas resoluções e votos. Namu MyoHo RenGe Kyo, entre inúmeras outras coisas, significa “Eu me dedico e me refúgio ao Maravilhoso Dharma do Sutra da Flor de Lótus”. Esta resolução é ainda mais fundamental do que os quatro grandes votos.

Este é o voto-raiz que está plantado na verdadeira causa fundamentada na natureza búdica. Os quatro grandes votos são o tronco que brota a partir deste fundamento, e os votos particulares, como o de Nichiren, são os ramos. As folhas, as flores e as frutas são o belo resultado destes votos que se revelam em nossas vidas.

Através deste voto-raiz, nós podemos nos fortalecer para comprir ambos os quatro grandes votos e os nossos votos particulares, além das resoluções que fazemos de acordo com nossos circunstâncias e contextos particulares.

Existe algo ainda mais maravilhoso, o Odaimoku não é apenas nosso voto para se dedicar ao maravilhoso Dharma, ele é também o voto do Buda Eterno que dedica o Maravilhoso Dharma para nós. No Odaimoku, nosso voto e o voto do Buda se convergem, se encontram, em um único momento de Namu MyoHo RenGe Kyo. Isto significa que cada vez que recitamos Namu MyoHo RenGe Kyo nós estamos começando do zero. Cada vez que recitamos, existe um encontro entre o nosso próprio momento limitado de resoluções indeterminadas e o momento atemporal de infinitos votos do Buda Eterno. Este encontro de tempo limitado e o infinito atemporal é muito mais importante do que o início de um ano novo, de uma nova década de um século ou até mesmo de um milênio.

*tradução livre do texto “Resolution as practice” do rev. da Nichiren Shu, Ryuei Shonin

Gasshô.

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4 Comments

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      Ícaro Matias

      Oi Paulo, ficamos felizes que você gostou do texto. Obrigado pela mensagem. Eu não sou mestre, tão pouco discípulo, sou um mero aluno e membro da Nichiren Shu. O texto é uma tradução de um monge de nossa escola, não é de minha autoria. Eu apenas seleciono textos que julgo serem interessante e que beneficiem outras pessoas assim como me beneficiam e os traduzo para postar aqui no blog. Um grande abraço. Gasshô _/\_

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