Práticas pacíficas – parte 3

Práticas pacíficas – parte 3


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A terceira prática pacífica é sobre nossa mente, nossos pensamentos, ao que nos apegamos em nossos pensamentos, o que nós construímos, como nós nos justificamos a nós mesmos. A primeira e segunda prática eram físicas, onde o foco era o corpo e a fala. A terceira e quarta práticas são sobre um trabalho interno que todos nós devemos fazer. Há sempre algo em uma que coincide com a outra, como tenho certeza que você já percebeu ao ler esta série.

Penso que a questão básica nesta prática pacifica da mente seja qual é a origem da ação. Nesta prática há uma citação que nós não deveríamos nutrir pensamentos negativos contra os outros e mais pra frente que nós não deveríamos expressar nenhum pensamento negativo que tenhamos para julgar os outros ao dizer coisas amargas ou desencorajadoras. Isto é também uma preocupação contra pensamentos arrogantes de que nossas crenças são de alguma forma perfeitas ou superiores às outras, quando na verdade nós ainda estamos buscando e nos esforçando no caminho. E eu acredito que seja uma preocupação contra causar desarmonia ou em um grupo ou entre grupos.

Eu irei utilizar esta prática pacífica para futuras discussões sobre minhas ideias e pensamentos a respeito de diferentes escolas budistas e em particular diferentes escolas da linhagem de Nichiren.

Ao longo do tempo venho sendo questionado sobre as diferentes escolas budistas e as pessoas frequentemente se queixam que é lamentável que existam tantas, e ainda se não deveríamos chegar a algum acordo ou meio termo e de alguma forma todos se reunirem. Eu consigo entender um pouco dos motivos que devem levar a este tipo de pensamento. Em parte eu acho que se pensa assim porque existem diferenças e que de alguma forma seria melhor que todos nós ficássemos juntos.

Meu sentimento quanto a isto é de que todas as diferentes escolas da linhagem de Nichiren e na verdade todas as escolas budistas existirem são de fato uma coisa boa. A realidade é que poucas pessoas como o Buda, Chi’l (T’ient’ai), Mia-lo, Dengyo, Nichiren, entre outros, compreenderam completamente o calor, a alma e a verdade fundamental do Sutra de Lótus. Creio que todos nós entendemos um pouco destas verdades e estamos tentando compreender o todo.

Nossas habilidades individuais para compreender inteiramente o Sutra serão impactadas por nossa própria experiência e manifestações da nossa prática em nossa vida. E penso que todos nós estamos segurando um pedaço da verdade. As diferentes maneiras de praticar o budismo são todas tentativas de chegar à verdade fundamental, que foi foi revelada no Sutra do Lótus, independente se a pessoa acredita no Sutra.

Penso que no Sutra do Lótus, o Buda estava de certa maneira lidando com os diversos caminhos em que, ainda em sua própria vida, o budismo havia mudado e se tornado individualizado. O Conceito dos três veículos que normalmente interpretamos como Sravakas, Pratyekabuddhas e Boshisattvas tem entre eles até mesmo diferentes tipos de praticantes.

Acredito que o Sutra do Lótus foi uma tentativa do Buda dizer, sim vocês todos estão corretos dentro de suas limitações, mas cada um de vocês pode ir além se estiverem dispostos a saírem de suas zonas de conforto individuais. Ele na verdade não criticou ninguém dizendo para que desistissem de seu caminho de prática mas ofereceu algo maior que as preferencias individuais de cada um.

Agora percebo que o que acabei de falar soa como se uma unificação fosse ideal, mas quem entre nós hoje é realmente capaz de ser tão expansivo para amplamente acolher e respeitar todas as diferentes personalidades e abordagens, e uma experiência de vida para reunir todos juntos?

Na verdade penso que o budismo se espalhará rapidamente e para um público mais amplo se percebemos as diferentes abordagens como possibilidades para acolher cada pessoa que entrar no budismo, em um lugar e numa forma que se adequar melhor.

Para a linhagem de Nichiren eu proponho que ao invés do argumento retórico que cada escola costuma ter em ser a única com o verdadeiro caminho, quando na verdade todos recitamos o mesmo Odaimoku (Namu Myoho Renge Kyo), acreditamos no mesmo sutra (Sutra do Lótus), recitamos os mesmos capítulos, respeitamos o mesmo fundador (Nichiren Shonin), parece um pouco absurdo afirmar tais coisas, e quase ilógico.

Agora é verdade que existe algumas denominações que surgiram da linhagem de Nichiren que não ensinam o Sutra do Lótus, ainda que eles digam que acreditam no Sutra. Há quem acredite inclusive que de algum maneira Nichiren substitui o Buda. E sim, eu realmente acredito que isso seja enganador, diferente das intenções de Nichiren e do Sutra de Lótus. Mas o que eu acredito é que a coisa mais prejudicial nisto tudo é rejeitar qualquer outra forma de budismo, qualquer outra escola, ou qualquer outro praticante da linhagem de Nichiren. Falo isto porque esta prática pacífica é bastante clara sobre como deveríamos abordar outros que estuam o budismo.

Se pessoalmente eu acredito em recitar e praticar por benefícios materiais? Não, eu não acredito. Mas esta crença e os demais pontos acima citados são pontos de entrada para muitos abordarem o Sutra do Lótus. E existem pessoas que precisam passar por este caminho para entrar no caminho correto e caminhar no trajeto da Iluminação. O modo como abordo a linhagem que Nichiren deixou e o Sutra do Lótus certamente não será agradável a todas as pessoas e não deve ser porque eu não entenda completamente todos os ensinamentos do Sutra.

Acredito que nós podemos nutrir grande respeito por cada um de nós, e trabalhar juntos em nosso próprio modo de espalhar os ensinamentos budistas e do Sutra do Lótus. É interessante que no Japão todas, exceto algumas certas escolas da linhagem de Nichiren e outras poucas escolas budistas, se dão muito bem e percebem que espalhar os ensinamentos do Buda é o que realmente importa. Há alguns porém que se sentem ameaçados por isso, e isso é o que penso ser perigoso sobre pensar que um grupo ou outro é melhor, superior, mais correto e assim por diante. Isso diz um pouco da dificuldade de unificar todos os grupos em apenas um.

Não estou cem porcento certo mas suspeito que não há religião que não tenha diferentes maneiras de praticar sua fé. Mesmo como uma religião monoteísta como o islamismo, o cristianismo e o judaísmo, três grandes religiões não-budistas, todas têm diferentes ramos e diferentes crenças e práticas. Mesmo o catolicismo dentro de sua organização tem diferentes filosofias e abordagens. Há certamente diferentes ordens monásticas de ambos homens e mulheres.

Por que isso? Acredito que é porque há tantas diferentes maneiras de viver, ser e experiências criadas para cada um de nós. Cada uma das diferentes abordagens fornecem um caminho para pessoas de diferentes crenças, para entrar no caminho e começar a sua jornada espiritual.

De volta ao budismo, como eu disse antes, o Sutra do Lótus não nega a ninguém a sua prática, nem os Sravakas, nem os Pratyekabuddhas, nem os Bodhisattvas. O Buda não diz explicitamente pare o que você está fazendo. Mas ele oferece então uma imagem de algo muito maior do que tudo que estamos buscando. Até que cheguemos a este ponto o Buda nos instrui para respeitarmos uns aos outros já que estamos todos percorrendo o mesmo caminho.

Estou sempre altamente suspeito de qualquer pessoa que afirma saber todas as respostas e estou aberto a ouvir diferentes ideias e crenças. A maior parte das discussões infrutíferas que tive são com pessoas que são tão rígidas, não abertas a possibilidade que alguém pode também estar certo. Eu sei o que acredito, e minhas crenças não são para ameaçar o que outros acreditam apenas porque eles acreditam de uma forma diferente.

Esta prática pacífica nos instrui a sermos capazes de ter bons amigos quando ensinamos ou lemos este Sutra. Como é possível de fazer isto se nós temos raiva, hostilidade, ciúme e insegurança nos lugares mais profundos do nosso coração e mente?

Claro que existe alguns que dirão, sim, mas Nichiren utilizou palavras duras, e eu digo, sim é verdade mas sua vida foi ameaçada, e quem entre nós enfrentamos este tipo de situação quando estamos lidando e interagindo com outros praticantes budistas diferentes de nós mesmos?

Talvez eu seja idealista, talvez um sonhador. E sim, isto é verdade, mas o que há de tão terrível nisso? Eu penso que ter diferentes escolas budistas na verdade faz o budismo (e as escolas da linhagem de Nichiren) algo muito maior. Também acredito o quão maravilhoso é que tantas pessoas estejam praticando os ensinamentos do Buda e como é grandioso este número, tudo por causa desta grande variedade. Se todos tivessem que se conformar com apenas uma escola acredito que haveriam bem menos pessoas entrando no caminho.

Há um grande número de pessoas pelo mundo inteiro que recitam Namu Myoho Renge Kyo, quão maravilhoso é isso. Nós deveríamos comemorar e encorajar isso, além de considerar isto algo importante, que todos os tipos de pessoas tenham um lugar onde elas se sintam bem vindas e possam praticar todos os ensinamentos do Buda, assim como o Sutra do Lótus.

*tradução do texto “peaceful practice #3” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

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2 Comments

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  1. 1
    Joao Bissoto

    Realmente muito bom! Também sou um sonhador. Acredito que as diferenças sutis fazem muito bem as religiões como um todo, pois permitem abarcar maior variedade de pessoas. Temos que ter sempre em mente a multitude que é a humanidade. Isso é inerente ao ser humano. O problema é quando nos esquecemos que somos todos herdeiros de uma mesma tradição, que o objetivo das religiões todas, em sua mais profunda e simples compreensão, é o mesmo. Aí surge o desentendimento rude, pois deixamos de perceber nossa mais íntima fraternidade. Belo texto! Paz Profunda!

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