Práticas pacíficas – parte 2

Práticas pacíficas – parte 2


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O Bodhisattva deve querer
fazer todos os seres vivos fiquem em paz,
e então expor o Dharma a eles.
Ele deveria fazer um acento em um lugar puro,
aplicar óleo em sua pele, 
lavar a sujeira e a poeira de si mesmo,
vestir um novo e irregular manto,
limpar a si mesmo dentro e fora,
sentar tranquilamente no acento do Dharma,
e então expor o Dharma em resposta à perguntas.
- Sutra do Lótus, capítulo XIV.

A segunda das práticas pacíficas dada a nós pelo Buda no Sutra de Lótus chama-se Ku Anrakugyo, que quer dizer prática da fala, ou de boca. Estas são, como nós podemos ver por meio das instruções dadas no Sutra do Lótus, práticas sobre falar de uma maneira que alimente e nutra a paz não apenas em nós mesmos mas em todas as pessoas que nos ouvem.

Ao olhar para a lista, ela praticamente resume muito do que eu acho que já está explicado no caminho Fala Correta dos 8 Nobres Caminhos, exceto que estas práticas pacíficas que falarei são orientadas especificamente à forma como falamos sobre outros praticantes budistas, professores e sutras. Então esta prática pacífica é realmente sobre como nos relacionamos aos Budistas.

As primeiras poucas linhas da seção em versos do sutra dizem que de todas as formas e meios nós deveremos desejar que todos os seres vivos fiquem em paz, e com este desejo em mente nos motivando, nós então devemos expor o Dharma a eles.

Frequentemente as pessoas perguntam sobre o uso severo que Nichiren fez das palavras quando falava sobre outros budistas de seu tempo, e podem até mesmo usa-lo como um exemplo para justificar seus próprios comportamentos agressivos. No entanto, enquanto a pergunta ou justificativas são feitas, pouco se considera em quais circunstâncias Nichiren fez tais coisas.

Penso que existe ao menos alguma evidência para argumentar sobre quando Nichiren lidava diretamente com pessoas de outras escolas e religiões, antes de sairmos por aí quebrando a prática da fala utilizando como justificativa um caso como este. Ao que parece, a maioria da linguagem severa utilizada por Nichiren estava direcionada aos governantes da época e à força militar que favorecia ou apoiava determinada escola ou religião em detrimento de outras; ou contra líderes religiosos coniventes com estes governantes a fim de reforçar as suas próprias posições na sociedade da época.

Isso não quer dizer que quando em debate ou discussão com outras pessoas de diferentes escolas ele não oferecia uma crítica franca e dura, mas quando leio seus escritos ele não parece menosprezar nem ser impaciente, tão pouco há falta de compaixão. De toda forma, ele tentou derrubar os argumentos possíveis que foram jogados contra ele e indicar as falhas daqueles argumentos.

Também, talvez pelo motivo de eu ter um grande respeito pelo senso de lógico de Nichiren e sua habilidade na escrita e no debate, penso que ele mostrou grande compaixão enquanto cuidadosamente tentou guiar as pessoas a um entendimento diferente do Budismo; pessoas que eram ambas praticantes e professores. Muitas pessoas tomaram fé no Sutra do Lotus por causa de sua grande compaixão, pessoas comuns, nobres, outros religiosos e líderes, governantes, etc. Se Nichiren não vivesse uma vida com esta perspectiva, observando outros de certas classes, ocupações ou crenças, então eu não acho que encontraríamos tantos exemplos de diferentes tipos de pessoas tomando fé no Sutra do Lótus.

Testemunhei pessoas tentando imitar as palavras de Nichiren ao se referir a outros de outras religiões, ou falando até mesmo para pessoas que praticam outras escolas de Nichiren, ou ainda outras escolas budistas. E ainda assim, como ouvinte, eu sempre estive profundamente desconfiado e em dúvida se o coração de Nichiren esteve realmente presente ali ou se na verdade não era apenas repetições de palavras. Há uma diferença. É fácil utilizar as palavras de Nichiren como argumento, e adotar seu estilo de linguagem para soar severo, rigoroso, duro. Mas usar tais termos e linguagem, sem propósito e sem um coração cheio de compaixão acaba se revelando como malvado e pouco espirituoso, ou seja, qualquer coisa menos pacífico.

Penso que o que precisamos desenvolver primeiro é o coração e do coração permitir que a linguagem surja. Quando nós desenvolvemos um coração pacífico, um coração que deixa de lado os nossos próprios preconceitos e arrogância, precisamos ser corretos e manter uma firme convicção de que qualquer pessoa com quem falamos pode vir a ser um Buda e então nós podemos finalmente falar com a pessoa da maneira como o Buda falaria.

Não é necessário utilizar uma linguagem severa quando nossa vida não está em perigo como Nichiren estava quando ele utilizou suas mais duras palavras. É fácil começar com palavras duras, mas isto revela o nosso ego trabalhando, a necessidade de se por em evidência para justificar nossas ações. Isso mostra uma habilidade deficiente em abordar tranquilamente as pessoas e seguir estas práticas pacíficas.

Tenho pensado muito ultimamente sobre as várias linhagens e escolas budistas no geral e especificamente sobre as escolas da linhagem de Nichiren. Tenho visto pessoas se lamentarem o quão triste é existir tantos grupos diferentes sobre Nichiren e porque não podemos todos praticar juntos, e especialmente o aspecto sectarista entre alguns destes seguimentos. Não me atenderei a detalhes aqui, porque exigiria uma grande dedicação sobre o assunto. Vou apenas ceder um pouco destes pensamentos e sentimentos pois geralmente não me sinto a vontade de por muita energia em torno deste tema, mas o fato é que penso que há um grande valor e necessidade em existir diferentes escolas, e isto basta. É suficiente dizer, então, que por hora acredito que as práticas pacíficas descritas no capítulo XIV são ótimas orientações para serem adotadas antes de se falar qualquer coisa e que os budistas deveriam parar para refletir.

Uma vez que uma base sólida é obtida no cerne da vida de uma pessoa, é que se realmente vive e se manifesta estas quatro práticas pacíficas das quais a prática da fala é uma delas. Então, a partir deste momento é que todas as coisas irão realmente ser baseadas no único desejo de fazer com que todas as pessoas se tornem tranquilas e lhes trazerem benefícios. Eu mantenho isto firmemente como minha principal direção e guia.

A verdade do Sutra do Lótus depende de você mesmo e eu acredito fortemente nisto. É suficiente que eu tente meu melhor para viver de acordo com os ensinamentos do Buda e ser o melhor exemplo que eu posso ser. Se eu faço isto bem o bastante, então eu acredito que eu sigo ambos Buda e Nichiren. Eu também acredito que o lugar para começar a guiar os outros aos ensinamentos do Buda e do Sutra do Lótus está em minhas ações e onde elas estão enraizadas em meu coração.

Eu sei que se eu usar palavras duras e severas é porque eu não abracei completamente os ensinamentos do Buda. Eu sou fraco, e palavras raivosas abrem o portão para sentimentos agressivos que já estão lá. É melhor evitar o caminho que cause dano e prejuízo até que eu tenha aprimorado minha própria vida. Então eu não tenho energia para retóricas severas contra outras crenças e práticas Budistas. Este é o caminho que eu escolhi para viver minha vida. E assim encorajo que todos comecem a viver, com alegria e paz.

*tradução livre do texto “peaceful practices #2” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

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