Práticas pacíficas – parte 1

Práticas pacíficas – parte 1


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Gostaria de fazer uma pequena série sobre as Práticas Pacíficas que nos são apresentadas no capítulo 14 do Sutra de Lótus. São quatro práticas: (1) práticas corretas (shin anrakugyo), práticas da fala (ku anrakugyo), práticas mentais (i anrakugyo), e práticas de juramento (seigon anrakugyo). Anrakugyo quer dizer práticas pacíficas. Pretendo então estimular vocês a estudar ao longo das próximas semanas estas práticas que o Buda deu àqueles que querem interpretar o sutra neste era.

A primeira prática pacífica que iremos estudar hoje é a prática correta ou práticas para o corpo. Esta prática pacífica primeiramente foca nas propriedades físicas, ainda que haja alguma conexão com a mente. Começando a lista de coisas que são consideradas práticas corretas, elas instruem o praticante a ser paciente, gentil e modesto, não ser imprudente, estourado, acanhado, ou apegado à qualquer coisa. Pode parecer superficial, como se existisse uma contradição, pois por um lado deveríamos ser modestos e não acanhados, mas os dois tem interpretações que se sobrepõe em alguns aspectos.

Acredito que por modesto deveríamos entender humilde, bondoso e não alguns dos mais negativos sinônimos. Juntando isto com ser paciente e gentil, formamos uma imagem de alguém que não faz o outro ficar desconfortável por comportamentos que chamam atenção de forma indevida ou comparações com nós mesmos. Ser paciente também é ser generoso com os outro pois nós não devemos expressar arrogância vendo falhas e defeitos nos outros e ignorando estas mesmas coisas em nós mesmos. Todos têm um dia ruim, ou até mesmo uma série de dias ruins, vocês sabem que isso acontece, e quando acontece você torce pros outros serem gentis com você, e assim igualmente você deveria ser com os outros. Ser humilde se ajusta exatamente com ser paciente.

Na maioria das vezes quando as pessoas são impacientes, estão na verdade insinuando que são melhor ou que seriam melhor que a outra pessoa. Pense sobre isso. Quando somos impacientes com alguém que está dirigindo devagar à nossa frente, nós estamos na verdade dizendo ou pensando “Eu nunca dirigiria tão devagar assim”. Mas nós dificilmente damos ao lento motorista o dom da paciência pensando algo como: “Eu espero que ele encontre o que está procurando”, ou “Será que ele não está perdido”, ou ainda uma situação como, “Ele pode estar com medo de algo, então como eu posso dirigir sem que ele não se sinta ainda pior?” Quão estranho estes pensamentos podem ser para você? Quão difícil é pensar nas necessidade de um estranho antes de pensar nas suas? Para alguns isto pode não parecer como uma prática muito tranquila, especialmente se uma pessoa está acostumada a ter seu próprio caminho. Mas certamente vale a pena considerar quão importante nós pensamos que nossas necessidades são, comparadas com as necessidade dos outros.

Outra prática pacífica que é uma das minhas preferidas é não ser apegado ao nosso desapego. Esta é uma fraqueza particular para os hipócritas, aquelas pessoas que pensam que são superiores aos outros porque eles acreditam ou fazem algo que outros não conseguem fazer, e então isto se torna uma arma utilizada contra outras pessoas. Budistas podem fazer isto tão facilmente quanto aqueles de outras religiões e crenças. Sempre que cogitarmos pensamentos de superioridade por causa de nossas ações ou crenças então estamos apegados ao nosso “desapego”. Poderia ser estar apegado ao fato de não se comer carne, ou fazer meditação, ou ajudar no templo, ou até mesmo ao número de anos de prática, existem várias coisas às quais podemos estar apegados. Nestas circunstâncias a prática Budista se torna uma arma utilizada contra outras pessoas, ao invés de uma ferramenta para o desenvolvimento e crescimento pessoal.

Então nós trazemos uma longa lista de pessoas e lugares que deveríamos evitar. Acho que algumas coisas na lista são o que era culturalmente apropriado estar no momento em que se escreveu. Geralmente, entretanto, nós deveríamos evitar nos colocar em situações que facilitam a agirmos de maneira inadequada como praticantes Budistas.O problema de estar em lugares que não condizem com nossos ideais Budistas, talvez sejam dois. Um deles é certamente a tentação de agir de maneira contraproducente aos nossos ideais Budistas. O outro é a reputação que podemos pegar por causa da associação com o lugar, mesmo se não estivermos fazendo nada de errado. Que mensagem nossa presença poderia causar?

Finalmente para esta prática pacífica, voltamos para as coisas que definem nossas atitudes da mesma forma como na primeira parte. Nós deveríamos ver todas as coisas como impermanentes e simplesmente como elas são, e todas as coisas existem devido a causas, condições e relações. “Apenas pessoas deturpadas dizem ‘As coisas são permanentes e agradáveis’”.

Então numa última análise, a primeira prática pacífica é sobre cultivar um modo de ser no mundo que mostra igual preocupação com os outros assim como com nós mesmos, uma maneira de ser aquele que procura viver externamente de uma forma que espelhe nossas crenças pessoais, e de uma maneira que não valorize as coisas insubstanciais.

Nós podemos considerar estas como maneiras de estar em paz não apenas com nossa própria vida mas estar em paz com todos que existem a nossa volta. Quando nós pudermos desenvolver este senso de paz dentro e fora de nós, e quando nossa vida estiver em completa harmonia com nossas crenças, então nós não apenas estaremos gerando paz na sociedade mas também cultivando paz em nossas vidas. Quanto mais paz nós nutrirmos em ambos dentro e fora, mais pacíficos nós e os outros nos tornaremos.

*tradução livre do texto “peaceful practices #1” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

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