Práticas Pacíficas – parte 4

Práticas Pacíficas – parte 4


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Finalmente chegamos à quarta prática pacífica, que é fazer votos à praticar pacificamente. Todo o capítulo XIV é devotado a esta prática e inicia exatamente quando o Buda pede à congregação de monges por voluntários para espalhar os ensinamentos contidos no Sutra do Lótus neste mundo Saha depois de sua morte.

Nós podemos pensar sobre este capítulo como uma introdução dada pelo Buda em como podemos praticar no mundo Saha e de uma maneira que nos permitirá realizar com sucesso seu desejo de que os ensinamentos contidos no Sutra do Lótus perpetuassem. Lembrando que haviam algumas pessoas na grande assembleia que queriam se voluntariar mas não estavam dispostos a fazer isto porque não queriam espalhar o Sutra do Lótus neste mundo, pois este mundo estava contaminado demais para eles. Claro que isto não foi aceito pelo Buda, pois sua principal intenção era ter o Sutra do Lótus disponível para as pessoas que mais precisavam, pessoas normais em nosso mundo.

De fato, em muitos lugares durante a entrega das práticas pacíficas, o Buda está dizendo, ouça se você quiser ensinar o Budismo a estes grupos de pessoas realmente difíceis neste cenário realmente adverso do mundo Saha, estas são as coisas que você realmente precisa ser competente. Práticas pacíficas não são práticas que são em si mesmas tão pacíficas o quanto são práticas que fazem o mundo ser pacífico.

Se uma pessoa verdadeiramente quer ajudar o Buda a garantir que sua mensagem seja espalhada a pessoas difíceis em tempos difíceis, então as quatro práticas são o caminho para que seja possível domar as circunstâncias e assim ser capaz de fazer como o Buda instruiu, assegurar que seus ensinamentos no Sutra do Lótus continue para além de sua vida física.

Na última prática pacífica nós temos a prática de juramento. Gosto de pensar na prática de juramento não como um juramento de ensinar aos outros, mas como a habilidade de manter no nosso coração os juramentos do Buda. Agora os dois são os mesmos em: meu juramento pessoal em ensinar os outros e compartilhar com eles o Sutra do Lótus, e o desejo do Buda em partilhar o Sutra com todos os seres, ou seja, aparentemente é sobre compartilhar o Sutra e ensinar os outros.

Acho que o mais importante aqui é recordar o juramento original do Buda, o juramento original de todos os Budas e fazer dele o nosso. Quando nós podemos fazer do desejo do Buda e o nosso desejo os mesmos, então nós estamos aptos a realizar nossos esforços pacificamente.

Eu escrevi antes sobre a diferença entre ter a aparência de algo e na verdade ter este algo. Normalmente eu falo sobre o modo como Nichiren utilizava palavras duras aos praticantes de outras escolas naquela época, no Japão. Eu alerto em usar palavras duras sem ter um coração como Nichiren tinha. É algo realmente difícil agir como nosso professor sem na verdade ter profundamente erradicado nossos sentimentos egoístas e interesseiros.

As práticas pacíficas, e esta prática de juramento estão encorajando-nos a realmente e profundamente incorporar em nossas vidas o coração e a intenção do Buda em salvar todos os seres, em possibilitar que todos os seres se tornem Budas, principalmente em primeiro lugar.

Eu não acredito que isso seja uma questão de converter alguém ao budismo pelo Sutra do Lótus, mas sobre possibilitar a iluminação. Sim, o último objetivo do coração de todos os Budas está presente no Sutra do Lótus, mas há um caminho para o Sutra do Lótus que incluem todas as maneiras de praticar o Budismo e todos os outros Sutras. O Buda cuidadosamente e amorosamente guiou as pessoas de seu tempo e por muito tempo, passo a passo, ao seu último ensinamento.

Se acreditarmos, como o Sutra do Lótus nos ensina, que todos os seres possuem natureza búdica, que todos os seres são fundamentalmente Budas, que a semente para a iluminação já está em cada ser, então o que é que é preciso converter? Se uma pessoa com quem estou falando já possui a natureza búdica e o potencial de se iluminar, então qual é o meu papel? Se nós olhamos por esta perspectiva, acredito que toda a conversa muda de ao invés de tentar mudar e converter alguém, em ajudar uma pessoa a enxergar a verdade para a qual podem despertar.

Se nós verdadeiramente acreditarmos que as pessoas em nossa frente podem ser um Buda, então nossos corações deverão ter nada mais que amor, compaixão e gentileza para com eles. Eles podem até não saber nada sobre Budismo ou sobre seu potencial em ser Buda, então nosso papel deverá ser como encontramos uma maneira de tornar possível que eles despertem para este potencial que eles têm. Esta então se torna uma conversa completamente diferente e nossa abordagem com quem não acredita exatamente naquilo que acreditamos.

Se na verdade a outra pessoa já está completa e não é de alguma maneira “deficiente”, então nossa relação muda e se torna diferente de tentar enxergar os outros como um ser que não é completo e como se fosse “deficiente”. Então a questão é que devemos ajudar as pessoas a perceberem o que elas já têm, e não o que achamos que elas precisam para serem completas ou que elas encontrem outros padrões de integridade. Estas são duas dinâmicas diferentes e dois relacionamentos diferentes. Nós precisamos estar bem atentos a esta diferença, sempre atentos que papel querendo oferecer aos outros e que papel nós pensamos que estamos exercendo.

“Mesmo que eles não façam uma pergunta sobre este sutra, ou acreditem ou entendam este sutra, Eu guiarei eles e causarei a eles, não importa quem eles sejam, a entenderem o Dharma pelos meus poderes e pelos poderes da sabedoria quando eu realizo o Anuttara-samyak-sambodhi. Manjusri! Um Bodhisattva-mahasattva que performar este grupo de quatro práticas pacíficas após minha extinção, será capaz de expor o Dharma maravilhosamente.” Sutra do Lótus, capítulo 15.

A prática pacífica é realizar o juramento do Buda como nosso próprio juramento. É quando nós não apenas fazemos o juramento nosso juramento, mas quando nossa vida se torna a manifestação do juramento do Buda e os dois se tornam um, então ensinar os outros sobre o Dharma neste mundo em que vivemos se tornará uma prática pacífica.

Lembrem-se, nossos amigos e conhecidos são futuros Budas, pessoas que vivem e trabalham ao nosso lado, pessoas que não sabem da vida iluminada que existe no fundo de suas vidas. Assim como nós ainda estamos despertando, então eles irão, tornando possível o desenvolvimento de nossa iluminação. Nosso crescimento e o crescimento de nossa prática se torna então importante não apenas para o nosso próprio benefício mas para o benefício dos outros. Tenho certeza que vocês já ouviram que o Budismo é uma prática para si e para os outros. Frequentemente nós podemos pensar que a maneira de fazer isso é ensinar diretamente e converter, mas não. Fundamentalmente praticar para os outros significa praticar para nós de uma maneira em que seja possível libertar a natureza búdica nos outros em resposta de nossas próprias vidas. Este é fundamentalmente nosso desafio.

*tradução do texto: “peaceful practice #4” do rev. Ryusho Shonin, da Nichiren Shu.
**crédito da foto: rev. Yodo Okuda Shonin.

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