Perspectiva

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Muitas vezes sentimos como se estivéssemos estagnados em nossa “prática”, nada de novo acontece, a lua-de-mel acabou. Tudo parece tediosamente igual e nessas horas nos perguntamos coisas do tipo: o que estou fazendo aqui? Por que sento com as pernas cruzadas todo santo dia, ao invés de sentar na frente da tv e assistir o último episódio de fallen skies? Sou mesmo um praticante? Devo parar com todas essas coisas?

Penso que é preciso aprender a olhar para esse tipo de situação de uma certa perspectiva, que considero ampla o suficiente para nos ajudar a superar os problemas e dúvidas internos. Devemos pensar nos três eixos ao redor dos quais gira a prática do dhamma expressa no nobre caminho óctuplo: moralidade, concentração, sabedoria. Tendemos a enfatizar apenas a meditação formal no ocidente como o todo da prática e muitas vezes esperamos fenômenos maravilhosos, luzes mágicas, levitações, aparições de devas, etc. Esquecemos que o caminho é gradual e que tem por objetivo o fim do sofrimento, não luzes, levitações ou aparições de seres maravilhosos. Não que isso não possa acontecer, mas não se medita no buddhismo para isso. O caminho é gradual como o desgaste sofrido por degraus esculpidos na rocha de uma montanha, não o percebemos, sabemos que acontece por comparação com outros casos semelhantes.

Neste sentido é importante lembrar da moralidade. Não como mandamentos, mas como treinamentos e buscar manter na mente como éramos antes de começar a trilhar o caminho e como somos agora, que progressos fizemos no treinamento de sila. Se pararmos alguns momentos para lembrar do passado, passaremos a nos alegrar com nossa prática. Esta alegria alimenta a prática e nos leva não só a perseverar no caminho como a estágios mais elevados a partir dos quais a sabedoria pode florescer. Lembremos que sabedoria liga-se a compreensão correta e a intenção correta, ou seja, o conhecimento das nobres verdades não como informação, mas sim como culminância do caminho. Nos suttas este tipo de sabedoria é sinônimo de realizar a condição de arahant.

Este olhar perspectivista pode nos ajudar a superar períodos de aridez na prática da meditação formal, na medida em que mantemos em mente que prática é sempre mais do que isso. Pode nos ajudar também a superar o sofrimento ligado a deslizes quanto aos preceitos que podem gerar em nós cobranças excessivas que por sua vez produzem angústia e sofrimento. De sofrimento basta o Samsara, e ele prospera sem nossa ajuda.

 

Créditos da foto: http://www.myearthwallpapers.com/view/snow_on_mountain_top-800×600.html

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4 Comments

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  1. 2
    Guilherme

    Particularmente acho que a falta de contentamento/satisfação pode ser uma dessas “reclamações” em relação a pratica. Mas o que você descreve pode realmente servir como antídoto para esse caso.

  2. 3
    Leo Mendes

    Derley, obrigado por compartilhar a sabedoria, principalmente na abordagem de que o caminho é longo e que deslizes podem ocorrer durante o treinamento mas que a prática constante leva a um entendimento mais amplo.
    Belo texto.
    _/|\_

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