Os Três Elementos Essenciais da Prática do Zen

Os Três Elementos Essenciais da Prática do Zen


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1“O primeiro dos três elementos essenciais da prática do Zen é uma fé vigorosa (daishinkon). Isto é mais do que uma simples crença. O ideograma para o kon significa ‘raiz’, e para o shin, ‘fé’. Assim a frase implica numa fé que é firme e profundamente arraigada, imóvel, como uma árvore imensa ou um grande penedo. É uma fé, ainda mais, não maculada pela crença no sobrenatural ou na superstição.”

 

E aqui há algo para nós distinguirmos em relação às palavras crença e fé. Quando nós acreditamos em algo sobrenatural, ou extraordinário, ou sem nenhuma evidência, isto é uma crença. A crença muitas vezes é a fé degenerada, então, acredita-se em coisas só porque elas foram ditas por uma autoridade, ou porque estão num texto, ou porque fazem parte de um axioma qualquer da nossa religião. Fé no Buddhismo não tem este significado. É isto que nós vamos estudar agora.

“O budismo tem sido freqüentemente descrito como uma religião ao mesmo tempo racional e de sabedoria. Mas é uma religião, e o que faz dele uma religião é este elemento de fé, sem o qual seria apenas uma filosofia.”

 

Só raciocinaríamos, muitas vezes, dado este aspecto extremamente racional do Buddhismo, de questionamentos. Os textos de Buddha mesmo são assim sempre, demonstrativos, argumentativos, mostrando contradições, destruindo crenças. Então, às vezes o Buddhismo é olhado como uma filosofia e aqui, então, mestre Yasutani está dizendo que não, que é uma religião, porque existe um elemento de confiança…

… Numa definição de Edward Conze , o Buddhismo é um pragmatismo dialético de fundo psicológico, então, ele está dizendo que ele é prático, pragmático, pretende funcionar, é dialético, porque tem este elemento filosófico de discussão, de procura de uma verdade racional e métodos de fundo filosófico, psicológico, porque ele pretende usar a mente como alvo, uma espécie de psicologia bastante diferente da psicologia tradicional que nós conhecemos, mas com elementos de contato. Nós podemos ver que os métodos, por exemplo, da psicologia e seus objetivos são diferentes dos objetivos e métodos Buddhistas. No Buddhismo nós não queremos adaptar o homem ao mundo, mas normalmente o objetivo na maioria (não todas, é óbvio) das linhas psicológicas é adaptá-lo para que funcione bem no mundo. O Buddhismo não tem este objetivo. Por exemplo, uma psicóloga pode trabalhar dentro de uma unidade militar para que os soldados sejam bem adaptados à sua função, e pode tratar, por exemplo, os soldados que sofrem de culpa por terem matado, ou de angústia, ou de medo, ou qualquer coisa assim, e se for bem sucedida na sua tarefa terá sido uma boa psicóloga. O Buddhismo vê este objetivo como limitado; na realidade ele quer um outro homem e esse outro homem, na verdade, se recusaria a ser um agente da morte…

“O budismo começa com a iluminação de Buda, que ele obteve depois de um esforço ardoroso. Por esse motivo, nossa fé suprema é na experiência da iluminação de Buda, cuja substância ele proclamou ser esta natureza humana, toda existência que é intrinsicamente total, impecável, onipotente – numa palavra, perfeita. Sem uma fé firme nisto que é o coração do ensinamento de Buda, é impossível progredir muito na sua prática.”

 

Então, qual é a nossa fé? A nossa fé é que vale a pena seguir o caminho de Buddha e, nesse sentido, todos aqui são pessoas de grande fé porque para virem ao sesshin 2, sentarem e sofrerem é porque confiam que afinal de contas Buddha obteve com este esforço um resultado maravilhoso. Então, existe fé na nossa prática.

“A segunda qualidade indispensável é um sentimento de forte dúvida (daigidan). 3 Não é uma simples dúvida, note bem, mas uma dúvida maciça – e esta inevitavelmente brota de uma fé vigorosa. É uma dúvida do motivo por que nós e o mundo parecemos tão imperfeitos, tão cheios de ansiedade, conflitos e sofrimentos, quando de fato nossa fé profunda nos diz exatamente que é verdade o oposto.”

 

Então, nós olhamos o nosso mundo cheio de sofrimento, cheio de problemas, e no Buddhismo o ensinamento é: não, isto é perfeito e maravilhoso; tudo já é perfeito como é, quem está enxergando torto é você; tudo é contra a nossa experiência, é só nos sentando que a gente pode ver aquele lampejo maravilhoso, então, talvez se possa ver tudo como maravilhoso e perfeito e atinge-se uma grande e perfeita felicidade, mas ela só é atingida passando por esta grande dúvida, porque o nosso mundo nos diz o contrário, o nosso mundo nos diz que nós nascemos e morremos e o Buddhismo nos diz o quê? Que o nascimento e a morte são delusões, que nós não temos mortes verdadeiras…

… então, nossa fé profunda nos diz uma coisa e a nossa mente, o mundo que nós olhamos, parece imperfeito, cheio de ansiedade, conflito e sofrimento, e a nossa fé nos diz que a verdade é o oposto. Buddha está dizendo: não, a verdade é o oposto, a verdade é o que você vê naqueles lampejos, sentado na almofada. Aqueles momentos claros em que tudo é lindo, perfeito, são manifestações da mente iluminada, lampejos da mente iluminada. Imagine que você tivesse uma mente que fosse assim todo o tempo, sem passado, sem futuro, consciente do momento presente, vivendo tudo perfeito. Então, seria uma mente iluminada…

“É uma dúvida que não nos deixa descansar. É como se soubéssemos perfeitamente bem que somos milionários e no entanto inexplicavelmente nos encontrássemos em extrema miséria sem um centavo nos bolsos. Uma forte dúvida, por isso existe proporcionalmente à fé firme. (…) Surge deste sentimento de dúvida o terceiro elemento essencial, uma forte determinação (dai-funshi), que brota naturalmente. É uma irresistível determinação de dissipar essa dúvida com toda a capacidade de nossa energia e força de vontade.”

 

É, são vocês – esta dúvida e sofrimento -, e com grande determinação vêm ao sesshin e se sentam. Esta força, esta determinação, vem daquela fé. Todo tempo vocês têm dúvida, mas vocês acreditam que dá para resolvê-la e por isto se sentam e tentam.

“Acreditando, no âmago de nosso ser, na verdade do ensinamento Buda de que somos todos dotados de uma mente-Bodhi imaculada, tomamos a resolução de descobrir e experimentar a realidade desta mente para nós mesmos.”

 

Vocês resolvem por si mesmos se sentar e achar a verdade sem confiar que vão receber esta verdade do outro porque o monge aqui ensinando não transmite isto, ele só dá dicas e cada um tem que trilhar o caminho sozinho. Não adianta acreditar no monge. Na realidade nós temos que achar a solução por nós mesmos dentro da nossa mente, construir esta mente, acordar sozinhos. No máximo, o que o monge faz é bater com o kyōsaku… 4

“Há poucos dias, uma pessoa que havia compreendido muito mal o estado da mente exigido por estes três elementos essenciais, perguntou-me: ‘Acreditamos que somos Budas é algo mais do que aceitar o fato de que o mundo, assim como é, é perfeito, tal como o salgueiro é verde e o cravo vermelho?’ O sofisma aí é evidente. Se não perguntamos por que a ambição e o conflito existem, por que o homem ordinário age como qualquer outra coisa, menos como Buda, nenhuma determinação brota em nós para resolvermos a óbvia contradição entre o que acreditamos como matéria de fé e o que nos parece ser justamente o contrário, e nosso zazen é por isso desprovido de sua principal fonte de energia.”

 

E concluindo: com fé de que é possível trilhar o caminho de Buddha, nos sentamos com a dúvida de vermos um mundo como nós vemos, um mundo de saṁsāra. Então, acreditamos que existe o nirvāṇa e que o engano é nosso. Tentando resolver o nosso engano é que praticamos para tentar resolver a nossa mente e acordar, e o elemento para isso, que pode solucionar o nosso dilema, é uma firme determinação de praticar sem concessões, sem aceitar nada de sobrenatural, nada de supersticioso, nada de milagroso, nada de divino, acreditando que tudo já está aqui, agora, completo.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

1) Em itálico, excertos de ensinamentos do mestre Yasutani Hakunn Rōshi, conforme publicados originalmente (inclusive grafia) em “Os três Pilares do Zen”, editora Itatiaia Limitada. Comentários de Genshō-sensei. Voltar

2) Sesshin, refere-se a um período (retiro) de treinamento intensivo, de um a vários dias, que engloba diversas práticas específicas da escola Zen. Voltar

3) “Em Zen, ‘dúvida’ implica não em ceticismo, mas num estado de perplexidade, de busca profunda, de intenso auto-questionamento.” (nota de rodapé do livro citado) Voltar

4) Kyōsaku, é um bastão de madeira usado durante períodos de meditação para remediar a sonolência ou lapsos de concentração. Na escola Sōtō é administrado pelas costas do praticante, na área muscular entre as omoplatas e a coluna vertebral. Voltar

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

Imagem: Rev. Saikawa Rōshi, durante cerimonial Zen na AZC

 

Organização: Rodrigo Daien

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