Os dez passos em busca do Boi – parte III

Os dez passos em busca do Boi – parte III


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(continuação da parte II)

*No sexto passo, que é “Cavalgando o boi de volta pra casa”, a figura mostra um homem sentado sobre o boi, sem rédeas e tocando uma flauta. O boi agora é manso e obediente, e mesmo sem as rédeas, ele segue tranquilo, cavalgando para casa na quietude de um entardecer, tendo o homem montado em si. 1

Vamos descrever o processo de entrada em samādhi: a pele e os músculos estão sempre mudando de tensão e, em grande medida, por meio dessa mudança, mantém-se a sensação da existência corporal. Porém, na postura imóvel do zazen, não há apenas mudança da tensão muscular e cutânea. Vai-se também desenvolvendo a “sensação de saída”. A pele reage muito sensivelmente ante essa nova experiência. Nota-se como uma sensação de tremor que corre através do corpo. É como uma espécie de vibração musical, delicada e deliciosa, que vem acompanhada de um estado mental apaziguado e de uma formosa corrente de emoção que parece brotar do coração. A sensação de saída vem muitas vezes anunciada por uma espécie de tremor vibrante que aparece primeiro nas partes mais sensíveis do corpo, como orelhas, pescoço, braços, e que, finalmente, desce ao longo de todo o corpo para desaparecer em poucos minutos.

Em meio às turbulências a pessoa permanece impassível, anormalmente calma e tranquila.

A paz e a quietude começam então a ocupar o corpo inteiro. O samādhi desenvolve-se a partir dessa quietude, mas com larga prática já não aparece aquela deliciosa sensação corporal. A pessoa senta-se simplesmente e “cai” em samādhi. Quem tiver dificuldades com os pensamentos pode sempre retornar para a técnica do iniciante que é contar a respiração. Com essa âncora é mais fácil de escapar de pensamentos invasivos frequentes. Um samādhi brilhante pode surgir rapidamente com a contagem das respirações. Outra técnica é a “respiração em bambu”. Quando há uma tentativa de pensamento, um impulso que vem trazendo um pensamento, isso tem um nome técnico, chama-se nen. Quando surge o nen, o impulso desencadeador do pensamento, e você o percebe nascendo, você para de respirar. Isso cria uma tensão que corta o pensamento e você pode voltar a respirar.

O que ocorre, na realidade, dentro do corpo, quando se produz um samādhi precedido desses fenômenos? Devem estar ocorrendo certas mudanças químicas. Sabemos que o corpo produz constantemente toda classe de compostos químicos. Se acaso o samādhi resulta em produção de certos elementos químicos do corpo, isso não quer dizer que nós podemos, através destas substâncias químicas, produzir o samādhi. Por isso o uso de drogas é inútil. Embora eventualmente uma droga possa provocar uma sensação semelhante ao samādhi, é pelo seu efeito alucinógeno que isso ocorre. Ela entra no seu corpo, produz a sensação, mas você não é dono da sensação. A sensação é boa e a pessoa quer voltar a senti-la, por isso volta a usar a droga, pois com a droga é muito fácil de consegui-la. Só que o uso de drogas causa múltiplos problemas e não leva a uma realização espiritual, leva simplesmente a uma fantasia química. Mas não se pode objetar que o treinamento do zazen modifica de algum modo o metabolismo, de maneira que produz certas substâncias químicas que facilitam a chegada do samādhi. Tais substâncias são geradas internamente: é uma fonte de energia. Já as drogas ministradas externamente nos debilitam e nos fazem dependentes.

Quaisquer que sejam as bases fisiológicas do samādhi, nessa fase de “Cavalgando o boi de volta para casa” o estudante alcançou a maturidade e goza de liberdade de corpo e mente. A grande mudança é que agora ele não precisa mais fazer tanta força; quando ele se senta, o samādhi se instala com certa rapidez e a prática começa a se transportar para a vida. Um fenômeno interessante é que a expressão facial muda. A pessoa é a mesma, porém sua expressão mudou. E isso é identificável, é visível. Também nesse estágio os comportamentos, que antes permaneciam inalteráveis, agora se tornam perceptíveis a outras pessoas. Não é mais o mesmo comportamento. Em meio às turbulências a pessoa permanece impassível, anormalmente calma e tranquila. Isso ainda não acontece sempre, mas já na maioria das vezes.

“Perdido o boi, fica o homem” é o sétimo passo. Agora a iluminação, o kenshō, o zen mesmo, estão esquecidos. Qualquer sensação de santidade ou o maravilhoso estado mental que se experimenta começarão a ser um peso desde o momento em que se comece a pensar neles ou a se tomar consciência deles. Aquela experiência do kenshō, quando surge, já não é consciente, pois se torna natural. É como se estivesse vivendo o tempo todo em kenshō. Os acontecimentos ocorrem quando querem e a pessoa simplesmente os deixa fluir. Quando as coisas ocorrem, ocorrem. Quando se foram, se foram. No momento em que uma pessoa se acostuma a ver as coisas de uma maneira fixa, já começa a decadência. Sem morar em nenhuma parte, deixa que trabalhe sua mente.

O verso sobre a transmissão do Dharma de Buddha Vipasyn, o primeiro dos sete Buddhas passados, diz: “Vicio e virtude, pecado e bendição, tudo é vão, mora no nada”. Nós estamos falando aqui sobre um estágio em que a experiência de kenshō torna-se praticamente permanente. Não há consciência da existência de uma mente a ser controlada, nem uma mente que vai ou vem. As coisas ocorrem simplesmente, fluindo. O homem age de acordo com a necessidade, sem se deixar mobilizar pelos acontecimentos externos. Ele está flutuando por fora dos acontecimentos. Nesse estágio, segundo os comentários de Sekida, reina o shikantaza.

Shikantaza quer dizer “simplesmente sentar-se”. Já não se presta atenção particular à respiração, à postura e às demais coisas. Inclusive deitado em uma cama se pode entrar em samādhi absoluto. O homem muda a atividade habitual da consciência trabalhando, falando, e mesmo sacudido pelo movimento de um ônibus, não perde seu samādhi positivo. Antigamente, ele e o samādhi eram separados, eram dois. Às vezes, tinha samādhi, às vezes não tinha. Era uma coisa que ele possuía ou não. Agora o samādhi e ele são uma coisa só. Antes, alcançava o samādhi com esforço, trabalhava num sistema dual. Fazia o zazen e procurava o samādhi se esforçando para ficar no momento presente e abandonar todas as considerações. Mas agora não é assim. O reino da mente foi submetido ao domínio do homem, por isso perdido está o boi, resta somente o homem.

Recapitulando os passos anteriores. No primeiro passo, o principiante nem vê, está apenas começando sua jornada. Depois ele encontra as pegadas do boi e começa a praticar o zazen, mas ainda não experimentou um kenshō. No terceiro passo, “Vislumbrando o Boi”, ele já teve algumas experiências místicas – mesmo que fracas -, de alguma emoção e percepção clara das coisas. Depois, no quarto passo, ele segura o boi, mas o boi é rebelde e ele se sente desanimado pelo fato de, apesar de compreender o Dharma e apesar de ter tido experiências místicas, ver-se sempre caindo de novo em angústias, desespero, raiva, cólera, ciúmes e reagindo à vida como um homem comum. No quinto passo ele domina o boi e esse se torna um pouco mais manso, e o domador julga que agora pode lhe ensinar alguma coisa. Algumas pessoas têm a sensação de que no passado estavam melhores no zen, tiveram as primeiras experiências que lhes pareciam muito brilhantes, maravilhosas. O primeiro sesshin. A explicação para isso é que nós estamos saindo do zero e o primeiro progresso parece um passo importante. Depois fica mais difícil de subir, cada ganho é mais difícil e a pessoa pode ter a sensação de estar descendo a ladeira. Já tinha alcançado no passado um determinado nível e agora o perdeu. Ou ela se critica por não conseguir um bom samādhi. Senta em zazen e a mente viaja todo o tempo, surgem coisas do passado que ela não controla.

Esse é um momento importante porque é necessário não desanimar, porque já houve grandes ganhos, só que a pessoa não os percebe com clareza. No sexto passo, o boi agora é manso e obediente. Ele monta tranquilamente sobre sua garupa. Os acontecimentos normais da vida não o perturbam mais. Quando acontecem, ele lida com eles com naturalidade. Aquilo que parecia terrível no passado, agora não é mais. No sétimo passo, kenshō, iluminação e o zen são esquecidos, ele não mora em lugar algum e deixa que sua mente trabalhe. (continua)

Agora o samādhi e ele são uma coisa só.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

*Estudo sobre um texto muito famoso do zen e também os comentários feitos a respeito por Katsuki Sekida, em seu livro “Zen Training – Methods and Philosophy”, Weatherhill – Shambhala Publications, Inc.


1) o “boi”, na verdade, é um metáfora para a própria mente, conforme explicado na parte I. Voltar

Organização: Rodrigo Daien

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