Os dez passos em busca do Boi – parte II

Os dez passos em busca do Boi – parte II


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(continuação da parte I)

*O quarto passo é “Agarrando o Boi”. Em um antigo desenho vê-se um homem segurando o rabo do boi. Ao chegar a essa etapa o kenshō foi confirmado, mas no desenho o boi tenta tenazmente escapar e o homem deve sujeitá-lo com toda sua força. De fato, agora ele já tem experiência bastante para compreender o dito “O céu, a terra e eu somos a mesma raiz; todas as coisas e eu mesmo somos da mesma fonte”, mas na sua vida cotidiana não pode controlar sua mente como gostaria. A pessoa compreende, tem o kenshō, seu mestre reconhece isso nele: “Ah! você teve uma experiência genuína, você enxergou!”. Porém, nos passos anteriores, nós vimos o que acontece com o principiante, com aquele que começa a sentar, que começa a praticar e sabe que existe a experiência mística e que pode vislumbrá-la. Quando realmente (esta experiência) se aprofunda, é mais marcante, mais prolongada: nós podemos mostrá-la para o mestre. Você vai até o mestre e mostra para ele. Uma vez Saikawa Rōshi me disse que os alunos vão para as entrevistas para fazer perguntas e ele queria que eles fossem lhe dar uma resposta, que mostrassem para ele: “Encontrei isso!”. Mas as pessoas chegam a ele com perguntas.

Então, nessa quarta etapa agarrou-se a mente, o boi foi agarrado firmemente. “O céu, a terra e eu somos a mesma raiz; todas as coisas e eu somos da mesma fonte”. O aluno compreende, então, sua natureza original, que ele não é um “eu” separado, mas é “um” com todas as coisas. Mas, na sua vida cotidiana, ele não consegue controlar sua mente como desejaria. Às vezes arde em cólera, outras vezes se vê possuído pela cobiça, cegado pelos desejos e, assim, sucessivamente. Os pensamentos indignos e as ações vis seguem aparecendo como antes. Ele se vê esgotado por lutar contra suas paixões e desejos, que parecem incontroláveis. É algo com o que não contava e apesar de haver alcançado o kenshō, sua alma parece seguir sendo tão ruim como antes.

De fato, o kenshō parece ter sido a causa de novas aflições porque agora ele deseja comportar-se de certa maneira e se vê fazendo o contrário. Compreende, sabe o que é certo, mas acontece uma circunstância e ele explode em raiva, por exemplo. E aí ele pensa: “Ah! eu não sou o que desejaria. Todo esse trabalho, toda essa compreensão e ainda não sou quem eu desejaria. Minha boca continua falando quando não deveria, minhas ações continuam as mesmas e meus pensamentos estão continuamente sendo chamados pelas paixões e continuam turbulentos, embora eu saiba com nitidez que eu, o céu e a terra somos a mesma coisa e que entre mim e os outros não há diferença alguma!”. Sua cabeça está no ar, mas seu corpo tem um pé no precipício. Mas ele não pode soltar as rédeas do boi e se esforça para ter sob seu controle sua mente, embora isso lhe pareça como algo acima de suas forças.

O céu, a terra e eu somos a mesma raiz; todas as coisas e eu somos da mesma fonte.

O quarto estágio, “Agarrando o Boi”, se reproduzirá com uma experiência deste tipo: imaginem um zazen, quanto tempo passou. Ele não sabe. Quando volta a si, sente-se como se estivesse na mais baixa profundidade do mar, tudo está em silêncio, tudo está escuro. Estava dormindo? Não, sua mente está clara e desperta. Uma força interna parece ir desabrochando. Nota como se estivesse revestido de uma pesada armadura. Será que foi a isto que outros patriarcas chamaram “montes de prata e rios de ferro”? Sua mente está tão tranquila e solene como as encostas nevadas dos Himalaias: sem alegrias, sem penas. Se é noite ou dia, ele não sabe.

Algum dia vocês terão esta experiência. E um dia, quando ela emergir – levantando-se do zafu, cruzando o umbral, olhando as pedras e as árvores do jardim, ouvindo um som qualquer, levando uma taça aos lábios, ou passando os dedos por um corrimão – de pronto verão que o céu e a terra vêm abaixo com estrépito. Ao chegar ao último extremo na prática do zazen, será como o efeito de uma figura reversível. Uma figura reversível é aquele tipo de figura em que existem duas formas em uma: dependendo do ângulo que olhamos, quando se vê uma, não se vê a outra. Muitas situações na nossa vida se parecem com uma figura reversível. Quantas vezes encontramos com alguém, perguntamos como está e a resposta é: “Muito mal, está tudo horrível!”. Alguns dias depois, diante da mesma pergunta, tudo mudou. A situação é a mesma, mas mudou a forma de encarar o fato.

Algumas pessoas conseguem observar isso e mudar o foco, mas para que isso aconteça é preciso ser senhor de sua mente. É como a história do homem pendurado em um precipício: abaixo dele, um leão; acima, um tigre. Então ele olha para o galho em que está agarrado e vê frutinhas. Ele as pega e come, então exclama: “Que frutas deliciosas!”. Esse é um exemplo de uma mente com capacidade de reverter uma situação, aceitando-a. Uma mente preparada, mesmo sabendo da aproximação da morte, se mantém calma e impassível; uma mente agitada e confusa entrará em pânico.

Acontecem muitas situações no nosso dia a dia que necessitam de uma mente calma e preparada para lidar com problemas, tristezas ou desilusões. Diante desse quadro é muito comum o desespero tomar conta da mente e perdermos a capacidade de raciocinar. É muito perigoso não sermos capazes de raciocinar. Isso não significa não se emocionar, significa “Perdi o controle? Entrei em surto? Mesmo com tudo o que está acontecendo ainda sou capaz de raciocinar?”. Isso é muito importante, não perder a capacidade de raciocinar. Pode-se fazer coisas muito insensatas no momento em que não se é senhor de sua mente: pode-se matar uma pessoa; pode-se dizer coisas que se desejaria não ter dito e que não se consegue mais retirar. E essa figura reversível será, então, revelada a você como uma nova vista. Assim, a pressão interna ocasiona um novo desenvolvimento dimensional do mundo.

Um crítico hostil poderia dizer que isso é uma questão de autossugestão, mas de fato, assim que nos desprendemos do modo habitual da consciência e ela opera num novo modo de cognição independente do tempo, do espaço e da causalidade, você e os objetos externos estão unificados. Você sabe que teve a experiência, que não é autossugestão. Aliás, essa experiência aparece de forma repentina e é completamente nítida e clara, e diferente para cada pessoa. Seu fator desencadeador pode ser bem diferente: é multifatorial. Pode ser algo corriqueiro, como um raio de sol entrando pela janela e batendo no zendō. Algo normal, que de repente se mostra completamente diverso. Você sente que os objetos externos e você estão unificados. É certo que os objetos externos estão fora de você, mas você e eles se interpenetram mutuamente. É como dizer que não há resistência espacial entre você e aquela experiência.

Quando éramos crianças, nossa vida estava cheia dessa forma de cognição, mas quando crescemos a atividade elaborada da consciência vai consolidando um modo habitual de operar, com o uso da linguagem, da compreensão, do “gosto” e “não gosto”, da manifestação de preferências… e nos distanciamos da experiência pura. Constrói-se um mundo de diferenciação e discriminação. Mas no momento do kenshō essa forma rotineira cai e você se vê desperto e num novo mundo. Isso é o kenshō. “Ken” significa “ver em algo” e “shō” significa “a verdadeira natureza”. Então, “ver em algo a verdadeira natureza”. Encontrar sua verdadeira natureza dentro de si mesmo e ao mesmo tempo no mundo exterior.

No quinto passo, “Domando o Boi”, depois de muitos esforços, o boi começou, por fim, a tornar-se manso. Na figura anterior, o homem segura o boi pelo rabo; nessa o homem segura o boi com uma argola presa ao seu nariz. E agora, o domador julga que o animal já está dominado e que pode ensinar-lhe alguns truques. Quando, por fim, agarra o boi, crê que já o tem retido para sempre. Ele pensa: “Peguei, dominei, e isso agora é para sempre, dominei minha mente!”. Lembrem-se de que já passamos pela experiência do kenshō, embora ela não nos tenha alterado em nada. Continuamos na vida sendo tão ruins quanto antes, mas dizemos: “Já tive uma experiência espiritual!”. E aqueles que vivem conosco irão dizer: “Mas como, se ainda perde a paciência?!”.

Esse pensamento de domínio também é uma espécie de ilusão. Na verdade, não é assim. Às vezes ele consegue entrar em samādhi; em outras, tenta e não consegue. Parece que há quietude no corpo e na mente, mas ainda não controla os pensamentos errantes. Você pensa: “Não pode ser isso o samādhi”. Mas não há remédio senão experimentar de novo, uma e outra vez. Repetir o samādhi – a concentração – e experimentar outros kenshō. A colheita do ano passado é a colheita do ano passado – não é a deste ano. A deste ano tem que ser de novo ganha com luta e trabalho. Dessa forma, a luta se renova outra e outras vezes mais. Ou seja, você chegou lá, teve a experiência, pode até mostrá-la para o seu Mestre em determinadas ocasiões, mas você não mudou e precisa continuar trabalhando.

Samādhi – concentração – zazen – momento presente. Retornando sempre e tendo experiências de kenshō de vez em quando, como se uma janela se abrisse e de repente você pudesse ver. Estava tudo escuro e você não enxergava nada com nitidez, e ao abrir-se a janela, tudo fica claro. Kenshō. Cada vez mais, com repetições dessa experiência, o kenshō torna-se maior que poucos segundos, podendo prolongar-se até por horas. Mas você sempre o perde, e não sabe quando irá consegui-lo novamente. E também, às vezes, sentado, você perde o zazen inteiro em pensamentos, em vazios. Simplesmente não consegue agarrar um samādhi constante. (continua)

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

*Estudo sobre um texto muito famoso do zen e também os comentários feitos a respeito por Katsuki Sekida, em seu livro “Zen Training – Methods and Philosophy”, Weatherhill – Shambhala Publications, Inc.

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Organização: Rodrigo Daien

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