Os cinco tipos de zen

Os cinco tipos de zen


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Tenho observado que muitos de nós estamos com uma compreensão bastante falha sobre o que é o verdadeiro Zazen, o Shikan-taza ensinado pelo Mestre Dōgen. Assim sendo, inicio a publicação da tradução de um texto encontrado na Internet que fala dos Cinco Tipos de Zen, um ensinamento tradicional do monge Keiho Shumitsu Zenji (Kuei-feng Tsung-mi 圭峰宗密, 780-841), 5º Ancestral da escola Hua-Yen do Zen Chinês:

    Os Cinco Tipos de Zen (Gomi-no-Zen 五味禅)

Entre os vários tipos de zen, existem alguns que são profundos e outros que são superficiais, alguns que levam à iluminação e outros que não. Diz-se que no tempo de Buda existiam 90 ou 95 escolas de filosofia ou religião. Cada escola tinha seu modelo particular de zen e cada um era levemente diferente dos outros. Todas as grandes religiões contêm um pouco de zen, uma vez que precisam de oração e a oração precisa da concentração da mente. No Japão, começando com a “Restauração Meiji”, há menos de 100 anos, e ainda acontecendo até hoje, surgiu um número de ensinamentos e disciplinas com elementos de zen. Todos esses diferentes métodos de concentração, quase ilimitados em número, surgem sob clara liderança do Zen. Melhor que tentar especificar todos eles, discutiremos as cinco principais divisões do Zen, concebida por Keiho Shumitsu Zenji (Kuei-feng Tsung-mi, 780-841), um dos primeiros mestres zen da China, cujas categorias ainda são válidas e úteis. Aparentemente esses cinco tipos de Zen pouco diferem. Entretanto, os iniciantes precisam ter em mente que em essência e proposta existem diferenças bem distintas.

    Bompu Zen

O primeiro desses tipos é chamado Bompu, ou Zen “comum”, em oposição aos outros quatro, cada qual podendo ser pensado como um tipo especial de Zen, adequado aos objetivos particulares de diferentes indivíduos. O Zen Bompu, por ser livre de qualquer conteúdo filosófico ou religioso, é para qualquer um e para todos. É um Zen praticado meramente na crença de que pode melhorar a saúde física e mental. Uma vez que não tem efeitos danosos, qualquer um pode praticá-lo, não importando quais sejam suas crenças religiosas ou se não houver crença alguma. O Zen Bompu é destinado a eliminar doenças de natureza psicossomática e a melhorar a saúde em um âmbito geral.

Através da prática do Zen Bompu, a pessoa pode concentrar e controlar a mente. Nunca ocorre, para a maioria das pessoas, poder controlar suas mentes e, infelizmente, esse treino básico é deixado de lado na educação contemporânea, não fazendo parte do que se chama aquisição de conhecimento. Sem isso, é difícil reter o que aprendemos porque aprendemos de forma imprópria, perdendo muita energia no processo. De fato, nós somos virtualmente mutilados, a menos que saibamos como restringir nossos pensamentos e concentrar nossas mentes. Além disso, através da prática desse excelente modo de treinamento da mente você conseguirá se perceber capaz de resistir, de forma crescente, às tentações às quais já tenha sucumbido antes e a romper as ligações que há muito prendem você à dependência. O enriquecimento da personalidade e o reforço do caráter inevitavelmente acontecem, uma vez que os três elementos básicos da mente – que são intelecto, sentimento e vontade – desenvolvem-se em harmonia. O “Sentar-se Quietamente” praticado no Confucionismo parece ter salientado principalmente esses efeitos na concentração da mente. Entretanto, ainda permanece o fato de que o Zen Bompu, embora muito mais benéfico ao cultivo da mente do que a leitura de incontáveis livros de ética e filosofia, é incapaz de resolver o problema básico do homem e de sua relação com o universo, uma vez que não consegue romper a delusão básica do homem comum como um ser distinto do universo.

    Gedô Zen

O segundo dos cinco tipos de Zen é chamado Gedô Zen. Gedô significa literalmente um “caminho externo” e por isso implica, a partir do ponto de vista budista, os ensinamentos não budistas. Aqui temos um Zen ligado à religião e à filosofia, mas ainda não um Zen Budista. O Yoga Hindu, o “Sentar-se Quietamente” do Confucionismo, as práticas de contemplação do Cristianismo, todos pertencem à categoria do Zen Gedô. Outra característica do Zen Gedô é que ele é frequentemente praticado com o objetivo de cultivar vários poderes ou habilidades paranormais ou de dominar algumas artes além do alcance das pessoas comuns. Houve relatos de que algumas pessoas que praticaram esse Zen atingiram a habilidade de fazer os outros agirem sem lhes dizer o que fazer ou sem mexer um músculo sequer. Existe algo chamado de “Método Emma”, que tem o objetivo de alcançar tais feitos, como caminhar descalço sobre espadas afiadas ou ficar “encarando” pardais até que fiquem paralisados. Todas essas proezas maravilhosas são conseguidas através do cultivo do joriki, uma força ou poder peculiar que surge com a vigorosa prática da concentração da mente. Um zen que objetiva unicamente o cultivo do joriki para tais fins não é um Zen Budista.

Outro objetivo para o qual o Zen Gedô é praticado é o renascimento em diversos céus. Algumas escolas praticam o Zen com o objetivo de renascer no céu. Isso não é um objetivo do Budismo Zen. Enquanto o zen-budista não briga com a ideia de vários níveis de céu e com a crença de que alguém possa renascer neles através da prática de dez tipos de ações meritórias, ele não almeja o renascimento no céu. As condições no céu são completamente prazerosas e confortáveis, e ele pode facilmente ser levado a abandonar o zazen. Além disso, quando seu mérito no céu acaba, ele pode muito bem acabar no inferno. Os zen-budistas, no entanto, acreditam que é preferível nascer no mundo humano e praticar o zazen com o objetivo final de se tornar Buda. (aguarde a parte final)

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

Organização: Rodrigo Daien

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