O Olho do Ego

O Olho do Ego


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O budismo não pressupõe o ser humano para equacionar o problema de como ele deve viver. O problema proposto pelo budismo é a própria existência do ser humano. O problema do budismo é o sujeito que pensa, ou seja, o eu. O budismo acha que as diferentes pessoas vivem em mundos diversos. Cada um de nós vive no mundo que vê e compreende. As coisas são vistas pelas diferentes pessoas de maneiras diferentes, adquirindo significados diversos. Assim, certas coisas são vistas por algumas pessoas e passam desapercebidas por outras. Isso decorre das experiências anteriores da pessoa, bem como da situação dela no momento em questão. Tais são os princípios conhecidos como Originação Dependente e Não-Eu. O homem é produto de variadas causas. Se formos retirando as causas, uma a uma, não sobra nada. O homem é como uma cebola composta por cascas superpostas.

Assim se forma cada pessoa, e também se forma o mundo. Cada pessoa tem seu mundo, diferente dos demais. Cada pessoa vive em seu mundo peculiar, diferente dos outros. É assim que o budismo pensa.. Por isso é difícil uma compreensão mútua total e perfeita entre as pessoas. Como nossos sentidos são grosseiros, vivemos sujeitos a equívocos de percepção.Por outro lado, não penso que seja necessária uma perfeita coincidência nas percepções. Todavia, o Budismo aponta a solidão como sendo uma moléstia que o homem carrega fatalmente consigo.

Imaginem um olho externo a nós.  E nós somos o eu que é visto. Não se trata apenas de si mesmo, as outras pessoas e a totalidade das demais coisas são colocadas aqui. Então este olho vê o próprio eu, bem como vê também todas as coisas, passando então a fazer avaliações. Descobre então as falhas e estabelece melhorias e aperfeiçoamentos. É dessa forma que temos progredido. O ser humano é aquele que tem essa capacidade de encarar o mundo a partir de fora.

Como poderemos fazer que esse eu que vê se torne correto? Essa seria a atribuição das religiões, como comumente as concebemos. Trata-se de fazer de nosso eu algo maravilhoso. Não são apenas as religiões, na nossa maneira comum de viver também buscamos isso. Se o eu erra, é punido e passa a sentir dor. Entretanto, não é assim que o budismo pensa. Ele faz do próprio ser humano a sua problemática, isto é, equaciona o problema dessa estrutura em si.

Essa estrutura é aquela que percebe o próprio eu, as outras pessoas e o mundo, em termos de bem e mal. É uma estrutura incapaz de duvidar dos conceitos de bem e mal que traz em si. O eu é incapaz de duvidar dos conceitos de justiça, bem e mal que carrega consigo. O homem às vezes percebe que está errado. Este olho é negado, então. Mas o que acontece, então? No mesmo instante, surge mais um olho do lado de fora. Um eu certo a julgar o eu que está errado. Tal é a estrutura que se forma. Na verdade, o eu é incapaz de duvidar de si próprio. Tal é a nossa estrutura.

O deus que nós concebemos não seria uma extensão dessa estrutura? Não estaríamos endeusando o mais levado bem no âmbito daquele bem e daquele mal que carregamos conosco?

Com toda a certeza, o homem é incapaz de viver totalmente conforme seus desejos. Creio que vocês estejam de acordo comigo. Por que sou assim como sou? Por que sou homem ou mulher? Por que não consigo estudar direito? Por que meus pés não são velozes? Por que eu tenho um caráter assim como o meu? De repente, nós nos damos conta de que nosso eu não é aquele que seria em conformidade com nossos desejos. O parâmetro de bem e mal que carregamos conosco começa então a cortar e recortar nosso próprio eu. Os outros e o mundo também não se comportam de acordo com nossos anseios. É por isso que, como eu disse anteriormente, pessoas que vivem lado a lado, mas em mundos diferentes, vivem em solidão. É isso aí!

Não são apenas os outros que escapam ao controle de nossa vontade. A morte bem pode ser a representante de tudo aquilo que foge a nosso controle. Isso é mencionado na citação que apresentei. O homem imagina um Além tentando com isso aceitar a morte e procurando fugir do terror da mesma. Isso é a prova de que nós rejeitamos o eu mortal como sendo um mal. Mas se nós mesmos não o assumirmos, quem o assumirá?

No budismo, o encontro com o Buda não significa que seremos punidos por causa dessa nossa imagem.  Ele seria como a contemplação de nossa imagem no espelho. Trata-se daquilo que expressamos como tomada de consciência de nós mesmos. Um outro nome seria Despertar. Nós tomamos consciência de sermos alguém incapaz de assumir a si próprio. E prosseguimos sempre aprendendo isso enquanto vivermos. Nisso consiste a fé budista.

Rev. Futoshi Takehashi

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