O zen-budismo e o acreditar

O zen-budismo e o acreditar


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Os jogos da vida são apenas o que são: jogos.

O que chamamos de “eu” é mais ou menos como o eixo de um redemoinho. Há movimento, você vê o centro do redemoinho e diz: “Há um eixo”. “Parece” que há um eixo. Na verdade, há um, enquanto existe o redemoinho. Cessou o redemoinho, cadê o eixo? Nós somos redemoinhos nesta existência, movimentos e fluxos de pensamentos, paixões, etc. Nosso “eu” é o eixo, mas, na verdade, nós não somos redemoinhos. Nós somos o céu azul.

Não há almas, nem espíritos, nem ninguém lá fora para nos ajudar. Nem ninguém para nos premiar, nem ninguém para nos castigar. Tudo é ação e consequência. Você caminha sobre os resultados dos seus atos. Os seus atos provocam resultados. Os resultados são tudo o que você tem. Nós somos “movimento” no Universo. Fenômenos, como os redemoinhos.

De onde saem as agitações da nossa mente? Da nossa crença nos jogos da vida. A vida é constituída de muitos jogos com os quais nós nos comprometemos. Por exemplo, quando as pessoas começam a torcer por um time de futebol, ele tem bandeira, hino, camiseta, cor; nós podemos nos comprometer com o jogo do time de futebol e começarmos a torcer por ele. Há gente que começa a torcer e se compromete tanto com aquela paixão que é capaz de sair do jogo e brigar com o torcedor do time oposto e é capaz de matar ou morrer. Não é verdade? Nós sabemos que é assim.

No entanto, o jogo foi uma fantasia criada em algum momento e nós acreditamos nela. Todo o resto da vida também é constituído assim. Nós entramos numa empresa e o que é uma empresa? Um jogo. É toda uma armação como um time: tem um nome, uma meta e vamos lutar por aquilo e nos comprometer. Se alguém nos diz uma palavra desagradável, não dormimos direito de noite. Se não atingimos nossa meta, nos sentimos frustrados. No entanto, quem se lembrará das nossas vitórias? Das nossas derrotas?

Há uma pergunta que eu já fiz para milhares de pessoas. Vamos testar aqui de novo. Seus pais e avós são pessoas importantes para você? Todos acham que são importantes… Muito importantes para você? Então, seus bisavós também, pois são os pais dos seus avós. Por favor, cada um tem oito bisavós. Você sabe o nome dos oito? Ninguém sabe. Por que ninguém sabe?

Você pensa que é importante. Mas eu tenho uma notícia para você. Sangue do seu sangue, carne da sua carne, seus descendentes, seus bisnetos não se lembrarão nem do nome de você. Muito menos das suas humilhações, derrotas, vitórias… não se lembrarão. Você será esquecido. Por que você acha que é importante? Quando acontece alguma coisa, você sempre pode dizer: “Daqui a cem anos, ninguém vai se lembrar”.

E por que a gente se importa tanto? Porque nós entramos no jogo, entramos com aquela paixão de nos comprometer com um jogo como nos comprometemos com um time de futebol. Os jogos da vida são apenas o que são: jogos. As paixões são assim, os amores são assim, os empregos são assim.

Todas as coisas que nos parecem importantes, na verdade não são. O que seria realmente importante? Não é a poeira que o redemoinho levantou. A única coisa realmente importante é o “céu azul”. Ele vai estar lá depois de todos os redemoinhos passarem.

Na verdade, nós somos eternos, só não somos eternos como indivíduos. Só que queremos ser eternos como indivíduos, como “eus”.

Quando entra um aluno na sala querendo aprender sobre o ZEN, na verdade eu tenho pena, porque tudo que vai acontecer é uma destruição. Ele faz perguntas e recebe respostas terríveis. Tudo que era precioso para ele vai embora. Como a sua crença de que seus antepassados são importantes para você. Não são. Se fossem você se lembraria dos nomes dos seus bisavós. Você só se lembra dos nomes daqueles que você conheceu, no fundo, é ou não é? Se não os viu fisicamente, grande é a chance de não se lembrar dos seus nomes.

Eu estava fazendo uma palestra na Universidade Federal em Florianópolis e uma mulher perguntou: “Mas o Senhor não acredita em nada?” e eu disse: “Mas o ZEN não é religião de acreditar, o ZEN é religião de despertar. É outra coisa”. Às vezes as ilusões são tão confortáveis. Imaginem dois guichês assim: “Mentiras confortadoras” e “Verdades desconfortáveis”. Todo mundo vai ao “Mentiras confortadoras”, não é? Porque “Verdades desconfortáveis” não é pra muita gente.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

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